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AURORA por Elza Tamas

Minha mãe morreu faz um mês.

Eu não sabia que a morte era calma e que essa travessia podia ser feita de mãos dadas. Não sabia.

Uns vinte dias antes, meu avô enviou um pato para morar em cima do telhado da casa dela , foi assim que ela sonhou.  Quando o pato morresse, ela morria.  Por volta das 16 horas , um mês atrás,  o chão do quintal  ficou cheio de penas brancas.

Eu e ela estávamos de mãos dadas.

 

 

foto do Banner: Elza Tamas

LIDANDO COM AS PASSAGENS DA VIDA por Bel César

A vida é sempre uma supresa. Há momentos que precisamos fazer uma travessia, passar de um estado de coisas conhecido a uma
situação inteiramente diferente. Nesses momentos, costumamos buscar o exemplo de outras pessoas que fizeram as mesmas travessias para nos inspirar a viver melhor essas etapas. Mas existem passagens que  são inéditas, tais como a nossa própria morte.

A morte é uma experiência muito difícil se estivermos despreparados para lidar com ela. Abandonar tudo que é familiar já gera vulnerabilidade. Por isso, quanto mais familiarizados estivermos com nosso mundo interior, melhor enfrentaremos o desconhecido. Quando não podemos mais
nos apoiar no mundo exterior, contamos apenas com nosso eixo de segurança interna.

Lama Gangchen

Foi o medo da morte que me levou a trabalhar compacientes terminais. Em 1988, uma intensa experiência pessoal me fez refletir
profundamente sobre minha mortalidade. Já havia encontrado Lama Gangchen Rinpoche um ano antes. Ao experimentar uma profunda solidão diante do medo da morte, decidi dar um novo rumo à minha vida: superar a resistência de lidar com a minha própria mortalidade e ajudar os outros a se sentirem menos solitários frente à morte.

A morte nos faz pensar na vida. Ao darmos um significado à nossa morte, encontraremos uma nova perspectiva para nossa existência. No entanto, para nos conscientizarmos de algo não basta ter um entendimento intelectual, precisamos ir além de nossas percepções racionais. Ou  seja, não basta refletir filosoficamente sobre a morte, é preciso familiarizar-se com ela positivamente.

Em nossa cultura capitalista, baseada na segurança da realidade imeditada, a morte é vivida como uma aniquilação. Para muitos, o medo  natural que todo ser humano sente diante da própria finitude gera pânico.

O Budismo nos inspira a incluir a consciência da morte em todos os eventos da vida como uma forma de reconhecermos a natureza cíclica e
contínua da existência de todos os fenômenos.

Vivenciamos a morte na vida cotidiana nos momentos em que as coisas não estão funcionando como desejávamos ou prevíamos.

Pema Chodron

Podemos  aprender a lidar com nossas dificuldades cotidianas como uma prática de aceitação emocional de nossa morte futura. Assim como diz Pema Chödrön: “Ter um relacionamento com a morte na vida diária significa ser capaz de esperar e de relaxar na insegurança, no pânico, no constrangimento, naquilo que não vai bem”.

Algumas pessoas sabem lidar com os imprevistos de modo natural, sem alarmes. Mas, a maioria de nós, não está preparada para lidar com  o caos: tememos as situações que estão fora de controle. Não estamos familiarizados com a idéia de contar apenas com a nossa capacidade interna. No entanto, existem momentos na vida em que a única esperança de sair de uma situação caótica consiste em podermos realizar uma transformação interior.

Ao acompanhar aqueles que enfrentam a morte aprendi que o fato de lidar com a morte em si mesma não gera mudanças: nossas  transformações ocorrem porque amadurecemos internamente o desejo de mudar e encontramos os recursos necessários para processá-las.

Aprendi também que não é preciso falar sobre a morte com quem está morrendo. Há algo em comum com entre a morte e o sexo: ambos  aprendemos fazendo e evitamos falar até que haja alguma dúvida que não encontramos mesmo a resposta.

E por fim, aprendi que apesar de não podemos ajudar aquele que não quer ser ajudado, ainda assim, podemos permanecer ao seu lado,
com uma atitude sincera de abertura e disponibilidade, isto é, “de não querer transformá-los, nem ser por eles transformados”. Então, algo positivo acontece.

Abertura, clareza e flexibilidade são as qualidades de uma mente saudável. Cultivá-las diante dos momentos de difíceis passagens nos
ajuda a seguir em frente. Seja lá para onde for…

* foto Banner: Elza Tamas

Bel César psicóloga, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde  1990.

Trabalha com a técnica de EMDR, um método de Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares,especialmente  empregado no tratamento de transtorno de estresse pós-traumático,
quadros de ansiedade, depressão e síndrome do pânico. Desde 1991, dedica-se ao  acompanhamento daqueles que enfrentam a morte.

Em 1987, organizou a primeira vinda de Lama Gangchen Rimpoche
ao Brasil. Presidiu o Centro de Dharma da Paz por 16 anos. Desde 2004, em  parceria com Peter Webb, desenvolve atividades de Ecopsicologia no Sítio Vida de  Clara Luz, em Itapevi, São Paulo e administra aulas sobre a psicologia budista
na Sede Vida de Clara Luz em São Paulo – www.vidadeclaraluz.com.br

Desde 2002, colabora com o site www.somostodosum.com.br
na sessão Psicologia Budista.

Elaborou o livro “Oráculo I Lung Ten”, compilando 108 predições
de Lama Gangchen Rimpoche e outros mestres tibetanos. É também autora dos livros
“Viagem Interior ao Tibete” e “Morrer não se improvisa”, “O livro das Emoções”,
“Mania de Sofrer” e “O Sutil Desequilíbrio do Estresse” (em parceria com o Dr.
Sergio Klepacz e Lama Michel Rinpoche). Todos editados pela Editora Gaia.

É conselheira da Fundação Lama Gangchen para a Cultura de Paz
www.flgculturadepaz.org.br

 

A TRAVESSIA DE INANA PELO MUNDO DOS MORTOS por Silvana Parisi

“A cada um dos sete portões do mundo dos mortos, a  terra de onde não há retorno, é removida uma peça das ricas vestes de Inana.

‘O  que é isso?’ ela questiona. ‘Quieta, diz o porteiro real, as leis do mundo  inferior são perfeitas, não podem ser questionadas”.

 

Este é um trecho  do antigo mito sumério, de cinco mil anos atrás que conta da descida da deusa  Inana ao mundo inferior, governado por sua irmã, a terrível rainha dos mortos:  Ereshkigal. Lá, desnuda, a poderosa deusa do céu e da terra, estrela da manhã e  do entardecer, é condenada à morte. Após três dias, em que a terra fica  estéril, Inana é resgatada, renasce e volta ao mundo superior transformada, acompanhada  de seres demoníacos e tendo que encontrar um substituto para deixar em seu  lugar.

Simbolizando uma  verdadeira viagem ao inconsciente, este mito retrata os processos profundos da  alma em que ocorre a morte e o renascimento, o que também é característico dos  rituais de iniciação: abandonar velhos hábitos e apegos, despojar-se da antiga
persona, para dar lugar a um novo modo de ser. Atravessar cada portão e ser despida  implica sacrifício, entrega, rendição. Há que se ter coragem para empreender  tal jornada.

Nos mitos,  muitas vezes, a grande travessia de heróis e heroínas é para o reino dos  mortos. As travessias marcam as passagens importantes, as transformações  necessárias no percurso da vida. Uma parte de nós morre a cada doença, perda,
separação. Fechamentos de ciclos, épocas de transição e mudanças que a vida nos  impõe, ou talvez nos convide a fazer. Como canta Milton Nascimento: “Quando você foi embora, fez-se noite em meu  viver; forte eu sou, mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar”.

 

Chega o  tempo da noite e das lágrimas em que sob o olhar de Hécate, atravessamos o  Estige na barca de Caronte  e percorremos as terras áridas e desoladas do mundo  dos mortos. Às vezes a visita às paisagens ermas é breve – uma sombra escurece
por instantes nossa visão. Outras vezes, é visceral – descemos aos abismos da  alma. Na vida, fazemos essa travessia várias vezes e de maneiras diferentes,  geralmente, de forma involuntária.

É uma terra que  tem leis próprias: uma advertência sobre os riscos destes subterrâneos da  psique. Associada à vivencia depressiva, a estadia prolongada nesta dimensão, entorpece e congela a vida, lembremos, é a “terra de onde não há retorno”.

Ao mesmo tempo,  a travessia pelo mundo inferior é potencialmente transformadora: é o lugar dos  lentos processos de gestação. A semente só pode germinar no escuro e na umidade  do útero da terra. Há um tempo para isso, o que exige acolhida e respeito.
Embora possa ser uma espera dolorosa, a natureza tem seus ciclos: a morte é  adubo para a nova vida.

* foto banner – Caronte – Gustave Doré

 

Silvana Parisi  é  psicóloga clinica de orientação junguiana com mestrado e doutorado pelo  Instituto de Psicologia da USP.
Deu aulas em algumas faculdades de Psicologia e ministrou cursos no Instituto Sedes Sapientiae. Estudiosa de mitologia, contos de fadas e psicologia feminina, há muitos anos coordena grupos vivenciais de mulheres e workshops sobre mitos.
 Atende como psicoterapeuta em seu consultório em São Paulo.
 Está para lançar o livro “Amor e separação: reencontro com a alma  feminina” pela Vetor editora.