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Steve McCurry – UMA QUESTÃO DE FÉ

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Steve McCurry

 

Steve McCurry é considerado um ícone da fotografia contemporânea há mais de 30 anos. Contribui em publicações, revistas e fez inúmeras exposições do seus trabalhos  ao redor do mundo.É o fotografo do  famosa rosto da menina afegã, capa da revista National Geographic, que rodou o mundo.

Americano da Pensilvânia, viaja com duas sacolas: uma com poucas roupas e a outra repleta de filmes.Explorou e fotografou dezenas de  países registrando conflitos internacionais e  tradições distintas. Detentor de inúmeros prêmios, mantém um blog de onde o material para este post foi retirado.

http://stevemccurry.com/blog/matter-faith.

Sri Lanka

 

“Assisti muitas manifestações de fé durante as minhas viagens nas últimas três décadas. Algumas espontâneas, outras partes de uma liturgia, outras ritualísticas.Algumas acontecerem em edificações maravilhosas; outras, sob uma árvore.

A fé de algumas pessoas é incorporada a maneira como elas vivem suas vidas. “

 

Monges  Shaolin – China

Índia


Tibet

            Paquistão

                       Srinagar- Cachemira

Carolina do Norte – EUA

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FESTA DE YEMANJÁ por Flávia Cirne

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                                                                        2 de fevereiro de 2013, Bahia. 

 

Move montanhas e mares, as águas de Yemanjá e tantas outras crenças.

Move a alma, os desejos, o poder dos sonhos que se revelam no despertar.

A fé que inclui a consciência do inconsciente, o poder do invisível.

A fé é sensível.

 

 

 

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Flavia Cirne é psicóloga, psicoterapeuta e instrutora de Tai Chi. Vive a fotografia como um deleite desde a adolescência, “adormecido” por alguns anos, ressurgindo “despretensiosamente” desde 2008.

 

 

formiga e bolha de aguar

EUREKA! por Elza Tamas

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Eu vi quando a formiga, minúscula, se jogou no prato cheio de água. Batia os pés e as mãos, acho, porque eram invisíveis os pés e as mãos se movimentando, mas ela eficiente se deslocou. Alcançou bem no meio da travessia um copo, que de cabeça pra baixo sustentava outro prato, esse sim raso e de diâmetro bem maior. Ela deve ter respirado fundo; depois do oceano ia ter que encarar ainda um Himalaia de vidro pela frente. Duvidei.

Duas horas depois, não uma, mas dezenas de formigas passeavam pela cobertura de chocolate. O bolo outrora inatingível, protegido pelo fosso  de faiança branca, era agora um verdadeiro bolo formigueiro, uma metáfora viva que se movia pra cá e prá lá.

Como elas vieram parar aqui? Voando, me respondi. Pareceu razoável, nadar não era menos espetacular do que voar, no caso das formigas. Por alguns libertários segundos, procurei por asas. Testemunhei aquela única formiga, talvez a primeira mutante nadadora da espécie, praticar um ato épico, e mesmo assim eu não conseguia acreditar, todo mundo sabe que formigas não nadam, se afogam. Talvez ela tenha aberto as águas, uma formiga Moises; ou quem sabe eu não tenha percebido, mas ela tenha caminhado sobre as águas, uma formiga Jesus.
Mais uns dez minutos observando a evolução:  o ir e vir do trabalho obstinado, rápido, que não quer ser flagrado, pedaços mínimos de bolo sendo transportados, pra onde? Nenhuma delas se jogou, nem formaram uma corrente com cada uma se segurando na anterior, enquanto eu as observava. Mas a vida não é só contemplar formigas, embora poucas coisas me fossem mais importantes.

E passou a noite e na manhã seguinte, nada, nem uminha sequer, o fosso vazio, água translucida. No bolo, apenas as mesmas três fatias faltando. Devia ter fotografado, pensei. Ver para crer não basta, tem que registrar para crer. Passei o dia com a dúvida: assisti a uma etapa evolucionista, a busca pela preservação da espécie ditando uma modificação de comportamento? Só as melhores nadadoras sobreviveriam, procriariam e em poucos anos as formigas nadariam com a mesma habilidade com que carregam um peso muito superior ao próprio corpo, ou andam de ponta cabeça desrespeitando a lei da gravidade. Ou? que outras leis podem ter sido violadas?

Melhor comer bolo.

 

 

 

Elza Tamas é psicóloga e escritora. Concebeu e desenvolve esse site

 

 

 

This Game of Hope and Fear

PEMA CHODRON E OS ENSINAMENTOS SOBRE ESPERANÇA E O MEDO

O livro de Pema Chodron “Quando tudo se desfaz” é meu livro de cabeceira há muitos anos. Me ajudou nas crises, me ensinou que a instabilidade é o chão que nos apoia e que cada textura que a vida nos apresenta deve ser desfrutada sem evitações. Aqui a transcrição de uma palestra dela; entre outras coisas ela explica como o medo e esperança são faces da mesma moeda e que ambas podem nos aprisionar. Lá embaixo o video.

Pema Chodron

 

 

“A diferença entre teísmo e não-teísmo, não é sobre acreditar ou não acreditar em deus. É uma questão que se aplica a todo mundo, incluindo budistas e não-budistas. Teísmo é uma convicção, profundamente enraizada, de que existe uma mão pra segurarmos. Se nós fizermos as coisas certas, alguém vai nos apreciar e cuidar. Isso significa pensar que sempre vai haver uma babá disponível quando precisarmos. Todos nós somos inclinados a abdicar de nossas responsabilidades e dedicar nossa autoridade a algo fora de nós mesmos.

Não-teísmo é relaxar dentro da ambigüidade e incerteza do momento presente, sem tentar alcançar nada que possa nos proteger. Às vezes pensamos que Dharma é algo fora de nós. Algo para se acreditar, algo para se medir. No entanto, Dharma não é uma crença, não é um dogma. É uma total apreciação da impermanência e da mudança. Os ensinamentos se desintegram quando tentamos agarrá-los. Temos que experimentá-los sem esperança. Muitas pessoas corajosas e compassivas os experimentaram e os ensinaram. A mensagem é: “Sem medo”. Dharma nunca significou uma crença que nós seguimos cegamente. O Dharma não nos dá nada, mesmo, para segurarmos.

Não-teísmo é finalmente perceber que não há uma babá com que você possa contar. Você acaba de conseguir uma boa e logo ela (ou ele) se foi. Não-teísmo é perceber que não apenas babás vêm e vão, mas toda a vida é assim. Essa é a verdade, e a verdade é inconveniente. Para aqueles que querem algo pra segurar, a vida é ainda mais inconveniente. Desse ponto de vista, teísmo é um vício. Somos todos viciados em esperança. Esperança de que a dúvida e o mistério irão desaparecer. Esse vício tem um efeito doloroso na sociedade. Uma sociedade baseada em montes de pessoas viciadas em conseguir terra firme para pisar não é um lugar muito compassivo.

A primeira Nobre Verdade do Buda é que, quando sentimos sofrimento, não significa que alguma coisa está errada. Que alívio! Finalmente alguém disse a verdade! Sofrimento é parte da vida e nós não precisamos achar que ele está acontecendo porque nós, pessoalmente, fizemos a escolha errada. No entanto, na verdade quando sentimos o sofrimento, acabamos achando que algo está errado. Como estamos viciados em esperança, sentimos que podemos abafar nossas experiências, ou avivá-las, ou modificá-las de alguma forma. E continuamos sofrendo muito.

No mundo da esperança e do medo, nós sempre temos que trocar de canal, trocar a temperatura, trocar de música. Porque algo está ficando desconfortável, algo está ficando impaciente, algo está começando a doer. E nós continuamos buscando alternativas. Em um estado mental não-teísta, abandonar a esperança é uma afirmação. O começo do começo.

Esperança e medo vêm da sensação de que nos falta algo. Eles vêm de uma sensação de pobreza. Nós não conseguimos simplesmente relaxar em nós mesmos. Nós nos agarramos à esperança. E a esperança nos rouba o momento presente. Sentimos que alguém sabe o que está acontecendo, mas que há algo faltando em nós, algo está em falta no nosso mundo.

Em vez de deixar a negatividade tirar o melhor de nós, podemos reconhecer que agora mesmo nos sentimos mal. Essa é uma coisa compassiva a se fazer. Essa é a atitude corajosa a tomar. Podemos cheirar o mal que nos sentimos, podemos sentir! Qual é a textura, a cor e a forma? Podemos explorar a natureza do sentimento. Podemos conhecer a natureza do desgosto, vergonha, e não acreditar que há algo errado nisso. Podemos abandonar a esperança fundamental de que existe um eu melhor, que um dia vai emergir. Nós não podemos simplesmente pular por cima de nós mesmos, como se não estivéssemos lá. É melhor dar uma olhada direta em nossas esperanças e medos. Então, uma espécie de confiança, nossa sanidade básica, surge.

É aí que entra a renúncia. Renúncia da esperança de que nossas experiências podem ser diferentes. Renúncia da esperança de que nós podemos ser melhores. As regras monásticas budistas que recomendam renunciar ao álcool, renunciar ao sexo e assim por diante, não estão indicando que essas coisas são inerentemente más ou imorais. Mas que nós as usamos como baby-sitters. Nós as usamos como um caminho para escapar. Nós as usamos para tentar obter conforto e para nos distrair.

Na verdade, o que renunciamos é à esperança tenaz de que podemos ser salvos de quem somos. Renúncia é um ensinamento que nos inspira a investigar o que está acontecendo cada vez que nos agarramos a alguma coisa porque nós não conseguimos aguentar e encarar o que está por vir.

Se a esperança e o medo são dois lados da mesma moeda, então a desesperança e a coragem também são. Se desejarmos abandonar a esperança para que a insegurança e a dor sejam exterminadas, então podemos conseguir a coragem para relaxar na falta de chão firme de nossa situação. Esse é o primeiro passo no Caminho.

(…)

Sem-esperança é o terreno básico. De outra forma estaremos fazendo essa jornada na esperança de obter segurança. Se fizermos a jornada para obter segurança, estaremos nos perdendo completamente da meta.

Nós podemos fazer nossas práticas de meditação com o objetivo de obter segurança; nós podemos estudar os ensinamentos com o objetivo de obter segurança; nós podemos seguir todas as diretrizes e instruções com o objetivo de obter segurança; mas isso só vai nos conduzir à decepção e à dor. Podemos poupar muito tempo a nós mesmos levando esta mensagem muito a sério agora mesmo: comece a jornada sem esperança de obter um chão firme onde pisar. Comece sem-esperança.

Toda ansiedade, toda insatisfação, todas as razões para esperar que nossas experiências possam ser diferentes, estão enraizadas no nosso medo da morte. O medo da morte está sempre no cenário de fundo. É como disse o mestre Zen Suzuki: “A vida é como entrar num barco prestes a zarpar e afundar”. Mas é muito difícil, não importa o quanto escutemos, acreditar na nossa própria morte. Muitas práticas espirituais tentam nos encorajar a levar nossa morte a sério, mas é impressionante como é difícil permitir que isso aconteça. A única coisa na vida que nós realmente podemos contar, é incrivelmente distante para todos nós. Nós não chegamos ao ponto de dizer: de jeito nenhum, eu não vou morrer! Porque é claro que nós sabemos que vamos. Mas definitivamente é mais tarde, essa é a maior esperança.

Somos criados em uma cultura que teme a morte e a esconde de nós. No entanto, nós a experimentamos o tempo todo! Nós a experimentamos na forma de decepção, na forma de coisas que não funcionam. Nós a experimentamos na forma de coisas constantemente em um processo de mudança. Quando o dia acaba, quando o segundo acaba, quando respiramos, essa é a morte na vida diária. A morte na vida diária também pode ser definida como a experiência de todas as coisas que não queremos: nosso casamento não está funcionando, nosso trabalho não está satisfatório.

Ter uma relação com a morte na vida diária significa que nós começamos a ser capazes de esperar, a relaxar na insegurança, no pânico, na vergonha, nas coisas que não estão funcionando. Conforme os anos passam, nós não chamamos as babás tão rapidamente. A morte e a não-esperança dão a motivação adequada. Motivação adequada para viver uma vida contemplativa e compassiva. Mas a maior parte do tempo, evitar a morte é nossa maior motivação. Nós tendemos a evitar qualquer sensação de problema. Nós sempre tentamos negar que é uma ocorrência natural que as coisas mudam. Que a areia está escorrendo entre nossos dedos. O tempo está passando. Isso é tão natural quanto a mudança das estações, e o dia se transformando em noite. Mas ficarmos velhos, ficarmos doentes, perdermos o que amamos, nós não vemos esses eventos como ocorrências naturais. Nós queremos evitar essa sensação de morte, não importa como.

Relaxar no momento atual, relaxar na falta de esperança, relaxar na morte, não resistindo ao fato de que as coisas acabam, as coisas passam, de que as coisas não têm uma substância duradoura e que tudo está mudando o tempo todo. Essa é a mensagem básica.

 

Palestra Não teismo destemido –  Tradução Sebastian Valle

veja o video:

Fearless Nontheism  – Pema Chodron

http://youtu.be/5_BoPc3Ca9o

 

http://www.youtube.com/watch?v=5_BoPc3Ca9o

 

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A MUSICA SAGRADA EM FEZ- MARROCOS por Glaucia Rodrigues

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“Some day music will be the means of expressing universal religion.”
Hazrat Inayat Khan

“Deus nos respeita quando trabalhamos, mas nos ama quando dançamos!”
proverbio Sufi

 

 

Os sufis amam a música e a expressão em árabe “ ghiza e ruh” significa música, o alimento da alma.
De acordo com eles a música é o início e o fim do universo.
Em sânscrito a música é chamada de “sangita“, significando, cantar, tocar e dançar e também está na base da criação e equilíbrio do mundo.
O som abstrato é chamado de “sawt-e -sarmad” pelos sufis, e todo espaço é preenchido por ele, o som primordial, de onde toda a matéria se faz. Nos Vedas o som abstrato é chamado de “anhahad”, o som ilimitado.

O Festival de Musica Sagrada, criado há 19 anos na cidade de Fez – Marrocos reune diversas sonoridades do planeta e sua infinidade de crenças, expressas através de uma riqueza de ritmos, vozes, e vibrações sonoras.


Durante uma semana juntos, cada um na sua lingua e cultura, cantam, dançam e tocam, como se fosse um chamado, um apelo, um grito à nossa origem comum , sensivel e fraterna. Nos lembram (Zikr) que todos podemos ser UM… OM AUM com o princípio Divino..

 

Incluo aqui uma pequena amostra da diversidade das apresentações no festival, que aconteceu em junho de 2013.

 

Noite de abertura com o tema “Love is my religion”. Cherifa Andre é uma cantora bérbere  marroquina

 

Coro ortodoxo e bizantino

 

Françoise Atlan

 

Dervixes sagrados

 

Paco de Lucia

 

 

Abeer Nehme cantando no Museu Batha

 

 

 

Aqui o video The soul of sound, que apresenta  uma visão geral sobre o festival e a cidade de Fez.

 

fotos: Elza Tamas

 


Glaucia Rodrigues
é graduada em Psicologia pela PUC/SP. Especializada em Abordagem Corporal, Psicologia Junguiana e Cinesiologia pelo Instituto Sedes Sapientiae (SP). Formada em Danças Circulares e Folk Dance Camp pela Universidade do Pacífico – Stockton, Califórnia (EUA). Coautora do livro “Danças Circulares, uma proposta de educação e cura”.Diretora do Centro de Estudos Universais-AUM, associação de caráter sociocultural que desde 1998 promoveu oito Encontros Internacionais de Músicas e Danças do Mundo- Dançando pela Paz e este ano (2013) organizou um grupo de brasileiros para participar do Festival de Fés (Marrocos) de Músicas Sagradas do Mundo.

www.ceuaum.org.br

 

 

 

 

 

 

 

 

Fé francis alys

O ARTISTA FRANCIS ALYSS E A FÉ REMOVENDO MONTANHAS

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Francis Alyss, belga de nascimento, usa a arte e faz das suas intervenções uma possibilidade de mobilização e questionamento social.  Em 2002 ele reuniu um grupo de 500 voluntários que armados de uma pá, lado a lado, formaram uma linha numa montanha de areia. Trabalhando conjuntamente, moveram o topo da duna, cerca de 10 centimentos. Este projeto foi realizado no Peru, próximo a Lima. A natureza épica dessa realização será certamente  mantida na tradição oral dos participantes, como um registro do que pode a força humana.Um mito contemporâneo.
(Cuando la fe mueve montañas, 2002)

 

 

 

 

http://www.francisalys.com/public/cuandolafe.html

fé jeff favela colorida

FÉ: GASOLINA PARA O MOTOR CIENTÍFICO E LUTAS SOCIAIS por Jeff Anderson

 

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A conscientização não é a premissa básica para a transformação social, ou emancipação do trabalhador como teorizou Marx.

Era agosto de 2007. A iluminação ainda amarelada da Avenida Paulista fazia do frio a composição ideal para aqueles que ensimesmam a divagar sobre complexas teorias sociais que nos foram enfiadas goela abaixo em algumas cadeiras acadêmicas. Quase todas francesas.

Assim passei aquele inverno.

Estava muito bem instrumentalizado: Émile Durkheim, Karl Marx e Max Weber caminhavam comigo diariamente por toda a Avenida Paulista. A base cientifica da sociologia saia da sala de aula e ia para o meu quarto. Esse trajeto perdurou por três anos e meio. Eu era um menino homem racional. Pagava mensalmente a quantia que a Pontifica Universidade Católica me exigia. A universidade conseguira tangenciar o conhecimento e dividi-lo mensalmente para facilitar a nossa compreensão. Ao final do curso, nos daria um certificado de que todas as mensalidades foram devidamente pagas, o diploma.

Mas aos quarenta e cinco, do último tempo, um grande insight ocorreu-me e fui passear com toda a base cientifica em espaços informais. Fui testar o conhecimento. O grande mal-estar nasce aqui.

A base cientifica era europeia. Meu novo espaço era a favela, zona sul de São Paulo. O trajeto fora substancialmente mudado. A forma e o conteúdo não se encaixavam. Saia da casa de meus pais porque acreditava em uma ideia. Fui morar no Centro Comunitário da Favela Mauro, bairro da Saúde. Por conta desse novo posicionamento minha família pensou que estivesse louco e contratou uma clinica psiquiátrica para realizar minha interdição. Era meu trabalho de conclusão de curso e a PUC não mais me orientaria. Esse era o cenário.

Quando cheguei a favela comecei a me deparar com questões insolúveis cientificamente e a medida que o tempo passava percebia, mais e mais, que todo o aprendizado acadêmico não passava de bijuteria. A realidade social brasileira é por demais complexa para ser explanada por um ou dois volumes sociológicos.

Eu caira em um mar de fé. Um cientista social, cético e ateu que vivia agora em um centro comunitário no meio de uma favela com mais de 3 mil famílias, meus vizinhos. Não conhecia ninguém. Ninguém me conhecia. Todos os dias, em meu diário de campo registrava situações inexplicáveis, incompreensíveis aos olhos da razão. Estava ali por um motivo bastante racional: levantara uma hipótese sobre arquitetura e urbanismo e fui comprova-la. Os embates eram diários, fé e razão se misturavam e se contrapunham em velocidades nunca antes experimentadas. Por mais que focasse a compreensão por meio de em um grande Bricoleur, de Levi Strass, ou na Deriva, de Guy Debord, grande parte das situações fugiam da base teórica e somente depois de muito observar foi que pude compreender que algumas situações, as mais importantes, se tratavam de fé.

Foi então que, em um hiato de extrema lucidez, a luz me veio à cara e mostrou-me que a fé era a gasolina para o motor cientifico. O meu e o deles.

Eu deveria persistir por um ano, sob os riscos de ser internado, abandonar a família e amigos. Eles deveriam persistir por uma vida inteira, sob os riscos de serem desapropriados, na violência diária da Policia Militar e do traficante de drogas. Não existe contexto cientifico que possa justificar a minha persistência, nem muito menos a deles. Ambos se mantinham na fé de que o terreno seria conquistado e as escrituras das casas seriam, enfim, destinadas aos moradores, que o trafico deixaria de existir e a policia não mais trocaria tiros ao meio dia. Ou que a arquitetura e urbanismo da favela são genuinamente brasileiros. Arquitetura popular brasileira. Essas eram nossas crenças. Eram esses os motivos que nos fazia levantar da cama, sem nenhuma aparente consistência.

Com o arrastar do tempo e muitas lutas, nossas amizades foram se estreitando. Eu já não mais me importava com a hipótese. Estava vivenciando. Já era a tese. Algumas questões da favela foram resolvidas.

Os tiroteios findaram-se e hoje são proprietários legais de onde moram. Provamos para a minha família que eu não sou louco e só conseguimos isso porque persistimos na luta, tivemos fé. Todo domingo tem churrasco religiosamente.

 

 


Jeff Anderson
é idealizador do projeto BioUrban e ganhador do Prêmio The Deutsche Bank Urban Age Award

Aqui o link para vários vídeos que ajudam a conhecer o projeto Bio Urban

https://www.youtube.com/jeffcausador

 

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CATEDRAIS por Regina Datti

 

 

Da luz secular desaba uma paz desconhecida e lágrimas sem respostas. A existência perambula silêncios vertiginosos. Gratidão plena, Sagrada Família de um Gaudí obstinado e fervoroso.

 

Atravessa a ponte aquecendo a voz para o ensaio de Aida. Deixa um rastro idílico no calçamento medieval. Alheia aos turistas, mendigos e gaivotas quebra o eco azul. A sagração de um ritual, o canto como redenção.

Os vitrais de Sainte-Chapelle emudeceram a primeira apresentação. Sempre acreditou na possibilidade do avesso, herança de uma família de crença absoluta no poder dos sonhos e na sacralidade da alma humana. Múltiplos olhares e orações. Toda benção é bem-vinda, qualquer que seja.

O canto gregoriano espalha-se por colunas góticas, esculturas míticas, verdes aquarelados e ouros envelhecidos. Sua voz une-se ao coro e impõe-se aos flashes. Impossível o registro da reverência. Espirais onipresentes levam ao alto de cúpulas ornamentadas com anjos e demônios. Ela fica com os seus.

Batinas deslizam pelo mosaico de pedra seguidos do assombro por histórias perpetuadas em afrescos. Primeiro recital em Assis. Nenhum vestígio do terremoto de um ano atrás. No túmulo de São Francisco um homem reza deitado no chão. Mulheres e o pranto de velas brancas. O vento rodopia freiras em peregrinação. Labirinto de enigmas em caminhos ornados de flores púrpuras.

O campanário marcou a hora da partida, deixou Óbitos ainda menina. Na bagagem a poesia de Pessoa é o rito diário. Ele já se foi mas seus santos repousam na cômoda profana. Seu pai e suas liturgias acompanhadas da onipotência de Maria Callas.

No verão o coral florentino e a solista passaram o domingo embalando cálices de Água Benta e a Imagem da Virgem; sacerdotes abençoavam pães, vinhos e lagostins. Celebração da vida nem sempre eterna.

A oliveira aponta o local da explosão que ceifou o grupo de estudantes. No bronze, além de nomes, o repúdio da descrença. O canto é de ausências.

Contempla catedrais, quietude e vazios. Entre acordes e harmonias tece a própria prece. Da luz secular desaba uma paz desconhecida e lágrimas sem respostas.

 

 

foto banner: Sagrada Familia( internet)
foto 1: Sagrada Familia- Regina Datti
foto 2 e 3: Sainte Chapelle ( internet)
foto 4: Regina Datti

 


Regina Datti
é produtora cultural. Escreve, pinta e rabisca.
Participa com um conto no livro “336 horas”, lançado em junho de 2013.

foto: Mario Bock

 

 

 

 

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ESPIRITO SANTO, PAI E FILHO por Carolina Chagas

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Vi o Espírito Santo.

O sol estava baixando e o céu de São Paulo estava com aquele cor de rosa que só as cidades poluídas conseguem ter. Uma beleza. A uns 50 metros da escadaria em que estava sentada, uma pomba branca começou a bater as asas sem sair do lugar. Ela não olhava para baixo, como as gaivotas fazem na hora que buscam peixes no mar. A ave olhava para frente. O que se via era uma apresentação ao vivo e em cores da figura do Divino Espírito Santo. Patinhas recolhidas, inclusive.

Era o sinal que precisava.

Aceitei a proposta e troquei São Paulo pelo Rio de Janeiro.

Isso faz oito meses. E ter vindo, marido, filhos, laptop, panelas e copos para o Rio de Janeiro foi a melhor coisa que fiz. Limpei a casa, me desfiz de peso extra. Era muito peso. A família se reorganizou em torno de novo eixo. Ficou mais unida. Meus filhos de 8 e 10 anos aprenderam a andar de metrô, a soltar o corpo no mar para enfrentar tombo de onda forte, a sentir saudade dos avós e dos amigos e a fazer novas amizades. Estão mais seguros. No trabalho, as coisas ganharam outro colorido. Estou desenvolvendo habilidades adormecidas.

O que essa história tem a ver com fé? Tudo. Fé, a meu ver, é igual olho castanho. Nascemos com ela. A origem da palavra explica muito. Vem do latim “fides” que significa confiança, crença. É o contrário de dúvida. Gosto de achar que vem de Deus essa certeza que me acompanha. E me leva para frente.

Saber que ao menos Deus está do meu lado sempre me ajudou nas horas difíceis. Usufruir das horas fáceis também é mais simples quando aquele transbordamento de felicidade parece fazer parte de um projeto maior.

Há duas frases que alimentam minha fé. Somos inocentes até prova em contrário. E “amarás o próximo como a ti mesmo”. A primeira está na constituição brasileira. A segunda atribui-se a Jesus Cristo. Sou fã de Jesus. Acho que ele foi um camarada e tanto. Trouxe uma visão original para esse mundo. Revolucionou. Fez com que as pessoas olhassem para o outro lado. Quando morava em São Paulo, nunca dei muita importância para o Cristo Redentor. Mudar para o Rio também me ajudou a entender aquela imagem em cima do Corcovado. É forte. De vários pontos da zona sul carioca se vê o Cristo. Chegar a nova cidade, ter de se acostumar a uma realidade diferente, estar alerta a novos cheiros, sons, forma das pessoas se portarem é exercício exigente. Ter um Cristo de braços abertos por perto, ajuda. Só sabe quem tem fé.

 

foto banner: Elza Tamas 

 

Carolina Chagas é diretora regional de jornalismo da Rede TV! no Rio de Janeiro, Carolina Chagas é fã de santos. É dela uma série de sete livros publicados pelo Publifolha sobre o assunto. Carolina também fez a pesquisa do documentário Marias, dirigido por Joana Mariani, em fase de montagem. Além disso, escreveu Escoffianas Brasileiras, da editora Larousse, com o chef Alex Atala, trabalhou em O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, Portal iG e colaborou para revistas como Vogue, Marie Claire e TPM.

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A FÉ SALVA, O CONHECIMENTO LIBERTA por Mateus Soares de Azevedo

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Antes de falar de fé, devemos falar de inteligência. Pois não há fé sem discernimento. Sem dúvida, as grandes religiões mundiais, em suas formulações convencionais, privilegiam uma fé sentimental – que é o que pode ser mais imediatamente captado e realizado pela generalidade dos homens –, mas aquela fé que podemos chamar de integral ou plena exige o discernimento. Sem este último, poder-se-ia ter fé em qualquer coisa que seja. A Verdade – objeto e meta da inteligência – fixa os contornos da fé.

Para o homem materialista moderno, a fé, seja em que coisa for, é sempre meramente um sentimento, algo pessoal e subjetivo. Ao passo que a fé tradicional nunca é “cega”, nem subjetiva ou individualista; ela é, ao contrário, a aceitação intelectual de um conjunto de doutrinas. Fé é concordância, por parte da inteligência e da vontade do homem, a um corpo de verdades de origem revelada, transmitidas pela tradição e preservadas pela ortodoxia (do grego orto: correta; doxia, opinião).

O “Nobre Caminho Óctuplo” do Buda principia justamente com o quê? Com “pensamento correto”, ou seja, ortodoxia. Este é o primeiro passo, todos as outras sete etapas começam com as ideias corretas. E estas verdades são ademais universais, isto é, podem ser aplicadas a todo o momento e em todo lugar, não sendo limitadas, portanto, nem temporalmente, nem espacialmente. Elas não estão submetidas à vontade da maioria, nem ao politicamente correto. Tais verdades nunca dependem de como nos sentimos, nem são sustentadas “cegamente”. Elas existem antes de nós, acima de nós. Forademim.

Diferentemente da percepção convencional, e superficial, que facilmente associa fé às emoções e aos sentimentos, e mesmo à irracionalidade, a fé é fundamentalmente compreensão e vinculação a um conjunto de realidades transcendentes que são captadas e entendidas pela inteligência. O racionalista e o ateu moderno se consideram muito astutos, e no fundo desprezam o religioso porque o ateu apenas crê, supostamente, na ciência e na razão, enquanto o fiel acredita de forma supersticiosa em coisas sem comprovação material. Mas o ateísta também tem a sua “fé”, que é crer apenas naquilo que pode ser medido e pesado; ele só crê no visível, mas, como o “invisível” é mais real do que o visível — como é o caso da sabedoria, do amor, da beleza, ou da bondade – o materialista no final das contas abarca apenas uma pequena parcela da realidade. A poderosa e presunçosa ciência materialista não leva em conta nem o amor, nem a sabedoria, pois eles não se deixam medir pela sua limitada régua.

Na confrontação entre ciência e fé, temos de caracterizar(1) as atividades básicas do homem moderno típico como destituídas de senso do sagrado e ignorantes dos princípios metafísicos. O ponto de vista tradicional, ao contrário, baseia-se na doutrina de uma “Queda” do homem a partir de um estado de graça e na necessidade da Revelação e da Graça para que o homem possa retornar à sua condição primordial e sagrada, a seu Centro mesmo, provendo-o também de uma metafísica, que explica a essência e razão de ser da natureza humana.

A fé, ou a religião, não pode em si mesma ser contrária à ciência, que trata apenas das propriedades mensuráveis da matéria. O problema é que o homem moderno encara a ciência como a sua “fé”, o cientista é o seu “sacerdote”. Na base desta pseudo fé estão a teoria da evolução e o mito do progresso indefinido, postulados pseudocientíficos forjados pelo homem ocidental num momento de profunda instabilidade histórica.

Não obstante tudo isto, é necessário insistir que , ao lidar com as realidades do espírito, não devemos descartar a dimensão do conhecimento. Na verdade, é preciso enfatizá-la, pois, além de sua importância intrínseca, é esta dimensão que mais tem sido obscurecida nas religiões hoje em dia. Não nos referimos aqui à mera informação quantitativa ou à erudição livresca, mas à inteligência que discerne aquelas verdades fundamentais que são comuns às tradições autênticas, como o Hesicasmo, o Sufismo, a mística cristã, o Zen, o Vedanta…

Mais frequentemente do que o aceitável, a inteligência transcendente é percebida apenas como uma manifestação de “orgulho intelectual”, sem nos darmos conta que isto é uma contradição de termos. Pois a verdadeira inteligência caracteriza-se pela capacidade de ver as coisas como elas realmente são. Portanto, pela objetividade. Ora, a objetividade exclui o orgulho.

Os arianos, em especial os hindus e os antigos gregos, se destacaram como grandes sábios e metafísicos: Pitágoras, Platão, Plotino, Shânkara… Já os semitas foram grandes profetas e fundadores de religião: Jesus Cristo, Abraão, Moisés, Maomé… O que não significa que estes não tenham sido também sábios à sua maneira, pois sua mensagem é total, engloba tanto a vontade, como o sentimento e o conhecimento. Mas, como eles falam a todos os homens sem distinção, sua dimensão sapiencial vem oculta em “parábolas”. “Quem tem olhos que veja.” Quem tem ouvidos, que ouça.

Nos dias de hoje, com a convivência cada vez mais intensa de civilizações distintas, a compreensão do fenômeno da fé se defronta com inúmeros desafios. O mais urgente deles, a meu ver, é justamente o da incorporação da dimensão do conhecimento, no sentido de oferecer resistência ao crescente divórcio entre inteligência e espiritualidade. E, mais ainda, no sentido de forjar uma “aliança” entre o conhecimento e o sagrado; entre inteligência e fé.

Fé encarada em sua plenitude e totalidade, composta que é de exoterismo e esoterismo, de doutrina e ritual, de arte e cultura — e não este corpo amputado de suas dimensões mais elevadas a que seus críticos muitas vezes se referem. Fenômeno simultaneamente singular e plural, a fé deixa-se ver e permite a participação segundo múltiplos e diferentes aspectos. Aspectos intelectuais e espirituais principalmente, mas também éticos, culturais, sociais e artísticos. Fenômeno plural porque há que se considerar as grandes religiões, como o Hinduísmo, o Budismo, o Cristianismo, o Islã. Cada qual com suas duas dimensões fundamentais: o exoterismo (a religião “comum”, as regras e convenções exteriores) e o esoterismo (a interioridade, a mística, a contemplação).

Há que se reconhecer, ainda, que não é por acaso que as grandes tradições da humanidade estão vivas há séculos, ou melhor, milênios, ainda moldando, em vários graus de comprometimento, os corações e as mentes das pessoas, nos quatro cantos do mundo. Para aqueles que se dão conta concretamente do caráter frágil, instável, transitório e evanescente dos empreendimentos puramente terrenos, a “durabilidade” e universalidade do fenômeno da fé é algo digno de reflexão séria.

Isto resulta claramente do fato de a fé tradicional não derivar em sua essência de ideologias ou interesses puramente humanos, mas de possuir uma base revelada. Só esta matriz transcendente, conjugada à força da tradição, consegue explicar a sobrevivência da religião no mundo contemporâneo. Algo que uma iniciativa exclusivamente humana e “horizontal” não poderia jamais realizar, dada justamente a sua instabilidade intrínseca.

Revelação e tradição são, assim, as duas condições sine qua non da fé. Associando, numa imagem simples, a religião a um curso d’água, diríamos que a Revelação é a fonte de onde brota a mais pura das águas; a tradição é o leito sobre o qual as águas correm, fazendo o rio chegar a sítios distantes sem se perder. Poderíamos também imaginar uma pedra que cai sobre um espelho d´água; sua queda e impacto sobre a superfície figuram a Revelação. As “ondas” que se formam concentricamente em torno deste ponto figuram a tradição; esta última, assim, constitui o principal vetor de continuidade e transmissão, espacialmente e temporalmente, da mensagem original engendrada por este inaudito e prodigioso contato entre o Absoluto e o relativo, o Perene e o temporal.

Finalmente, convém não esquecer que religião deriva, etimologicamente falando, de “re-ligar”; reatar algo que já esteve unido e que foi rompido. A física e a metafísica, a terra e o Céu, Deus e o homem.
Já fizemos referência acima à dimensão sapiencial ou “gnóstica” das diversas espiritualidades tradicionais, ou ao elemento conhecimento, que é o objeto último da inteligência humana. Pois nos parece que, mais do que qualquer outro, é ele que deve caracterizar de especial maneira esta abordagem. É ele que tem sido cada vez mais esquecido nas religiões, a ponto de hoje ser difícil encontrar exposições ou apresentações penetrantes deste legado de sabedoria. O que predomina amplamente são argumentos de apelo puramente sentimental ou moral, que não surtem mais o efeito desejado.

É preciso, igualmente, não ter receio de enfrentar as questões colocadas pela mentalidade materialista e relativista da modernidade — as quais não têm recebido respostas intelectualmente satisfatórias –, procurando apresentar os tesouros do mundo do espírito de uma forma intelectualmente desafiadora.

Cabe finalmente analisar a fé em toda a sua riqueza, com seus aspectos inextirpáveis de sabedoria e beleza, e não apenas como um fenômeno ideológico ou político, que é o mesmo que privá-la de sua substância. Afinal, a espiritualidade verdadeira envolve o homem por inteiro. Pela inteligência, a qual busca por natureza a verdade; pela vontade, a qual quer fazer o bem; pelo sentimento, o qual ama congenitamente a beleza. É por isso que toda religião genuína se dirige a todo tipo de homem. Seja ele de tendência intelectual, para quem o que importa é sobretudo a verdade e o conhecimento. Seja o homem de tipo sentimental, centrado na devoção. Seja, ainda, o homem de tipo “ativo”, seguidor fiel das regras e dos procedimentos tradicionais. Ou, para usar a linguagem da sabedoria da Índia, o homem trilha aquele caminho espiritual que, por vocação, é o seu, seja o do conhecimento (jnâna), o da devoção (bhakti) ou o da ação (karma) – caminhos estes que, diga-se, não são mutuamente excludentes. Ou ainda, desta vez de acordo com a tradição cristã, o homem pode seguir a “via de Marta” (da ação, ou do exoterismo) ou a “via de Maria” (contemplação, ou esoterismo).

Frithjof Schuon

Concluo com uma citação de meu metafísico preferido, o alemão Frithjof Schuon, principal porta-voz da Filosofia Perene no século XX e autor de diversos livros seminais.Ele refletiu com muita originalidade e propriedade sobre a relação entre fé e conhecimento (cito de memória):

O Conhecimento (jnâna ou gnose) é sagrado, mas ele só nos salva com a condição de engajar tudo o que nós somos, isto é, corpo, alma e intelecto, só nos salva quando ele constitui uma via que opera e transforma, e que fere nossa natureza como o arado fere o solo.

 

 
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[1] Como o fez Rama Coomaraswamy em seu estimulante livro recém lançado, “Ensaios sobre a Destruição da Tradição Cristã” (Irget, S. Paulo, 2013) .

 

 

fotos: Red Book- C. G. Jung 

 

Mateus Soares de Azevedo é autor de “Homens de Um Livro Só: o Fundamentalismo no Islã, no Cristianismo e no Pensamento Moderno” (Best Seller, 2008). Traduzido para o inglês e publicado nos EUA por World Wisdom como Men of a Single Book, lá ganhou o prestigiado prêmio literário de Book of the Year de 2011, na categoria Religião Comparada.

Mestre em História das Religiões pela Universidade de São Paulo – USP e pós-graduado em Relações Internacionais pela George Washington University (Washington, EUA), é autor de outros sete livros no campo da religião comparada e da filosofia das religiões. Quatro deles foram traduzidos ao inglês, ao espanhol e ao servo-croata, e publicados nos Estados Unidos, na Espanha, na Argentina e na Croácia. Entre seus outros livros, incluem-se “Religião & Ocultismo em Freud, Jung e Eliade” (Ibrasa, 2011), “A Inteligência da Fé: Cristianismo, Islã e Judaísmo” (Record, 2005) e “Mística Islâmica” (Vozes, 2001).

 

 

 

 

 

 

sao jose

A simpatia de São José, o santo realizador dos desejos por Carolina Chagas

Dia 19 de março é dia de São José. Desde  muito nova (14 anos?) espero por esta data. Aprendi na minha família que este  santo te concede um pedido muito precioso por ano. Desde que o pedido seja justo.

Para tanto, no seu dia, escreva numa folha de papel todas as frutas que você é capaz de reconhecer. Corte cada fruta e  dobre como num amigo secreto. Peça então para o santo o que você tanto quer.  Sorteie um dos papeizinhos. A fruta que estiver ali escrita, você terá de evitar por um ano. E seu pedido será realizado.

Comigo é assim.  Um marido querido? São José me deu. Em troca  de um ano se comer coco. Filhos? Também ele. Confesso que não lembro mais das  frutas que evitei. Estou faz um ano se comer chocolate. Ano passado, sorteei cacau.
Quase chorei. Sou chocólatra irrecuperável. Mas o pedido deu certo. E, de quebra, emagreci dois quilos. Tô quase fundando o Chocólatras anônimos.

Aprendi  na lida que de vez em quando ele não te concede a graça pedida. Mas, no meu  caso, sempre me mandou uma solução melhor do que a que eu tinha desejado.

Dia 19 é segunda-feira que vem. Fica a dica: se tiver um pedido a fazer, faça o sorteio com fé. Com São José do seu  lado, a fé não vai falhar!

 

 

 

Carolina Chagas, 41,  é mestre em Comunicação e Semiótica e
trabalha na coordenação do Jornalismo da Rede TV! Também é autora
de O Livro das Graças, do Publifolha, e de outros seis livros sobre o tema.
Está fazendo a pesquisa do filme Marias, de Joana Mariani (sobre as várias
evocações de Nossa Senhora adoradas na América Latina). Nas horas vagas, curte
os filhos, João Francisco e João Henrique, e faz misturas de ervas para chás _
que divide com o marido João.

 

Criacao do Mundo e expulsao do Paraiso, Giovanni di Paolo

A culpa e o perdão pela Irmã Valentina

 

Fui culpada!… Arrependo-me de ter dito um “sim” para Elza, mas agora já é tarde! Tentarei elaborar o texto. E se tivesse dito um “não”, estaria livre da culpa de negar-lhe uma colaboração ? Questão tão banal ! É possível desbanalizar o enigma da culpa, desvelar este fenômeno universal e humano – demasiadamente humano ?

Um dos grandes desafios do mundo contemporâneo, talvez sem precedentes, seja a diversidade e pluralidade em que estamos mergulhados. Sygmunt Bauman fala em “viscosidade” que significa um novo “habitat” para aquilo que entendemos como verdade, certeza, crença, identidade. O que é ou não certo, o que é ou não verdadeiro hoje se pluralizou… e os filósofos disputam isto, construindo não uma teoria da verdade, mas uma teoria das verdades, no plural.

Nessa perspectiva como falar da culpa ?  Reporto-me, então, a uma perspectiva “religiosa”. Religião não reduzida a um mero ato humano, natural, sem transcendência, mas voltado às fontes, ou seja, à Palavra Reveladora. Sua origem misteriosa ensina ao ser humano qual sua verdadeira origem, sua autêntica morada.Sua manifestação emerge das entranhas da história para brilhar na alteridade do rosto do outro e do Outro que nos transcende – Deus !  Perspectiva da Fé !.

Como pensar a alteridade do Outro que nos transcende ao refletir sobre culpa pessoal, culpa coletiva, arrependimento, remorso e sobretudo perdão ?

Na pluralidade de possíveis respostas evidencio a existência dos Sacramentos na vida da Igreja Católica, e de modo especial os Sacramentos do Batismo, da Reconciliação e da Eucaristia. Eles têm a força de provocar-nos “com a graça ao movimento de rejeição da face escura da ação egoísta e de fazer aumentar a dimensão da bondade, de liberdade, de desprendimento, de saída de nós” para o encontro com o outro e com Deus.

Um poeta indiano diz que convidou Deus para vir a sua casa. Deus veio e esqueceu-se de ir embora. É isso que aconteceu em cada um de nós ! Deus veio no Batismo, o Espírito Santo veio no Batismo e esqueceu-se de ir embora. Continua entre nós: crentes e não crentes. Ele continua falando, acordando-nos e é por isso que a história tem sentido, é por isso que nós temos esperança, é por isso que existe ética ! E quando sentimo-nos culpados, o que Deus, presente em nós, pode nos revelar?

"A volta do filho pródigo" Rembrandt Van Rijn. 1606-1669.

A necessidade do perdão! Aprender a perdoar-se e deixar-se perdoar. O perdão é refazer alguma coisa que, de fato, escapou da nossa mão, já não é nosso. Quando, por exemplo, dirijo a palavra a uma pessoa, essa palavra já saiu de mim. Eu já não sou dona dela. Não posso refazer, destruir. Se eu pudesse fazer isso, não precisaria de perdão. A única realidade capaz de reconstruir é o outro perdoar. Se o outro não perdoar, difícil se redimir. Por isso precisamos de perdão: dado e recebido. Ainda numa visão de Fé, perdão é dom, é gratuidade, é amor. É dele que precisamos, é ele que nos refaz, nos recria até da maior culpa que temos. Precisamos do perdão do outro e do Outro Absoluto que é Deus ! Do Deus de misericórdia que acolhe o filho pródigo com amor de Pai-Mãe !

 

Irmã Valentina Augusto é freira da Congregação das Irmãs Salesianas há 50 anos. Estudou Pedagogia e Filosofia na Fatea de Lorena, SP e Orientação Educacional na PUC/SP. No ano de 1992 estudou em Roma, residindo na Casa Geral das Irmãs Salesianas.

Foi Diretora de Escolas das Salesianas em Lorena, Ribeirão Preto e São Paulo. Atualmente integra a equipe de Educadores da R S E – Rede Salesiana de Escolas – do Polo S. Paulo, na função de “animadora”, cujo escritório fica nas dependências do Liceu Coração de Jesus, Alameda Dino Bueno, 353, Campos Elíseos, SP.