Arquivo da tag: Mitologia Grega

CONVERSA MOLE? por Sylvia Mello Silva Baptista

 

Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando de aproveitar
Beijei na boca de quem não devia
Peguei na mão de quem não conhecia
Dancei um samba em traje de maiô
E o tal do mundo não se acabou

 

Nessa canção de Assis Valente, gravada por vários dos melhores cantores de
nosso país, o mundo não acabou e deu a maior confusão.
Quando se lê e se estuda mitologia grega, parece que tudo o que podemos
pensar ou viver,  que esteja no perímetro do humano, já está ali exposto.
É sempre uma emoção  encontrar descritas as nossas angústias, as nossas
iras, os modos mais  improváveis de dar cabo a dores, em histórias trágicas,
épicas, cômicas ou  prosaicas.
Foi nessa fonte que me deparei com uma passagem que fala também do fim
do mundo,  ou quase, e que passo a relatar aqui. Afinal, não é o mundo uma
grande roda de histórias  e estórias, para as quais afinamos os ouvidos,
suspendemos o tempo e assim, adiamos a morte?

Corônis era o nome da bela ninfa, filha de Flégias, rei dos lápitas. Apolo,
o grande deus luminoso e flecheiro, por ela se apaixonou, no que teve seu
amor correspondido.

apolo e coronis

No entanto, apesar de já levar a semente do deus em seu ventre, temia que
o imortal se desinteressasse por ela, quando a velhice a alcançasse (vejam
como a questão do  envelhecer e da morte vem de tempos imemoriais).
Entregou-se então a Ísquis,  um mortal, com quem poderia sofrer
acompanhada os efeitos do tempo. Apolo não era lá muito bem sucedido
nos amores e resolvia sua pendências de forma cabal. Pediu ajuda a sua
irmã Ártemis – deusa das florestas e da natureza  selvagem, também
exímia arqueira -, e executou sua vingança: com flechas morreram
Ísquis pelas mãos de Apolo, e Corônis pelas de Ártemis. (Quantos acertos
de contas aconteceram entre nós, mortais errantes, dessa forma apolínea,
terrível? O mito nos fala metaforicamente do tamanho da dor da exclusão).

Mas a criança que crescia no ventre da  ninfa foi dali retirada -talvez a
primeira cesariana jamais realizada -, e  nasceu Asclépio.

Como usava acontecer com todos os heróis, foi educado
pelo grande centauro Quíron. Tinha um talento nato no uso das ervas bem
como da  magia. Desenvolveu a arte da cura, e fez de Epidauro um centro
ao qual muitos  acorriam para dar fim a suas aflições.

Asclepio e Higia

Casou-se com Epíone
e teve com ela dois filhos, Podalírio e Macáon (presentes na Ilíada de Homero),
e quatro filhas  cujos nomes devemos atentar: Áceso (a que cuida), Iaso(a cura),
Panaceia (a que  socorre a todos) e Higia (a saúde). Tal filiação nos dá a
possibilidade de  entender que esse semi-deus se desdobra em aspectos que
provêm do próprio Apolo  –igualmente o deus da cura, além da  música e da
mântica – e que apontam para o cuidado.

De fato, Asclépio,  além de sabedor das artes curativas, era possuidor de um
poderoso pharmacón: o sangue da jugular direita  da cabeça degolada da Medusa.
Atena, a deusa que ajudou Perseu a cortar a cabeça da Górgona horripilante –
que transformava os que a olhassem nos olhos em estátua de pedra -, deu a
Asclépio um vidro com o sangue capaz de fazer ressuscitar  os mortos.
E assim ele fez. E fez com tanto gosto que o mundo dos mortos começou
a minguar.

Hades, o rei dos  Ínfernos passou a se preocupar ao ver que nenhuma alma
aparecia por ali desde que Asclépio exercia seu ofício. E foi reclamar com
Zeus, o grande maestro do Olimpo. Este não teve dúvida: num piscar de
olhos fulminou o curador com seus raios.

Hades

Não há quem não fique indignado ao ouvir essa parte do mito. Como pôde
Zeus, o grande regente, zelador de tudo o que há sobre a Terra, como ele
teria tido a coragem de matar quem estava em pleno exercício do dito
“bem”? Mas nada é casual na sabedoria grega. Quem se indigna é a nossa
consciência ocidental baseada na cultura judaico-cristã que propala a
existência de um bem e um mal dissociados. Continuemos nossa história
para entendermos o modo flexível do raciocínio aqui  presente.

Apolo ficou furioso em ver seu filho morto, e num troco indireto liquidou
os Ciclopes, seres gigantescos, filhos de Urano e Geia, aqueles que
presentearamZeus com o raio, o trovão e o relâmpago. Com isso talvez
tenha tentado dar a Zeus  o gosto amargo da perda de um afeto, como a
que padecia, a ele imposta pelo  senhor do Olimpo. Hades, rei dos
Ínfernos, gostou desse ato, e viu seus domínios  se povoarem novamente.

asclepio

O mundo não acabou para Hades, mas acabou para o mortal Asclépio,
que no entanto, depois de fulminado, foi divinizado.

Isso nos faz pensar na relatividade das situações. A Psicologia Analítica,
fundada por C. G. Jung, olha para o manancial de conhecimentos da Grécia
antiga e vê ali uma sapiência em nada dispensável. Nesse casamento de
olhares, vemos que a unilateralidade das coisas leva a um desequilíbrio
insuportável com conseqüências nefastas. Apesar do ato de Asclépio ser
revestido das melhores intenções, ele incorreu no grave erro da hybris,
a imperdoável soberba que os gregos não admitiam nem mesmo aos mais
bravos heróis. Asclépio arrojou-se no papel de um deus. Fez um uso abusivo
do instrumento que lhe foi dado, o sangue da cabeça da Medusa. Esse
impulso ao  qual seguiu, passou do ponto e sua morte o lembra (nos lembra)
de seus (nossos) limites e da necessidade de humildade na sua (nossa) ação.

perseu e medusa

O termo  “humildade” tem em sua raiz “húmus”, que significa matéria orgânica,
a mais rica em nutrientes; ela se forma sobre a superfície terra, e para dela nos
aproximarmos, devemos nos ajoelhar, nos dobrar. Não por coincidência, a meu
ver, a palavra “reflexão” também possui o sentido do fletir-se.  Ao se refletir,
volta-se a consciência em direção a si mesmo. Com isso quero apontar para a
necessidade de observação deste necessário movimento de reflexão humilde.
O fim do mundo, o fim da picada, é não nos dobrarmos a essas verdades seculares.

E vejam que interessante. Em Epidauro, a medicina praticada, idealizada por
Asclépio, era a chamada nooterapia, ou seja, a cura pela mente.
O lugar era um centro cultural e de lazer, composto por um Odéon
(teatro onde se ouvia música e poesia), um Estádio (onde se faziam
competições esportivas de quatro em quatro anos), um Ginásio
(para exercícios físicos), um Teatro e uma Biblioteca com obras de arte.

Teatro Epidauro

Convido o leitor  a refletir onde estão, na nossa forma contemporânea de viver,
essas práticas que apontam para uma inteireza do homem, unindo corpo
e mente, pensamento e sentimento, arte e beleza. A perda desse referencial
harmônico e a constatação de uma visão de mundo e do homem tão
fragmentada, isso não  é o fim do mundo?

__________________________

1] As informações sobre o mito de Asclépio aqui relatado foram por mim
colhidas no Dicionário Mítico-etimológico de Junito de Souza Brandão, Editora
Vozes.

 

 

 Sylvia  Mello Silva Baptista formou-se em Psicologia pela PUC-SP.
É analista junguiana, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia
Analítica, professora de cursos abertos e de formação da SBPA,
coordenadora do MiPA, Núcleo de Mitologia e Psicologia Analítica
da Clínica da SBPA.
Como escritora, publicou “Maternidade e Profissão: Oportunidades
de Desenvolvimento”,  “Arquétipo do Caminho – Guilgamesh e
Parsifal de mãos dadas”, “Mitologia Simbólica – Estruturas da
Psique e Regências Míticas” e “Ulisses, o herói da astúcia”,
todos  editados pela Editora Casa do Psicólogo.

Lançou seu primeiro romance – “Segunda Pedra” – em novembro de 2012 pelo selo Edith.

 

http://www.visiteedith.com/

[email protected]

 

 

O TRANSFORMADOR DA ALMA por Thelma Schinner

 

A astrologia  pode ser vista como  pura diversão e  elucubração. No entanto ela oferece  uma profunda análise do movimento dos planetas ao  nosso redor,  e revela  tendências que nos permitem  lidar  melhor com o  passado, presente e futuro.

Dos Faraós egípcios aos grandes  governantes internacionais de hoje, o estudo do significado dos Planetas e  astros próximos da Terra propiciam, antes de tudo, a reflexão sobre símbolos e  arquétipos com os quais podemos  nos conscientizar e, se possível, aproveitar de  seus significados como ferramenta para evoluir e melhorar a vida.

Em se tratando de passagens,  não há como não pensar logo em Plutão, o planeta das fortes mudanças , representado por Hades  na mitologia Grega.

Hades é o Deus das  Profundezas e  da Transformação. Responsável pela morte é também o grande poder do  renascimento e fertilização/fecundação: é só através do grande mergulho nas  profundezas da terra que podemos entrar em contato com a Semente do que somos e  sempre fomos.

Plutão na astrologia tem um significado semelhante. É na influência deste planeta que nos deparamos com grandes revoluções (internas e externas) em nossas vidas.

Quando Plutão surge eminente, somos convidados a mergulhar em nossas profundezas individuais e voltarmos para a semente – a base primordial do que somos – realinhando nossas escolhas e visão da vida, na direção desta qualidade sagrada.

A guinada que Plutão nos convida a fazer não é fácil, é uma tarefa exigente  e por isso ele  é visto como  negativo e perigoso. Mas  é este toque de Plutão que nos permitirá alcançar o nosso poder pessoal e  a força interna:  a grande transformação e o descarte total da ‘casca’  nos coloca em  contato direto com o ponto profundo que é a partida e finalização, mas  também o recomeço genuíno de algo  dentro de nós.

Desde 2011,  Plutão, para quem vê do ponto de vista da Terra, está passando pelo signo de Capricórnio que representa as  estruturas, as regras fixas e as condutas ordenadas. E todos nós sob esta  influência teremos que lidar com a Transformação (Plutão/Hades), principalmente  nas questões relacionadas com estruturas rígidas; padrões fixos e antigas  definições de regras.

Coletivamente, pode ser momento de desmancharmos  a força do “politicamente correto” que avassalou códigos, liberdade na  comunicação e até mesmo no pensamento: é hora de desmantelar conceitos pré-instituídos para desabrochar pensamentos livres e mais verdadeiros nas  relações sociais. E também tomar decisões mundiais que considerem a verdadeira  raiz dos problemas, ao invés de apenas remediar a superfície evidenciada em  cada momento.

No âmbito individual  temos sentido  grandes solavancos – pessoais ou profissionais. Estruturas arcaicas estão sendo desfeitas,  mas não sabemos ainda  no que vão  resultar. Está é a natureza de Plutão, a transmutação, a mudança de um estado para outro.   Do lugar ainda onde estamos,  não temos recursos para conceber como será o novo, não temos como antecipar a nova síntese que estamos processando, e  não sabemos que nova ordem  substituirá esta que nos é  obsoleta.

Para aqueles abertos às transformações e  menos apegados aos valores já conquistados, Plutão traz a grande alegria do  encontro com o poder interno e também o alcance do poder (força e  vitalidade) na vida diária também.

 

 

Thelma Schinner é astróloga e  trabalha com atendimentos desde 1988.  Também atua há quatorze anos como terapeuta de JIN SHIN JYUTSU – técnica milenar de reequilíbrio físico e
energético pelo toque das mãos sobre pontos do corpo.

 

 

Mais informações: www.astroanima.com