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GRÍZES TESZTA por Elza Tamas

 

 

Tenho quatro avós húngaros.
Por ocasião da 1ª guerra mundial, a Hungria perdeu grande parte do seu território, dois terços. Dois dos meus avós passaram de um dia ao outro, de húngaros a romenos; os outros, viraram sérvios. O tratado de Trianon previa que se em 100 anos, as comunidades agregadas aos novos países ainda mantivessem a língua materna, as terras anexadas seriam reintegradas aos países de origem. Em função disto, a primeira providencia tomada pelos governos foi impedir que o idioma de origem fosse falado. Na escola, minha avó era obrigada a falar romeno. Os vizinhos eram húngaros, a rua húngara, o padeiro, o açougueiro, mas na escola ela tinha que aprender a falar uma língua estranha: o romeno.
A Hungria perdeu o acesso ao mar, meus familiares perderam filhos e parentes, vitimas da guerra e das condições precárias em que viviam. Famílias fugiam para evitar que filhos fossem alistados e no porto, no minuto final, eles eram confiscados e obrigados a ficar. A viagem de navio era então um misto de esperança, com a promessa do novo mundo, os peixes voadores acompanhando a embarcação, crianças brincando inocentes pelo convés, e a dor de tudo que tinha sido deixado para trás. Sacas e sacas de dinheiro eram lançadas ao mar, papel sem valor algum, e eles desembarcaram ainda mais pobres na nova vida.

Quando os meus bisavós chegaram ao Brasil, ambos, os húngaros sérvios e os húngaros romenos, construíram casas sobre uma fundação alta, elevada, três degraus para alcançar a porta. Esperavam pela neve que nunca veio. Penduraram tapetes grossos nas paredes para enfrentar o frio rigoroso. Na lateral da casa, parreiras. No quintal, atrás, uma pequena horta. Fabricavam linguiças em casa, numa linha de produção em série que envolvia toda a família. Soprar e encher tripas com uma mistura de carnes de cheiro forte, desagradável, parte das minhas piores lembranças de infância, as linguiças, e também os velórios domésticos, com os mortos benzidos com ramos enormes de alecrim, os pés frios de um bisavô que eu devia segurar para perder o medo da morte, a procissão da sexta feira santa e Maria Madalena me apavorando com o seu canto mórbido, o cemitério e o tumulo da menininha enterrada com os brinquedos prediletos.
Naquele bairro, que era na verdade uma comunidade húngara, nascemos todos, eu e meus irmãos; em casa, que parto não é doença, dizia minha mãe; com a mesma parteira, e na casa da mesma avó. O primeiro banho era de bacia e a placenta era enterrada no jardim pelo meu avô. Lá também meus pais se conheceram na celebração de primeiro de maio, num piquenique. Vida e morte se cruzavam com mais naturalidade naquela vila de ruas de terra, de língua estrangeira e de velhas de cajado e lenços escuros amarrados sob o pescoço.

Recentemente, numa viagem que fiz a Hungria e Romênia, onde encontrei parentes amorosos que eu nem sabia que existiam e que me descobriram pela internet, me deparei com arquiteturas absolutamente familiares: a fundação alta, os degraus para o acesso a porta, os tapetes nas paredes, a parreira, a horta no fundo. Também páprica e papoula compradas a granel, massas folheadas e doces tão saborosos como os da minha mãe. Nem tudo pode ser roubado de um povo.

(Quando alguém adoecia, minha mãe fazia um macarrão, frito numa farinha de semolina, crocante, queimado no fundo da panela: Grízes Teszta. Macarrão à milanesa. De sobremesa, panquecas recheadas com açúcar e canela. Palacsinta. Minha mãe se foi, a tradição se mantém.)

 

foto banner: foto do passaporte do meu bisavô húngaro (romeno), na ocasião da entrada no Brasil

 

 

 

 

 

Elza Tamas é psicóloga clínica e escritora.
Idealizou e desenvolve o forademim.com.br

 

 

 

 



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ATRÁS DE TODAS AS COISAS por Leda Cartum

Sou testemunha da infância dela que corre ao meu lado: estamos no mesmo banco de trás do carro, mas ela assiste a um desfile de mundos misteriosos pela janela (por que nunca pode fechar o cruzamento?) enquanto o meu olhar ultrapassa a rua e não fixa ponto nenhum. Daí me vejo comentando com os adultos do banco da frente: que essa avenida costuma estar mais congestionada. No que eu e ela nos entreolhamos e a percebo interrogativa, como se tentasse depreender um significado impossível a partir do que acabo de dizer: para ela essa frase é enigmática, pertence a um universo hermético a que ela esteve sempre ligada sem nunca poder conhecer. A frase que trata da frequência do congestionamento da avenida repercute dentro de sua cabeça, cheia de realidades secretas e imensas: talvez contenha a resposta para todos os problemas, a solução dos mistérios; mas ela não tem acesso a isso. Essa frase, como que contornada por uma faixa amarelo e preta, é de acesso restrito: e ela só pode vê-la de longe na tentativa de adivinhar o que é que eu quis dizer: o que é que os adultos sabem e que ela não pode saber; qual é o segredo que se esconde atrás de todas as coisas.

*

Lembro de algo que aconteceu algum tempo atrás: sorrio, numa mistura de cumplicidade e compaixão, como se visse do alto aquela pessoa que fui há anos e que não sabia de nada do que viria a acontecer. É um sorriso parecido com aquele que costumamos dirigir às crianças, e que parece dizer: existe um futuro imenso que vocês ainda não conhecem. Há sempre uma névoa de ingenuidade que envolve as lembranças antigas e as crianças pequenas: quando é que, naquela época, ou nessa idade, poderíamos desconfiar de tudo o que surgiria e que nos levaria por esses rumos até chegar aqui e agora? Vem também uma certa vontade de voltar até aqueles momentos para envolver esses seres distantes que agora parecem fantasmas imersos no escuro, e consolá-los por sua ignorância.

Mas é só inverter o sentido desse olhar para que tudo de repente mude de figura: se tento dirigir o olhar para a massa amorfa e invisível de tudo o que está por vir; ou, antes: se tento me sentir olhada por aquela que serei eu em um lugar desconhecido e por enquanto inexistente que é chamado de futuro – daí as coisas em volta se tornam muito pequenas. Parece que elas se afastam e correm quilômetros ainda imóveis, e o meu próprio tempo deixa de ser certo e seguro. É uma sensação de vertigem que provoca uma espécie de queda dessa atualidade e nos joga para longe, como se não estivéssemos mais no lugar onde estamos. As coisas são reviravoltas no escuro.

 

imagem banner: Iluminura de livro do sec, XV  -Antoine Vérard, 1494 L’Art de bien vivre et de bien mourir.

 

 Leda Cartum tem 26 anos. Publicou o seu primeiro livro, As horas do dia – pequeno dicionário calendário (Editora 7Letras), em 2012. Formada em Letras pela Universidade de São Paulo, hoje no mestrado estuda o escritor Pascal Quignard – de quem está traduzindo o livro Le sexe et l’effroi. Trabalha com texto e produção escrita em diversas áreas, desde tradução e editoração até roteiros para cinema e TV. Seu próximo livro, O porto, sairá pela Editora Iluminuras em 2016.
foto: Sara de Santis.

 

 

 

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QUIZÁS, QUIZÁS, QUIZÁS por Elza Tamas

Pilar queria dançar, dançar diferente, junto, com orquestra; ligou pra ele na redação do jornal, mas dança de salão pede sapato especial, solado de couro, ele disse, não dá, tô trabalhando de tênis, não vão me deixar entrar. Vai, por favor, e Acir não resistiu, sabia que ela devia estar mordiscando a boca quando pediu, sabia, e foi de tênis e tudo. Na hora de entrar pensou num pavão, estufou o peito um pouco, mas o moço da porta olhou para os pés, balançou a cabeça e disse não. Acir tentou: moço, se coloca no meu lugar, tem uma morena me esperando lá dentro, eu tenho que entrar. Então você vai ter que arrumar um sapato.

Acir não era de desistir e foi pro bar ao lado. Conversa vai, cerveja vem, contou a história pra um taxista de camisa verde. Que azar!, o homem disse, e Acir rápido: depende, que número o senhor calça?

Quando Pilar olhou para o outro lado do salão, viu Acir de pescoço esticado procurando por ela. Correu, se abraçaram, ela adorava aquele cheiro de graxa no pescoço dele, devia ser da tipografia. Ensaiaram uns pequenos passos desencontrados e ele sussurrou no ouvido dela: vamos embora que tem um motorista de taxi descalço lá fora.

Saíram, Acir pagou umas bebidas pro homem de camisa verde. Pilar pediu um HiFi e Acir continuou na cerveja. Pilar era estabanada e se ficava nervosa, pior. E Pilar estava nervosa; mexia os braços mais do que devia e virou o HiFi na mesa. Pediram outro e foi a mesma coisa. Disse baixinho pra ele: tô nervosa; ele riu, e deu uma lambida numa gota alaranjada perdida no rosto dela. O rádio adivinhava, quase me mata de tanto esperar; o garçom seguia empilhando cadeiras, já era tarde, tirando as toalhas, eles embriagados- porque era paixão de embriagar-, começaram a dançar, um beijo molhado de luz sela o nosso amor; vamos fechar, disse o garçom.

Lá fora, a lua era de prata e quando Acir chegou em casa, bêbado e apaixonado, agradeceu ao tênis de solado de borracha que, comportado, sem fazer um barulhinho sequer, evitou que sua mulher acordasse.

(conto originalmente publicado na coletânea Desnamorados – Editora Empíreo – 2014)

 foto banner: Elza Tamas sobre pôster de divulgação do filme TO HAVE AND HAVE NOT

 

Elza Tamas é psicóloga clínica e escritora.
Idealizou e desenvolve o forademim.com.br 

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AMOR É TRAMPO por Emir Tomazelli

Amor é trampo.

Amar é construção diária e desmancha fácil, fácil.

Vem o mar, vem o vento, vem a chuva e o fogo. Mesmo que firme o amor é frágil.

Amor é vínculo e vínculo é encrenca.

Amor envolve cálculo, porque pessoas têm ângulo.

Os amantes giram e circulam; a geometria e a álgebra são obrigatórias para o calculo acurado das curvaturas dos projetos.

Sem medidas o amor é desmedido.

Desmedido não é amor.

Comedido é de bom tamanho.

Amor é cozinha ou é receita de comida bem planejada

Por isso amor é tempo que transforma sexo em poesia

(para uma boa foda é necessário que saibamos fazer com competência o que estamos sendo convocados. Leva tempo, leva conhecer, leva ter que aprender e ter que contar com o outro. Sintonia, ritmo, pegada, precisão, jeito ).

Amor é to be one with, permanecendo vc mesmo.

Já o amor súplica é outro papo.

Amor de joelhos, amor de quatro, amor de submissão. É jogo cruel.

O amor que lambe o chão, que se arrasta, é o que crê na subserviência e no sub-ser-a-si-mesmos.

Amor que necessita outro nome não é amor, é ciúmes.

Amor é um verbo de conjugação simples, mas é complexo e inapreensível.

Como transformar um impulso em direção ao outro, em amor?

Como dar conta de ser amado?

Amor, a incógnita.

O vacilante…

O sobre o abismo…

O desconhecido necessário.

Atenção:

Só é amor se o vínculo for da ordem do necessário.

Se o meu amor não for necessário, não será (o meu) amor.

Amor é necessidade

Amor é o alimento da alma, é unguento de dores, é o phármakon perfeito

E além de ser trabalho, é remédio.

E fique atento, porque sendo remédio também é doença, é infecção, é vulnerabilidade.

Quem ama, está fora de combate. É do outro, pertence a ele. E isso não faz nenhum dano.

É um pertencer entrega. Quanto mais se entrega mais se ganha em troca, e é disso que a gente gosta.

É amor porque se refere a um só, nenhum outro pode te dar aquilo que o amado te dá.


Emir Tomazelli
é psicólogo, psicanalista e professor de psicanálise no Instituto Sedes Sapientiae.
Três livros:Corpo e conhecimento: uma visão psicanalítica;
Psicanálise: uma leitura trágica do conhecimento
Idealcoolismo: uma visão psicanalítica do alcoolismo

foto banner: Flavio de Carvalho

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AS AVENTURAS AMOROSAS DE BERNADETE CAMACHO por Cintya A Nunes

São Paulo, 19 de abril de 2012.

Pedro Antônio, hoje é dia do índio. O que me faz lembrar das flechas. Lembro do cupido que me flechou quanto te conheci. Mas, agora, quero te dizer algumas palavras. No início, via em você um homem admirável. Sua inteligência cutucava a minha. Sua beleza me iluminava. Um homem do jeito que eu acreditava que um homem tem de ser, que me envolvia em seus braços só com o olhar. Você sabe que muita coisa neste mundo me assusta e ter alguém do meu lado é importante. Hoje quando procuro suas qualidades não enxergo nada. Talvez existam, porém diluídas no vazio que você se transformou. Agora, você para mim não passa de um poste de luz. Sem luz.

Bernadete Camacho

Próximo passo: partir para sites de namoro e aplicativos de celular. Afinal, onde é possível o amor acontecer? Bares, festas, noite, amigos de amigos, cursos e viagens já tinham sido explorados e nada. Internet também, mas sempre é mais fácil. Valia a pena tentar de novo.

Bernadete Camacho não era seu verdadeiro nome. Teve de criar um apelido de guerra porque estava manjada no ambiente virtual. Virou Bernadete, Berna. Sites como Amor Perfeito, aplicativo Tinder e por aí vai. Talvez encontrar sua alma gêmea não seja tão difícil. Ops, “match”. Será que ele escreve ou Berna escreve primeiro? Ah, deste aqui ela não gostou. Essa coisa de foto em cima da moto não dá. Foto de cara dirigindo também não dá. Falar que a avó é seu exemplo de vida é outra coisa que lhe dava sono. Pulou.

Aí pinta um cara que diz que ela tinha alguma coisa diferente, difícil explicar. Bernadete acreditou, claro. “Match” no rostinho. Trocaram várias mensagens. Ele, muito divertido, bem do jeito que Bernadete gostava. Já tava dando aquela vontade de marcar um choppinho e aí o sujeito vem com uma boa. Gostei do seu batom, que cor é? Bernadete sempre espirituosa, nem desconfiou. Sim, o cara era. Era o que você está pensando.

O próximo tem foto com filho no perfil. Já se assume pai. Legal, parecia amoroso. O papo foi longe. Engraçado, bonitão. Depois de uma semana, a pérola: há quanto tempo você está solteiro? Sou casado. Como assim você é casado?! Desculpe, mas não tô pra isso. Tô a fim de algo sério. Mas relacionamentos sérios não são chatos? Quero só uma amiga, curti muito você. Pensei que você fosse mais descolada. Bernadete também pensou.

O dedo já dói de tanto teclar. Mas e a alma? Essa ainda não foi tocada. Peraí que o celular de Berna acaba de apitar. Ah, que pena, é o cara da pizza avisando que chegou.


Cintya Aguiar Nunes é formada em Comunicação Social, redatora atuante no mercado publicitário há quase 20 anos e contadora de histórias voluntária na AACD, desde 2010, pela ONG Viva e Deixe Viver. Há algum tempo, se aventura pela Literatura, testando onde esta costura de verbos e sujeitos pode nos levar.
Vai lá no www.escrevinhacoes.wordpress.com e descobre mais

 

foto banner : Cecilia Westerberg – another Love story

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AMBIGUIDADES: DE CAPITU A CAROLINA por Monica R. de Carvalho

“Era mulher por dentro e por fora, mulher à direita e à esquerda, mulher por todos os lados, e desde os pés até a cabeça … mais mulher do que eu era homem” (Bentinho sobre Capitu)

“Também ele tinha ciúmes dessa mulher cinco anos mais velha que ele, que nunca, nem na mocidade, fôra bonita”. (Lúcia Miguel Pereira, sobre Machado de Assis).

Os traços de Capitu parecem não ter muito mais a revelar: recortada, desmontada por todos os ângulos, um dos personagens mais comentados da literatura nacional é adjetivo de dissimulação e cálculo, símbolo da dúvida e do fantasma da traição. Mas e o desejo de Capitu? O que pode nos mostrar? Capitu é a mulher inteligente. Certa da sina de ser pobre em uma sociedade onde o espaço de mudança era ínfimo, sua ascensão só poderia ocorrer por casamento, e Bentinho era o seu caminho. Capitu é forte, Bentinho plástico. Ela deseja algo e ele é sua melhor chance; ele obedece. O que resta a Capitu quando consegue o que quer? Um desejo impossível, talvez. Desde menina, seu desejo era material e (finalmente) casada, sua vontade era mostrar isso para o mundo. “A alegria com que pôs o seu chapéu de casada, e o ar de casada com que me deu a mão para entrar e sair do carro, e o braço para andar na rua, tudo me mostrou que a causa da impaciência de Capitu eram os sinais exteriores do novo estado. Não lhe bastava ser casada entre quatro paredes e algumas árvores; precisava do resto do mundo também”, nos conta Bentinho.

Na construção de Machado, Capitu é a mulher que inverte o jogo: de oprimida passa a opressora, pois escolhe Bentinho como quem vai tornar concreto o seu desejo e consegue trazê-lo para si; vive sua época e assume este desejo como legítimo: quer ser rica, torna-se rica. É virtuosa, sim, pois é fiel ao que traçou para si. Mas nem quando ama – pois ama Escobar! – compreende a natureza do próprio desejo. Seu tropeço não é amar Escobar, mas não ser capaz de colocar todo o seu Ser naquele propósito que desenhou para si: uma parte dela ama quem não devia amar. Para Capitu, é impossível viver o amor, e seus desejos não se reconciliam; o desejo possível (realizado com Bentinho, que lhe cobre a matéria) fica de frente com o desejo impossível (amar plenamente Escobar) e assim Capitu se revela. A grande traição que Dom Casmurro nos mostra é, por fim, a da natureza: a aparência do filho, que expõe o desejo fora do controle da anti-heroína gananciosa.

E o ciumento Machado (que controlava a esposa Carolina até mesmo nas idas à igreja), também um dia se rendeu a um desejo (impossível?) e teve um ‘caso’ que não escapou ao conhecimento público, revelado através de cartas e poesias.  Não se sabe com quem, mas Carolina soube, é certo, e Machado quis continuar a vida com ela.
Existem especulações de que Mario de Alencar (M.A.), filho de José de Alencar, seria na verdade filho de Machado. Afora a semelhança física com Machado, Mário era epilético como Machado, tinha os cabelos crespos como Machado e foi quem cuidou de Machado na velhice, depois da morte de Carolina. Também foi quem editou seus livros póstumos e cuidou da herança intelectual.

Na paixão, Machado foi um pouco Escobar; na prática, parece ter escolhido ser Bentinho com Carolina.

foto banner: aquarela Elza Tamas 


Mônica R. de Carvalho é economista e viveu na Ásia por 10 anos, onde estudou e trabalhou. É professora de pós-graduação em negócios e tem um blog sobre economia no Estadão. Apaixonada por livros, escrita e leituras, é também especialista em literatura latino-americana.

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ONDE VIVEM OS FILHOS QUE EU NÃO TIVE? por Elza Tamas

Você pode acordar um dia em outra história- não mais no seu colchão de molas, ensacadas individualmente, que evitam que seu marido pule na cama enquanto você não para de se virar em noites de insônia, mas no chão de um corredor de um prédio todo perfurado por balas, no Líbano. O corredor é o lugar mais seguro, tem a parede externa do edifício somada à interna, a dos aposentos; as rajadas de balas tem que perfurar duas paredes e também funciona com as granadas, lembra? Não foi isso que aquele guia de olhos astutos lhe ensinou naquele café em Beirute, discorrendo sobre os fenícios, otomanos e persas, enquanto você não prestava a menor atenção e só via a boca dele se mexendo e pensava: e se eu largasse tudo para viver com este homem?

Para onde vão as opções que descartamos? os caminhos que quase trilhamos? Cada vez que fazemos uma escolha, mesmo que pequena, o que acontece com as outras alternativas? E se você não tivesse deixado aquela cidade? Onde vivem os filhos que você evitou? Para onde escorrem essas vidas-possibilidades? Existem as vidas “se”?

Você pode acordar um dia em outra história, sua outra história. Alice sabia como.

 

foto banner: Goran Boricic – on the other side of the window 

 

 

Elza Tamas é psicóloga clínica e escritora. Concebeu e desenvolve o forademim.com.br

 

foto: Mario Bock

 

formiga e bolha de aguar

EUREKA! por Elza Tamas

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Eu vi quando a formiga, minúscula, se jogou no prato cheio de água. Batia os pés e as mãos, acho, porque eram invisíveis os pés e as mãos se movimentando, mas ela eficiente se deslocou. Alcançou bem no meio da travessia um copo, que de cabeça pra baixo sustentava outro prato, esse sim raso e de diâmetro bem maior. Ela deve ter respirado fundo; depois do oceano ia ter que encarar ainda um Himalaia de vidro pela frente. Duvidei.

Duas horas depois, não uma, mas dezenas de formigas passeavam pela cobertura de chocolate. O bolo outrora inatingível, protegido pelo fosso  de faiança branca, era agora um verdadeiro bolo formigueiro, uma metáfora viva que se movia pra cá e prá lá.

Como elas vieram parar aqui? Voando, me respondi. Pareceu razoável, nadar não era menos espetacular do que voar, no caso das formigas. Por alguns libertários segundos, procurei por asas. Testemunhei aquela única formiga, talvez a primeira mutante nadadora da espécie, praticar um ato épico, e mesmo assim eu não conseguia acreditar, todo mundo sabe que formigas não nadam, se afogam. Talvez ela tenha aberto as águas, uma formiga Moises; ou quem sabe eu não tenha percebido, mas ela tenha caminhado sobre as águas, uma formiga Jesus.
Mais uns dez minutos observando a evolução:  o ir e vir do trabalho obstinado, rápido, que não quer ser flagrado, pedaços mínimos de bolo sendo transportados, pra onde? Nenhuma delas se jogou, nem formaram uma corrente com cada uma se segurando na anterior, enquanto eu as observava. Mas a vida não é só contemplar formigas, embora poucas coisas me fossem mais importantes.

E passou a noite e na manhã seguinte, nada, nem uminha sequer, o fosso vazio, água translucida. No bolo, apenas as mesmas três fatias faltando. Devia ter fotografado, pensei. Ver para crer não basta, tem que registrar para crer. Passei o dia com a dúvida: assisti a uma etapa evolucionista, a busca pela preservação da espécie ditando uma modificação de comportamento? Só as melhores nadadoras sobreviveriam, procriariam e em poucos anos as formigas nadariam com a mesma habilidade com que carregam um peso muito superior ao próprio corpo, ou andam de ponta cabeça desrespeitando a lei da gravidade. Ou? que outras leis podem ter sido violadas?

Melhor comer bolo.

 

 

 

Elza Tamas é psicóloga e escritora. Concebeu e desenvolve esse site

 

 

 

blues   integration  gde - Julie Warquier

O TAPA DA LUVA por Elza Tamas

 

Ana abriu presentes o dia todo, tinha sido assim na última semana, mas aquele com o bilhete carinhoso da amiga artista, retirou dela um sorriso cúmplice. Estava farta de bules e torradeiras, o quarto entulhado de augúrios, sejam felizes para todos os lados. Desatou o laço, levantou a tampa da caixa e lá no fundo, repousavam lado a lado, duas luvas brancas de voil, compridas até a altura dos pulsos. Estranhou, não pensava em usar luvas na cerimônia.

Pegou-as com delicadeza, eram leves, transparentes; cheirou: um bosque de laranjeiras. Como são preciosas nossas amigas, sempre encontram formas de nos afagar. Vestiu as luvas, o tamanho exato. Rodopiou quase sem peso pelo quarto, feliz e surpresa com a feminilidade que aquele pequeno adereço podia lhe conferir. E foi só aí que percebeu, no lado interno da luva, na palma, em azul claro, uma costura de pontos miúdos e irregulares formando as linhas do coração, da cabeça e da vida, só na mão direita. Aproximou as mãos do rosto, e sentiu um tapa, desses de filme. As linhas bordadas naquela cor celestial, não tinham nada de angelicais: a do coração era curta e desamparada, a da cabeça já tinha um ponto solto e se unia a linha da vida, que pendia indecisa quase para fora da mão. Aqueles azuis não se encaixavam sobre suas próprias linhas e criavam um emaranhado de seis possibilidades confusas, duas vidas, dois corações, duas cabeças. Um destino tentando se impor sobre outro. Seu corpo emudeceu, um torpor gélido nublou sua visão e ela achou que talvez fosse desmaiar. O quarto ficou úmido, pegajoso, Ana arrancou as luvas, enquanto corria para a poltrona que a amparou. A maça nunca mais voltaria à árvore.

Apoiava os cotovelos desesperados sobre os joelhos e suas palmas cobriam o rosto, quando a mãe entrou no quarto, radiante, Ana! Ana!, carregando um pacote enorme e pesado. Atrás dela vinha – adivinhe? adivinhe Ana, quem está aqui!- ajudando a carregar o presente, Jacira, que meio corpo ainda atrás da porta entoava, mi-nha- mais- que-ri-da- criança- vai- ca-sa-aar, mi-nha prin-cesa vai ca-saaar. Jacira, sua querida baba da infância.

Aquele pequeno momento – quando o sorriso branco de Jacira correu para abraça-la, quando ela olhou para aqueles olhos castigados que se vingaram da vida se mantendo doces-, lhe devolveu um mínimo de ordem, as paredes se afastaram e a poltrona permitiu que ela se levantasse.
Talvez Jacira pudesse entendê-la, elas se conheciam tão bem. No quarto, os passos agora se faziam muito ruidosos, a arquitetura de um futuro havia desmoronado. Montanhas de cacos jaziam pelo chão, mas as duas pareciam não perceber, moviam-se entretidas, conversavam euforias enquanto arrastavam móveis, tentando acomodar o presente gigante. Não notavam o barulho estridente sob os seus sapatos, nem o fantasma no qual Ana havia se tornado. Anos de conhecimento intimo se turvavam frente à fantasia da realização do amor.

Na caixa, uma TV plana, 42 polegadas, ultima geração, 3D, acompanhada de um par de óculos. Blue tooth, presente dos padrinhos, comentou a mãe cheia de orgulho.

 

 

foto banner: Integration – Julie de Waroquier

 

 

Elza Tamas é psicóloga e escritora. Concebeu e desenvolve este site.

 

CAmpo de trigo com corvos vAN gOGH

O MONUMENTAL FRACASSO DO AZUL por Carlos Neves

Eu tinha começado a rir, me desculpem.

Bem, não sei se foi com Van Gogh que comecei a gostar do azul, mas certamente foi com ele que percebi o quanto o azul era decisivo para mim. No início, sem saber dos nomes das coisas, o azul sempre fora a cor do infinito. Isso talvez até uns dez ou onze anos. Sim, o infinito é azul aos dez ou doze anos, qualquer infinito, matemático, químico, cósmico ou aquático. O infinito, veja que estranho, eu não sei dizer do que trata, a não ser o fato irrelevante de que não tem fim. Já o azul, a cor do infinito, é tudo, é o túnel que transporta o pensamento, a escuridão, a tristeza. O infinito é azul quando é pintado disso: de ideias, trevas e melancolia. Até os nove ou dez anos, talvez algo mais, foi assim, sempre azul, pintado de infinito: como nas noites em que minha mãe me abandonava na cama, apagava a luz e eu me perdia no sono. Eis o azul, o infinito, o capuz do tempo.

Quando andava de trem nos anos 70, às onze da noite, a Luz quase vazia dentro dos vagões, os trilhos cintilantes da Santos-Jundiaí escurecendo nos dormentes, meu padrinho e eu éramos esmagados pelo infinito subúrbio do Brás, Mooca, Cambuci, Vila Prudente, Ipiranga. Às onze da noite isso se chamava infinito. Depois tudo é azul em São Caetano, Santo André, Prefeito Saladino, Mauá, Ribeirão Pires, Paranapiacaba, Cubatão, Valongo. Pelo menos aos doze ou treze anos, às onze ou meia-noite é assim.

Um dia, no trem, tirei da mala de meu padrinho um catálogo de arte sobre pintores holandeses. Estava cheio de Vermeers, Rembrandts, e eu queria falar sobre eles, mas vou me conter e ficar só com Van Gogh, que me deixou paralisado naquele dia no trem, eu devia ter uns doze, talvez treze, talvez, naquele trem, tinha o infinito, o azul do tempo. Quando lembro disso eu rio. E tenho que parar de escrever porque não aguento.

Quando vi Van Gogh pela primeira vez não vi de fato Van Gogh, mas um de seus autorretratos, um de 1889, em que a parede espiralada no plano de fundo se contorce para se transformar no paletó de Vincent, no primeiro plano. Não sei se por problemas de impressão gráfica ou de iluminação naquele trem (as luzes brancas, veja só, às onze da noite, eram azuis), o fato é que achei o azul da parede da tela razoavelmente estranho. Mas o que mais me perturbou foram os olhos de Vincent (Vincent, repiso, que não é Van Goh, mas o seu autorretrato). Os olhos enérgicos (o da direita, talvez algo violeta — um violeta azulado, óbvio), como se me procurasse numa daquelas estações. Não sei se fiquei fascinado, perplexo, não sei. Tive medo, isso sim, mas não desgrudei mais, não me deixei abandonar por aquela tinta, sonhei noites inteiras com aquilo.

Estou rindo de novo porque acabei de me lembrar de Campo de Trigo com Corvos. E tenho que parar porque não aguento.

Talvez seja o último quadro dele, esse Campo de Trigo com Corvos. Antes de morrer. Esse quadro, ora, esse era o quadro que ele pintou a vida toda. Depois que foi ao cemitério pela primeira vez, por volta de 1860, e viu o seu próprio nome numa tumba. O corpo era do avô. E ao lado do avô estava o corpo do irmão primogênito, morto antes de Vincent nascer, cujo nome era justamente Vincent van Gogh. Ele olhava para o campo sepulcral (dizem que no fundo de sua casa) e via a lápide em que se inscrevia o seu nome. Depois disso, foi aí: ele começou a pintar Campo de Trigo com Corvos. De modo que Noite Estrelada, Casa Amarela, o Vinhedo Vermelho (e me abstenho de mencionar os nomes originais, me perdoem), e todos os autorretratos eram no fundo esboços para Campo de Trigo com Corvos. Azul, plenamente infinito azul.

E isso eu nunca esqueci, porque me lembro e rio. E tenho de parar.

 

foto banner: Campo de trigo com corvos- Van Gogh  

 


Carlos R. Neves é jornalista, fotógrafo e escritor. Participou da coletânia “As moscas” (Dulcinéia Catadora) e recebeu uma menção honrosa por sua participação no Prêmio “Off FLIP de Literatura”, em 2008. Tem um romance pronto, muitos contos feitos e outros em composição.  [email protected]

 

 

 

 

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TODO BICHO É UM POEMA por Lalau e Laurabeatriz

 

 

 

Te vi cantar de alegria./Te vi dormir de mansinho./Vi, nesse mesmo dia, dentro de ti/a alma colorida de um passarinho.

Pela vida inteira,/tartaruga-de-couro/segue os rumos/de sua alma aventureira.

Suindara, sagrada coruja,/de dia, adormece./De noite, aparece.

Nadam altivas, vagarosamente…/ Surpreendentes e belas,/submersas aquarelas.

O silenciar da floresta/ constrói um vazio./De repente, preenchedor,/um assobio!

Lindo como jade,/brilhante como ouro,/a floresta esconde este tesouro./Não é anel,/colar ou broche./É um besouro.

Quer conhecer o Pantanal, meu amigo?/Então, venha comigo./…Eu mostro a você/os alagados e os capões,/o corpo de ouro do dourado,/o couro macio do pintado,/a garra afiada dos gaviões…

Cor-de-rosa está no rosário,/na begônia,/no boto solitário/da Amazônia.

Curió é cantor./Barítono,/contralto,/baixo e tenor.

Cada pena é um traço./Uma pincelada de Matisse,/um pouquinho de Picasso.

…aflora a cauda negra/da baleia-franca./Como quem agita/uma bandeira branca,

…no azul do céu /tem tanto azul,/que a ararinha-azul /só encontra azul,/azul, azul, azul.

E não existe/nenhuma diferença/entre uma criança/e uma estrela-do-mar.

 

 


Lalau é poeta, paulista e publicitário. Laurabeatriz é ilustradora, carioca e artista plástica. Desde 1994, trabalham juntos, criando livros para crianças: são mais de 40 títulos publicados, muitos deles dedicados à fauna, flora, biodiversidade, cidadania, cultura e folclore do Brasil.
www.lalauelaurabeatriz.com.br

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eliasson

ALBEDO por Elza Tamas

                                                                                                                                               para Aurora

Tem até um nome: chama-se Albedo o índice que mede a capacidade de um corpo refletir luz. Assim como a neve, os oceanos, as areias do deserto, certos corpos são mais propícios à reflexão da luz. Curiosamente, o índice de albedo da Terra é maior do que o da Lua. De longe, brilhamos azuis e inspiramos namorados de outros mundos.

Pessoas com zero de albedo são aquelas de superfície cheia de reentrâncias, massas opacas, densas. Planetas obscuros, autocentrados, incapazes de refletir vagam deprimidos, isolados sob a crosta rugosa e endurecida que a dor e o ressentimento podem produzir. Movem-se lentamente, provocando extensas áreas de sombra e têm um odor que lembra mofo.

Pessoas com  índice de albedo perto de 1 são radiantes. Capturam todos os olhares e são como pequenos sóis que parecem emitir luz própria. Generosas dividem o encantamento: iluminam e são iluminadas. Brilham, mas não ofuscam; ao contrário, transferem lucidez e força para os que estão próximos.

Há um ano ela mora do lado de lá do espelho. Nos encontramos todos os dias nos traços refletidos, que insistem cada vez mais em ser parecidos com os dela.

Sua intensidade solar transbordou em novas genealogias; outras luzes nos alegram. Acreditamos que ela deve ter dado um empurrãozinho para que mais alguém despencasse do céu e quisesse entrar em nossas vidas. Pra nunca andar com os pés no chão e sempre pedir bis, esperamos você, que acho, vai se chamar Beatriz.

 

foto banner: instalação Olafur Eliasson   

 

 

Elza Tamas é psicóloga e escritora.
Concebeu e desenvolve este site.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

lagrima

SOBRE A ORIGEM DOS ESPELHOS por Gica Yabu

A primeira aparição dos espelhos na história da humanidade data do começo da grande Era Aquela. De acordo com a mitologia selfina, o espelho é fruto do amor de um deus artesão – Argilo – e de uma alquimista pagã, Polia.

Argilo esculpia juras de amor à Polia em fiordes e montanhas, nas nuvens pretas de tempestade e em pétalas de flor. Ela, que como toda mulher daquela época e de anos atuais, adorava ser cortejada por entidades mitológicas, resolveu dar um filho ao seu parceiro celeste.

Durante a gestação de tão amada criatura, todas as coisas da natureza viraram matéria-prima para Argilo, que expressava seu contentamento e excitação criando e dando novas formas ao mundo. No momento do nascimento do filho lá no céu, a surpresa se fez. O pequeno menino nasceu translúcido e, em contato com o ar, assumiu uma textura reflexiva nunca vista antes. Era lindo. Mas ao segurar o bebê, Argilo se viu inteiro nele e chorou. O choro vinha de algum lugar distante dentro de si e foi se espalhando de modo que as nuvens não conseguiram mais conter e romperam no primeiro grande dilúvio da história.

Todas as esculturas de Argilo se dissolveram. Algumas em agonia, outras em tristeza. As criaturas e coisas vivas perderam a poesia e assumiram formas insossas: débeis ou absolutamente simétricas. Em um ato de desespero, querendo estancar aquele estranho sentimento de vergonha, culpa e a tremenda carga de responsabilidade, Argilo arremessou o filho no chão. Frágil que era, o bebê se estilhaçou em milhares de cacos que se espalharam pelo mundo. De acordo com a lenda, Polia abandonou a alquimia e passou o resto de sua vida tentando colar os pedaços do filho, mas eles eram muitos. Argilo nunca mais foi visto, ou louvado e até hoje, milhares de anos depois, as pessoas ainda choram quando se vêem no espelho.

 

 foto banner: ilustração Natasha Xavier

 


Gica Yabu est? sintonizada em uma dimens?o paralela onda nem tudo foi definido ou descoberto e as coisas s?o mais flex?veis. ? filha, m?e, esposa, publicit?ria e enfrenta o espelho todos os dias. Deposita seus escritos em
www.verdevelma.com.br
 

 

 

 

 

 

 

 

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O INÍCIO DO INÍCIO por Elza Tamas

 

Era leite, a vida bateu, bateu, virei manteiga. Isso foi ontem; agora nem sei mais do que sou feita. Uma única laranja ácida pode me azedar. Parece que muda, mas é igual.

Uma vela que acende outra vela, que acende outra vela, que acende outra vela. Uma sequência de containers colados um no outro, uma coisa depois da outra, e mais outra, como os pensamentos que sempre se sucedem, sem trégua, sem um lago calmo no meio deles, sem pouso. Tudo se repete e repete, limitado a apenas meia dúzia de respostas; meia dúzia de sulcos cravados na planície gelada e branca das nossas possibilidades. Meia dúzia de condicionamentos prontos a nos capturar; driblamos aqui, escapamos ali e sem nos darmos conta, escorregamos para a vala comum do automatismo.

Recomeçar ou repetir?

Escalamos mediocridades, empurrando morro acima pedras enormes, pesadas, densas como são os nossos medos e nossas esperanças. E nos exaurimos porque o esperado  nunca se cumpre, e do vazio do esforço não recompensado, vem o impulso de tentar novamente. 
É digno e maduro experimentar, aprender com o erro, ir em frente, dar a volta por cima. Mas só suportando a ambiguidade do momento presente com delicadeza, na experiência do tom que ele pode nos oferecer, sem buscar responsáveis pelos nossos desconfortos, sem acreditar em seguranças utópicas, e finalmente desistindo, mas desistindo até nos sentirmos enfastiados de tanto querer desistir, só assim, e só aí, é possível recomeçar.

 

foto banner: Walking on egg shells / Clic Chic

 

 

 

Elza Tamas idealizou e desenvolve este site.

 

 

 

 

 

 

morros-e-nascentes

MORROS E NASCENTES por Elidia Novaes

 

                                                                     Para Noemi

 

Calíope foi a musa da poesia épica, da ciência em geral e da eloquência. É a mais velha e sábia das musas, por vezes considerada sua rainha. 

 

Primeiro, pensei num homem que deixava as terras planas da Holanda e se mudava para Paraty, entre morros e nascentes. Até porque, na Holanda, as únicas montanhas são as russas. Morro? Só de tédio. E o homem resistia à revolta baixa de um país idem, e atendia quando alguém o chamava de Alemão.

Depois, me veio um mendigo que preferia caminhar pela faixa amarela das ruas, buscando evitar calçadas, semáforos e sarjetas. E para ter a sensação do sem-fim.

Surgiu a imagem de um supermercado lotado no horário de fechar. E uma mulher desesperada correndo por entre as gôndolas, que a iam cercando num labirinto, impedindo a passagem de seu carrinho. E ela desabalada em direção à fileira de caixas, com as compras nas mãos, debaixo dos braços e nos dentes. À sua volta, um coro cipriota, que não teve competência para ser grego.

Aí, apareceram dois cavalos: Relevante e Pertinente, cada qual mais garboso que o outro.

Ué, foi para isso que eu chamei a musa?

Toreador, en garde!

Ela disse que nunca mais. Deu-lhe as costas e saiu andando. Ele ficou parado por uns segundos e seguiu na direção oposta com ar incrédulo. Ela se virou a tempo de ver enquanto ele se afastava. Jogou fora o número de telefone e entrou cabisbaixa na estação de metrô. Nessa hora, ele olhou para trás novamente e já não a viu mais. Nunca mais.

Palavras começadas com J: juventude, janeiro, joia, janela, Juventus, já, jusqu-à.

Uma mulher é atropelada. Ouve o som de ossos quebrando. Atravessava a 23 de Maio e caiu entre a faixa 2 e a 3, quase chegando à Tutóia. O trânsito se congestionou e todos queriam ver sua cara, reduziam, paravam, tiravam foto, filmavam. Ali da faixa 4.

Um casal onde a esposa fosse a Rose e o marido tivesse o apelido de Feijão? A Rose e o Feijão?

Nessa hora, chamei Calíope de lado e lhe disse: “Pega leve, caramba! Ideias até vêm fácil; difícil é fazê-las ficarem paradinhas com tempo para a gente jogar o laço e se apossar!! Calma, meu”.

Não adiantou. Dois homens papeavam na padaria. Um deles disse que Fulana não está com ele pelo que ele é, mas pelo que pode oferecer a ela. Aí, contou que tinha pagado a moto em 36 meses.

Em minha mente, um lanço de tainhas. Primeiro, um espia fica no alto da pedra até ver um cardume. Centenas de tainhas prateadas, rebrilhando entre o sal e a maresia. Ele acena e indica o local. Duas canoas, cada qual com uma ponta da rede. Em cada uma, um camarada rema e o outro vai soltando a rede até as duas pontas chegarem à praia. Muita gente na areia. Todos puxando a rede, arrastando o cardume para o raso. Mas as tainhas são peixes tinhosos e pulam por cima da rede para o mar. Até que é uma briga justa.

A essa altura, já eram 6h30 e os ponteiros moviam-se acelerados, Junto com a minha respiração. Quase um quarto para as sete e nada de uma história consistente.

Um sujeito recebe um tiro no olho. A bala se aloja no cérebro e ele fica cego. A última imagem que guarda é a do atirador e o oco no cano da arma.

Do nada, um personagem chamado Elisabeth.

Calíope, você está de sacanagem comigo. Hablas francês? Slow down, cacete!

Um homem toma um bimotor com o caixão da mulher. O avião cai, ele morre e só restos do caixão são encontrados.

Mais dois personagens?! Robocóptero e Breikiven??

Palavras em pares talvez sejam mais fáceis de adestrar: erotismo sintético, travessa gulosa, locomotiva triangular. Não… suponho que não.

Italianos apaixonados por pudim de leite condensado.

A essa altura, minha mão escorregava de suor.  Espera um pouco! Eu anotava tudo em folhas de papel, no rótulo de uma caixa de fósforos, na palma da mão, guardanapos, na parede. Oh, caneta, isso é hora de falhar?!

Doeram. E lá ia ele de novo. Tinha abandonado as bolas de gude e o estilingue, e agora trazia uma torta que fazia sua mão parecer redonda e cremosa. Vinha erguida e apontando para ela, que achou melhor dar no pé, embora isso não estivesse coreografado. E ele atrás dela pelo picadeiro. Ela sentia um líquido quente escorrendo do supercílio. Até então, pensava que só boxeadores tinham supercílio, mas ainda podia ser suor… ou sangue. Melhor não ficar ali para descobrir, muito menos para conhecer o recheio da tal torta. Ela abanava os braços, pedindo socorro, enquanto subia a arquibancada. As crianças gritavam, mas não dava tempo de descobrir se de pavor ou riso. Seu figurino já se enganchava nas pernas e a maquiagem tinha se tornado um borrão, a peruca caía por cima de uma orelha e ela só tinha por defesa um girassol de lapela que espirrava água.

E pensei num homem que deixava as terras planas da Holanda.

                                   

 foto banner: David Hockney – Dwintertunnel

 

ELIDIA NOVAES

Escrevo, reviso, traduzo, às vezes ensino. Já geografei, já comuniquei, já pesquisei, já bailei, já florete-ei. Sou filha, tia, irmã e cunhada. E amiga, bem amiga. Adoro escrever, mas ainda não sou escritora. Talvez seja dramaturga, isso também está sub judice. Viajo menos do que mereço ou gostaria. Trabalho mais do que mereço, embora goste. E rio, sempre que possível; às vezes mesmo sem essa condição.
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