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OS VELHOS ANDAM OLHANDO O CHÃO por Elza Tamas

 

Atualmente são duzentos e dezessete; eram, ao menos na última contagem. Há alguns meses ainda se podia nomeá-los, guapa, bento, gertrudes, era divertido encontrar uma característica e deixá-la tomar o lugar do todo, preta, simpática, caolho, zé mané. Pensamos até em usar as letras do final do alfabeto, como faz a indústria farmacêutica quando quer mostrar que um remédio é de última geração. Chegamos a um wykuxt impronunciável, que rapidamente virou vivi. Depois do quinquagésimo, nossa criatividade se esgotou.
As duas antigas, mãe e filha, agora são lentas e meio surdas, devem estar demenciando, às vezes surpreendo uma ou outra ladrando para a parede; adoravam expulsar os invasores, corriam, não havia quem entrasse; hoje passam o dia dormindo no pouco espaço que sobrou. Rosnam baixo, mal se escuta, – tentam, ganem rouco, os caninos são amarelos e cariados, melhor nem mostrar. Eu também não sei mais gritar, às vezes solto um grunhido, sai, sai, agito a mão que não dói, mas eles confundem com uma festa e se aproximam mais.
Somos todas castradas, eu, as cadelas e a gata, as donas originais da casa. O garanhão também teve o escroto cortado,- impressionante o poder dos hormônios, partículas ínfimas determinando a existência de um ser-, só vendo, antes um garanhão de veias dilatadas no pescoço, eu sentia vontade de rezar para ele, na frente dele, porque ele era um deus, uma força da natureza, agora é dócil; os cachorros invasores passam os dias no abuso, testando as fronteiras da paciência. Isso jamais ocorreria antigamente.  Ele se mantém pávido, porque impávido ele não é mais, então deve ser pávido, coisa triste de ver.
Ontem a noite apareceu um ratinho diminuto na sala. Corria de um lado para o outro, atrevido. Bati meu pé com força no chão, com pouca força na verdade, mas o oco da tabua de madeira ampliou o som, TUM, e ele fugiu de volta para debaixo do sofá. Mas voltou. Numa das saídas, cheirou todo o tapete, esticou o corpinho, deu um impulso e tentou subir na poltrona. Para mim foi o limite, gritei chega, assim não dá mais; ninguém ouviu. Tive um pequeno sentimento de compaixão, pobre mãe, – achei que era fêmea e mãe, porque sair assim na ousadia, sem medo de nada, é coisa de mãe; talvez uma ninhada, talvez esteja em busca de comida; durou pouco, a aversão superou minha cordialidade. Pensei na gata, mas senti um conflito moral, a caçada seria inevitável, não, melhor não; na minha frente, não. Talvez amanhã eu esqueça a porta da sala aberta e o que acontecerá entre eles não será mais da minha conta, a gata anda magra, tomara que seja uma ninhada. Tentei me concentrar no filme na TV e logo veio um cheiro forte da varanda, devem ter caçado um gambá; que se danem, que se lambuzem.

Talvez andar um pouco, olhar o céu, as estrelas, mas hoje virar o pescoço para cima dói; não mais o firmamento, ainda o horizonte e depois só o chão. Os velhos andam olhando o chão, não tem mais nenhum longe para olhar. E agora as aranhas, que eu julgava inofensivas, as marrons, elas lá, eu cá, por anos, tudo certo, até eu saber que não era bem assim, danadas, disfarçam, uma picadinha indolor, depois uma casquinha boba, a gente não vê e a desgraça vai acontecendo por dentro, corroendo. Tenho medo que os vizinhos percebendo minha fraqueza, também comecem a invadir. Não tenho mais dinheiro para a ração, acho que eles vão começar a se ajeitar entre eles. Não terão nenhuma memória da minha generosidade, nenhuma gratidão, na hierarquia da vida a fome é soberana; anos antecipando a morte por uma doença cardíaca, um câncer, mas ao final, eu sei, estarão todos lambendo meus ossos.

Foto banner: Flavia Cirne

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A ARTE QUE INCOMODA por Tania Ramos de La Combe

O que seria exatamente um “mal estar na Arte”?
Se perguntássemos à um “leigo honesto” provavelmente ele diria: são aquelas coisas feias, tristes, horrendas ou mal feitas que jamais eu colocaria na minha casa, ou algo similar. Do ponto de vista psicológico ou do “socialmente correto” poderíamos dizer que é “uma obra ou imagem que nos causa desconforto, angústia e que nos provoca”.
Nem sempre o mal estar de um é o mal estar do outro e muitos desses trabalhos, por serem polêmicos, marcaram uma nova era no mundo e no comércio das artes.

Cronologicamente, o primeiro grande artista que me vem à mente, ainda na Idade Média, é o holandês YERONYMUS BOSCH, do final do século XVI. Com suas figuras e caveiras assustadoras, num criticismo surreal, Bosch não poupava padres nem freiras, servos, comerciantes, nobres, reis e rainhas. Na sua obra mais conhecida, O JARDIM DAS DELÍCIAS, ele expõe orgias, cenas inusitadas com monstros e animais alados, e mesmo nas cenas domésticas mais simples, como a MORTE DE ÁLVARO (1494), somos assombrados por caveiras, ratos e monstros.

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Avançando alguns séculos, dentro do Impressionismo, onde tudo era belo e o bucólico e os tons pastéis dominavam a belle vie, destaco a pintura angustiada de outro holandês, VINCENT VAN GOGH. Suas pinturas de caveiras, pouco conhecidas, talvez fossem um prenúncio da sua morte precoce e escolhida, que era sempre anunciada em seus pesadelos atormentados.

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No movimento surrealista todas as fantasias foram permitidas e o Mestre dos Mestres, SALVADOR DALI, talvez tenha sido o artista que deliberadamente mais desconforto causou com suas obras
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Foi seguido de longe, bem longe, pelo belga RENÉ MAGRITTE, cuja obra provoca um mal estar pela ação do ilusionismo. A ilusão de ótica, que intriga e desafia, tão comum na pop ART, estava já ali sendo fecundada e eclodiria algumas décadas depois.
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Decorrente do Surrealismo surge o Dadaísmo, manifesto mais surreal ainda, com os famosos mictórios de MARCEL DUCHAMP e suas bicicletas, engenhocas inúteis que nos provocam e nos acusam,
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assim como os “ready mades” de MARX ERNST,
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e entre outros, YVES TANGUY.
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Nasciam aí as primeiras “INSTALAÇÕES”, expressão típica do novo século e que até hoje causa ainda muitas polêmicas e desconforto. Basta visitar a última Bienal em São Paulo, INCERTEZA VIVA e presenciar, entre outras tantas, a insolita instalação de Victor Grippo que utiliza 500 quilos de batatas,

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ou as obras em INHOTIM, um dos maiores e mais belos museus a céu aberto do planeta, onde vidros, redes, sacos, num vermelho berrante formam True Rouge, a instalação do brasileiro TUNGA , recentemente falecido.

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Mas voltando algumas décadas, ali junto ao surrealismo, outro artista “avant guard”, GEORGES BRAQUE
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se unia ao amigo e rival PABLO PICASSO para criarem mais uma nova linguagem das tintas, o CUBISMO. Esta linguagem se tornou o pretexto perfeito para que esse jovem pintor catalão, transportasse para suas telas o que já fazia tão bem em sua vida pessoal junto aos seus seres “queridos”: esposas, amantes, filhos, netos e até bichinhos de estimação foram distorcidos, fragmentados, retalhados e transformados em verdadeiros monstros de uma feiura propositalmente feroz. Picasso era visto por alguns como um gênio prolífico e cativante, por outros, como um oportunista egocêntrico e cruel, o primeiro grande marqueteiro de si mesmo depois de Salvador Dali. Polêmicas à parte, a verdade é que com suas obras valendo milhões de dólares, quando ainda vivo, sua assinatura virou símbolo do novo mercado multimilionário que surgia no território da Arte Contemporânea; poderíamos dizer, ironicamente, que o “o feio vira belo quando se trata de um Picasso”.
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Mas aceitaríamos dizer o mesmo de MUNCH? Mais conhecido pelos seus “GRITOS”, EDWARD MUNCH, mesmo em suas telas mais “românticas” nos causa uma angustia patética com suas figuras tristes, de olhos negros, arregalados ou em seus rostos disformes, vide ANXIETY, outra obra sua bastante divulgada.
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Assim como nosso IBERÊ CAMARGO, poderíamos dizer que MUNCH não tinha nenhum pudor em retratar sua angústia, depressão ou visão atormentada do mundo que o cercava. Certamente concordaria com um dos últimos depoimentos de IBERÊ: “não vim ao mundo para pintar o belo ou para agradar com minha pintura, quero sim mostrar toda angústia e dor que persegue o ser humano desde o seu nascimento até seu último dia”.
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Nessa mesma época podemos destacar uma mulher, latina, pouco conhecida em seus dias, mas forte e tenaz e que lutou como poucas: FRIDA KAHLO.
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Suas obras são angustiadas e ela representa sem pudor seu acidente, amputação e suas dores físicas e psíquicas imensas.
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Sua agonia estampada em dezenas de autorretratos, repletos de sobrancelhas fartas e unidas que reforçam o ar severo da dor e do seu sofrimento, acabou se tornando um símbolo Cult mundial da Mulher Sofrida.
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Em um deles pintou o retrato do companheiro DIEGO RIVERA na testa, como idolatria ou ódio, ironia àquele que tão mal lhe causou com sua indiferença e traições.
Ironia maior, talvez, é que FRIDA jamais poderia imaginar que, algumas décadas depois, essa desconhecida mexicana ofuscaria o brilho de seu Mestre e amante, tornando-se um símbolo divulgado em posters, posts e releituras no Mundo todo.
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Outro tipo de “mal estar” é aquele da ilusão de ótica, desenvolvido em primeira mão pelo matemático e desenhista alemão MC ESCHER, que causou furor nos anos 50 com suas torres, escadas e suas famosas “evoluções”.

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É o desconforto genial que intriga, desafia e questiona e que vem sendo desde então, admirada por todos os ilustradores. Sua evolução simplista e geométrica geraria a famosa OP ART, febre nos anos 70, representada sobretudo pelo franco-húngaro VICTOR VASARELY: Quem não teve pelo menos um pôster dele em suas salas ou quartos, ou estampado em suas camisetas, na década pós-hippie? Era o “mal estar” da ilusão ótica, deliciosa e enigmática, que fascinava sobretudo os jovens descolados da época.
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Nas décadas seguintes, os chamados CONTEMPORÂNEOS criaram um novo tipo de “desconforto” na arte abstrata. E aí voltamos à primeira consideração do “leigo honesto” do primeiro parágrafo: “um lixo que nasceu por acaso, sem nenhum valor artístico, uma piada de mau gosto, tinta gratuita jogada aqui e ali, e que vale milhares de dólares”.

POLLOCK, um contemporâneo, que devido a sua técnica foi jocosamente apelidado de “Jack the dripper”, teve sua ultima tela arrematada por 140 milhões de dólares por David Geffen, em leilão recente na SOTEBY’s, NY. Ao mesmo tempo, algumas de suas obras são chamadas de “spaguettis” e existem inúmeros posts na internet que ensinam a pintar como Pollock, por que suas telas parecem que foram feitas com espaguetes mergulhados em diversas cores de tintas.
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Nessa mesma escola temos WILLEM DE KOONING
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e JOAN MITCHELL, única mulher desse filão respeitado e hoje, admirado.
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Já no figurativo contemporâneo não podemos nos esquecer do irlandês polêmico, FRANCIS BACON, fascinado pela carne no sentido mais realista possível: ficava horas admirando animais penduradas nos açougues de Londres ou admirando cadáveres, como fonte básica de inspiração.
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O resultado, sabemos, aquelas séries de rostos e corpos disformes, fantasmagóricos, assustadores onde transpunha também sua luta contra o alcoolismo e a homossexualidade sadomasoquista que o atormentava.
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Seu seguidor atual, mais hard core ainda, além de exibicionista, é DAMIEN HIRST o mais novo “queridinho” dos colecionadores europeus e americanos do mundo fashionista e hipster. Seus cadáveres de animais devidamente fatiados foram expostos em museus e galerias do mundo todo, causando horror e polêmica.

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Duramente ironizado pelos críticos mais exigentes, DAMIEN dá de ombros: sua caveira (verdadeira) cravejada de brilhantes foi vendida pela bagatela de 100 milhões de dólares para um anônimo colecionador londrino em 2007. Não satisfeito, DAMIEN refez uma réplica em ouro branco com 8601 diamantes, exibida em dezembro passado no célebre RIJKSMUSEUM de Amsterdã, primeira parada de sua tournée. Foi, pasmem, escolhido como curador para selecionar as obras do famoso acervo que serviriam de pano de fundo para sua caveira FOR THE LOVE OF GOD.
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VERMEER deve ter sentido um imenso “mal estar” em sua tumba.

 

** imagem banner – Lucian Freud

mal-estar-foto-tania-mini-bioTANIA RAMOS BOUTAUD de la COMBE,  paulista, psicóloga pela PUC/SP e artista plástica pela FAAP. Estudou no Ateliê de Walter Levy e Maxine Masterfield, USA, CA, onde sofreu forte influência da aquarelista. Sempre em busca de novas técnicas e materiais,  morou em diversas cidades dos USA e Europa, notadamente Suíça e França nas décadas de 80 e 90 , onde realizou  inúmeras exposições exibindo trabalhos e técnicas únicas e exclusivas que misturam tinta acrilica com matérias mais diversas da Natureza em geral .
Permeada pela consciência ecológica aliada à influência étnica ,desenvolve alternativas não poluentes como pigmentos e resinas naturais, até mesmo verniz à base de própolis em seu ateliê no topo de uma Colina na Mantiqueira, SP.
Assim pretende que sua obra possa ser um grito a mais contra a devastação da Natureza pelo homem e a opressão contra as minorias étnicas .

 

 

 

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SEGURO INSEGURO por Maria Antonia De Carli – english version

 

Momentos de desconforto geram diferentes reações nas pessoas, algumas podem se retrair, outras serão agressivas e expressarão raiva, e outras ainda se mostrarão indiferentes, fechando os olhos para o tal fato.

No mundo de hoje, no âmbito social, o terceiro tipo de comportamento tem sido frequente. Momentaneamente parece mais confortável ignorar o que nos incomoda e fingir que o conflito não existe, mas invariavelmente vamos acabar sendo confrontados com esse conteúdo de um jeito ou de outro.

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Esse terceiro tipo de comportamento tem sido usual na questão dos refugiados da atual guerra Síria. A mídia nos inunda todos os dias com imagens tão duras e chocantes de adultos e crianças lutando para salvarem suas vidas, tendo de passar por provações desumanas em busca de um futuro, que nossa resposta como cidadãos é nos anestesiarmos, enquanto assistimos praticas políticas de negação e intolerância.

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Os imigrantes, por sua vez, passam por experiências negativas geradas por conta de preconceito e resistência a assimilação das diferenças (muitas vezes em ambas as partes). Tendemos a ser reativos ao que nos é diferente.

Um exemplo pertinente dessa reatividade é a saída da Inglaterra da União Europeia, dada por voto popular num Referendo sem nenhuma justificativa plausível para ser convocado. Não se deveria escolher virar as costas para um projeto de união politica e econômica, com princípios baseados na tolerância e cooperação, e preferir o isolamento. A principal justificativa dada por aqueles que votaram pela saída foi justamente o medo e rejeição à imigração.

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A reativa inglesa é apenas uma fatia do que ocorre no mundo hoje:  uma difusão de politicas de ódio e medo gerada por crises econômicas e de identidade, onde políticos mal-intencionados dentro de suas retoricas populistas apontam como culpado o extrato indefeso de suas sociedades, os imigrantes, – também chamados de “terroristas”-, ou “os que tomam nossos empregos e nosso sistema de saúde”. Na verdade o buraco é bem mais profundo. As pessoas então se tornam cada vez mais intolerantes com o diferente, endurecendo posições e promovendo revolta. Um exemplo da segunda forma de reação para o mal-estar, o da agressividade.

Vinda de um país altamente desigual como o Brasil e vivendo hoje em Londres, pude perceber que as pessoas se acostumam e se dessensibilizam com o que presenciam de forma diária. Cresci assistindo meninos de rua parando carros em sinaleiras pedindo qualquer trocado para um biscoito ou um pão. Também viramos as costas para esse tipo de realidade, fechamos os vidros, criamos condomínios com guaritas, blindamos o carro. Empurramos para a periferia o que nos causa desconforto.

O ciclo vicioso da ignorância coletiva só poderá ser encerrado através do exercício da empatia e da compaixão, quer dizer, quando tivermos a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro. Talvez mudanças expressivas no social só ocorram quando a pratica desta visão pessoal mais humanista, nos leve a eleger lideres políticos que traduzam também essa perspectiva nos seus governos. Só assim estaremos todos seguros.

** imagem banner – Debret

mal-estar-maria-antonia-foto-perfilMaria Antonia De Carli é baiana, bacharel em Relações Internacionais pela FAAP-SP. Trabalhou em Sao Paulo com projetos de desenvolvimento local e urbano sustentáveis para a Fundação Clinton. Em Paris, estagiou na UNESCO no setor de cultura, e ajudou a organizar o Congresso de Hangzhou na China em 2013. É mestranda em Politica Comparativa e Internacional com especialização em politica econômica e social na Escola de Economia de Londres (LSE). Trabalha como analista de Risco Politico na AON,  em Londres.  Também se engaja em projetos para a inserção do Brasil e da América Latina no cenário politico internacional, juntamente com outros estudantes brasileiros no Reino Unido, o Brazil Forum.

 

 

 

Englisn Version  – Safe and Unsafe by Maria Antonia De Carli

 

Uncomfortable moments bring out different reactions in people; some may withdraw, others become more aggressive and express anger, meanwhile others will show indifference and will close their eyes to the specific facts.

The social sphere present in today’s world has been typified with the third type of behaviour expressing itself very frequently. Momentarily, it seems more comfortable to ignore what bothers us and pretend that the conflict does not exist, but we inevitably end up being confronted with this content in one way or another.

Indifference has been the usual behaviour with regards to the refugees fleeing the current Syrian war. The media flood us every day with plenty of shocking images of adults and children struggling for their lives, having to go through inhumane trials in search of a better future. Our answer to these scenes is simply a state of anaesthesia, while we watch political practices of denial and intolerance.

The immigrants, in turn, go through negative experiences guided by bias accounts based on prejudice and resistance to absorption of the different (often on both sides). We tend to be reactive to what is different to us.

A pertinent example of this reactivity is Brexit, where English people voted in a popular Referendum to leave the European Union. A Referendum which had no plausible justification for being called. One should not choose to turn ones back on projects that emphasis political and economic union, based on principles such as cooperation and tolerance, to rather stand with isolation. The main reason given by those who voted out was the fear and rejection of immigration.

The English reaction is only a slice of what happens in today’s world. A diffusion of policies based on hate and fear, caused by a huge economic and identity crisis, in which malicious politicians with their populist rhetorical point as guilty the helpless and fragile extracts of their society; the immigrants, – also labelled as “terrorists”. Additionally,  those “who will take our jobs or our health care systems”.

The fact is that the hole is much deeper than it seems. People are becoming more and more intolerant; with different, hardening positions and promoting revolts. This is an illustration of the second type of reaction to discomfort, the aggression.

Coming from a country with high inequality like Brazil and now living in London, I could see that people tend to get used with what they witness in their daily lives, therefore they tend to desensitize to cases of extreme impact. I grew up watching children in the streets, stopping cars at traffic lights asking for any change to buy a biscuit or a piece of bread. We also turned our backs to this kind of reality, we close our windows, we build condominiums with watchtowers, we armour our cars for protection. We pushed to the periphery what causes us discomfort.

This vicious cycle of collective ignorance can only be ended through the exercise of empathy and compassion, that is, when we will be able to put ourselves in “someone else’s shoes”. Perhaps significant changes in society will only occur when the practice of the humanistic vision will be put in place through new world leaders that will also translate this perspective in their governments. Only then we all will be safe.

 

Maria Antonia De Carli has a bachelor in International Relations from the University Armando Alvares Penteado in São Paulo. She worked with projects of local and urban sustainable development for the Clinton Foundation in partnership with the C40 in the city of São Paulo. Maria has interned for the Cultural Sector of UNESCO in Paris, and helped to organize the Congress of Hangzhou in China in 2013.  Currently she is finishing her Master in Comparative and International Politics at the London School of Economics (LSE). Together with the Master she also works as Political Risk analysts. She is engaged in projects to promote the Brazil and Latin America in the international political scenario, developed with other Brazilian students in the UK, the Brazil Forum

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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EDIÇÃO MAL ESTAR

 

Pode ser que aconteça agora. O degelo no Ártico já permitiu a evasão de gás metano, e basta um nada para que aconteçam explosões equivalentes a dezenas de bombas atômicas. Governos vão e vem, o desmatamento continua; seca, inundação, e o pensamento segue sempre pontual: o selfie, eu, minha família, meu banho, minha segurança. A Amazônia é longe, como também estão longe os refugiados que se afogam num mar que eu não conheço.
As escolas continuam ensinando a extrair a raiz cúbica e o comportamento das gerações é agora ditado por mais um novo desenvolvimento tecnológico, são os jovens   x, y, z.
Os filhos, cada vez mais especializados, continuam dependentes economicamente e não saem de casa e pais exaustos seguem se esforçando em oferecer a felicidade traduzida em bens de consumo. As rotas de fuga como a comunidade, amigos e a natureza são emperradas pelo transito, que não anda, e por discussões cada vez mais polarizadas.

Nesta edição, colaboradores de diferentes áreas apresentam perspectivas sobre o Mal Estar que nos circunda. E, como o que é encoberto sempre ganha força, essa é uma edição de DEScobrimento. Esperamos  que a perspectiva revelada, mesmo que desconfortável, promova reflexão e movimento.

SILVIA MORAES, psicanalista,  violinista e cantora fala sobre as dores de amor na MPB.

MARIA ANTONIA DE CARLI, internacionalista e mestranda em politica, discute a condição de refugiados, imigrantes e o endurecimento da politicas sociais.

BELA GERBARA, arquiteta, visitou o Xingu e se sentiu estrangeira entre os primeiros brasileiros.

SAROLTA KÓBORI, húngara residente no Brasil, apresenta um contraponto entre essas duas culturas

SERGIO WAJMAN, psicanalista e professor, numa releitura do clássico de Freud afirma que O mal está na civilização.    

TANIA LA COMBE artista plástica ,  faz um apanhado cronológico sobre a arte e o incômodo que ela pode nos causar, e

um conto de ELZA TAMAS,  intitulado Os velhos andam olhando o chão.

 

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O MAL ESTÁ NA CIVILIZAÇÃO por Sergio Wajman

 

Você não leu errado. O mal está na civilização é o título deste texto. É uma brincadeira, do tipo “sem brincar-brincando”, com o título de uma das maiores obras de Freud sobre o ser humano em sociedade: O Mal Estar na Civilização. Foi publicado pela primeira vez em 1930, ano em que a Europa ainda curava suas feridas – e que feridas! – da Grande Guerra que terminara (?) em 1918 e se respirava, pelo menos na Alemanha, os ares do período que de forma tão sagaz Ingmar Bergman chamou de O Ovo da Serpente, ao se referir ao nazismo – já feto – que passaria à condição de serpente-nascida dali a meros 3 anos, quando Hitler assumiu a condição de Chanceler da Alemanha.

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 Freud trata de muitos temas neste livro. Mas um deles me chama a atenção de forma especial: a luta cotidiana do ser humano por ser humano. Aparentemente, um paradoxo. Se ele já é humano, por que precisa lutar para sê-lo? Porque, para Freud, o ser humano precisa da civilização para ser humano: a depender apenas de nosso desenvolvimento biológico, seríamos governados pela natureza e seus dogmas inexoráveis como a lei do mais forte ou a seleção natural. Por isso, Freud vê no empreendimento civilizatório uma condição sem a qual não nos distanciaríamos muito de todos os demais seres vivos: viver para sobreviver.

       Claro que, por outro lado, a obra civilizatória não só requer energias para se sustentar como também tem seu preço. Para que tenhamos, enquanto espécie, uma chance melhor de sobrevivência (tanto em nossa relação com a natureza como em nossa relação uns com outros) e, assim, possamos criar coisas com as quais nos deleitamos – a arte, o esporte, o saber – precisamos proceder a renúncias magistrais em nossos impulsos e desejos mais íntimos, temos que nos acomodar às leis que nós mesmos criamos para nosso próprio bem coletivo.

 E, assim, vamos nos tornando seres humanos: precisamos passar por pequenas amputações (desde que nascemos e começamos a respirar o ar da cultura) em nossa busca pelo prazer pleno e em nossa capacidade destrutiva. Vamos nos tornando seres civilizados, amputados. Moral da história: para que nossa espécie tenha chance de se manter viva no planeta, precisamos abdicar de nossos mais preciosos impulsos individuais. A civilização é um empreendimento que existe para o bem da coletividade, não do indivíduo. O mal está na civilização. Claro que, nesta perspectiva, não apenas o mal: o bem também, potencialmente temos construções civilizatórias ancestrais a nos alimentar, a nos embevecer, a nos humanizar. Além, é claro, de podermos contar uns com os outros numa rede gigantesca à qual podemos chamar de humanidade. Assim, o bem está na civilização – também.

Style: "Neutral"

Mas podemos pensar de outra forma, tal como Freud o faz em seu livro. O mal não está somente na civilização, o que – talvez no melhor estilo freudiano – nos coloca diante de um desafio hercúleo: como conseguir fazer com que a civilização e suas leis (que por um lado abolem nossa possibilidade de permanecer no Éden e nos atiram na Cultura) consigam nos proteger de nossos impulsos homicidas e destrutivos? Como lidar com o fato – testemunhado por Freud “no quintal de sua casa” – de que, poucos anos antes, todo o conhecimento e a ciência humanos tenham sido colocados a serviço da guerra e da destruição por meio da invenção de tanques, armas químicas e quetais? Como tentar lutar pelo aumento do prazer e satisfação que a civilização nos concede se a cada dia nos vemos diante da ameaça que nós mesmos representamos para nossa espécie? O que diria Freud dos horrores da 2ª Guerra Mundial e de todas as outras que a sucederam, assim como da destruição “no atacado e no varejo” a que nos subtemos dia após dia em inúmeras esferas, como, por exemplo, a que trata o filme Koyaanisqatsi, de 1982, da autoria de Godfrey Reggio?

 E é por conta disso que Freud, a despeito de todas as limitações (ou, quem sabe, justamente devido a elas), afirma em seu livro que a civilização é um empreendimento a serviço de Eros, da vida. É aquilo com que nossa espécie pode batalhar, ao longo dos tempos, em nossa eterna luta contra Thanatos, a morte.

Fechando: o mal está na civilização, o bem deve estar mais!

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**todas as imagens são do fotografo MIsha Gordin e foram retiradas do site http://bsimple.com/home.htm

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Sergio Wajman é psicólogo formado pela PUCSP em 1977.
Atua profissionalmente como psicanalista e professor no Curso de Psicologia da PUCSP.
É mestre e doutorando em Psicologia da Educação pela PUCSP.

 

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XINGÚ por Bela Gebara

 

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Três dias pra chegar. Por terra: São Paulo, Minas, Goiás e por fim Mato Grosso. A cidade vai sumindo e depois, cana cana cana soja soja soja. Amarelo. Que tamanho tem esse país! No último trecho só terra, pó, areia. O carro fica estacionado numa aldeia na beira do rio e de lá, seguimos de barco.
Três horas navegando o Rio Kurisevo que serpenteia, vira e volta, cortando o cerrado. É como se o tempo desacelerasse e andasse pra trás, rapidamente. Anta, capivara, jacaré, os pensamentos se dissolvendo. O pôr do sol e a expectativa de um lugar incomum.

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Já era noite quando chegamos. Um percurso de meia hora entre o rio e a aldeia Mehinaku numa trilha iluminada por lanternas. Escuro, sons, gritos de festejo e saudação. Na aldeia tentamos nos organizar, mochilas e um volume enorme de caixas de comida que trouxemos vão sendo empilhadas. Alguns resolvem dormir num abrigo externo. Muita gente, muita coisa. Onde vou dormir? Na Oca do Cacique Maycute.

O galo canta, o cacique levanta, a festa acontece. Cinco dias de festa de furação de orelha na aldeia.
Na aldeia não há hora. Nem para festa, nem para comer, nem para dormir. Tempo marcado é coisa de branco, e branco tem hora até para ter fome. Branco é qualquer humano que não seja índio: japonês, negro, mulato, norueguês. A hora da comida era estranha e as diferenças entre as duas culinárias muito acentuadas. Os Mehinakus não comem nenhum animal que anda na terra, só peixe, tracajá e algum passarinho, sempre acompanhado pela tapioca. O sal é extraído de uma planta aquática, aguapé, depois que ela é queimada e utilizam também  a pimenta. As refeições simplesmente acontecem, não são planejadas e sempre são em família.

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As mulheres trabalham o dia todo. Nem todas falam português, falam a língua do tronco Aruák como todo o povo Mehinaku. Colhem e preparam a mandioca, cuidam das crianças, cozinham, enrolam na coxa o cordão de buriti, tecem redes, modelam cerâmicas e fazem colares de miçanga tcheca. Pois é, a miçanga é tcheca! Gostam mais por que ela é pequena e mais delicada para a confecção dos trabalhos. Uma das consequências do contato estabelecido com o homem branco.

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Os homens pescam, caçam, lutam, tocam flautas de bambu, conversam na Casa dos Homens,- uma construção no centro da aldeia onde as mulheres são proibidas de entrar-, chefiam os rituais, dirigem motos, manuseiam celulares. No Xingú não há sinal de celular e os aparelhos são usados como máquinas fotográficas e filmadoras.

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Homens e mulheres se pintam, se enfeitam, cantam cantos com repetições sonoras e dançam num ritmo marcado pelas batidas dos pés na terra; ritualizam e se banham nas lagoas.
Quem dança ou ritualiza está vestido a caráter, ou melhor, desvestido, nu. E como não há hora certa para cada coisa acontecer, alguns passam boa parte do tempo assim, pintados com urucum, jenipapo ou resina com carvão, aguardando o grito de chamado pra festa.

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Roupa não é necessária, é apenas um adereço. As crianças ficam nuas até que sintam frio. As vezes tomam banho de lagoa com roupa, as vezes sem e se secam na caminhada de volta.
Já existe escola na aldeia. E o tempo do branco vem chegando, agora existe uma hora certa para ir à escola. Lá, aprendem português, além da língua Aruak.

desenho feito por uma criança Mehinaku mostrando o centro da aldeia

desenho feito por uma criança Meinaku mostrando o centro da aldeia

O espaço do centro da aldeia é incrivel e ver o céu a noite ali, mais ainda. O rio é vital para o indio. Sem ele não há vida, não há aldeia. Tão importante que quando olham o céu, o rio está lá. Dizem que o rio sobe até o céu e que a via láctea é o banco de areia que o margeia. As imagens são mitoloógicas e sempre muito poéticas.

Toda estruturada em madeira, a oca é oval e parece uma carcaça de animal. É totalmente revestida de palha do teto até o chão. Existem apenas duas portas em sentidos opostos. Uma dá para o centro da aldeia e a outra para o cerrado. O interno e o externo, a aldeia e o resto do mundo. Dentro é escuro, mesmo de dia, e a temperatura se mantém estável.

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A seriedade e concentração dos meninos em todos os dias de ritual impressionam. No último dia recebem uma refeição que precede o jejum pelo qual irão passar. E, finalmente a furação acontece. As mulheres são proibidas de assistir a cerimonia e devem então se recolher.

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Cerimonia finalizada e é nossa hora de fazer o caminho de volta. Levamos uma montanha de comida e os olhares indígenas sobre as caixas ainda repletas de latas, pacotes de macarrão, arroz e demais provisões eram desconcertantes.
O homem branco perdeu sua relação com a terra e com o que ela pode prover. Distanciou-se da experiência do presente e vive na ansiedade do futuro. E no futuro desconhecido estão os medos e por isso ele tenta se precaver; acumula, armazena, consome em excesso. O índio conhece a terra, os ciclos, confia e por isso tem apenas o que é essencial para o seu dia. Não precisa armazenar, não desperdiça e só gera lixo orgânico; a vida indígena não é predatória e não polui.

Essa breve experiência da cultura indígena na aldeia Mehinaku me fez sentir estrangeira em meu próprio país.
Hoje no Brasil existem 240 povos indígenas, com cerca de 900 mil pessoas e 180 línguas e dialetos distintos. Uma riqueza de tradição, história, mitos e conhecimentos ainda inacessíveis à civilização que os envolve.
Esses povos nativos, primeiros habitantes da nossa terra, dependem hoje de políticas de preservação para continuarem vivos. Interesses econômicos como o agronegócio e o desmatamento levam a dissolução de aldeias e a dizimação de diversas etnias. Quando migram para as cidades, longe do seu povo, os indígenas são marginalizados. O índio na aldeia vivendo sua vida autêntica, não é pobre. A manutenção da vida na aldeia preserva a cultura, mantém a dignidade e a saúde desses povos. O contato, inevitável, uma vez estabelecido, deveria promover transformações saudáveis e intercâmbio de culturas. E todos poderiam se beneficiar com essa troca.

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Uma noite, tivemos uma sessão de cinema improvisada no centro da aldeia. O telão foi pendurado na trave do gol. “Xingú Terra”, filmado há 40 anos nesta mesma aldeia Mehinaku, com roteiro de Maureen Bisilliat, texto de Orlando Vilas Boas e fotografia de Lucio Kodato nos foi apresentado pelo próprio Lucio, que fez parte do nosso grupo de visitantes. Ao lado de alguns dos personagens ainda vivos saboreamos a cultura e tradição que vem sendo passada de geração em geração.

** fotos: Bela Gebara

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BELA GEBARA  é arquiteta formada em 84 pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Mackenzie.Desenvolve projetos residenciais, corporativos e na área da saúde. Mora e trabalha em São Paulo onde já implantou diversas obras de sua autoria.
Arte e natureza são substrato para sua vida e inspiração profissional.