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EQUAÇÃO por Samir Mesquita

Ela não sabia quase nada sobre o Holocausto. O que evitava sua ignorância eram alguns filmes vistos e o que  havia estudado para uma prova na qual ficara  abaixo da média. Contudo, ela sabia o suficiente para reconhecer o que era a imagem na capa daquele livro.

Vamos chamá-la de Ann.

Ann acreditava mais em números do que em santos. Para Ann, a matemática era sua verdade: era mais coerente crer nas projeções de  gráficos do que em milagres divinos. Portanto, quando Ann acessou aquele site de vendas, sua busca era também um ato de fé. O livro que ela queria se chamava We translated in Numbers – a global  economic research de Ingo Herman.

O livro estava esgotado. Mas esse tipo de site é inteligente o suficiente para não deixar você ir embora sem nenhuma compra.

Abaixo da imagem de We translated in Numbers, havia uma lista de sugestões de outros livros que talvez pudessem interessá-la. E entre eles, um cuja capa trazia a  fotografia em preto e branco de um braço magérrimo tatuado com um número de  vários dígitos.

Por que esse livro estava entre as sugestões? Ann não se perguntou porque sabia como essas listas funcionavam, como os resultados  vinham do cruzamento de uma série de informações. O que ela não sabia era a razão dos seus próximos passos.

Ann clicou no item. E clicou para comprá-lo. A página seguinte pedia o número do seu cartão de crédito. Foi então que Ann viu a  confirmação de uma lógica matemática. Seu número já estava na tela. Mais exatamente, na capa daquele livro.



Samir  Mesquita é autor dos livros de microcontos Dois Palitos (2007) e 18:30 (2009).
Participou da mostras de literatura e artes no Brasil, Argentina, Itália e
Inglaterra. Tem textos publicados nas revistas Playboy, Claudia, Carta na
Escola, Carta Fundamental, Revista da Folha, Gloss, entre outras.

 

www.samirmesquita.com.br

www.twitter.com/samirmesquita

 

foto banner: Samir Mesquita

SOCORRO por Marcelino Freire

SOCORRO

Conto inédito de
MARCELINO FREIRE

Eu morreria hoje.
Se fosse pela minha vontade.
Hoje.
Mas você não me ouve.
Vive me dizendo.
Deixa tudo para amanhã.
E eu deixo.
Atraso.
Procuro então o que fazer.
Para esquecer você.
Navego na internet.
Levo o macarrão ao forno.
A sardinha.
Ligo a TV.
Telefono para você e dá ocupado.
Nada.
Estou desesperada.
Deve ser de propósito.
Você não atende.
Vou ao banheiro.
Choro.
Ligo o chuveiro.
Eu não estou bem.
Vou ficando pior.
O médico receitou uns chás.
Eu não tomo.
Deixo recados no seu celular.
Amor.
A minha vontade era sumir.
Ir à janela.
Fazer barulho.
Sonhei em cortar um dos braços.
Atirar à avenida um dos pulsos.
Depois as outras partes.
É isto.
A ideia é original.
Aguentarei?
Você demora demais.
Contra a vontade diz que virá.
Rápido.
Eu preciso de você.
Mas você quer deixar para amanhã.
Tudo você deixa para amanhã.
Como se tivéssemos tempo.
Tem de ser hoje.
Insisto.
E peço que você traga um sorvete de creme.
Se você não vier arrancarei os cabelos.
Ligarei para o bombeiro.
Atirarei a minha mão ao trânsito.
Você nunca me viu assim.
Você gosta de mim.
Repete.
Pede minha calma.
E promete que vem.
E vem.
Você chega e já estou de banho tomado.
Nem pareço a mesma pessoa fúnebre.
Esquece.
Por favor.
Esse meu dramalhão.
Fiz.
Ó.
Nosso macarrão.
O molho de tomate que tanto você gosta.
Ora.
Relaxa.
Vamos ser felizes.
Trouxe o sorvete?
Você faz uma fala doce.
Mansa.
Nossa amizade será para sempre.
Você me diz.
Eternamente.
Difícil de engolir essa desculpa.
Só me passam males pela cabeça.
Vermes.
Vejo luzes tão apagadas.
Devem ser os chás.
Mas eu juro que não tomei nada.
Vou ficando tonta.
Sabe como se chama isto?
Abandono.
Você diz que vai dormir comigo.
Mas não hoje.
Amanhã.
Tudo para você fica para amanhã.
Para outro dia.
Essa sua mania me irrita.
Eu quero me matar hoje.
Grito.
Primeiro quebro os pratos.
Destruo a TV.
Jogo facas em você.
A gente se joga na cama.
Não sei se a gente luta.
Ou se ama.
Pela última vez.
De hoje não passa.
Mas não adianta.
Vejo você indo embora.
Primeiro um braço.
Depois o outro.
Um olho.
Outro olho.
Não me deixa.
Eu choro.
Eu imploro.
Amor.
Hoje não.
Que tal amanhã?
Se você for de vez eu morro.
Pela janela eu grito.
Com as forças do meu corpo todo.
Mas você não me ouve.
Socorro.

 

imagem Banner: Antoni Tapiès

MARCELINO FREIRE é escritor. Autor, entre outros, do livro de contos “Angu de Sangue” (Ateliê  Editorial) e de “Contos Negreiros” (Editora Record – Prêmio Jabuti 2006). Em 2004, idealizou e organizou a antologia “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século” (Ateliê).

É o criador e curador da Balada Literária, evento que  acontece anualmente, desde 2006, no bairro paulistano da Vila Madalena. Faz  parte do coletivo EDITH (visiteedith.com), por onde lançou em julho de 2011 o  livro de contos “Amar É Crime”.

Para saber mais sobre o autor e obra, acesse:
marcelinofreire.wordpress.com.

No Twitter: @marcelinofreire

foto: Renato Parada