Arquivo da tag: filosofia

01

AFORISMOS por Juliano Garcia Pessanha

 

1.

Na escuridão gelada de Helsinque, uma gaivota cruzou o céu e saudou minha cabeça e, no Chile, vi um ramalhete de flores nascendo entre os trilhos do trem… Descobri então, que viajar é aumentar o desconhecido e, um dia, atravessado por tantos lugares e povoado por tantos países, uma palavra surge, como uma gaivota, saindo do peito-portal.

 

2.

No dia em que a malha vermelha pinicou a pele e corri suado rente ao cipreste – queria ter morrido ali! Embora só muitos anos depois eu tenha escutado que o âmbar é a resina dos pinheiros depositada no fundo do oceano, foi ali, enfiado na malha vermelha, que estremeci pela primeira vez ao olhar a gosma alaranjada num toco de lenha. Queria ter morrido ali, olhando para o chão. Queria ter morrido ali, na respiração do odor inédito e, amparado pela obscuridade, teria poupado minha vida da infelicidade do conceito.

                                                             

foto banner: Frantic- Francesco Calvetti


Juliano Garcia Pessanha é escritor e ensaísta. Publicou a trilogia Sabedoria do nunca (1999), Ignorância do sempre (2000), Certeza do agora (2002) além de Instabilidade perpétua (2009), todos  pela  Ateliê Editorial. Vencedor do prêmio Nascente, promovido pela Abril e USP, nas categorias poesia e ficção, graduou-se em filosofia na USP, onde atualmente desenvolve sua pesquisa de doutorado.

 

 

 

 

a-fita-branca_09 (2)

A FITA BRANCA DE HANECKE por Marcia Tiburi

 

A Fita Branca do austríaco Michael Hanecke tem “o proibido” como sua  lógica de fundo. Quem o assistiu percebeu que os autores dos crimes em torno  dos quais se constrói o roteiro, eram o efeito de um tipo de educação que  implicava em sua performance, ou seja, no modo de atuar de seus agentes, uma  lógica conhecida de todos nós.  Aquela  lógica da hierarquia em que está em jogo a submissão de uns a outros e, às  vezes, alguma forma de revolta dos submissos no grande jogo de poder a que se  reduz a espécie humana.

Esta lógica implica, por exemplo, a desigualdade de classe. Mas também a de gênero.
No caso do filme, demonstram-se estes aspectos, mas surge um outro mais surpreendente e pouco trabalhado na sociedade em geral: aquele que se refere à desigualdade entre  gerações. Será, assim, a questão da “idade” o locus onde desaguará o sentimento de horror aos crimes cometidos.
Se a autoria dos crimes é do grupo de crianças, percebemos no desenho verossímil  feito pelo diretor do filme, que os adultos são a origem do mal. São a origem  do que, deste horror indizível, é o efeito de “mal estar” causado por eles  mesmos. A infância e a juventude nada mais são do que a revolta contra uma  lógica pela qual não podem ser responsabilizados justamente por que não são  origem do mal que cometem. Os adultos são os verdadeiros irresponsáveis, são de  certo modo, infantis, por que não querem aceitar o efeito daquilo que produzem.

O proibido, portanto, não é senão o efeito de uma lógica. Esta lógica se caracteriza por um  acordo. Este acordo é aquele que se dá entre o que, desde Freud, chamamos de repressão,  ou aquilo que não se pode ou não se deve fazer, sobre o qual a sociedade e o que  ele chamava de “super-eu” tem controle; e o recalque, aquilo ao que não se tem  acesso de modo algum, aquilo que não sabemos de nós mesmos.

O recalque diz respeito a uma interdição como que ancestral. Está perdido no tempo.
A  repressão precisa ser exercitada diariamente. Dizer que surge uma prazer da  repressão, ou concordar com o senso comum que inventa a “verdade” de que “tudo  o que é proibido é mais gostoso” é tão superficial quanto dizer que os  “limites” são educativos. Se fossemos discutir isso, o que não cabe no espaço  deste artigo, teríamos que começar por definir o que são “limites” e quem teria  o direito de construí-los. Falamos das crianças e dos jovens, mas sabemos muito  bem que o capitalismo trata o consumo como a inversão do proibido em prazer  perverso. Os adultos (pais e professores) de nossa sociedade são idênticos aos  adultos do filme: oprimem as crianças como se estas fossem pequenos animais  escravizados. Enquanto isso se permitem perversões que proíbem às crianças. Ao  mesmo tempo, educam pela frieza e pela repressão aqueles que, no futuro, serão  idênticos a eles. Maus e vis. A lógica do proibido é usada pelos adultos contra  as crianças, ao mesmo tempo vale os adultos não fazem nada de diferente do que  as próprias crianças. O proibido é justamente o permitido quando a liberdade  não é mais do que uma sombra da própria miséria espiritual. Neste sentido, a  vida adulta é a mera sombra da infância e vice-versa.

Dialética entre perversão e recalque 

Repressão e recalque são, assim, como espessuras diferentes no fio único do proibido.
A  corda em que se amarra a moral até o enforcamento da condição humana. O  recalcado é a parte mais fina, sedosa até, como a teia de aranha que se une gradativamente  a uma cardação mais grossa sem solução de continuidade. A delicadeza do  recalque nos faz sentir nojo e um profundo mal-estar, muitas vezes,  inexprimível. A brutalidade da repressão nos faz sentir uma raiva mais simples. Pela repressão somos capazes de nos vingar, como a menina do filme, a perversa e, no entanto, delicadíssima filha do pastor, que mata o passarinho do pai com uma tesoura.

Pelo  recalque somos capazes de cometer atos infinitamente mais loucos, justamente  porque incompreensíveis, como maltratar uma criança com problemas mentais. A  lógica do proibido implica a dialética entre a  compreensão e a incompreensibilidade das coisas.

É que, por incrível que possa parecer, a repressão tem linguagem.
Ela constrói o proibido  nos deixando saber o que ele é. No filme, por exemplo, a linguagem da repressão  aparece  no discurso do pai que proíbe o filho de masturbar-se amarrando suas  mãos à cama.  A  linguagem do recalque, porém, é muda. Dizer linguagem é apenas um  jeito de se referir à mudez. Ela está, por exemplo, no mal estar finamente  inoculado pelo pastor no próprio filho, quando, na mesma conversa, ele conta  uma história terrível sobre outro garoto masturbador que teria, em função de  sua prática, definhado à morte. A masturbação, sabemos desde Foucault, era uma  prática monstruosa naquela época e, para muitos, é até hoje. Mas o recalque não  é a simples repressão, é o envenenamento, é o miasma que o menino terá que  carregar para sempre sem poder dizer nada.

Outro exemplo, nos ajuda a entender melhor ainda. A repressão está na ordem dada pelo pai, em outra cena, de que todos irão para a cama sem comer. O recalque, no entanto,  como teia finíssima, surge na chantagem emocional do pai, especialista  sacerdote da moral, em promover sentimento de culpa. Afinal que, informa os  filhos, todos irão para a cama sentindo-se muito mal pelo que eles fizeram. E o  que fizeram? Ora, nada demais, apenas demoraram a chegar para jantar. As  crianças terão que passar a vida com aquela introjeção de que fizeram mal ao  pai porque não agiram como ele queria. Pais invasivos e  autovitimados são  sacerdotes da moral muito espertos.

A repressão é da ordem de uma lei falada. É aquilo que se pode entender de um grito, de uma violência declarada, mas não da parte fina da violência, do seu miasma indizível, da sombra que fica por trás da letra. O recalque é o resto,  o resquício do que, de um grito, de um soco, de um espancamento, de um  assassinato, não pode ser compreendido, não porque não se entenda a sua fonte,  mas porque seu efeito venenoso é contínuo no tempo. Não se trata, no entanto,  de um efeito simbólico, mas de um efeito antissimbólico, justamente aquele que  proíbe a constituição de relações.

No filme, o recalque é a lógica contínua da destruição e da autodestruição que une pessoas em família, justamente enquanto as desune. Não é à toa que o filme se passa no instante anterior à eclosão da primeira guerra mundial. Não é à toa que o  narrador ligará aos fatos estranhos ocorridos durante o século na Alemanha,  local onde a flor doentia do nazismo pode desabrochar em toda a sua exuberância  demencial.  Tudo começa na família, a mais criticada das instituições e que, no entanto, não conheceu até agora a autocrítica.

 

 


Marcia Tiburi é graduada em filosofia e artes e mestre e doutora em filosofia pela  UFRGS. Publicou diversos livros de filosofia, entre eles “As Mulheres e a  Filosofia” (Ed. Unisinos, 2002), “Mulheres, Filosofia ou Coisas do Gênero”  (EDUNISC, 2008), “Filosofia em Comum” (Ed. Record, 2008), “Filosofia Brincante”  (Record, 2010, indicado ao Jabuti em 2011), “Olho de Vidro” (Record 2011) e  “Filosofia Pop” (Ed. Bregantini, 2011). Publicou os romances Magnólia (2005,  indicado ao Jabuti em 2006), A Mulher de Costas (2006) e O Manto (2009) da  chamada Trilogia Íntima. Em 2012 lançou seu quarto romance “Era meu esse Rosto”  (Record). É professora do programa de pós-graduação em Educação, Arte e  História da Cultura da Universidade Mackenzie e colunista da revista Cult.

Site: www.marciatiburi.com.br

blog: http://filosofiacinza.wordpress.com/

 

 

Rodrigo matez

UM COLAR DE INSTANTES por Rodrigo Maltez Novaes

Vilém Flusser provoca.  Um provocar do pensamento que se desdobra em várias facetas.

Em 1962 publicou no  jornal O Estado de São Paulo o ensaio titulado “Do tempo e de como ele acabará” , onde explora o conceito do tempo objetivo e subjetivo. Este ensaio foi escrito e publicado após ter escrito o livro “A Historia do Diabo” (1958),     que publicou no Brasil somente em 1965. Mas foi neste livro que iniciou sua exploração do conceito do tempo usando a figura do Diabo
como  alegoria. Mais tarde, durante as décadas de 70 e 80, desenvolveu outra imagem do tempo, baseada na física quântica e informática–o tempo como abismo. Criou uma imagem do tempo que se desmancha na zero-dimensionalidade,composto de calculi que agrupam e desagrupam dando forma à tudo o que existe.

Esta é a imagem de um tempo amorfo,que não concebe o principio de um começo, meio e fim e que caracteriza a realidade pós-histórica. Mas neste texto inicial de 62, Flusser explora as diferentes correntes de pensamento e suas interpretações do tempo, e por final cria  um primeiro esboço de uma teoria própria.

Em sua divisão do tempo enquanto tempo objetivo e subjetivo, o tempo da matéria e o tempo da memória, apresentam-se para  Flusser duas imagens claras: a imagem de um tempo linear de eventos sucessivos e a imagem de um tempo guardado na memória,  de eventos que se misturam, quebrando assim a linha do tempo vivido. Diz ele portanto que a morte é o limite do tempo subjetivo e a entropia o limite do tempo objetivo. Na morte do organismo que também significa morte térmica, sugere a imagem de um ponto final.
Mas é possível ir-se além desta imagem se apenas trocarmos o angulo de visão.

Por exemplo:  hoje em dia é possível formular o conceito de que a entropia é na verdade o verdadeiro objetivo da vida, e não a vida em si.
Ou seja: sem decadência orgânica não haveria vida na terra. A vida existe para que possa ser decomposta, assim servindo de combustível para vida nova. Pesquisas na área da biologia, mais especificamente em relação à decomposição da matéria orgânica,  demonstra que durante a decomposição os átomos que constituíam o  organismo são reciclados e retornam em novos organismos vivos. Ou seja: átomos  são continuamente reciclados. Todos os átomos que formam nosso organismo já  passaram por vários outros organismos durante a historia da Terra. Seria  portanto perfeitamente possível especular sobre a possibilidade de conter em  nossos corpos átomos que um dia já fizeram parte de diversos outros organismos,  tais como dinossauros, peixes, plantas, etc. Não só atravessando as barreiras  das espécies (se realmente somos essa mistura de átomos que já foram tantas  outras coisas, como que ainda podemos manter uma visão antropocêntrica em  relação à vida?), mas também mais importante, a barreira do tempo. Portanto  de um ponto de vista biológico atual, o modelo do tempo cambia novamente. Mas
desta vez o modelo não pode ser tão objetivo como o da roda ou o da flecha em  voo. Neste novo modelo, não só o modelo do tempo circular, como também o modelo  do tempo em linha reta se desmancham e o que surge é a imagem de um tempo  amorfo, caótico – a visão da decomposição material se vista do ponto de vista  atômico e subatômico, demonstra que assim como Flusser propõe, o tempo  compõe-se de instantes (pérolas), mas proponho que estas não se alinham em fio  formando um colar assim como ele sugere, porque colar ainda sugere  não
só linha  reta, de eventos sucessivos que seguem o fio, mas também moção circular.

Nesta visão de tempo em campo zero-dimensional, tanto o tempo objetivo como o subjetivo dissolvem-se um no outro. No entanto, do ponto
de vista subjetivo, ainda tenho a experiência do tempo  de forma linear – o que vivi de acordo com os anos e com a sequência de  eventos.
E com isso, sim, poder-se-ia dizer que o tempo adquire esse aspecto “colar  de pérolas” ao pensar ou tentar visualizar o tempo  através da mente. Mas o  problema que se apresenta rapidamente é que uma vez passado ao nível da  memoria, o tempo se desmancha, o fio  do colar rompe e as pérolas voam soltas  pelo espaço da memoria. Lá, até mesmo as pérolas se desmancham, e assim como átomos,  revelam um mundo interior vasto, um cosmos. De fato, coisas acontecem a mim. Mas  a partir do momento em que essas “coisas”,  “eventos” ou qual  seja o termo preferido, passam a habitar a dimensão da memoria, lá nem o modelo  linear nem o circular dão conta  de representar para mim o “tempo”.
Na  memoria, a imagem do tempo como “campo” é mais adequada. Porque lá, após o  desmanche do  colar e a desintegração das pérolas,
não se trata mais apenas de  fluxos ou processos, mas também de agrupamentos, amalgames, misturas,  e seus  reversos. Aquilo que vivi aos quatro anos de idade se mistura com aquilo que  vivi ontem e ainda aquilo que projeto como possíveis vivências futuras. O tempo  objetivo
impõe-se à mim, mas o tempo subjetivo não só parte de mim, mas está  sujeito à mim, ou seja, eu o  crio e descrio ao sabor do momento.
E dentro disto  surge a questão da realidade, pois se o tempo objetivo que impõe-se à mim cria  a realidade, então eu, ao subjetivar esse mesmo tempo e ao fazer dele minha  matéria prima, crio então minhas realidades  ao meu próprio ritmo.

O raciocínio portanto sobre a possível estrutura do tempo demonstra claramente, assim como Flusser sugere,  que o tempo acabará
através da razão. Ou seja: ao desenvolvermos a cada dia, “melhores” e mais sofisticados  modelos para compreender o tempo,
acabaremos portanto desmanchando-o. Mas a fé na imortalidade à qual  Flusser aponta, permanece, independentemente de qual seja
a estrutura vigente da nossa visão do  tempo. Porque seja essa qual for, não altera a nossa crença e esperança de que  o futuro se fará
presente mesmo quando formos passado.

imagem banner: Jean- Michel Basquiat/ Riding with dead

 

Rodrigo Maltez Novaes é formado pela University of Gloucestershire e pós-graduado pela University of the Arts na Inglaterra, é artista plástico e Doutorando na European Graduate School e na Universität der Künste Berlin. Atua nas áreas de pintura, filosofia, mídia e comunicação e atualmente vive e trabalha em Berlim
onde desenvolve projeto de pesquisa sobre a obra e o pensamento de Vilém Flusser junto ao Acervo Vilém Flusser com a orientação do Prof. Dr. S. Zielinski.
Em 2011 publicou em New York, pela Átropos Press, sua tradução da primeira versão em inglês da obra Vampyroteuthisinfernalis de V. Flusser.

www.posteverything-neonothing.com