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OS VELHOS ANDAM OLHANDO O CHÃO por Elza Tamas

 

Atualmente são duzentos e dezessete; eram, ao menos na última contagem. Há alguns meses ainda se podia nomeá-los, guapa, bento, gertrudes, era divertido encontrar uma característica e deixá-la tomar o lugar do todo, preta, simpática, caolho, zé mané. Pensamos até em usar as letras do final do alfabeto, como faz a indústria farmacêutica quando quer mostrar que um remédio é de última geração. Chegamos a um wykuxt impronunciável, que rapidamente virou vivi. Depois do quinquagésimo, nossa criatividade se esgotou.
As duas antigas, mãe e filha, agora são lentas e meio surdas, devem estar demenciando, às vezes surpreendo uma ou outra ladrando para a parede; adoravam expulsar os invasores, corriam, não havia quem entrasse; hoje passam o dia dormindo no pouco espaço que sobrou. Rosnam baixo, mal se escuta, – tentam, ganem rouco, os caninos são amarelos e cariados, melhor nem mostrar. Eu também não sei mais gritar, às vezes solto um grunhido, sai, sai, agito a mão que não dói, mas eles confundem com uma festa e se aproximam mais.
Somos todas castradas, eu, as cadelas e a gata, as donas originais da casa. O garanhão também teve o escroto cortado,- impressionante o poder dos hormônios, partículas ínfimas determinando a existência de um ser-, só vendo, antes um garanhão de veias dilatadas no pescoço, eu sentia vontade de rezar para ele, na frente dele, porque ele era um deus, uma força da natureza, agora é dócil; os cachorros invasores passam os dias no abuso, testando as fronteiras da paciência. Isso jamais ocorreria antigamente.  Ele se mantém pávido, porque impávido ele não é mais, então deve ser pávido, coisa triste de ver.
Ontem a noite apareceu um ratinho diminuto na sala. Corria de um lado para o outro, atrevido. Bati meu pé com força no chão, com pouca força na verdade, mas o oco da tabua de madeira ampliou o som, TUM, e ele fugiu de volta para debaixo do sofá. Mas voltou. Numa das saídas, cheirou todo o tapete, esticou o corpinho, deu um impulso e tentou subir na poltrona. Para mim foi o limite, gritei chega, assim não dá mais; ninguém ouviu. Tive um pequeno sentimento de compaixão, pobre mãe, – achei que era fêmea e mãe, porque sair assim na ousadia, sem medo de nada, é coisa de mãe; talvez uma ninhada, talvez esteja em busca de comida; durou pouco, a aversão superou minha cordialidade. Pensei na gata, mas senti um conflito moral, a caçada seria inevitável, não, melhor não; na minha frente, não. Talvez amanhã eu esqueça a porta da sala aberta e o que acontecerá entre eles não será mais da minha conta, a gata anda magra, tomara que seja uma ninhada. Tentei me concentrar no filme na TV e logo veio um cheiro forte da varanda, devem ter caçado um gambá; que se danem, que se lambuzem.

Talvez andar um pouco, olhar o céu, as estrelas, mas hoje virar o pescoço para cima dói; não mais o firmamento, ainda o horizonte e depois só o chão. Os velhos andam olhando o chão, não tem mais nenhum longe para olhar. E agora as aranhas, que eu julgava inofensivas, as marrons, elas lá, eu cá, por anos, tudo certo, até eu saber que não era bem assim, danadas, disfarçam, uma picadinha indolor, depois uma casquinha boba, a gente não vê e a desgraça vai acontecendo por dentro, corroendo. Tenho medo que os vizinhos percebendo minha fraqueza, também comecem a invadir. Não tenho mais dinheiro para a ração, acho que eles vão começar a se ajeitar entre eles. Não terão nenhuma memória da minha generosidade, nenhuma gratidão, na hierarquia da vida a fome é soberana; anos antecipando a morte por uma doença cardíaca, um câncer, mas ao final, eu sei, estarão todos lambendo meus ossos.

Foto banner: Flavia Cirne

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A ARTE QUE INCOMODA por Tania Ramos de La Combe

O que seria exatamente um “mal estar na Arte”?
Se perguntássemos à um “leigo honesto” provavelmente ele diria: são aquelas coisas feias, tristes, horrendas ou mal feitas que jamais eu colocaria na minha casa, ou algo similar. Do ponto de vista psicológico ou do “socialmente correto” poderíamos dizer que é “uma obra ou imagem que nos causa desconforto, angústia e que nos provoca”.
Nem sempre o mal estar de um é o mal estar do outro e muitos desses trabalhos, por serem polêmicos, marcaram uma nova era no mundo e no comércio das artes.

Cronologicamente, o primeiro grande artista que me vem à mente, ainda na Idade Média, é o holandês YERONYMUS BOSCH, do final do século XVI. Com suas figuras e caveiras assustadoras, num criticismo surreal, Bosch não poupava padres nem freiras, servos, comerciantes, nobres, reis e rainhas. Na sua obra mais conhecida, O JARDIM DAS DELÍCIAS, ele expõe orgias, cenas inusitadas com monstros e animais alados, e mesmo nas cenas domésticas mais simples, como a MORTE DE ÁLVARO (1494), somos assombrados por caveiras, ratos e monstros.

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Avançando alguns séculos, dentro do Impressionismo, onde tudo era belo e o bucólico e os tons pastéis dominavam a belle vie, destaco a pintura angustiada de outro holandês, VINCENT VAN GOGH. Suas pinturas de caveiras, pouco conhecidas, talvez fossem um prenúncio da sua morte precoce e escolhida, que era sempre anunciada em seus pesadelos atormentados.

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No movimento surrealista todas as fantasias foram permitidas e o Mestre dos Mestres, SALVADOR DALI, talvez tenha sido o artista que deliberadamente mais desconforto causou com suas obras
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Foi seguido de longe, bem longe, pelo belga RENÉ MAGRITTE, cuja obra provoca um mal estar pela ação do ilusionismo. A ilusão de ótica, que intriga e desafia, tão comum na pop ART, estava já ali sendo fecundada e eclodiria algumas décadas depois.
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Decorrente do Surrealismo surge o Dadaísmo, manifesto mais surreal ainda, com os famosos mictórios de MARCEL DUCHAMP e suas bicicletas, engenhocas inúteis que nos provocam e nos acusam,
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assim como os “ready mades” de MARX ERNST,
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e entre outros, YVES TANGUY.
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Nasciam aí as primeiras “INSTALAÇÕES”, expressão típica do novo século e que até hoje causa ainda muitas polêmicas e desconforto. Basta visitar a última Bienal em São Paulo, INCERTEZA VIVA e presenciar, entre outras tantas, a insolita instalação de Victor Grippo que utiliza 500 quilos de batatas,

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ou as obras em INHOTIM, um dos maiores e mais belos museus a céu aberto do planeta, onde vidros, redes, sacos, num vermelho berrante formam True Rouge, a instalação do brasileiro TUNGA , recentemente falecido.

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Mas voltando algumas décadas, ali junto ao surrealismo, outro artista “avant guard”, GEORGES BRAQUE
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se unia ao amigo e rival PABLO PICASSO para criarem mais uma nova linguagem das tintas, o CUBISMO. Esta linguagem se tornou o pretexto perfeito para que esse jovem pintor catalão, transportasse para suas telas o que já fazia tão bem em sua vida pessoal junto aos seus seres “queridos”: esposas, amantes, filhos, netos e até bichinhos de estimação foram distorcidos, fragmentados, retalhados e transformados em verdadeiros monstros de uma feiura propositalmente feroz. Picasso era visto por alguns como um gênio prolífico e cativante, por outros, como um oportunista egocêntrico e cruel, o primeiro grande marqueteiro de si mesmo depois de Salvador Dali. Polêmicas à parte, a verdade é que com suas obras valendo milhões de dólares, quando ainda vivo, sua assinatura virou símbolo do novo mercado multimilionário que surgia no território da Arte Contemporânea; poderíamos dizer, ironicamente, que o “o feio vira belo quando se trata de um Picasso”.
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Mas aceitaríamos dizer o mesmo de MUNCH? Mais conhecido pelos seus “GRITOS”, EDWARD MUNCH, mesmo em suas telas mais “românticas” nos causa uma angustia patética com suas figuras tristes, de olhos negros, arregalados ou em seus rostos disformes, vide ANXIETY, outra obra sua bastante divulgada.
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Assim como nosso IBERÊ CAMARGO, poderíamos dizer que MUNCH não tinha nenhum pudor em retratar sua angústia, depressão ou visão atormentada do mundo que o cercava. Certamente concordaria com um dos últimos depoimentos de IBERÊ: “não vim ao mundo para pintar o belo ou para agradar com minha pintura, quero sim mostrar toda angústia e dor que persegue o ser humano desde o seu nascimento até seu último dia”.
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Nessa mesma época podemos destacar uma mulher, latina, pouco conhecida em seus dias, mas forte e tenaz e que lutou como poucas: FRIDA KAHLO.
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Suas obras são angustiadas e ela representa sem pudor seu acidente, amputação e suas dores físicas e psíquicas imensas.
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Sua agonia estampada em dezenas de autorretratos, repletos de sobrancelhas fartas e unidas que reforçam o ar severo da dor e do seu sofrimento, acabou se tornando um símbolo Cult mundial da Mulher Sofrida.
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Em um deles pintou o retrato do companheiro DIEGO RIVERA na testa, como idolatria ou ódio, ironia àquele que tão mal lhe causou com sua indiferença e traições.
Ironia maior, talvez, é que FRIDA jamais poderia imaginar que, algumas décadas depois, essa desconhecida mexicana ofuscaria o brilho de seu Mestre e amante, tornando-se um símbolo divulgado em posters, posts e releituras no Mundo todo.
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Outro tipo de “mal estar” é aquele da ilusão de ótica, desenvolvido em primeira mão pelo matemático e desenhista alemão MC ESCHER, que causou furor nos anos 50 com suas torres, escadas e suas famosas “evoluções”.

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É o desconforto genial que intriga, desafia e questiona e que vem sendo desde então, admirada por todos os ilustradores. Sua evolução simplista e geométrica geraria a famosa OP ART, febre nos anos 70, representada sobretudo pelo franco-húngaro VICTOR VASARELY: Quem não teve pelo menos um pôster dele em suas salas ou quartos, ou estampado em suas camisetas, na década pós-hippie? Era o “mal estar” da ilusão ótica, deliciosa e enigmática, que fascinava sobretudo os jovens descolados da época.
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Nas décadas seguintes, os chamados CONTEMPORÂNEOS criaram um novo tipo de “desconforto” na arte abstrata. E aí voltamos à primeira consideração do “leigo honesto” do primeiro parágrafo: “um lixo que nasceu por acaso, sem nenhum valor artístico, uma piada de mau gosto, tinta gratuita jogada aqui e ali, e que vale milhares de dólares”.

POLLOCK, um contemporâneo, que devido a sua técnica foi jocosamente apelidado de “Jack the dripper”, teve sua ultima tela arrematada por 140 milhões de dólares por David Geffen, em leilão recente na SOTEBY’s, NY. Ao mesmo tempo, algumas de suas obras são chamadas de “spaguettis” e existem inúmeros posts na internet que ensinam a pintar como Pollock, por que suas telas parecem que foram feitas com espaguetes mergulhados em diversas cores de tintas.
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Nessa mesma escola temos WILLEM DE KOONING
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e JOAN MITCHELL, única mulher desse filão respeitado e hoje, admirado.
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Já no figurativo contemporâneo não podemos nos esquecer do irlandês polêmico, FRANCIS BACON, fascinado pela carne no sentido mais realista possível: ficava horas admirando animais penduradas nos açougues de Londres ou admirando cadáveres, como fonte básica de inspiração.
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O resultado, sabemos, aquelas séries de rostos e corpos disformes, fantasmagóricos, assustadores onde transpunha também sua luta contra o alcoolismo e a homossexualidade sadomasoquista que o atormentava.
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Seu seguidor atual, mais hard core ainda, além de exibicionista, é DAMIEN HIRST o mais novo “queridinho” dos colecionadores europeus e americanos do mundo fashionista e hipster. Seus cadáveres de animais devidamente fatiados foram expostos em museus e galerias do mundo todo, causando horror e polêmica.

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Duramente ironizado pelos críticos mais exigentes, DAMIEN dá de ombros: sua caveira (verdadeira) cravejada de brilhantes foi vendida pela bagatela de 100 milhões de dólares para um anônimo colecionador londrino em 2007. Não satisfeito, DAMIEN refez uma réplica em ouro branco com 8601 diamantes, exibida em dezembro passado no célebre RIJKSMUSEUM de Amsterdã, primeira parada de sua tournée. Foi, pasmem, escolhido como curador para selecionar as obras do famoso acervo que serviriam de pano de fundo para sua caveira FOR THE LOVE OF GOD.
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VERMEER deve ter sentido um imenso “mal estar” em sua tumba.

 

** imagem banner – Lucian Freud

mal-estar-foto-tania-mini-bioTANIA RAMOS BOUTAUD de la COMBE,  paulista, psicóloga pela PUC/SP e artista plástica pela FAAP. Estudou no Ateliê de Walter Levy e Maxine Masterfield, USA, CA, onde sofreu forte influência da aquarelista. Sempre em busca de novas técnicas e materiais,  morou em diversas cidades dos USA e Europa, notadamente Suíça e França nas décadas de 80 e 90 , onde realizou  inúmeras exposições exibindo trabalhos e técnicas únicas e exclusivas que misturam tinta acrilica com matérias mais diversas da Natureza em geral .
Permeada pela consciência ecológica aliada à influência étnica ,desenvolve alternativas não poluentes como pigmentos e resinas naturais, até mesmo verniz à base de própolis em seu ateliê no topo de uma Colina na Mantiqueira, SP.
Assim pretende que sua obra possa ser um grito a mais contra a devastação da Natureza pelo homem e a opressão contra as minorias étnicas .

 

 

 

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EDIÇÃO MAL ESTAR

 

Pode ser que aconteça agora. O degelo no Ártico já permitiu a evasão de gás metano, e basta um nada para que aconteçam explosões equivalentes a dezenas de bombas atômicas. Governos vão e vem, o desmatamento continua; seca, inundação, e o pensamento segue sempre pontual: o selfie, eu, minha família, meu banho, minha segurança. A Amazônia é longe, como também estão longe os refugiados que se afogam num mar que eu não conheço.
As escolas continuam ensinando a extrair a raiz cúbica e o comportamento das gerações é agora ditado por mais um novo desenvolvimento tecnológico, são os jovens   x, y, z.
Os filhos, cada vez mais especializados, continuam dependentes economicamente e não saem de casa e pais exaustos seguem se esforçando em oferecer a felicidade traduzida em bens de consumo. As rotas de fuga como a comunidade, amigos e a natureza são emperradas pelo transito, que não anda, e por discussões cada vez mais polarizadas.

Nesta edição, colaboradores de diferentes áreas apresentam perspectivas sobre o Mal Estar que nos circunda. E, como o que é encoberto sempre ganha força, essa é uma edição de DEScobrimento. Esperamos  que a perspectiva revelada, mesmo que desconfortável, promova reflexão e movimento.

SILVIA MORAES, psicanalista,  violinista e cantora fala sobre as dores de amor na MPB.

MARIA ANTONIA DE CARLI, internacionalista e mestranda em politica, discute a condição de refugiados, imigrantes e o endurecimento da politicas sociais.

BELA GERBARA, arquiteta, visitou o Xingu e se sentiu estrangeira entre os primeiros brasileiros.

SAROLTA KÓBORI, húngara residente no Brasil, apresenta um contraponto entre essas duas culturas

SERGIO WAJMAN, psicanalista e professor, numa releitura do clássico de Freud afirma que O mal está na civilização.    

TANIA LA COMBE artista plástica ,  faz um apanhado cronológico sobre a arte e o incômodo que ela pode nos causar, e

um conto de ELZA TAMAS,  intitulado Os velhos andam olhando o chão.

 

** imagem banner – Inopportune- Stage 2  –Cai Guo-Qiang

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O MAL ESTÁ NA CIVILIZAÇÃO por Sergio Wajman

 

Você não leu errado. O mal está na civilização é o título deste texto. É uma brincadeira, do tipo “sem brincar-brincando”, com o título de uma das maiores obras de Freud sobre o ser humano em sociedade: O Mal Estar na Civilização. Foi publicado pela primeira vez em 1930, ano em que a Europa ainda curava suas feridas – e que feridas! – da Grande Guerra que terminara (?) em 1918 e se respirava, pelo menos na Alemanha, os ares do período que de forma tão sagaz Ingmar Bergman chamou de O Ovo da Serpente, ao se referir ao nazismo – já feto – que passaria à condição de serpente-nascida dali a meros 3 anos, quando Hitler assumiu a condição de Chanceler da Alemanha.

Style: "Neutral"

 Freud trata de muitos temas neste livro. Mas um deles me chama a atenção de forma especial: a luta cotidiana do ser humano por ser humano. Aparentemente, um paradoxo. Se ele já é humano, por que precisa lutar para sê-lo? Porque, para Freud, o ser humano precisa da civilização para ser humano: a depender apenas de nosso desenvolvimento biológico, seríamos governados pela natureza e seus dogmas inexoráveis como a lei do mais forte ou a seleção natural. Por isso, Freud vê no empreendimento civilizatório uma condição sem a qual não nos distanciaríamos muito de todos os demais seres vivos: viver para sobreviver.

       Claro que, por outro lado, a obra civilizatória não só requer energias para se sustentar como também tem seu preço. Para que tenhamos, enquanto espécie, uma chance melhor de sobrevivência (tanto em nossa relação com a natureza como em nossa relação uns com outros) e, assim, possamos criar coisas com as quais nos deleitamos – a arte, o esporte, o saber – precisamos proceder a renúncias magistrais em nossos impulsos e desejos mais íntimos, temos que nos acomodar às leis que nós mesmos criamos para nosso próprio bem coletivo.

 E, assim, vamos nos tornando seres humanos: precisamos passar por pequenas amputações (desde que nascemos e começamos a respirar o ar da cultura) em nossa busca pelo prazer pleno e em nossa capacidade destrutiva. Vamos nos tornando seres civilizados, amputados. Moral da história: para que nossa espécie tenha chance de se manter viva no planeta, precisamos abdicar de nossos mais preciosos impulsos individuais. A civilização é um empreendimento que existe para o bem da coletividade, não do indivíduo. O mal está na civilização. Claro que, nesta perspectiva, não apenas o mal: o bem também, potencialmente temos construções civilizatórias ancestrais a nos alimentar, a nos embevecer, a nos humanizar. Além, é claro, de podermos contar uns com os outros numa rede gigantesca à qual podemos chamar de humanidade. Assim, o bem está na civilização – também.

Style: "Neutral"

Mas podemos pensar de outra forma, tal como Freud o faz em seu livro. O mal não está somente na civilização, o que – talvez no melhor estilo freudiano – nos coloca diante de um desafio hercúleo: como conseguir fazer com que a civilização e suas leis (que por um lado abolem nossa possibilidade de permanecer no Éden e nos atiram na Cultura) consigam nos proteger de nossos impulsos homicidas e destrutivos? Como lidar com o fato – testemunhado por Freud “no quintal de sua casa” – de que, poucos anos antes, todo o conhecimento e a ciência humanos tenham sido colocados a serviço da guerra e da destruição por meio da invenção de tanques, armas químicas e quetais? Como tentar lutar pelo aumento do prazer e satisfação que a civilização nos concede se a cada dia nos vemos diante da ameaça que nós mesmos representamos para nossa espécie? O que diria Freud dos horrores da 2ª Guerra Mundial e de todas as outras que a sucederam, assim como da destruição “no atacado e no varejo” a que nos subtemos dia após dia em inúmeras esferas, como, por exemplo, a que trata o filme Koyaanisqatsi, de 1982, da autoria de Godfrey Reggio?

 E é por conta disso que Freud, a despeito de todas as limitações (ou, quem sabe, justamente devido a elas), afirma em seu livro que a civilização é um empreendimento a serviço de Eros, da vida. É aquilo com que nossa espécie pode batalhar, ao longo dos tempos, em nossa eterna luta contra Thanatos, a morte.

Fechando: o mal está na civilização, o bem deve estar mais!

Style: "Neutral"

**todas as imagens são do fotografo MIsha Gordin e foram retiradas do site http://bsimple.com/home.htm

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Sergio Wajman é psicólogo formado pela PUCSP em 1977.
Atua profissionalmente como psicanalista e professor no Curso de Psicologia da PUCSP.
É mestre e doutorando em Psicologia da Educação pela PUCSP.

 

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DORES DE AMORES NA MPB por Silvia Moraes

 

O romantismo elevou o amor à essência da vida. Podemos observar a presença do amor romântico nas artes, na literatura e na música. O romântico constrói um mundo imaginário nostálgico e melancólico, trazendo um distanciamento da realidade social, experiência da perda e procura pelo que se perdeu. O humano depende de ser amado, necessita de reconhecimento, busca constantemente seus pares. As decepções e desencontros amorosos são freqüentes fontes de mal-estar e motivos de busca de um analista.

Assim, as canções como uma forma de expressão cultural, revelam os afetos predominantes de uma época, como o sofrimento do indivíduo perante o enamoramento, e apontam os recursos possíveis para o seu enfrentamento.

Canções da Era do Ouro, na década de 30, contemplavam, muitas vezes, a dor da mulher relacionada à sua inserção numa cultura patriarcal, onde é esperada certa submissão e doçura frente ao companheiro boêmio, malandro e mulherengo. Certa dose de masoquismo e mágoa são aí traços característicos freqüentes da figura feminina.

…gosto dele assim, passou a brincadeira e ele é pra mim


(Gal Costa – Camisa amarela)

…com perfeita paciência sigo a te buscar…

…cena de sangue num bar da avenida São João!


(Inezita Barroso canta Ronda)

…fiz seu doce predileto pra você parar em casa

…logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato e abro meus braços pra você!


(Nara Leão – Com açúcar, com afeto)

Essa postura feminina persiste no decorrer dos tempos. Canções, curiosamente compostas por homens para suas intérpretes femininas.

O amor dói, a paixão submete. O apaixonado é um ser humilhado que mendiga o amor do seu amado, que teme perdê-lo e, quando isto acontece,tem a sensação de ser atirado num abismo.

… se meu mundo caiu, eu que aprenda a levantar


(Meu mundo caiu com Maysa)

O componente trágico do amor o aproxima da morte. Amar fica equiparado com sofrer. Esse amor é construído, investido, e nem sempre recompensado.

… eu fico com essa dor, ou essa dor tem que morrer

.. pois quando estou amando é parecido com o sofrer


(Zezé Motta e Luiz Melodia em Dores de amores)

A dor da perda do objeto amado é contemplada na maioria das canções. De forma singular, e, ao mesmo tempo universal, estas expressam o amor não correspondido, o abandono, o descaso.

No âmbito universal, toda perda implica em tristeza, em desamparo. O humano depende sempre do olhar do outro amado.

… eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza


(Fagner – Canteiros)

O sentimento de saudade é algo bastante contemplado. Palavra tão peculiar da nossa língua evoca a presença do outro e o prazer da efemeridade do encontro.

.. a saudade é dor pungente


(Bethânia – A saudade mata a gente)

Já na década de 80 despontam temas que trazem à tona as diversas formas de amor.

.. qualquer maneira de amor vale a pena


(Paula e Bebeto)

O homem oscila entre a ilusão de completude e o sentimento efêmero do que denomina de “felicidade”, e a angústia e medo da falta de amor e do olhar do outro. Como se entregar sem se perder no outro? Qual é a medida certa da paixão?

… e não é a dor que me entristece, é não ter uma saída, nem medida na paixão


(Lenine – A medida da paixão)

Talvez tenhamos de nos convencer que não escolhemos, mas somos escolhidos. O amor simplesmente acontece…

… o amor quando acontece, a gente esquece que sofreu um dia


(João Bosco – Quando o amor acontece)

E, apesar de tanto sofrimento, humilhação, desilusão, seguimos procurando nosso par, na eterna ilusão de completude.

… sem amor eu nada seria


(Renato Russo – Monte Castelo)

 

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SILVIA MORAES é violonista, cantora, psicóloga e psicanalista. Faz shows e organiza saraus. É apaixonada por música, especialmente pela canção brasileira.

 

 

 

 

 

 

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XINGÚ por Bela Gebara

 

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Três dias pra chegar. Por terra: São Paulo, Minas, Goiás e por fim Mato Grosso. A cidade vai sumindo e depois, cana cana cana soja soja soja. Amarelo. Que tamanho tem esse país! No último trecho só terra, pó, areia. O carro fica estacionado numa aldeia na beira do rio e de lá, seguimos de barco.
Três horas navegando o Rio Kurisevo que serpenteia, vira e volta, cortando o cerrado. É como se o tempo desacelerasse e andasse pra trás, rapidamente. Anta, capivara, jacaré, os pensamentos se dissolvendo. O pôr do sol e a expectativa de um lugar incomum.

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Já era noite quando chegamos. Um percurso de meia hora entre o rio e a aldeia Mehinaku numa trilha iluminada por lanternas. Escuro, sons, gritos de festejo e saudação. Na aldeia tentamos nos organizar, mochilas e um volume enorme de caixas de comida que trouxemos vão sendo empilhadas. Alguns resolvem dormir num abrigo externo. Muita gente, muita coisa. Onde vou dormir? Na Oca do Cacique Maycute.

O galo canta, o cacique levanta, a festa acontece. Cinco dias de festa de furação de orelha na aldeia.
Na aldeia não há hora. Nem para festa, nem para comer, nem para dormir. Tempo marcado é coisa de branco, e branco tem hora até para ter fome. Branco é qualquer humano que não seja índio: japonês, negro, mulato, norueguês. A hora da comida era estranha e as diferenças entre as duas culinárias muito acentuadas. Os Mehinakus não comem nenhum animal que anda na terra, só peixe, tracajá e algum passarinho, sempre acompanhado pela tapioca. O sal é extraído de uma planta aquática, aguapé, depois que ela é queimada e utilizam também  a pimenta. As refeições simplesmente acontecem, não são planejadas e sempre são em família.

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As mulheres trabalham o dia todo. Nem todas falam português, falam a língua do tronco Aruák como todo o povo Mehinaku. Colhem e preparam a mandioca, cuidam das crianças, cozinham, enrolam na coxa o cordão de buriti, tecem redes, modelam cerâmicas e fazem colares de miçanga tcheca. Pois é, a miçanga é tcheca! Gostam mais por que ela é pequena e mais delicada para a confecção dos trabalhos. Uma das consequências do contato estabelecido com o homem branco.

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Os homens pescam, caçam, lutam, tocam flautas de bambu, conversam na Casa dos Homens,- uma construção no centro da aldeia onde as mulheres são proibidas de entrar-, chefiam os rituais, dirigem motos, manuseiam celulares. No Xingú não há sinal de celular e os aparelhos são usados como máquinas fotográficas e filmadoras.

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Homens e mulheres se pintam, se enfeitam, cantam cantos com repetições sonoras e dançam num ritmo marcado pelas batidas dos pés na terra; ritualizam e se banham nas lagoas.
Quem dança ou ritualiza está vestido a caráter, ou melhor, desvestido, nu. E como não há hora certa para cada coisa acontecer, alguns passam boa parte do tempo assim, pintados com urucum, jenipapo ou resina com carvão, aguardando o grito de chamado pra festa.

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Roupa não é necessária, é apenas um adereço. As crianças ficam nuas até que sintam frio. As vezes tomam banho de lagoa com roupa, as vezes sem e se secam na caminhada de volta.
Já existe escola na aldeia. E o tempo do branco vem chegando, agora existe uma hora certa para ir à escola. Lá, aprendem português, além da língua Aruak.

desenho feito por uma criança Mehinaku mostrando o centro da aldeia

desenho feito por uma criança Meinaku mostrando o centro da aldeia

O espaço do centro da aldeia é incrivel e ver o céu a noite ali, mais ainda. O rio é vital para o indio. Sem ele não há vida, não há aldeia. Tão importante que quando olham o céu, o rio está lá. Dizem que o rio sobe até o céu e que a via láctea é o banco de areia que o margeia. As imagens são mitoloógicas e sempre muito poéticas.

Toda estruturada em madeira, a oca é oval e parece uma carcaça de animal. É totalmente revestida de palha do teto até o chão. Existem apenas duas portas em sentidos opostos. Uma dá para o centro da aldeia e a outra para o cerrado. O interno e o externo, a aldeia e o resto do mundo. Dentro é escuro, mesmo de dia, e a temperatura se mantém estável.

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A seriedade e concentração dos meninos em todos os dias de ritual impressionam. No último dia recebem uma refeição que precede o jejum pelo qual irão passar. E, finalmente a furação acontece. As mulheres são proibidas de assistir a cerimonia e devem então se recolher.

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Cerimonia finalizada e é nossa hora de fazer o caminho de volta. Levamos uma montanha de comida e os olhares indígenas sobre as caixas ainda repletas de latas, pacotes de macarrão, arroz e demais provisões eram desconcertantes.
O homem branco perdeu sua relação com a terra e com o que ela pode prover. Distanciou-se da experiência do presente e vive na ansiedade do futuro. E no futuro desconhecido estão os medos e por isso ele tenta se precaver; acumula, armazena, consome em excesso. O índio conhece a terra, os ciclos, confia e por isso tem apenas o que é essencial para o seu dia. Não precisa armazenar, não desperdiça e só gera lixo orgânico; a vida indígena não é predatória e não polui.

Essa breve experiência da cultura indígena na aldeia Mehinaku me fez sentir estrangeira em meu próprio país.
Hoje no Brasil existem 240 povos indígenas, com cerca de 900 mil pessoas e 180 línguas e dialetos distintos. Uma riqueza de tradição, história, mitos e conhecimentos ainda inacessíveis à civilização que os envolve.
Esses povos nativos, primeiros habitantes da nossa terra, dependem hoje de políticas de preservação para continuarem vivos. Interesses econômicos como o agronegócio e o desmatamento levam a dissolução de aldeias e a dizimação de diversas etnias. Quando migram para as cidades, longe do seu povo, os indígenas são marginalizados. O índio na aldeia vivendo sua vida autêntica, não é pobre. A manutenção da vida na aldeia preserva a cultura, mantém a dignidade e a saúde desses povos. O contato, inevitável, uma vez estabelecido, deveria promover transformações saudáveis e intercâmbio de culturas. E todos poderiam se beneficiar com essa troca.

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Uma noite, tivemos uma sessão de cinema improvisada no centro da aldeia. O telão foi pendurado na trave do gol. “Xingú Terra”, filmado há 40 anos nesta mesma aldeia Mehinaku, com roteiro de Maureen Bisilliat, texto de Orlando Vilas Boas e fotografia de Lucio Kodato nos foi apresentado pelo próprio Lucio, que fez parte do nosso grupo de visitantes. Ao lado de alguns dos personagens ainda vivos saboreamos a cultura e tradição que vem sendo passada de geração em geração.

** fotos: Bela Gebara

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BELA GEBARA  é arquiteta formada em 84 pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Mackenzie.Desenvolve projetos residenciais, corporativos e na área da saúde. Mora e trabalha em São Paulo onde já implantou diversas obras de sua autoria.
Arte e natureza são substrato para sua vida e inspiração profissional.

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HÚNGAROS E BRASILEIROS por Sarolta Kóbori – magyar változat

 

Há dez anos eu morava no oitavo andar de um prédio comercial, no centro de Porto Alegre. Para minha supresa, uma senhora baixinha e idosa tinha como emprego  abrir e fechar a porta desse edifício,  ela era a ascensorista. O dia inteiro dentro do elevador ouvindo apenas pedaços de conversas. Vivi por vinte e tres anos na Hungria e por seis meses na Inglaterra, viajei muito pela Europa e nunca havia encontrado um funcionário para  elevador anteriormente. Também nunca havia visto baratas, e confesso que tenho nojo e medo delas.   Morar lá   não foi uma  boa  experiencia, mas o intercambio de estudos de alguns meses  e os planos de viagem pela America do Sul foram como um sonho realizado para alguém que vem  do Leste Europeu.

Numa sexta feira a noite vi a senhora do elevador saindo do prédio, com um batom vermelho nos lábios sorridentes. Ela me convidou a acompanhá-la e fomos a um sambão no segundo andar do Mercado Municipal do Centro de Porto Alegre, onde familias inteiras se reuniam ao redor das mesas. A senhora não podia dançar, tinha um problema na perna, era coxa, mas a alegria e paz que senti estando com ela foi inesquecível.   Estava   tão   sozinha   em Porto   Alegre e diariamente me sufocava com um sentimento de auto piedade. Ver essa senhora idosa brasileira, que vivia dentro de um elevador mas que conseguia se sentir contente com o proprio destino, curtindo a sexta a noite, foi uma verdadeira liçao de  vida.

Faz dez anos que moro no Brasil. Quando os amigos húngaros me perguntam qual é a maior diferença cultural entre os dois paises, sempre respondo assim: os brasileiros conseguem se desligar e curtem os momentos de diversão depois do trabalho e nos finais de semana. Não envenenam os momentos de descanso com os problemas do cotidiano. E sabemos que os problemas aqui no Brasil são muitos, mais do que em  qualquer país da Comunidade Europeia.  Entretanto, o mal estar criado pelo aspecto  negativo da vida parece ter menos impacto nos brasileiros.

Nós, húngaros, conversamos sobre política, história, economia, problemas da sociedade o tempo todo, sem perceber o momento de  nos  desligarmos e deixar os problemas de lado. E contamos sempre que nosso país era um império enorme, que depois da I. Guerra Mundial perdemos territórios, mas que apesar disso  nenhum país tem tantos ganhadores do premio Nobel como a Hungria…, enquanto que os brasileiros não se queixam, embora tenham uma historia dificil e que influencia até hoje o  proprio cotidiano deles. Em húngaro, a resposta certa para a pegunta hogy vagy? (como vai?) não é jól vagyok (estou bem), mas megvagyok (estou indo). No Brasil a resposta seria sempre, eu estou otimo,ou tudo bem.

Segundo László Mérő, grande matemático e pensador húngaro essa diferença  é  somente  uma   consequencia do jeito de se comunicar, um código social (http://magyarnarancs.hu/egotripp/szocialis-kodunk-52502).
Ele não acredita  que isso  aconteça  porque um povo é mais feliz do que o outro, mas porque a forma de expressar os sentimentos é que são diferentes. Os americanos tem a mascara do estou resolvido e tenho sucesso, os brasileiros usam o rosto da alegria, enquanto os húngaros se maqueiam diariamente com a tristeza. O nível dos sentimentos é o mesmo, o que difere é como ele é demonstrado.

Convivendo com brasileiros, percebo que realmente eles vivem uma vida mais feliz do que os europeus.  Por exemplo, no parquinho, quando as crianças estão brincando, as mães se referem a uma outra criança, mesmo que desconhecida, como  “amigo” – “empreste seu brinquedo para o seu amiguinho”, algo que jamais aconteceria na Hungria. Lá a outra criança vai ser kisfiúmenino, e não ganhará tão facilmente o título de “amigo”. Abraçar, tocar, elogiar os amigos e receber elogios prazeirosos não são hábitos húngaros, mas geram sim, uma energia de bem estar.

Quais são os motivos dessas grandes diferenças? Antropólogos culturais dizem que o clíma e a história do país são determinantes na cultura de um povo. A história da Hungria começa com uma série de lendas lindas sobre um povo guerreiro, vindo de Ásia, conquistando  territorios na Europa Central. Depois de séculos de império poderoso, sofreram  ocupações de mongois, otomanos, austríacos e soviéticos.


Neste vídeo de apenas 3 minutos podemos identificar o herói húngaro: ele luta contra inimigo, defende o próprio país, se sacrifica pelo bem da comunidade

Como em vários outros países da Europa Central, devido a séculos dessas ocupações sangrentas, quando outro ser humano aparece ele demora a ganhar o título “amigo”, e ao contrário, é observado com  desconfiança. Aos olhos dos brasileiros, os europeus podem parecem frios. Atribuimos o nosso jeito de ver sempre o lado negativo da vida, a essas invasões. Em vez de sermos otimistas e esperançosos em relação ao futuro, preferimos imaginar  sempre o pior,  e com isso evitamos o sofrimento das  decepções. Nós, hungaros, comparamos nosso pais com a Alemanha, França ou Inglaterra, grandes potencias. Jamais reconhecemos que temos uma qualidade de vida bem superior do que  a de países em desenvolvimento. O parametro de comparaçao  é a sempre a Europa Oeste, e  isso envenena a alma húngara. Se numa conversa  fizermos a observaçao de que na Africa, ou mesmo na América do Sul muitas pessoas vivem em estado de miséria, a resposta húngara estará pronta: A Hungria brevemente chegará a este nível.

Com o tempo, talvez os húngaros consigam superar essa visão e parem de se comparar a países superpoderosos,  e possam olhar o passado como uma aprendizagem e não como uma eterna luta de sobrevivência. Nos últimos anos, as novas geracões têm se mostrado muito mais empolgadas com o país, e o resultado é óbvio nestes videos de propaganda, que nos deixam orgulhosos com a beleza da cidades e sua  natureza exuberante

 

e com seu povo cheio de criatividade e sabedoria

 

 

(Nunca disse à minha mãe que a amo. Nunca digo isso para minhas amigas húngaras. Porém em português, te amo, amiga, sai da minha boca naturalmente. Ninguém pode duvidar que amo minha mãe, adoro minhas amigas húngaras, mas não me expresso assim verbalmente com elas. Agora que minhas relações afetivas são brasileiras e acontecem em português eu digo te amo sem hesitar. O que mudou é que o Brasil me contaminou. Comecei falar szeretlek (te amo) para meus filhos. É um sentimento muito bom, e  sou muito grata pelo  Brasil ter me dado este novo hábito).

** foto banner- Circus- Budapest – André Kertész 

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Sarolta Kóbori
   é professora de Literatura, Língua Húngara e professora de Língua Húngara para Estrangeiros; Professora e Pesquisadora de Cinema. Nascida na Hungria, possui graduação na Universidade Eötvös Loránd, em Budapeste. Mestre em Literatura e Gramática Húngara (2006); Mestre em Língua Húngara para Estrangeiros (2009 – Título da tese: A Situação da Língua e Cultura Húngara em São Paulo); e Mestre em História e Teoria do Cinema (2009). Doutoranda em História do Cinema (dissertação sobre a Influência do Cinema de Arte Europeu no Cinema Brasileiro). Professora universitária da Universidade de Pécs, atua como Coordenadora do Curso de Extensão de Língua e Cultura Húngara na Universidade de São Paulo. Residente no Brasil há 10 anos, tem dois filhos, ambos  húngaros e brasileiros.
[email protected]

 

MAGYAROK ÉS BRAZILOK – Kóbori Sarolta irása 

Tíz évvel ezelőtt Porto Alegre belvárosában éltem, egy kereskedőház nyolcadik emeletén. Meglepetésemre egy alacsony, idős hölgy munkaköre volt a lift ajtajának nyitása és zárása. Egész nap bent volt a liftben, csak beszédfoszlányokat hallott. Huszonhárom évet éltem Magyarországon, fél évet Angliában, sokat utaztam Európában, de sosem láttam még liftes alkalmazottat. Sosem találkoztam csótányokkal sem és bevallom, félek, írtózom a csótányoktól. Nem szerettem ott élni, de néhány hónapos tanulmányi kirándulásról volt csak szó, dél-amerikai útat tervezve. Egy kelet-európai számára beteljesült álom.

Egy péntek estén láttam, ahogy az idős néni mosolyogva, piros rúzzsal a száján jön ki az épületből. Meghívott, menjek csak vele Porto Alegre belvárosi Vásárcsarnokába, szamba estre. Egész családok ültek az asztalok körül. A néni nem tudott táncolni, sánta volt, de vidámságát, lelki nyugalmát azóta sem tudtam elfelejteni. Annyira egyedül voltam Porto Alegrében, naponta többször elöntött a fojtogató önsajnálat. Látva ezt az idős brazil hölgyet, aki bár egy liftben éli le életét és mégis elégedett sorsával, élvezni tudja a péntek estét – egy igazi, életre szóló lecke volt.

Tíz éve élek Brazíliában. Mikor magyar barátaim megkérdik, mi a fő különbség a két kultúra között, mindig ezt válaszolom: a brazilok ki tudnak kapcsolni és élvezni a szórakozás pillanatát munka után, vagy éppen a hétvégén. Nem mérgezik meg a pihenés perceit  a mindennapi problémákkal. Tudjuk, Brazíliában a gondok sokkal nagyobbak, mint az Európai Unió bármely országában. Az élet negatív oldalának rossz hatásai mégsem befolyásolják annyira a brazilokat.

Mi magyarok politikáról, történelemről, közgazdaságról, társadalmi problémákról beszélgetünk, észre sem véve, mikor inkább a pihenésnek, és a gondok félretevésének lenne az ideje. Mindig elmondjuk, hogy az országunk erős birodalom volt, de az I. világháború után elveszítettünk területeket, mégis, egy országnak sincs annyi Nobel-díjasa, mint Magyarországnak…. míg a brazilok nem panaszkodnak, bár történelmük éppoly nehéz volt, következményeit pedig érzik a mindennapokban. A hogy vagy? kérdésre magyarul megvagyokkal illik feleni, nem pedig a jól vagyokkal. Brazíliában a kérdés és a válasz is tudo bem – minden jól (van). 

Mérő László matematikus és publicista szerint ez a különbség nem más, mint egy szociális kód, egy kommunikációs mód (http://magyarnarancs.hu/egotripp/szocialis-kodunk-52502). Nem az számít, hogy egy nép valóban boldogabb-e, vagy sem, hanem az, hogy máshogyan fejezzük ki az érzelmeinket. Az amerikaiak a sikeres, elégedett ember maszkját használják, a brazilok a mosolyukat ragasztják fel, a magyarok a szomorúsággal sminkelnek. Nincs különbség a valódi érzelmek között, csak máshogy kerülnek kifejezésre.

Brazilok között élve úgy látom, ők valóban boldogabb életet élnek mint az európaiak. Mikor a gyerekek a játszótéren játszanak péládul, az anyukák az ismeretlen, másik gyereket „barátnak” nevezik – empreste seu brinquedo para o seu amiguinho – add kölcsön a játékodat a barátodnak!. Ez nem fordulhatna elő Magyarországon. Ott a másik gyerek egy másik kisfiú vagy kislány, és nem kapja meg oly könnyen a barát címet. Ölelni, megérinteni, dícsérni, és a dícséretet elfogadni nem magyar szokások, pedig milyen jó érzést teremtenek.

Mi ezeknek a nagy különbségeknek az oka? A kulturális antropológusok szerint   az ország klímája és történelme a meghatározó egy nép kultúrájában. Magyarország történelme gyönyörű mondákkal kezdődik egy harcos népről, mely Ázsiából érkezve meghódítja területét Európában. Századok során egy hatalmas birodalommá fejlődik, melyet aztán tatárok, törökök, osztrákok, szovjetek tartanak elnyomásban.

 

Ebben a videóban látható, csupán három percben is, (https://www.youtube.com/watch?v=oK5P00HY5ds) hogyan lehet meghatározni a magyar hőst: az ellenség ellen harcol, megvédi hazáját, feláldozza magát a közösségéért. Mint minden közép-európai ország, a véres elnyomások évszázadai miatt, mikor egy másik ember megjelenik, bizalmatlansággal méregetik  és idő kell, hogy baráttá válhasson. A brazilok számára az európaiak ezért is tűnnek „hidegnek – frios”.

Mindig az élet negatív oldalát látjuk, és ennek az oka a megszállásokban keresendő. Optimizmus és reménykedés helyett inkább a rosszat képzeljük el, így legalább nem szenvedünk a csalódástól. Mi magyarok országunkat a nagyhatalmakhoz, Németországhoz, Franciaországhoz vagy Angliához hasonlítgatjuk. Gyakran nem vesszük észre, hogy életszínvonalunk messze jobb, mint a fejlődőben lévő országoké. Az összehasonlítás alapja mindig Nyugat-Európa, és ez megmételyezi a magyar lelket. Ha felhívjuk figyelmüket, hogy Afrikában vagy Dél-Amerikában az emberek nyomorban élnek, a magyar válasz készen vár: Magyarországon is az lesz.

Talán idővel a magyarok elhagyják ezt a szemléletet és nem a nagyhatalmakkal méregetik össze magukat, a múltra mint tanulságra és nem mint örök létharcra tekintenek. Az utóbbi években az új generációk nagyobb lelkesedéssel fordulnak hazájuk felé, minek eredménye látható az országimázs videókban. Városainkban és a természet szépségében gyönyörködhetünk (https://www.youtube.com/watch?v=A3DDTfNaz4I), illetve büszkélkedhetünk kreatív, nagytudású honfitársainkkal (https://www.youtube.com/watch?v=e0wkokaybWA).

(Sosem mondtam az édesanyámnak, hogy szeretlek. Sosem mondtam a magyar barátnőimnek. De portugálul már természetesnek hangzik a te amo, amigaszeretlek, barátnőm. Senki sem kételkedhet abban, szeretem édesanyámat, imádom a magyar barátnőimet, de verbálisan nem mutatom ki feléjük. A brazil kapcsolataim nyelve a portugál, hezitálás nélkül mondom, te amo. Ami megváltozott, hogy Brazília „megfertőzött”.   A fiaimnak gyakran, magyarul mondom: szeretlek. Nagyon jó érzés, és hálás vagyok e új szokásomért a braziloknak. )

 

Kóbori Sarolta Magyar nyelv és irodalom, illetve magyar mint idegen nyelv tanár; mozgóképkultúra és médiaismeret tanár, filmtörténész. Magyarországon született, tanulmányait az Eötvös Loránd Tudományegyetemen végezte. Diplomái: magyar nyelv és irodalom (2006); magyar, mint idegen nyelv (2009 – szakdolgozatának címe: A magyar nyelv és kultúra helyzete São Paulóban) és filmelmélet – filmtörténet (2009). Doktori disszertációját az európai művészfilm és a brazil filmművészet kapcsolatáról írja. A Pécsi Tudományegyetem  oktatója, az Universidade de São Paulo magyar nyelv és kultúra tanfolyamának vezetője.
Tiz éve Braziliában él, gyermekei brazil magyarok.
[email protected]

 

 

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Edição Origens

Origem é o cálcio da estrela no meu metatarso, a ponta da flecha, o x e o y, o medo da morte. É Nyx, a noite escura, é a bola de couro, é a bola da Terra, é Gaia, é o grito de gol. É o pátrio, é a mãe, minhas costas; é o lácio, é Lucy, é Aurora. Tudo que é original tem a ver com a origem; é a ideia que espoca, é o disco de ouro na nave voyager que toca Chucky Berry. Origem é o agora, é o futuro, é ver nascer a máquina mais inteligente que o homem.

Para falar de origens na história, no espaço, na imaginação, na psique, no futuro, nas artes, convidamos:

LEDA CARTUM escritora, com o conto Atrás de todas as coisas.

JESPER RHODE especialista em  mídias e tecnologias.  Inteligência Artificial chegando logo ali.

MAGDA PUCCI musicóloga, artista,  e o link entre a origem da musica e a linguagem.

ALEX CERVENY  artista plástico, compartilhando em 1a. mão sua próxima exposição : O GLOSSÁRIO DOS NOMES PRÓPRIOS.

ANDREA MIGLIANO  PHD formada em Antropologia biológica pela Universidade de Cambridge e as origens e singularidades dos homens

ROSA DORAN astrofísica brasileira residente em Portugal sobre a origem do Universo e dos questionamentos

AUDE KATER  terapeuta e artista, especialista  em Constelações Sistêmicas sobre os efeitos da anscestralidade no nosso comportamento

e  um conto de ELZA TAMAS  sobre as  suas origens húngaras.

 

 

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GRÍZES TESZTA por Elza Tamas

 

 

Tenho quatro avós húngaros.
Por ocasião da 1ª guerra mundial, a Hungria perdeu grande parte do seu território, dois terços. Dois dos meus avós passaram de um dia ao outro, de húngaros a romenos; os outros, viraram sérvios. O tratado de Trianon previa que se em 100 anos, as comunidades agregadas aos novos países ainda mantivessem a língua materna, as terras anexadas seriam reintegradas aos países de origem. Em função disto, a primeira providencia tomada pelos governos foi impedir que o idioma de origem fosse falado. Na escola, minha avó era obrigada a falar romeno. Os vizinhos eram húngaros, a rua húngara, o padeiro, o açougueiro, mas na escola ela tinha que aprender a falar uma língua estranha: o romeno.
A Hungria perdeu o acesso ao mar, meus familiares perderam filhos e parentes, vitimas da guerra e das condições precárias em que viviam. Famílias fugiam para evitar que filhos fossem alistados e no porto, no minuto final, eles eram confiscados e obrigados a ficar. A viagem de navio era então um misto de esperança, com a promessa do novo mundo, os peixes voadores acompanhando a embarcação, crianças brincando inocentes pelo convés, e a dor de tudo que tinha sido deixado para trás. Sacas e sacas de dinheiro eram lançadas ao mar, papel sem valor algum, e eles desembarcaram ainda mais pobres na nova vida.

Quando os meus bisavós chegaram ao Brasil, ambos, os húngaros sérvios e os húngaros romenos, construíram casas sobre uma fundação alta, elevada, três degraus para alcançar a porta. Esperavam pela neve que nunca veio. Penduraram tapetes grossos nas paredes para enfrentar o frio rigoroso. Na lateral da casa, parreiras. No quintal, atrás, uma pequena horta. Fabricavam linguiças em casa, numa linha de produção em série que envolvia toda a família. Soprar e encher tripas com uma mistura de carnes de cheiro forte, desagradável, parte das minhas piores lembranças de infância, as linguiças, e também os velórios domésticos, com os mortos benzidos com ramos enormes de alecrim, os pés frios de um bisavô que eu devia segurar para perder o medo da morte, a procissão da sexta feira santa e Maria Madalena me apavorando com o seu canto mórbido, o cemitério e o tumulo da menininha enterrada com os brinquedos prediletos.
Naquele bairro, que era na verdade uma comunidade húngara, nascemos todos, eu e meus irmãos; em casa, que parto não é doença, dizia minha mãe; com a mesma parteira, e na casa da mesma avó. O primeiro banho era de bacia e a placenta era enterrada no jardim pelo meu avô. Lá também meus pais se conheceram na celebração de primeiro de maio, num piquenique. Vida e morte se cruzavam com mais naturalidade naquela vila de ruas de terra, de língua estrangeira e de velhas de cajado e lenços escuros amarrados sob o pescoço.

Recentemente, numa viagem que fiz a Hungria e Romênia, onde encontrei parentes amorosos que eu nem sabia que existiam e que me descobriram pela internet, me deparei com arquiteturas absolutamente familiares: a fundação alta, os degraus para o acesso a porta, os tapetes nas paredes, a parreira, a horta no fundo. Também páprica e papoula compradas a granel, massas folheadas e doces tão saborosos como os da minha mãe. Nem tudo pode ser roubado de um povo.

(Quando alguém adoecia, minha mãe fazia um macarrão, frito numa farinha de semolina, crocante, queimado no fundo da panela: Grízes Teszta. Macarrão à milanesa. De sobremesa, panquecas recheadas com açúcar e canela. Palacsinta. Minha mãe se foi, a tradição se mantém.)

 

foto banner: foto do passaporte do meu bisavô húngaro (romeno), na ocasião da entrada no Brasil

 

 

 

 

 

Elza Tamas é psicóloga clínica e escritora.
Idealizou e desenvolve o forademim.com.br

 

 

 

 



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A SINGULARIDADE HUMANA por Andrea Migliano

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desenho Darwin -árvore da vida

 

 

Discutir origens é sempre algo complicado. Com exceção da origem do Universo onde numa grande explosão, do nada surgiu o tudo, todas as outras etapas da nossa criação aconteceram baseadas em algo que existia antes, e modelado pelas forças da seleção natural e claro, do acaso.

Para falar da origem da humanidade temos que entender então, que o homem não aconteceu de um dia para o outro, e que características que consideramos ser exclusivamente humanas, evoluíram lentamente, durante um longo período de sucessão de diferentes espécies. Muitas destas características são portando compartilhadas com os nossos diversos ancestrais na linhagem evolutiva da vida.

Como definir o ser humano?

Do ponto de vista biológico, somos animais, da classe mamália, da ordem primata, da família hominídea, do gênero Homo e da espécie sapiens. Nós compartilhamos com nossos primos da ordem primata 90% do nosso código genético, e com a nossa família hominídea (Chimpanzés, Bonobos, Gorilas e Orangutangos) pelo menos 97 %.

Chimpanzés, Bonobos e o homen se separaram há 7 milhões de anos (um período extremamente curto do ponto de vista evolutivo), e compartilham 98.7 % do seus códigos genéticos. De fato, Chimpanzés e Bonobos, são mais parecidos com o homem, do que são com Gorilas!

O que compartilhamos com Chimpanzés além de genes?

Cada vez mais, comportamentos antes atribuídos exclusivamente aos humanos, são observados também em outro integrantes da família hominídea. Grupos de Chimpanzés têm diferentes culturas – ou seja usam instrumentos que diferem de uma população para outra. Além disso, testes de QI mostram que que Chimpanzés são tão bons quanto crianças humanas em entender o mundo físico e as relações de causa e consequência. E, para a surpresa de muitos, Chimpanzés tem uma memoria de curto prazo (um traço importante para o desenvolvimento do aprendizado) muito melhor que a humana. De fato, são tão bons, que desafio os leitores a memorizar uma sequencia numérica na mesma velocidade que chimpanzés o fazem:

https://youtu.be/qyJomdyjyvM

Você pode tentar fazer o mesmo teste aqui:

http://www.crazygames.com/game/ayumu-chimp

O que e único do homem e quando essas características surgiram?

O homem moderno (Homo sapiens), surgiu na África por volta de 200 mil anos atrás. Além de um cérebro três vezes maior do que o dos chimpanzés, o homem tem outras características únicas importantes: devido ao tamanho do nosso cérebro, temos os bebês mais caros e portanto os mais dependentes entre todos os primatas. Isso fez com que a cooperação entre diferentes membros da família, como por exemplo os avós, evoluísse para garantir a sobrevivência das crianças. Essa cooperação entre membros da família e do grupo, foi extremamente importante durante a evolução humana; com ela veio a nossa capacidade inata para a linguagem (para coordenar movimentos cooperativos), além da seleção para maior longevidade. Por exemplo, acredita-se que a menopausa (outra característica unicamente humana) tenha evoluído para que as avós pudessem parar de reproduzir e ajudar na criação dos netos. A combinação de todos essas adaptações, fazem do homem uma espécie única. Essas características únicas evoluíram lentamente durante os 7 milhões de anos que separam o homem dos Chimpanzés. Porém, onde e como, é difícil dizer. Por volta de 2.8 milhões de anos atrás, no leste da África o gênero Homo apareceu. Existem entre 8 e 12 espécies de Homo descritas, dentro e fora da África. Sendo Homo sapiens, a única, sobrevivente hoje em dia. Homo erectus há 1.8 milhões de anos atrás já apresentava uma estatura equivalente a nossa, um período de crescimento e tamanho do cérebro, bem mais próximos aos humanos.

Claro que o fato do ser humano ter evoluído uma capacidade de cooperação extrema, não significa que não tenha também evoluído capacidades extremas para competição e conflitos. Conflitos entre grupos são parte da nossa história evolutiva. Na verdade, alguns cientistas defendem que parte da nossa capacidade cooperativa tenha evoluído como uma forma de se organizar contra grupos inimigos. Por muitos milhares de anos, Homo sapiens dividiu o mundo com todas as outras espécies do gênero Homo. Os Neandertais (Homo neanderthalenses) por exemplo, habitavam a Europa até 40 mil anos atrás, quando os humanos chegaram. Os humanos trouxeram com eles, novas tecnologias, mais vantajosas na competição por recursos, levando assim, a extinção dos Neandertais. Porém, antes da extinção, houve miscigenação entre as duas espécies. Evidencias recentes vindas da comparação do genoma humano com o genoma de Neandertais, mostram que todas as pessoas fora da África têm entre 2 e 4% do seu genoma, vindo de Neandertais

Familia Agta (caçadores coletores das Filipinas) em casa, cozinhando juntos. Divisão de alimentos entre diferentes indivíduos é também uma característica única humana.

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A complexidade da historia evolutiva e das interações entre as espécies do gênero Homo durante o processo de colonização do planeta, mostra como é difícil apontar para a origem de uma singularidade humana. Uma maneira mais produtiva é olhar para a origem das diversas características singulares que compartilhamos com cada um de nossos ancestrais na linhagem evolutiva da vida.

 

 

 

Andrea Bamberg Migliano é  PhD pela Universidade de Cambridge em Antropologia Biológica. Desde 2010 é professora na UCL (University College London). Suas pesquisas são na área de evolução humana e evolução do comportamento humano, especialmente voltadas para o entendimento da evolução de tribos caçadoras-coletoras no Congo e nas Filipinas.
Para saber mais:
http://www.adapting.org.uk
http://www.ucl.ac.uk/anthropology/people/academic_staff/a_migliano

 

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O GLOSSÁRIO DOS NOMES PRÓPRIOS por Alex Cerveny

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O “glossário dos nomes próprios” que deu origem a esta pintura foi o que encontrei em uma edição de Os Lusíadas, de 1884. Retirei dali os primeiros nomes da lista: Abraham, Achilles, Acrísio, Acteon, Adamastor, Adão e assim por diante até o terrível Zopyro, o sátrapa persa. Escolhi apenas homens e os imaginei todos com suas feições semíticas, todos semelhantes e habitantes de um mundo anterior à existência das mulheres. E também vieram faraós, papas, profetas, psicanalistas e homens de todo tipo. Todos eles nascidos das costelas uns dos outros, desde Adão até Michael E. Dritschel, o inventor da margarina cremosa(mesmo gelada!) e assim por diante. Em cada pintura existe um mundo. Neste é assim. E nele a existência humana está prestes a se acabar porque toda a matéria combustível já ardeu para forjar o metal das correntes titânicas que prendem o céu à terra. As últimas brasas ainda queimam, mas não por muito tempo. O universo chega assim ao seu termo, que apesar do esgotamento, possui grande beleza. Um belo mundo construiram estes homens e assim, a linhagem do primeiro Adão está pronta para o seu fim.

 

 

 

 

 

Alex Cerveny – São Paulo, 1963.
Foi criado na zona oeste de São Paulo, filho de um arquiteto e de uma professora especializada no ensino de cegos. Seu trabalho é fundamentalmente narrativo, em pintura, desenho, gravura e escultura. Artista de formação livre, começou a expor no ano de 1983. Recebeu em 1986 o “Grande prêmio” na 7 a mostra de gravura Cidade de Curitiba. Em 1991 participou das exposições Viva Brasil Viva, no museu Liljevalchs em Estocolmo e da 21a Bienal internacional de São Paulo. Nos anos recentes, ganhou em 2012 o Prêmio FUNARTE-Marcantônio Vilaça pelas ilustrações do livro Pinóquio (Editora Cosac Naify, 2011) e com elas ainda participou em 2013 da 30a Bienal de artes gráficas de Ljubljana. Em 2014, recebe também o segundo lugar do Prêmio Jabuti de melhor ilustração pelo livro Decameron(Cosac Naify, 2013).

 

A exposição “Glossário dos nomes próprios” estará em cartaz de 1° de abril à 7 de junho de 2015 no Paço Imperial, Praça XV de Novembro, 48 – Centro – Rio de Janeiro. De terça a domingo, das 12 às 18h – ENTRADA FRANCA

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ATRÁS DE TODAS AS COISAS por Leda Cartum

Sou testemunha da infância dela que corre ao meu lado: estamos no mesmo banco de trás do carro, mas ela assiste a um desfile de mundos misteriosos pela janela (por que nunca pode fechar o cruzamento?) enquanto o meu olhar ultrapassa a rua e não fixa ponto nenhum. Daí me vejo comentando com os adultos do banco da frente: que essa avenida costuma estar mais congestionada. No que eu e ela nos entreolhamos e a percebo interrogativa, como se tentasse depreender um significado impossível a partir do que acabo de dizer: para ela essa frase é enigmática, pertence a um universo hermético a que ela esteve sempre ligada sem nunca poder conhecer. A frase que trata da frequência do congestionamento da avenida repercute dentro de sua cabeça, cheia de realidades secretas e imensas: talvez contenha a resposta para todos os problemas, a solução dos mistérios; mas ela não tem acesso a isso. Essa frase, como que contornada por uma faixa amarelo e preta, é de acesso restrito: e ela só pode vê-la de longe na tentativa de adivinhar o que é que eu quis dizer: o que é que os adultos sabem e que ela não pode saber; qual é o segredo que se esconde atrás de todas as coisas.

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Lembro de algo que aconteceu algum tempo atrás: sorrio, numa mistura de cumplicidade e compaixão, como se visse do alto aquela pessoa que fui há anos e que não sabia de nada do que viria a acontecer. É um sorriso parecido com aquele que costumamos dirigir às crianças, e que parece dizer: existe um futuro imenso que vocês ainda não conhecem. Há sempre uma névoa de ingenuidade que envolve as lembranças antigas e as crianças pequenas: quando é que, naquela época, ou nessa idade, poderíamos desconfiar de tudo o que surgiria e que nos levaria por esses rumos até chegar aqui e agora? Vem também uma certa vontade de voltar até aqueles momentos para envolver esses seres distantes que agora parecem fantasmas imersos no escuro, e consolá-los por sua ignorância.

Mas é só inverter o sentido desse olhar para que tudo de repente mude de figura: se tento dirigir o olhar para a massa amorfa e invisível de tudo o que está por vir; ou, antes: se tento me sentir olhada por aquela que serei eu em um lugar desconhecido e por enquanto inexistente que é chamado de futuro – daí as coisas em volta se tornam muito pequenas. Parece que elas se afastam e correm quilômetros ainda imóveis, e o meu próprio tempo deixa de ser certo e seguro. É uma sensação de vertigem que provoca uma espécie de queda dessa atualidade e nos joga para longe, como se não estivéssemos mais no lugar onde estamos. As coisas são reviravoltas no escuro.

 

imagem banner: Iluminura de livro do sec, XV  -Antoine Vérard, 1494 L’Art de bien vivre et de bien mourir.

 

 Leda Cartum tem 26 anos. Publicou o seu primeiro livro, As horas do dia – pequeno dicionário calendário (Editora 7Letras), em 2012. Formada em Letras pela Universidade de São Paulo, hoje no mestrado estuda o escritor Pascal Quignard – de quem está traduzindo o livro Le sexe et l’effroi. Trabalha com texto e produção escrita em diversas áreas, desde tradução e editoração até roteiros para cinema e TV. Seu próximo livro, O porto, sairá pela Editora Iluminuras em 2016.
foto: Sara de Santis.

 

 

 

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A ORIGEM DO FUTURO por Jesper Rhode

A tecnologia se inaugura no momento em que um macaco, ou outro animal, utilizou-se  de uma pedra para quebrar a casca de uma fruta. Por definição, tecnologia é a coleção de técnicas, metodologias ou processos usados para produzir um bem. Segundo muitos arqueólogos, há 50.000 anos a utilização de ferramentas e o aparecimento de comportamentos mais complexos deu origem a línguas mais elaboradas.

 

A tecnologia tem sido essencial na evolução humana, e em grandes momentos de disruptura na nossa historia. Podemos interpretar a frase “anões nos ombros de gigantes” de Bernard of Chartres, do século XII, como um reconhecimento da contribuição da tecnologia herdada de nossos ancestrais e  grande alavanca para o desenvolvimento contínuo. No seu livro Superinteligência, o professor da Universidade de Oxford, Nick Bostrom, calcula que quando eramos caçadores, a nossa economia dobrava a cada 224.000 anos. A tecnologia nos ajudou a construir uma civilização baseada na agricultura que, por sua vez, dobrou a economia a cada 900 anos. Mas eles certamente teriam dificuldade em  acreditar que no inicio de seculo XXI, países desenvolvidos e megacidades dobram a sua economia a cada 6,3 anos.

 

Para muitos tecnologia hoje é sinônimo de computação e digitalização. Provavelmente isso ocorre, devido às mudanças fundamentais que as tecnologias derivadas da Internet estão nos trazendo. Some-se isso ao fato  do computador ser visto como uma máquina com algum grau de inteligência.  Mas a ideia da existência de uma tecnologia de computação é anterior ao computador que  conhecemos hoje. Uma das primeiras evidências da existência de um computador é datada de 205 anos antes de Cristo. A máquina de Anticítera, nome do local onde foi encontrada na Grécia, é um artefato que se acredita se tratar de um antigo mecanismo para auxílio à navegação, e sua construção  foi atribuída a Arquimedes. Sua serventia vai além de guiar naus. Esse computador analógico é preciso em calcular a orbita lunar, solar, e as órbitas de mais cinco outros planetas ao redor da terra.

 

A ideia de atribuir inteligência ao computador também não é tão recente. Em 1770 surge o primeiro computador de xadrez: o Turco. Ganhou esse nome por ser composto de uma mesa montada junto com um boneco mecânico, vestido como um turco. O Turco movimentava as peças do jogo, e se mostrava como um jogador competente. Em 1820 o segredo foi desvendado, com a descoberta de que, na verdade, havia uma jogador de xadrez real dentro da mesa. O aparelho deu origem ao serviço da Amazon “Mechanical Turk“,  que hoje propõe terceirizar à pessoas ao redor do planeta, mediante pagamento, tarefas que são difíceis de serem executadas por computadores, pelo conceito de Crowd Sourcing ou trabalho colaborativo. Um novo tipo de colaboração que a tecnologia da Internet nos oferece.

 

A tecnologia e as revoluções tecnológicas têm sido muito significativas para a evolução da economia mundial e da civilização humana. Carlota Perez, professora de quatro universidades, entre elas London School of Economics e a Universidade de Cambridge descreve na sua tese grandes picos de desenvolvimento ligados a grandes revoluções tecnológicas. A primeira é a revolução industrial na Grã Bretanha em 1771, seguida pela era do vapor e pelas  ferrovias, começando em 1829. A terceira revolução é a idade do aço, eletricidade e engenharia pesada, onde os Estados Unidos e Alemanha ultrapassam a Grã Bretanha, a partir de 1875. A quarta revolução, a partir de 1908 descreve a idade do petróleo, do automóvel e da produção em massa. A quinta revolução tecnológica acontece em torno da informação, da informática e das telecomunicações a partir de 1971. Cada uma destas revoluções é caracterizada por duas fases: inicialmente uma fase com busca de aumento de eficiência, baseada na lógica da economia anterior à revolução tecnológica. Em seguida, uma outra fase que reformula a lógica fundamental da economia, e que portanto causa uma crise financeira. Desta maneira podemos atualmente observar em grandes países, comportamentos econômicos jamais previstos pelos livros de ensino econômico. Um exemplo é o uso de juros negativos e a emissão acelerada de dinheiro como solução para o crescimento, prática que vem sendo utilizada na Europa.
Atualmente estamos entrando na segunda fase da revolução tecnológica causada pela informática e da Internet. Parte desta segunda fase é a crise econômica profunda e o surgimento de novas logicas econômicas e novos modelos de negócio e valorização de empresas, como a aquisição da Whatsapp com seus 50 funcionários pela Facebook por 19 bilhões de dólares. Estamos caminhando para uma economia onde possuir bens será substituído por compartilhamento, e onde produtos estão se transformando em serviços. Uma destas tecnologias transformacionais é o carro autônomo, que dispensa o motorista e que promete pela primeira vez mudar fundamentalmente o conceito de transporte urbano, onde nos últimos 120 anos não tivemos progresso significativo.

 

Uma tendência atual e fundamental para a utilização das tecnologias é a chamada consumerização.  Termo dado inicialmente para o uso de dispositivos pessoais no ambiente de trabalho, tablets, netbooks, iPhones e Androids agora são usados também por funcionários que os levam para o ambiente da empresa, o que certamente aumenta sua produtividade. Hoje o termo também é utilizado para descrever o fato de que consumidores estão se apropriando de tecnologias antigamente totalmente inacessíveis a eles. No site genomecompiler.com qualquer pessoa pode baixar um programa e começar manipular qualquer parte do código genético de mais de 40 formas de vida armazenados na sua biblioteca. Ao terminar, o usuário pode enviar o novo código genético para Cambrian Genomics, que oferece imprimir em 3D este novo código genético, e após aprovação das autoridades norte-americanas, enviá-lo para o requisitante numa cápsula de proteína. Quinze anos atrás, uma manipulação deste tipo custaria bilhões de dólares e somente poderia ser executada por empresas muito sofisticadas. Um dos primeiros produtos anunciados, fruto deste processo, são plantas luminosas, derivadas do cruzamento de genes de bactérias aquáticas luminosas com genes de uma planta.

 

Sabemos que um email pode conter um vírus.  Mas, hoje este vírus pode ser biológico. A decodificação do DNA de um vírus real ou ainda a fórmula de uma vacina contra uma doença pode ser enviadada por email e pode ser reproduzida em qualquer lugar.

 

Da mesma maneira, modelagem em 3D, robótica e até viagens espaciais estão sendo trabalhadas e preparadas por empresas ou mesmo pessoas privadas.

O futurologista norte americano Ray Kurzweil introduziu o conceito de singularidade para descrever o processo de confluência das ciências resultando no crescimento exponencial da eficiência das tecnologias. Esta exponencialidade coincidiu com a aceleração do crescimento econômico mencionado inicialmente. Da mesma maneira que, a constatação do crescimento econômico atual pareceria irreal se apresentado para nossos agricultores ancestrais, hoje não somos capazes de compreender um crescimento dobrando o tamanho da nossa economia a cada 14 dias em 2040, que seria o resultado natural da continuação do crescimento exponencial que temos vivido historicamente até hoje. Parte desta previsão se baseia no surgimento da inteligência artificial em torno de 2030. A partir daí máquinas poderiam apresentar inteligência maior que seres humanos, e só podemos imaginar qual será o efeito a partir do momento que computadores e robôs consigam  se auto desenhar e se reproduzir segundo suas próprias ideias e percepções do mundo.

 

O cientista Stephen Hawking, Bill Gates da Microsoft, Elon Musk, inventor do carro elétrico Tesla e a empresa privada de transporte espacial Space-X, concordam que a inteligência artificial poderá ser o fim da raça humana, uma vez que, a partir dela podemos perder o controle sobre as ideias e visões a respeito  da evolução da vida neste planeta. Mas também é possível que uma inteligência maior conclua que o futuro do nosso planeta é precioso demais para continuar na mão de seres humanos, baseado na incompetência, que temos mostrado até agora.

 

 Jesper Rhode é diretor de Marketing para a Ericsson na América Latina.
Atua nos últimos 15 anos em varias posições como Vice Presidente de Multimídia, Inovação, Pesquisa e Desenvolvimento, Tecnologia, e Contas comercias da Ericsson do Brasil. Foi presidente do conselho da Mobile Marketing Association para América-Latina de 2010 a 2012.
Atualmente também ocupa cargos de:
– Conselheiro consultivo na Wenovate – Open Innovation Center.
– Vice Presidente na Câmera de Comercio Brasil-Dinamarca.
– Professor de MBA na Fundação Getúlio Vargas (FGV).
– Mentor para empresas de comunicação digital na aceleradora StartYouUp
É Engenheiro Eletrônico e de Computação pela Universidade Técnica de
Copenhague, Bacharel em Marketing & Vendas pela Universidade de Copenhague, e
formado em Gestão Global de Telecomunicações pela Escola Americana Thunderbird de Gestão Internacional. Recentemente, também se especializou em Administração de Empresas pela London Business School.

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UNIVERSOS por Rosa Doran

 

 


Como e quando surgiu o Universo que observamos? Haverá vida como a nossa em outros planetas? Haverá outros Universos onde a origem das espécies tem uma história completamente diferente? Como surgiu a nossa estrela, o Sol? E o planeta Terra? Qual será a constituição básica da matéria e qual será a forma do nosso Universo? Qual será a origem do tempo? Qual será a origem da nossa espécie? Porque nos interessamos pelas origens de tudo?

As questões que populam as nossas mentes serão certamente semelhantes às dos nossos antepassados, mas o nível do nosso conhecimento acerca do Universo que nos rodeia mudou muito. Não sabemos como tudo começou nem tampouco para onde se expandem as galáxias. Não sabemos qual o tamanho ou forma do nosso Universo, nem se ele é o único. Mas sabemos hoje que o nosso Universo, observável, surgiu à cerca de 13,7 mil milhões de anos (13 x 109 anos). Sabemos que nos instantes iniciais aquilo que hoje observamos era uma sopa de partículas elementares que pouco a pouco foram dando origem às estruturas que hoje observamos. Sabemos que no princípio só havia Hidrogénio, Hélio e um pouco de Lítio. Assim, as primeiras estrelas não tiveram planetas à sua volta, pelo menos não os rochosos, e não foram portanto testemunhas da possível origem da vida, em outras partes do Universo.

Sabemos que a vida na Terra terá surgido há cerca de 3,5 mil milhões de anos sob condições muito especiais, impossíveis de se repetir nos dias de hoje. Sabemos que os elementos da tabela periódica, para além destes, formam-se a partir do ciclo de vida das estrelas. Sabemos que as leis da física são as mesmas em todo o Universo e a origem do nosso saber vem da nossa fluência em dialogar com a natureza, a fluência matemática, a linguagem universal.

Mas há outras origens que também desafiam a inteligência humana. Qual será a origem da ignorância de uma espécie que se pergunta sobre as suas origens, mas pouco questiona sobre as origens do seu possível fim como espécie dominante no planeta? Qual será a origem da nossa despreocupação com o bem estar dos nossos semelhantes? Qual será a origem do consumismo desmensurado que degrada no nosso planeta ? São questões dificeis de responder embora os investigadores das ciências exatas e sociais ensaiem possíveis explicações.
O sonho de quem já percebeu a imensidão do nosso Universo e a infima fragilidade da pedra onde vivemos e a qual chamamos Terra, é pensar que muito em breve os seres humanos perceberão que somos todos iguais. Um sonho que constroi um mundo em que as diferenças ideológicas, religiosas, que nos unem e nos separam se tornam completamente irrelevantes.

Nosso planeta, cuja origem terá sido algures há milhares de milhões de anos, não tem as fronteiras entre países, visíveis a partir do espaço. Nosso planeta é um pedregulho no nosso Sistema Solar; 99% da massa está concentrada numa única estrela, o Sol, uma pequena estrela entre milhares de milhões de estrelas da nossa galáxia, a Via Láctea.
As galáxias são milhares de milhões num Universo onde a luz demora milhares de milhões de anos para transportar o conhecimento. Um Universo que sabemos não ser tudo, cuja origem desconhecemos e com um destino que nos intriga.

 

Rosa Doran 1961 brasileira/ portuguesa, residente em Portugal.
Física pela PUC/SP. Mestrado em Altas Energia em Gravitação pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Doutorando no Ensino das Ciências na Universidade de Coimbra( em curso).
Desde 1992 se dedica à investigação, divulgação científica e ensino nas áreas de Astronomia, Relatividade e Cosmologia. Membro fundadora do NUCLIO – Núcleo Interactivo de Astronomia (http://nuclio.org),
Membro da Comissão Instaladora do projecto Global Hands-on Universe (www.globalhou.net)
www.galileoteachers.org

 

 

 

 

 

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QUIZÁS, QUIZÁS, QUIZÁS por Elza Tamas

Pilar queria dançar, dançar diferente, junto, com orquestra; ligou pra ele na redação do jornal, mas dança de salão pede sapato especial, solado de couro, ele disse, não dá, tô trabalhando de tênis, não vão me deixar entrar. Vai, por favor, e Acir não resistiu, sabia que ela devia estar mordiscando a boca quando pediu, sabia, e foi de tênis e tudo. Na hora de entrar pensou num pavão, estufou o peito um pouco, mas o moço da porta olhou para os pés, balançou a cabeça e disse não. Acir tentou: moço, se coloca no meu lugar, tem uma morena me esperando lá dentro, eu tenho que entrar. Então você vai ter que arrumar um sapato.

Acir não era de desistir e foi pro bar ao lado. Conversa vai, cerveja vem, contou a história pra um taxista de camisa verde. Que azar!, o homem disse, e Acir rápido: depende, que número o senhor calça?

Quando Pilar olhou para o outro lado do salão, viu Acir de pescoço esticado procurando por ela. Correu, se abraçaram, ela adorava aquele cheiro de graxa no pescoço dele, devia ser da tipografia. Ensaiaram uns pequenos passos desencontrados e ele sussurrou no ouvido dela: vamos embora que tem um motorista de taxi descalço lá fora.

Saíram, Acir pagou umas bebidas pro homem de camisa verde. Pilar pediu um HiFi e Acir continuou na cerveja. Pilar era estabanada e se ficava nervosa, pior. E Pilar estava nervosa; mexia os braços mais do que devia e virou o HiFi na mesa. Pediram outro e foi a mesma coisa. Disse baixinho pra ele: tô nervosa; ele riu, e deu uma lambida numa gota alaranjada perdida no rosto dela. O rádio adivinhava, quase me mata de tanto esperar; o garçom seguia empilhando cadeiras, já era tarde, tirando as toalhas, eles embriagados- porque era paixão de embriagar-, começaram a dançar, um beijo molhado de luz sela o nosso amor; vamos fechar, disse o garçom.

Lá fora, a lua era de prata e quando Acir chegou em casa, bêbado e apaixonado, agradeceu ao tênis de solado de borracha que, comportado, sem fazer um barulhinho sequer, evitou que sua mulher acordasse.

(conto originalmente publicado na coletânea Desnamorados – Editora Empíreo – 2014)

 foto banner: Elza Tamas sobre pôster de divulgação do filme TO HAVE AND HAVE NOT

 

Elza Tamas é psicóloga clínica e escritora.
Idealizou e desenvolve o forademim.com.br