Arquivo da tag: jornalismo

recomecos-lina-albuquerque

RECOMEÇOS por Lina de Albuquerque

Um acidente arrastou toda a minha família para a névoa

de uma tarde chuvosa do começo de 1996. No dia 2 de janeiro,

um caminhão se chocou na estrada contra o carro em que

estavam meu pai, minha mãe, meu único irmão e um amigo

da família. Morreram todos. Depois do trauma, continuei vivendo

com bem poucas e cada vez menos certezas, entre elas

a de que jamais encontraria explicação para a tragédia que

se abateu sobre o meu destino. Devo dizer que nunca cultivei

amargura nem deixei de celebrar a vida. Também não fiz estardalhaço

da dor. Procurei manter — senão oculto, pelo menos

em silêncio — um desespero contido que com o tempo

foi se diluindo em lembranças de uma família especial com a

qual convivi durante 31 anos.

Quando o editor Luís Colombini me convidou para discutir

com ele, numa mesa de restaurante, o projeto de um livro

contendo depoimentos de perdas, viradas e superações, eu já

levava uma resposta para ser servida depois do café. Estava

decidida a declinar do convite, naturalmente sem estragar

o jantar. Mas quis ouvir mais detalhes da proposta que ele

me mandara antes por e-mail. Talvez por tudo o que passei,

e também pelos nunca lidos manuais de autoajuda levianamente

otimistas que ganhei de gente bem-intencionada, não

me sentia a pessoa mais adequada para colher depoimentos

com conteúdo tão sensível. Teria preferido que ele me convidasse

a escrever um livro cômico. É paradoxal, mas sempre

gostei de fazer os outros rir. E acho que também gosto mais

dos tipos que me fazem rir.

“Você é a pessoa certa para fazer este livro”, sentenciou

um confiante Colombini, antes mesmo de chegar o couvert.

Eu não perguntei e ele também não revelou por quê. Não

precisava. Sem falar nada, foi então ficando claro para mim

que os motivos que me faziam desistir de um projeto como

aquele eram os mesmos que fizeram com que ele me convidasse

para a empreitada. O próprio Colombini era, naquela

noite, a personificação do entusiasmo. Ele havia recentemente

trocado uma longa e promissora carreira na grande

imprensa para assumir o risco de viver do que mais gostava

de fazer: editar e escrever livros. Meu futuro editor também

estava se reinventando. E, antes de pedir o cardápio, despejou

na mesa uma lista de sugestões de nomes que poderiam

entrar no livro que nasceu batizado de Recomeços, título

que a princípio me soou meio clichê, mas depois

me levou a rever um bobo preconceito pseudoliterário contra coisas

simples,diretas e claras, justamente a essência do bom jornalismo.

Eu me lembrei do caso de uma antiga cozinheira

da casa de meus pais que aprendeu a ler aos 51 anos.

O método adotado foi colar, numa cartilha improvisada com

papel de pão, os recortes dos dizeres das embalagens dos

produtos que usava para trabalhar. Maria França, o elegante

nome daquela ex-cortadora de cana, oito filhos e 18 netos,

acabou ficando de fora deste livro. A sua saga não seria

menos surpreendente do que a de um desses 26 depoentes,

como o pedreiro e coletor de livros que se alfabetizou aos 18

anos e ganhou apoio do BNDES para construir uma biblioteca

com projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer.

Que fique logo esclarecido: naquele jantar, antes da primeira

garfada, eu já tinha mudado de ideia. Mal topei o desafio,

corri atrás dos depoimentos iniciais. Tive o privilégio

de ouvir ao vivo histórias extraordinárias de superação, cuja

tônica pode ser expressa em uma frase de Georgette Vidor,

a técnica de ginástica artística mais premiada do país:

“Quanto maior o limite, maior o desafio”.

Georgette Vidor

Os limites podem ser físicos, como no caso de Georgette,

que perdeu o movimento das pernas num acidente de ônibus,

 ou sociais, como de Luislinda Santos, primeira juíza negra dos tribunais brasileiros.

Filha de uma família humilde, a juíza baiana foi humilhada

na infância por um professor que, diante de toda a

classe, disse-lhe que era melhor ela “parar de estudar e servir feijoada em casa de branco”.

Luislinda Santos

Sou grata a todas as pessoas que se dispuseram a abrir a

agenda e a alma para falar de momentos difíceis de suas vidas,

assim como a José Hamilton Ribeiro, um dos mais respeitados

jornalistas brasileiros, que gentilmente se ofereceu

para escrever seu depoimento de próprio punho.

Danuza Leão

Tive também recusas, como a de Danuza Leão, que afirmou

ter esgotado o assunto da morte do filho Samuca no seu

livro de memórias Quase tudo (Companhia das Letras, 2005)

para, lembro que falou com peso na voz, “nunca mais ter de

voltar a ele”. Marina Lima também considerava terminada

a sua “missão”, para usar uma palavra da sua assessora, de

contar ao público como controlou a depressão que quase reduziu

a pó o seu principal instrumento de trabalho: a voz

de cantora. O publicitário Washington Olivetto não se sentiu

confortável ao recapitular o sequestro que o manteve 53 dias

num cativeiro, mas fez questão de enviar sua contribuição:

a cópia da orelha que escreveu para um livro de autoria de

quatro médicos (Sergio Andreoli, Marcelo Feijó de Mello,

Jair Mari e Rodrigo Bressan) especializados em estresse pós

traumático. Olivetto foi considerado pelos especialistas um

“recuperado-símbolo”. Ele ameniza a sua responsabilidade:

“Sinceramente, como nunca me considerei completamente

são, nem antes, nem durante, nem depois do episódio, não

posso me considerar absolutamente curado agora. Por fim,

recomendo a leitura do livro que se parece, e muito, com a

vida: não é fácil, mas é fascinante”.

Washington Olivetto

Entendo e respeito a opção pelo silêncio. Eu mesma costumo

falar pouco sobre a drástica experiência por que passei.

Hoje já posso falar um pouco mais, falo o tanto quanto

me perguntam, o que ainda é pouco.

Não esgotei o tema nos divãs, onde aliás nem me deitei

com desejável assiduidade, nem no ombro de amigos fiéis.

 O que fiz foi ter praticado bastante exercício físico — sou

 viciada em endorfina — e aumentado os vínculos com a vida:

 amigos, amores, viagens, leituras, praias, cachoeiras.

Com o tempo, ainda me permitia o prazer do ócio: perdendo a

culpa de muitas vezes não fazer nada, reduzi a ansiedade e

 transformei tempo perdido em tempo recebido.

Jogar conversa fora é tão bom quanto jogar cartelas

de antidepressivos e ansiolíticos no lixo, quando

finalmente é chegado esse tempo.

Quando terminava de escrever este livro, tive a sorte de

conhecer a médica e terapeuta Vânia Aguiar. Na esperança de valorizar

o livro, convidei-a a conversar sobre depoimentos aqui contidos.

Ela aceitou e suas palavras em muito enriqueceram o

conteúdo dos textos. Em seus comentários, ela usou certos

termos que, devo confessar, continuam me causando alguma

implicância, como “processo de cura”, “autodesenvolvimento”,

“resgate da individualidade” e outros afins do misterioso

dicionário terapêutico. Mas agradeço a ela por ter me reconciliado

com outra palavrinha que antes julgava pernóstica e

agora se tornou quase minha amiga: “resiliência”. Para quem

não conhece o significado, que é derivado da Física, resiliência

é a capacidade dos corpos de recuperar sua forma original depois

de um forte impacto, uma deformação, um trauma. Este

livro está cheio disso.

Jerome Salinger

O escritor Jerome D. Salinger autor de O apanhador no campo de

centeio,uma metáfora da perda da inocência e um dos livros que

 marcaram minha adolescência, disse que as pessoas que mais valiam

 a pena conhecer já tinham perdido alguém importante.

Eu tenho amigos bem jovens, com quem

adoro conviver, que ainda não perderam nada de significativo

na vida. É claro que gostaria de ser como eles. Há um

atraente frescor em quem ainda não aprendeu — se é que se

aprende — a fazer despedidas, da mesma forma que existe

um fundamental sentimento de conquista para quem “conseguiu

seguir em frente de cabeça erguida”. Relendo essa

última expressão, o jargão me incomodou. Mas alguém conhece

uma postura mais confortável e profilática de tocar em

frente sem perder a cabeça?

 

 

Lina de Albuquerque completou o curso de Jornalismo na PUC-SP e deixou pela metade o de Filosofia e um mestrado na USP. Trabalhou nas revistas Veja, Claudia e nos jornais O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil. Foi subeditora de IstoÉ e editora da revista Marie Claire, onde ganhou o primeiro prêmio Ayrton Senna de Jornalismo, com a reportagem A Dança das Severinas.

http://bit.ly/recomeços
www.livrariasaraiva.com.br
https://www.facebook.com/#!/pages/RECOME%C3%87OS/357556657667524?fref=ts

 

caio iemen1 (2)

A BOLA DA VEZ por Caio Vilela

Sou fotografo, jornalista e geográfo e nos últimos dez anos viajei pelos quatro cantos do planeta
produzindo
reportagens para diversos jornais e revistas nacionais e internacionais. Aproveitei cada uma dessas vivências para fotografar flagrantes de peladas em 50 países diferentes.

Neste projeto entitulado “A bola da vez”, retratei  uma reunião de histórias e imagens nas ruas e estádios de
cidades e lugares improváveis no Iêmen, Mianmar, Palestina, Jordânia, Egito, Brasil, Equador, EUA, Antártida entre outros, mostrando que a paixão pelo futebol é capaz de unir todos os povos.

 

 

Para mim, o futebol é idioma universal, uma força de integração entre os povos,  religião para alguns, lazer para outros.
Incluo aqui o comentário que o jornalista e comentarista esportivo Juca Kfouri fez sobre o meu  trabalho :
“Que viagem! Caio Vilela foi passando. Passou por  um, por dois, por três, por quatro, por cinco, por 26!, e marcou um golaço. Ao vivo e em cores.  Vinte e seis partes diferentes do mundo! Tão diferentes como os  Estados Unidos e a China, mas tão iguais quando em torno de uma  bola de futebol.
Pelas esquinas
do mundo, o fotógrafo foi  registrando cenas improváveis, por mais prováveisque sejam as cenas que só o futebol proporciona. Brasil e Argentina. Vietnã e Camboja. Nepal e Nova Zelândia. África do Sul,  é claro, o país da  próxima Copa, e Uruguai, o da primeira.  Se é um perna de pau confesso com a bola nos pés, o artista vira craque com uma câmera nas mãos. E compartilha generosamente com você aquilo que registrou com raro talento e sensibilidade, cada página uma surpresa, cada cenário um gol de placa. Ora, por que  perder tempo com palavras? As imagens, as imagens que vêm  aí valem mais, muito mais que…”

Caio Vilela nascido em São Paulo pouco antes da Copa de 1970, é  fotógrafo, jornalista e colaborador de diversos veículos de mídia no Brasil e no  exterior. Produziu reportagens em mais de 60 países em todos os continentes, inclusive na Antártida, para a Folha de S.Paulo, Rolling Stone, Playboy, Elle, TAM nas Nuvens, Superinteressante, Viagem & Turismo, Horizonte Geográfico, Vida Simples, Jornal da Tarde e outras publicações.Graduado em Geografia pela USP, iniciou carreira como guia de ecoturismo conduzindo grupos de estudantes e turistas no Pantanal, Amazônia, Rio de Janeiro, Ilha do Cardoso, Parati, PETAR, cidades históricas de Minas Gerais e em roteiros internacionais nos EUA, Espanha, Peru, Argentina, África do Sul e
Nepal.
Começou a publicar suas reportagens exclusivas de viagens em 1995  no Jornal da Tarde e hoje mantém regularmente um videocast de viagens na  Folha.com. Peladas: Futebol sem Fronteiras é o seu projeto autoral focado em  futebol de rua e na paixão pelo esporte ao redor do  mundo.
http://caiovilela.com.br/peladas-media.php?l=ptBR
caiovilela.com.br

marie ange no olhos de eunice

DESLOCAMENTOS por Marie Ange Bordas

“Deslocamentos” é um projeto participativo que aborda a experiência dos
refugiados  por meio de   oficinas artísticas e realização de
exposições dentro 
e fora de  suas comunidades  (África do Sul, Quênia, França, Inglaterra,   Sri Lanka e Brasil).
Ele nasceu da  percepção de o quanto minha privilegiada mobilidade
redefiniu 
  minha maneira de  ser e agir no mundo e do desejo de
aproximar minha experiência àquela de pessoas  que, diferente de mim, foram forçadas a abandonar seus lares.

Como o desterro  afeta nossa corporalidade, nossa relação com o espaço e com o outro?
Como  definem-se estas identidades in flux?

Aqueles que partiram e não retornaram as suas terras nem vivos nem mortos seguem errantes pelo mundo.

E nós, que voltamos, ou que nunca saímos, abrigados em nossos sofás, quem somos?

Testemunhas oculares ou espectadores distantes? Fraternos ou indiferentes?

Quem são estes  que vagam pelo mundo? Outros? O que é o outro senão o espelho de nós mesmos?

 

Marie Ange Bordas Artista multimedia e  educadora, mestra em Imagem e Som pela ECA/USP, com especialização no International Center of Photography / NY.
Nos últimos 10 anos tem se concentrado na criação de projetos artísticos colaborativos e dialógicos, sobretudo em comunidades deslocadas e/ou afetadas por conflitos em países africanos e em comunidades tradicionais no Brasil.
A maioria de seus projetos são desenvolvidos a partir da convivência prolongada nestas comunidades e a proposição de dinâmicas criativas individuais e coletivas que resultam na criação de ambientes instalativos, vídeos, paisagens sonoras e livros. Participou de residências artísticas internacionais e coordenou projetos no Brasil, na
Colômbia, Grã-Bretanha, Quênia, Áustria, África do Sul, Etiópia, República Checa
e Sri Lanka, além de ter exposto em diversos países.
Para  saber mais sobre seu trabalho:

links:

 

 

sao jose

A simpatia de São José, o santo realizador dos desejos por Carolina Chagas

Dia 19 de março é dia de São José. Desde  muito nova (14 anos?) espero por esta data. Aprendi na minha família que este  santo te concede um pedido muito precioso por ano. Desde que o pedido seja justo.

Para tanto, no seu dia, escreva numa folha de papel todas as frutas que você é capaz de reconhecer. Corte cada fruta e  dobre como num amigo secreto. Peça então para o santo o que você tanto quer.  Sorteie um dos papeizinhos. A fruta que estiver ali escrita, você terá de evitar por um ano. E seu pedido será realizado.

Comigo é assim.  Um marido querido? São José me deu. Em troca  de um ano se comer coco. Filhos? Também ele. Confesso que não lembro mais das  frutas que evitei. Estou faz um ano se comer chocolate. Ano passado, sorteei cacau.
Quase chorei. Sou chocólatra irrecuperável. Mas o pedido deu certo. E, de quebra, emagreci dois quilos. Tô quase fundando o Chocólatras anônimos.

Aprendi  na lida que de vez em quando ele não te concede a graça pedida. Mas, no meu  caso, sempre me mandou uma solução melhor do que a que eu tinha desejado.

Dia 19 é segunda-feira que vem. Fica a dica: se tiver um pedido a fazer, faça o sorteio com fé. Com São José do seu  lado, a fé não vai falhar!

 

 

 

Carolina Chagas, 41,  é mestre em Comunicação e Semiótica e
trabalha na coordenação do Jornalismo da Rede TV! Também é autora
de O Livro das Graças, do Publifolha, e de outros seis livros sobre o tema.
Está fazendo a pesquisa do filme Marias, de Joana Mariani (sobre as várias
evocações de Nossa Senhora adoradas na América Latina). Nas horas vagas, curte
os filhos, João Francisco e João Henrique, e faz misturas de ervas para chás _
que divide com o marido João.