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jornal das moças, cintura

O lugar de mulher é no lar. O trabalho fora de casa masculiniza

Irresistíveis estas frases retiradas de revistas femininas dos anos 50 e 60.
O registro  de uma mídia exclusivamente feminina,  que nos dá a perspectiva de como caminhou a questão do gênero e do sexo nas últimas décadas.
-Não se deve irritar o homem com ciúmes e dúvidas. (Jornal das Moças,1957)

– Se desconfiar da infidelidade do marido, a esposa deve redobrar o seu carinho e provas de afecto. (Revista Claudia,1962)

– A desordem numa casa de banho desperta no marido a vontade de ir tomar banho fora de casa. (Jornal das Moças,1945)

– A mulher deve fazer o marido descansar nas horas vagas, nada de incomodá-lo com serviços domésticos.(Jornal das Moças,1959)

– A esposa, depois de casada, deve vestir-se com a mesma elegância de solteira, pois é preciso lembrar-se de que a caça já foi feita, mas é preciso mantê-la bem presa. (Jornal das Moças,1955)

– Se o seu marido fuma, não arranje discussões pelo simples fato de cair cinza no tapete. Tenha cinzeiros espalhados por toda casa. (Jornal das Moças,1957)

– A mulher deve estar ciente que dificilmente um homem pode perdoar uma mulher por não ter resistido a experiências pré-nupciais, mostrando que era perfeita e única, exactamente como ele a idealizara. (Revista Claudia,1962)

– Mesmo que um homem consiga divertir-se com sua namorada ou noiva, na verdade ele não irá gostar de ver que ela cedeu. (Revista Querida,1954)

– O noivado longo é um perigo. (Revista Querida,1953)

– É fundamental manter sempre a aparência impecável diante do marido. (Jornal das Moças,1957)

– O lugar de mulher é no lar. O  trabalho fora de casa masculiniza.(Revista Querida, 1955)

 

 

Agora está é incrível. Alguma jovem hoje em dia gostaria de adquirir quilos adicionais para ter mais sex appeal?   E do que se trata este ironized Yeast?

 

fonte: http://carissimascatrevagens.blogspot.com/

 

 

 

 

em busca do tempo perdido editora zahar

Proust e minha madeleine cosmética

Talvez Proust seja o escritor mais celebrado,  quando se pensa em memória. Nos volumes do seu  “Em busca do Tempo Perdido” inúmeras vezes  recorre a um dos sentidos como um canal direto de acesso a uma recordação. Eternalizou as madeleines, que mergulhadas no chá, num dia difícil,  lhe devolveram os encantos de Combray e de sua infância. No caso, visualizar ou tocar as madeleines foram insuficientes; foi  a experiência do paladar que  lhe revelou a memória guardada logo  abaixo da crosta da sua consciência.

 

 

 

quem já não viveu isto?

 

 

 

Aqui  minha versão nostalgica  proustiana

O branco da infância

A latinha era azul, e quando removi a fina película protetora que era de prata, o que ali se libertou não foi apenas o cheiro creme branco, mas a nostalgia de uma infância atemporal, latente em alguma fissura  do meu cérebro, pronta a ser resgatada.

Minha madeleine cosmética, me trouxe de volta um tempo de  esfoladuras na barriga, troféu  de ondas desbravadas em precárias pranchinhas de isopor, dias dourados, o gelado do mar na cabeça suada. Uma toalha vermelha pendurada na janela da sala do apartamento, que dava para a praia, avisava que era hora de subir para o almoço. Não havia desculpas. Comíamos rapidamente, que naquele tempo prazer não era comida, e descíamos de volta à praia. Não conhecíamos indigestão, nem sabíamos dos perigos de se nadar no mar quando de tempestades. Talvez a ignorância seja um ótimo escudo contra raios porque afinal, nenhum de nós nunca foi eletrocutado.

E o fim do dia era banho e o besuntado do creme, este branco mágico, que nos fazia caras pintadas, em tempos que antecederam o filtro solar. Tudo o que queríamos era mais janeiros, um ano inteiro só de janeiro.

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O pretérito imperfeito por Elza Tamas

Minha memória mais remota inclui duas chupetas que se alternam na minha boca, uma salada de alface temperada com açúcar e um desconforto, daquele que anuncia que alguma coisa muito grave está por acontecer. Tenho três anos de idade.

As lembranças se confundem com os relatos orais: noite de trovoadas, o pau da cortina caindo sobre a cabeça da minha mãe bem na hora do parto, meu avô de chinelos caminhando pelo quintal para enterrar a placenta no jardim. Uma coisa de cara amassada no meu colo que eu não tardei em descobrir que se tratava do meu irmãozinho, o primeiro banho, a família reunida e feliz. Memórias em preto e branco como são os registros fotográficos da época.

Minha mãe garante que eu estava na casa da outra avó, a paterna, e que seguramente não comi alface com açúcar, nem presenciei o parto, nem o desastre da cortina, mas meu desatino mnêmico insiste em me colocar na situação, espreitando. Inventei uma cortina florida, um rosto de dor, o alvoroço no quarto e até o choro do bebê nascendo.

Falsa memória. Um relato aqui, uma lembrança ali, fotos e um tanto de imaginação no meio.

Um amigo justificou uma série de fracassos em sua vida, em função de um episódio bem traumático na infância. Uma vez em família, se encheu de coragem para falar sobre o assunto e pasmem!, o tal fato tinha acontecido, mas não com ele e sim com seu primo.

Em termos psíquicos tanto faz se o registro é fabricado ou real, porque real é o que vivemos subjetivamente. Não temos um olhar ingênuo sobre a realidade, ela nunca nos é original. Nossos filtros pessoais criam e retroalimentam nosso rastro de memória, o que chamamos de nossa história, nossa identidade.

Somos na natureza os únicos seres autobiográficos. Narramos e nos narramos incessantemente, criando a sensação de uma experiência coerente, contínua e de tempos distintos.

Meu pai não se conta mais desta forma. Para ele, duas cidades distintas podem atravessar a  mesma sala de jantar, duas pessoas diferentes podem ocupar o mesmo corpo e  vinte, trinta anos se pulverizam da sua cronologia depois de um passeio no parque. Fenômenos observáveis apenas no mundo onírico. Acho que meu pai vive na 4ª. dimensão.

 

(e seus olhos, não eram quase verdes? Minhas mãos se lembram de uma cicatriz grande no seu corpo – elas não sabem onde, desculpe, jurei nunca esquecer a data do seu aniversário, o tempo engoliu minhas promessas. Esqueci, porque há muito tempo parei de nos relatar.)

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“Memória e memórias” por Lívia Garcia-Roza

Caso o passado se atualizasse a cada momento, nossa vida seria invadida por uma avalanche de lembranças que mal teríamos condições de suportar. Assim, podemos dizer que a principal função da memória é esquecer, e não, lembrar, sobretudo se aceitarmos a tese de que o passado se conserva integralmente.

Esquece-se portanto não por deficiência, mas por eficiência.

Foto Fernando Lemos – auto retrato

 

 

Quando morávamos em Icaraí, todas as noites meu pai ia verificar a altura da água da cisterna. Levava o flash light (como ele chamava a lanterna), e um dos filhos pra segurar a tampa. Quando chegava a minha vez eu olhava para o céu, e a noite tinha olhos azuis.

 

 

 

Livia Garcia-Roza nasceu no Rio de Janeiro e é psicanalista, pós-graduada em psicologia clínica, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estreou na literatura em 1995, com o romance Quarto de menina, que ganhou o selo altamente recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Desde então lançou vários outros romances, livros de contos e infanto-juvenis; entre os quais Meus queridos estranhos, Cartão-postal, A cara da mãe e A casa que vendia elefante. Ora trazendo histórias cotidianas, ora situações extraordinárias ou dramáticas; a prosa de Livia sempre imerge nas emoções humanas, com extrema delicadeza e profundidade. A autora é casada com o também escritor e psicanalista Luiz Alfredo Garcia-Roza.

 

Como os figos secam no quintal por Luciana Gerbovic

“Como os figos secam no quintal ?” por Luciana Gerbovic

Eu vi seus olhos perderem a voz. Encovados e opacos da cor das uvas amassadas com seus pequenos pés na ilha de Korcula. Viveram além do permitido pela memória. Ninguém brinca com o tempo impunemente. Não sei se foi essa a lição. Não sei se existe uma lição. Olhos que não lacrimejavam por mais ninguém. Você sabe quem eu sou? Se eu saí de alguém que saiu de você você está em mim e não sabe quem somos? Nem por um som. Kako si baba dobro? Foi você quem me ensinou essas palavras naquelas tardes de sábado em que você se juntava com sua mãe e suas irmãs numa cozinha um oceano distante do que um dia chamaram de lar. Um lar invadido pela guerra. Uma confraria de mulheres narigudas compartilhando segredos alegres numa língua não revelada às crianças ao redor do pão e do vinho. Não lacrimejavam nem por um toque. Quando a mais velha falava em seu código indecifrável eu só me acalmava quando você segurava meus braços assim ó e dizia que ela só queria saber se eu era uma boa aluna. Eu balançava a cabeça num sim e você me liberava até o portão. Gostava das risadas que o vento trazia da cozinha até a rua,  acompanhadas do perfume das roseiras e das pimenteiras capturado no meio do caminho. Nunca desvendei as confidências trocadas.

 

Não sei nem contar até dez no seu idioma poético aos meus ouvidos. Você não me disse qual o gosto do pêssego nascido na terra que te germinou num armistício. Seu nome Paz e Glória. Nem me falou do sabor do sal adriático. Você não me explicou como os figos secavam no quintal e não descreveu as cores das pedras pisadas por esses pés transformados em gravetos. Grito pela herança que me foi furtada pelo tempo. Levada para um espaço fechado a qualquer investigador. Tenho coisas que não quero. Sua casa e suas jóias. A penteadeira que viu seus cabelos branquearem antes das rugas comerem seu viço. O tique-taque do despertador que guiava meu sono misturado com sua reza na língua encantada das mulheres narigudas. A mala de couro recheada de fotos de pessoas que eu trago no sangue e não consigo imaginar coloridas.

 

Quero suas memórias. Essas que ficaram enterradas com os pêssegos e o sal e os figos e as pedras e as confidências das narigudas em alguma curva do seu cérebro entre a hipófise e o córtex.


 

 

 

 

 

Luciana Gerbovic – advogada, leitora e escritora (ou escrevinhadora?)