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Maria Alice Vergueiro em entrevista ao Fora de Mim

Maria Alice Vergueiro em entrevista ao Fora de Mim, fala de como vive a sua multiplicidade interna e como ela é um recurso para os diferentes papeis que interpreta.

De “Katastrophé”, um grande desafio de interpretação, à popularidade alcançada com o vídeo “Tapa na pantera”, ao atual trabalho no teatro, “As Velhas” de Jodorowisky, ela nos conta como a arte e vida não se separam e de que tem medo mesmo é da morte.

 

Tapa na Pantera:

http://www.youtube.com/watch?v=6rMloiFmSbw

 

Maria Alice Vergueiro, atriz, estreou em teatro no ano de 1962, no espetáculo A Mandrágora, sob a direção de Augusto Boal. Passou pelo Teatro Oficina, onde atuou na histórica montagem de O Rei da Vela , de Oswald de Andrade, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa.

Foi fundadora, ao lado de Luiz Roberto Galízia e Cacá Rosset, do Teatro do Ornitorrinco, onde atuou em diversos espetáculos.

Conhecida  como a dama do underground ou velha dama indigna,  esteve presente como atriz em alguns dos mais importantes e instigantes espetáculos da cena paulistana nos últimos 40 anos. Entre eles, Mahagony Songspiel (Cacá Rosset), Electra Com Creta (Gerald Thomas), Katastrophé, Mãe coragem   e muitos outros.

Recentemente ganhou notoriedade com o Tapa na pantera, um dos videos mais vistos na internet.

Colecionadora de premios por suas atuações, atualmente está em cartaz com a peça  As tres velhas,  de Jodorowsky, que lhe rendeu uma homenagem no ultimo premio Shell de teatro.


Aos que me habitam, por Elza Tamas **

A que dorme em mim, a que tem sono, e se deita na cama a noite, não é a mesma que acorda. Tomo decisões noturnas que não se sustentam mesmo antes do café. Planejo acordar cedo, correr no parque, mas de manhã quem desperta, é outra. Sou habitada por uma verdadeira assembléia ruidosa. Meu corpo é vítima de fisgadas,  tensões  se espalham pelos meus ombros e eu sei que são desejos me puxando para lados contrários.   Algo em mim quer paixão, outra, celibato. Leio Darwin, cito Richard Dawkins e quando o inesperado atravessa o meu caminho, disparo rezas como flechas confusas buscando o peito de alguma deidade. É apesar disto, reconheço em mim um senso de identidade e uma experiência de eu contínuo permeia a minha existência.

Assim somos. Complexos, múltiplos e singulares.  Coexistem dentro de nós atitudes contraditórias; podemos  ser tímidos e outras vezes surpreendentemente ousados. Esta multiplicidade  é preciosa, pois são estes recursos internos que quando bem temperados,  criam um repertório original de respostas frente às demandas da vida. No entanto, quando nos  identificamos  com apenas um aspecto nosso, ou um grupo de aspectos com o mesmo tom, podemos gerar desequilíbrio, dor e sofrimento em nossas vidas.  Um ponto de vista cristalizado, sugere que nossas várias partes internas não estão se comunicando.  Perdemos a referência do todo e agimos e pensamos a partir desta única janela estreita, sem perceber que ela é parcial.  Imagine um fígado, muito bem intencionado, que resolvesse assumir o comando de um corpo. O colapso seria eminente. E se uma empresa investisse todo o seu orçamento apenas no departamento de compras? Ou um indivíduo tão dedicado ao trabalho, que acha que nunca precisa tirar férias…

Podemos a partir disto, entender os absurdos cometidos em nome de um time de futebol, uma religião ou mesmo uma posição política. O fanatismo, seja de que ordem for, não passa de uma identificação e uma vez que estejamos identificados com algo passamos a ser regidos  e controlados por aquilo. É assim  também quando  nos apaixonamos. Parcialmente cegos, elevamos a nosso objeto de desejo à condição de príncipe ou  deusa,  e não raro, quando a paixão se vai,  nos surpreendemos com o equivoco da nossa escolha.

O processo de desidentificação requer a ampliação da nossa consciência afim de que  ela inclua os aspectos  negligenciados dentro de nós. Como no social, que é um espelho direto de como operamos no individual, tendemos a empurrar para a periferia, aquilo com o qual não sabemos como lidar, aquilo  que desestabiliza a ordem reinante. E nós bem sabemos o tamanho da nossa periferia, social ou pessoal.

Irmãos de um mesmo tempo, somos bilhões de pessoas morando sobre a Terra neste ano de 2011. Criamos regras, leis, disciplinas de convívio. Fazemos parcerias, fundamos associações.  Privilegiamos alguns em detrimento de muitos.   Assim funcionamos. Dentro ou fora. Uma grande assembléia.

Até que possamos ser compassivos e democráticos na forma como lidamos com o nosso território pessoal, continuaremos a repetir no social a mesma mecânica de preconceito e segregação que praticamos internamente.  Nenhuma mudança no social acontece desconectada de uma mudança no plano pessoal.

 

 

**Máscara de Aude Kater

 

 

 

Psicóloga clinica formada pela PUC/SP, com especialização em Psicossíntese reconhecida pelo Psychosynthesis & Education Trust de Londres. Presta atendimento psicológico individual, de casais e coaching. É palestrante e consultora na área empresarial e coordena  workshops  com temas ligados ao desenvolvimento pessoal. Interessada em compreender a mente e a natureza humana, estudou diversos sistemas de conhecimento em centros no Brasil, Argentina, Estados Unidos, Inglaterra, Dinamarca, India e Nepal.

Elza é a idealizadora do projeto Fora de Mim.