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ARTES MASTURBATÓRIAS por Stéphane Malysse

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ARTES E MANIAS DA PRÁTICA MASTURBATÓRIA

 

Nem precisei de revisão técnica ou de manipulação erótica: a masturbação é um assunto interessante e ponto G. Para tocar no assunto não precisa se tocar de novo. Cada um adapta seus gestos ao seu sexo e acaba inventado cenários funcionais que não lhe deixam a desejar.
Neste artesanato íntimo é a repetição da prática que faz o trabalho ficar bom.
Posição da mão, ritmo, pressão, lubrificação, pontos acessíveis com a mão livre, imaginação, pessoas reais ou virtuais convidadas a participar de longe ou de perto, cada micro-gesto é sabidamente elaborado ao fio das manobras e das suas repetições para criar o clima e atingir o clímax: o gozo (não o lacaniano, mais o seu próprio).
Sejamos sinceros e sem falso puritanismo… quando se trata de masturbar-se, cada um de nós sabe muito bem o que faz com seus instrumentos. Ao tocar levemente no assunto, uma masturbação intelectual se ativa rapidamente, oferecendo uma grande variedade de imagens eróticas e  éticas que se interpenetram sem parar. Que prazer… Que bom saber que a masturbação não deixa ninguém nem surdo, nem cego, nem estéril. Hoje não se fala mais de polução noturna ou Carte de France (como se chama na França, referindo-se ao desenho hexagonal das propulsões aos quatros pontos cardinais). Os aparelhos elétricos, mecânicos ou outras Fitas Brancas já não se usam mais (Graças ao fim de Deus!)

Totalmente liberada, democratizada e desmistificada, a masturbação está na moda e pode ser feita on-line.

Nesse momento privilegiado consigo mesmo, o ser humano experimenta uma sensualidade intensificada, alargada e alongada. Ao mesmo tempo relaxante e estimulante, a masturbação aparece hoje como um ato de resistência do indivíduo aos estímulos eróticos que o rodeiam a qualquer hora e em qualquer lugar: uma forma de resistir à pressão social e sexual, uma derivaçao sensual do individualismo generalizado, um hedonismo vapt voupt. Para ajudar nossos artesões sem imaginação, a rede de internet propõe cardápios variados e ajuda para encontrar seu tesão perdido. Do iphone ao ipad, da tela tátil ao cibersexo, muitos se tocam em publico sem perceber que este gesto remete direitamente à outros: nos trens, nos aeroportos e outros lugares públicos, podemos observar muitos gestos masturbatórios.

Nada melhor que uma boa sessão de  auto-erotismo para evitar os acidentes de percurso da libido contemporânea: com a masturbação, evite a promoção sexual. Num mercado sexual saturado de amantes potenciais, reais ou virtuais, a masturbação pode ser apresentada como uma opção para manter o seu eixo social e sexual na boa direção, não gastar dinheiro à toa e não colocar sua saúde mental e física à risco por algumas  sensações alheias. Artistas como Vito Acconci (Seedbed) ou Marcel Duchamp (Paisage fautif) já se tocarão muito bem no assunto e compensarão com material genético suas relações sociais frustradas: Vito Acconci se masturba em baixo do chão da galeria onde ele não está expondo nada, interagindo com seu público de forma discreta e seminal, enquanto Duchamp assina sua obra Étant donné com seu material genético numa tentativa de esvaziar seu desejo pela artista brasileira Maria Martins…

Magia da masturbação que nos permite criar sessões íntimas com quem desejamos e até criar monstros libidinosos, misturando à la carte pessoas reais e imaginárias, vistas ou conhecidas, vivas ou mortas. Ao mesmo tempo que é uma atividade manual e artesanal, a masturbação é uma atividade intelectual colocando em ação o nosso maior órgão sexual, nosso cérebro e a sua imensa reserva de imagens-corpos… Se o cérebro não tem gênero, as técnicas de  masturbação são muito diferentes para os homens e para as mulheres, e variam também muito de um para outro. Na verdade, nada mais complicado (tecnicamente) do que masturbar alguém desconhecido. Sua técnica favorita, afinada ao longo da sua vida,  não deixa muitas possibilidades de inovação… Em termo de masturbação, o homem é sempre clássico; ele (ou ela) repete geralmente a técnica artesanal que mais da certo: a sua própria. Treinando manualmente desde a sua vida uterina, o ser humano trabalha na sua técnica com muita aplicação, ciente que “o corpo é o primeiro e o mais natural instrumento do homem” (Mauss),  que a sua masturbação é a parte mais técnica de todas as técnicas sexuais. Na  maior parte do tempo, o ser humano usa apenas suas mãos (aliás   etimologicamente, masturbação quer dizer sujar  as próprias mãos ) mais numerosos acessórios podem ajudar-lo nessa   tarefa. Entre o Cyclone A10, a SOM  (Super Onanism Machine) e a mão, muitas pessoas não hesitam à por a mão na   massa para não ser tratados como massa no liquidificador.

Mais da fato, qual é a função sexual da  masturbação? Trabalhei no meu Diário acadêmico (2009) a noção de intersexualidade, explicando que “a sexualidade de uma pessoa depende de quem ela deseja (sexualidade fantasiada), de como ela mostra socialmente sua opção  sexual (sexualidade assumida) e do que ela faz realmente com seu sexo e seu  corpo (sexualidade praticada).” Assim  a sexualidade de uma  pessoa não é fixa mais se fixa no Outro, sempre evoluindo entre esses pólos  sexuais instáveis. Penso que a masturbação tem um papel importante na fixação  da sexualidade de uma pessoa, pois ela religa manualmente esses três pólos  volúveis e permite estabelecer uma constante através da repetição dos gestos e  das fantasias . Quando Lacan diz que “a  relação sexual não existe”, seria bom completar explicando que hoje em dia  só existe “ralação sexual”, pois numa  sociedade como a nossa, onde o orgasmo  obrigatório, a tirania do genital  e a ditadura do coito dominam, uma  espécie de produtivismo do gozo transforma  a sexualidade em um trabalho braçal, onde ralar a cenoura, por a mão na massa  ou dar um jeitinho são meros gestos de auto-estimulação que permitem manter a  (de)cadência. Vemos que nossa sexualidade é um trabalho manual, intelectual e  que manter à libido no ponto exige muitas manipulações… Mas quem se manipula  mais ?

Uma pesquisa quantitativa realizada nos Estados-Unidos  em 1990 aponta resultados interessantes sobre os fatores que influenciam a  frequência da masturbação:

  • O gênero: os homens se  masturbam mais que as mulheres. (Parece verdade)
  • A idade: os jovens se  masturbam mais que os idosos. (Faz sentido)
  • A origem étnica: os  afro-americanos se masturbam menos que os outros grupos étnicos.(Na Bahia  tive uma  impressão bem diferente…)
  • A religião: os católicos se  masturbam menos que os outros grupos religiosos. (Ai, a má fé católica   parece ter entrado em pratica…)
  • O estatuto marital: as pessoas   não casadas se masturbam mais do que as casadas. (E se fosse o   contrário?  e se a masturbação   fosse justamente uma forma de manter o casamento sem pular a  cerca?)
  • O nível de educação: mais diplomas, mais elas se masturbam. (ainda bem que não publiquei   meu currículo com esta matéria.)
  • A orientação sexual: os   bissexuais se masturbam mais que os homossexuais que se masturbam mais que   os heterossexuais.

Agora, cada um pode fazer a sua contabilidade   e ver onde se encaixa realmente. Mas, não precisa ser antropólogo para ficar   desconfiado  dos resultados deste estudo. Ao final, todo mundo sabe que,   quando se trata da sexualidade “realmente praticada”, as mentiras, as omissões   e outras artimanhas dominam os nossos discursos. Na auto-sexualidade, a
contabilidade é flexível e a ma fé constante. Com a progressão das relações   temporárias, da instabilidade e do zapping dos corações, a masturb-ação torna-se um paliativo do sexo-proeza e nunca deixa   ninguém na mão…

 

 

Thomas W. LAQUEUR, Solitary  Sex : A Cultural History of Masturbation, New York, Zone Books, 2003
Rachel P. MAINES, The  Technology of Orgasm : “Hysteria”, the Vibrator, and Women’s Sexual  Satisfaction, Baltimore (MD),The Johns Hopkins University Press, 1999
Stéphane MALYSSE, Diário  acadêmico, Estação das Letras e Cores, SP, 2009.Marcel MAUSS, As técnicas  corporais,  Sociologia e Antropologia  (1950), Cosak&Naify, 2007.

 

Stéphane Malysse é antropólogo e artista. Doutor em Antropologia
Social pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS /Paris).
Pesquisador associado do departamento de Antropologia da Goldsmith (Londres),
lançou seu primeiro livro, Diário Acadêmico pela editora Estação das Letras e
Cores (SP, 2008). Professor de Arte e Antropologia na E.A.C.H / USP Leste onde
seu website de antropologia das aparências corporais, Opus Corpus está
hospedado: http://www.each.usp.br/opuscorpus/
mulher menina n a arvore

Dia Internacional da mulher

Em 2012,  as mulheres na sua grande maioria ainda  ganham menos que os homens , têm que lavar a louça do almoço  de domingo mesmo tendo  a mesma jornada de trabalho que o homem, sofrem violência física por parte de homens que elas julgavam serem seus companheiros.

 Desde muito pequenas devem ficar muito espertas, os joelhos sempre juntos, compostura no sentar, nunca se sabe onde está o predador . São importunadas em metrôs, ônibus e   devem agradecer se quando estupradas,  pelo menos não forem assassinadas.

 Em alguns países, ter filha mulher pode signifcar um tributo tão alto para o pai ( dotes, etc.) que a opção do aborto já é contemplada no preço oferecido para o ultrasom , caso o sexo do feto seja feminino. E muito mais.

Nós mulheres, estamos fazendo uma bela e difícil jornada no caminho da  afirmação da nossa  identidade. Seres humanos plenos  com direitos equivalentes aos exercidos pelo mundo masculino.

Dia Internacional da mulher – 08 de março de 2012

david drew zingg

 

 

 

 

 

 

 

jornal das moças, cintura

O lugar de mulher é no lar. O trabalho fora de casa masculiniza

Irresistíveis estas frases retiradas de revistas femininas dos anos 50 e 60.
O registro  de uma mídia exclusivamente feminina,  que nos dá a perspectiva de como caminhou a questão do gênero e do sexo nas últimas décadas.
-Não se deve irritar o homem com ciúmes e dúvidas. (Jornal das Moças,1957)

– Se desconfiar da infidelidade do marido, a esposa deve redobrar o seu carinho e provas de afecto. (Revista Claudia,1962)

– A desordem numa casa de banho desperta no marido a vontade de ir tomar banho fora de casa. (Jornal das Moças,1945)

– A mulher deve fazer o marido descansar nas horas vagas, nada de incomodá-lo com serviços domésticos.(Jornal das Moças,1959)

– A esposa, depois de casada, deve vestir-se com a mesma elegância de solteira, pois é preciso lembrar-se de que a caça já foi feita, mas é preciso mantê-la bem presa. (Jornal das Moças,1955)

– Se o seu marido fuma, não arranje discussões pelo simples fato de cair cinza no tapete. Tenha cinzeiros espalhados por toda casa. (Jornal das Moças,1957)

– A mulher deve estar ciente que dificilmente um homem pode perdoar uma mulher por não ter resistido a experiências pré-nupciais, mostrando que era perfeita e única, exactamente como ele a idealizara. (Revista Claudia,1962)

– Mesmo que um homem consiga divertir-se com sua namorada ou noiva, na verdade ele não irá gostar de ver que ela cedeu. (Revista Querida,1954)

– O noivado longo é um perigo. (Revista Querida,1953)

– É fundamental manter sempre a aparência impecável diante do marido. (Jornal das Moças,1957)

– O lugar de mulher é no lar. O  trabalho fora de casa masculiniza.(Revista Querida, 1955)

 

 

Agora está é incrível. Alguma jovem hoje em dia gostaria de adquirir quilos adicionais para ter mais sex appeal?   E do que se trata este ironized Yeast?

 

fonte: http://carissimascatrevagens.blogspot.com/

 

 

 

 

opus

INTER-SEXUALIDADES: na cruzada dos novos gêneros, por Stéphane Malysse

 “Tenho uma pele de anjo, mas sou um lobo; tenho uma pele de mulher, mas sou um homem; tenho a pele escura, mas sou branca… Nunca tenho a pele do que eu sou, pois não há exceção à regra, nunca sou o que tenho.” Eugénie Lemoine-Luccioni

Ao entrar no século XXI, os humanos descobrem que tiveram filhos com homens e mulheres de Neandertal (este hominídeo das cavernas extinto) e que o cruzamento ou relacionamento amoroso teria ocorrido 50 mil anos atrás, quando grupos de Homo Sapiens saídos da África chegaram ao Oriente Médio pela primeira vez. A decifração do genoma do Neandertal surpreendeu a comunidade cientifica demonstrando geneticamente as mestiçagens originárias: o cruzamento entre Neandertais e seres humanos. Ao entender que, entre quase 7 bilhões de pessoas vivas em 2010, houvesse 50 milhões de descendente dos Neandertais, os humanos reconsideram a mestiçagem e reconhecem que alguns preconceitos não resistem mais à Ciência.

Ao contrario do esperado pela opinião pública, são os Europeus e os Asiáticos (e não os Africanos) que compartilham hoje, mais genes com os homens de Neandertal; o que coloca definitivamente em xeque as teses racistas do século XX. De fato, nos séculos XX e XXI, a mistura sem precedente das culturas (e dos genes), as diversas mestiçagens e migrações internacionais, as novas visões e ideologias do corpo, do espaço e do tempo, transformam o imaginário da Beleza, seus códigos e suas praticas, de forma inédita na historia da Humanidade.

Para os antropólogos, o corpo do recém-nascido é como um livro em branco, uma ficção cultural (David Le Breton) que cada indivíduo vai atualizar ao relacionar-se com a sua cultura e com os outros, através do que Marcel Mauss chama de imitação prestigiosa.

Através dessa incorporação individual da cultura, cada pessoa constrói à la carte a sua identidade a partir das múltiplas escolhas que deve fazer para integrar-se no seu grupo cultural. Multiplicando as suas escolhas conscientes e imitações inconscientes, o individuo se posiciona em relação à cultura na qual  vai crescer e transforma o seu patrimônio genético em uma constelação de especificidades multifacetadas que o tornam ao mesmo tempo único e múltiplo, já que sua personalidade é fruto de uma interação com os demais. Gestos, conceitos, pensamentos, normas… não estamos sozinhos no nosso corpo.

Hoje, numa sociedade que mostra cada vez mais suas ambições igualitárias, a necessidade de codificação, de afirmação e de apresentação das identidades sexuais se intensifica e se diversifica, tornando obsoleta a simples menção de sexo nas carteiras de identidade. Com a globalização e o fim das diferenças étnicas e nacionais, o gênero se torna o único viés de criação de identidade multiplicando as possibilidades de interações entre o Masculino e o Feminino. A construção da identidade sexual é doravante muito mais complexa e modulável: ser um homem ou uma mulher não significa mais nada em si, pois é a construção de uma androginia personalizada que vai definir a relação de cada individuo com a nova gramática do gênero. Todo corpo contém inúmeros outros corpos virtuais que o indivíduo pode atualizar por meio da manipulação de sua aparência e de seus estados afetivos.

Foto: Nan Goldin

Stéphane Malysse é antropólogo e artista. Doutor em Antropologia Social pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS /Paris). Pesquisador associado do departamento de Antropologia da Goldsmith (Londres). Acabou de lançar seu primeiro livro, Diário Acadêmico pela editora Estação das Letras e Cores (SP, 2008)

http://www.each.usp.br/opuscorpus/