Arquivo da tag: musica

mal-estar-dores-de-amor-c

DORES DE AMORES NA MPB por Silvia Moraes

 

O romantismo elevou o amor à essência da vida. Podemos observar a presença do amor romântico nas artes, na literatura e na música. O romântico constrói um mundo imaginário nostálgico e melancólico, trazendo um distanciamento da realidade social, experiência da perda e procura pelo que se perdeu. O humano depende de ser amado, necessita de reconhecimento, busca constantemente seus pares. As decepções e desencontros amorosos são freqüentes fontes de mal-estar e motivos de busca de um analista.

Assim, as canções como uma forma de expressão cultural, revelam os afetos predominantes de uma época, como o sofrimento do indivíduo perante o enamoramento, e apontam os recursos possíveis para o seu enfrentamento.

Canções da Era do Ouro, na década de 30, contemplavam, muitas vezes, a dor da mulher relacionada à sua inserção numa cultura patriarcal, onde é esperada certa submissão e doçura frente ao companheiro boêmio, malandro e mulherengo. Certa dose de masoquismo e mágoa são aí traços característicos freqüentes da figura feminina.

…gosto dele assim, passou a brincadeira e ele é pra mim


(Gal Costa – Camisa amarela)

…com perfeita paciência sigo a te buscar…

…cena de sangue num bar da avenida São João!


(Inezita Barroso canta Ronda)

…fiz seu doce predileto pra você parar em casa

…logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato e abro meus braços pra você!


(Nara Leão – Com açúcar, com afeto)

Essa postura feminina persiste no decorrer dos tempos. Canções, curiosamente compostas por homens para suas intérpretes femininas.

O amor dói, a paixão submete. O apaixonado é um ser humilhado que mendiga o amor do seu amado, que teme perdê-lo e, quando isto acontece,tem a sensação de ser atirado num abismo.

… se meu mundo caiu, eu que aprenda a levantar


(Meu mundo caiu com Maysa)

O componente trágico do amor o aproxima da morte. Amar fica equiparado com sofrer. Esse amor é construído, investido, e nem sempre recompensado.

… eu fico com essa dor, ou essa dor tem que morrer

.. pois quando estou amando é parecido com o sofrer


(Zezé Motta e Luiz Melodia em Dores de amores)

A dor da perda do objeto amado é contemplada na maioria das canções. De forma singular, e, ao mesmo tempo universal, estas expressam o amor não correspondido, o abandono, o descaso.

No âmbito universal, toda perda implica em tristeza, em desamparo. O humano depende sempre do olhar do outro amado.

… eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza


(Fagner – Canteiros)

O sentimento de saudade é algo bastante contemplado. Palavra tão peculiar da nossa língua evoca a presença do outro e o prazer da efemeridade do encontro.

.. a saudade é dor pungente


(Bethânia – A saudade mata a gente)

Já na década de 80 despontam temas que trazem à tona as diversas formas de amor.

.. qualquer maneira de amor vale a pena


(Paula e Bebeto)

O homem oscila entre a ilusão de completude e o sentimento efêmero do que denomina de “felicidade”, e a angústia e medo da falta de amor e do olhar do outro. Como se entregar sem se perder no outro? Qual é a medida certa da paixão?

… e não é a dor que me entristece, é não ter uma saída, nem medida na paixão


(Lenine – A medida da paixão)

Talvez tenhamos de nos convencer que não escolhemos, mas somos escolhidos. O amor simplesmente acontece…

… o amor quando acontece, a gente esquece que sofreu um dia


(João Bosco – Quando o amor acontece)

E, apesar de tanto sofrimento, humilhação, desilusão, seguimos procurando nosso par, na eterna ilusão de completude.

… sem amor eu nada seria


(Renato Russo – Monte Castelo)

 

mal-estar-silvia-foto-mini-bio

 

SILVIA MORAES é violonista, cantora, psicóloga e psicanalista. Faz shows e organiza saraus. É apaixonada por música, especialmente pela canção brasileira.

 

 

 

 

 

 

origens arte aborigine1

O ELO ENTRE LINGUAGEM E MÚSICA por Magda Pucci

 

Parece existir uma ligação próxima entre o surgimento da música e da linguagem falada, situando assim o despertar do sentido musical em tempos remotos.

Inúmeras teorias tentam explicar a origem da música, do canto, dos primeiros sons produzidos pelo homem. Alguns dizem que nós aprendemos a cantar imitando os sons emitidos por pássaros e animais, enquanto, outros sugerem que a música se desenvolveu a partir da descoberta de que alguns sons mais simples quando emitidos a uma longa distância, tornam muito mais fácil a comunicação de um grupo. Diferentes intelectuais de diversas áreas tem suas teorias sobre o surgimento da música, do canto, da fala.

O economista Karl Bücher argumentou que o ritmo desenvolveu-se em função da necessidade de se coordenar grandes grupos de pessoas trabalhando juntas levantando, quebrando, puxando as coisas – requerendo desempenho máximo do grupo exercido no mesmo instante. Essa relação com o coletivo é bastante aceita ainda hoje.

Charles Darwin, naturalista, relacionou a origem da música com o sexo: ela teria se  desenvolvido a partir dos sons de acasalamento produzidos por  pássaros e animais. Essa é uma hipótese provável também, dado que muitos xamãs indígenas se transvestiam de pássaros ou outros bichos para conversar com os espíritos. Há vários relatos míticos, como por exemplo, os dos Paiter Suruí, onde mulheres mantinham relações sexuais com espíritos em forma de animais.

O psicólogo Karl Stumpf conjectura que cantar com tons definidos e bem alto tinha um poder muito maior do que o discurso ou grito.

Para Herbert Marcuse, filósofo, as pessoas tendem a exagerar as localizações expressivas na própria linguagem quando estão em estados emocionais agudos, originando lamentos ou gritos que quando estilizados, se transformam em música.

A música se desenvolveu como um modo de comunicação realçada com poderes sobrenaturais, ou seja, como forma de xamanismo, com poderes para a cura e de dialogo com os espíritos.Esta é a visão proposta pelo antropólogo Siegfried Nadel.

O etnomusicólogo John Blacking concebe a música como um espelho que reflete os mais profundos ritmos sociais e biológicos de uma cultura, uma externalização dos pulsares que permanecem escondidos no meio das ocupações da vida diária.

A filósofa Suzanne Langer especula que música, linguagem e dança foram originados juntamente aos mais antigos rituais, com imagens de pessoas se reunindo em círculos, dançando e cantando.

O musicólogo Jacques Stehman também aponta uma analogia entre a gênese da música e a da linguagem, ao afirmar que “os homens das eras mais recuadas, vivendo rodeados de mistérios inexplicáveis e de terrores diversos, sem recurso perante a hostilidade da natureza e os enigmas da criação, utilizam antes mesmo de saberem falar, uma linguagem que representa um meio de comunicação com os espíritos ou com as forças que os dominam, ou ainda com divindades que comandam essas forças”.

Para o arqueólogo Steven Mithen , autor do livro ‘Os Neandertais cantavam rap’, antes mesmo de desenvolver um padrão de linguagem, os hominídeos que viviam entre 50 mil e 100 mil anos atrás utilizavam a música como forma de comunicação e socialização. Para ilustrar, ele exemplifica com a imagem de homens de Neandertal em cavernas em Dordogne, na França, cantando, pulando, fazendo sons com os pés e com as mãos. Parecia haver uma espécie de “transe coletivo” semelhante ao visto nas atuais raves.

“As pessoas sempre pensam nos Neandertais como brutos e mal-humorados, mas eles tinham uma noção forte de ritmo e música”. O arqueólogo se apoia em outros estudos, de neurocientistas, antropólogos e paleontólogos, para reforçar a ideia da co-evolução de música e linguagem. Em oposição, outro arqueólogo Steven Mithen, pensa que o homem de Neandertal desenvolveu uma comunicação que ele chama de HMMMM, isto é, holística (não composta de elementos segmentados), manipulativa (influenciava emocionalmente a si próprio e aos outros), multimodal (utilizava sons e movimentos), musical (rítmica) e mimética (com gestos).

O linguista canadense Steven Pinker diverge da teoria de Mithen e acredita que a música seria uma derivação do sistema de linguagem, isto é, a música poderia existir no cérebro mesmo com a ausência da linguagem.

Tanto Mithen com Stehman, assim como a filósofa Langer, afirmam que a comunicação do homem – seja com os seus ou com as divindades – demandou uma linguagem, isto é, sons articulados geradores de uma oralidade, que independente do advento da escrita, se mantém como forma de comunicação entre muitos povos, seja em forma de música ou como narrativas.”

Na China Antiga, pensava os princípios da música seriam os mesmos do eterno sagrado, huang chung, expressão que se refere tanto ao som fundamental como à divindade. Na tradição indiana, Brahma ensinou o canto ao profeta Narada que por sua vez, o transmitiu ao resto dos homens. No Egito, Deus Thoth teria criado o mundo através dos sons e antes do ano 4000 a.C., a música já era presente nos rituais e cerimônias militares, festas profanas. Na Babilônia e na Grécia, os filósofos relacionavam o som com o cosmos através do estudo da acústica.

Por mais teorias que surjam, a origem da música se mantém como um mistério. Enquanto manifestação oral não é linguagem da razão, mas das grandes forças misteriosas que animam o homem.

 

foto banner: arte aborígine
fotos: pinturas rupestres Serra da Capivara

 

Um gostinho do grupo Mawaca

 

 

Magda Pucci é musicista e pesquisadora da música de vários povos. É formada em Regência pela ECA-USP, mestre em Antropologia pela PUC-SP e doutoranda em Creative Arts and Performance na Universidade de Leiden na Holanda. É diretora musical do grupo Mawaca há 20 anos, onde desenvolve extensa pesquisa de repertório multicultural aplicada à prática musical. O grupo tem 6 CDs e 4 DVDs lançados e se vem se apresentando em diversos países. Magda foi apresentadora e produtora do programa de rádio ‘Planeta Som’ por 13 anos transmitido pela Rádio USP e pela Multikulti na Alemanha e na Suécia. Ministra oficinas de educação musical para professores e é autora do livro paradidático “Outras terras, outros sons” em parceria com Berenice de Almeida (Ed. Callis) além de livros para criancãs baseados nas canções do Mawaca como “De todos os cantos do mundo” (Cia das Letrinhas) e “Contos Musicais” (Leya) em parceria com Heloisa Prieto. Com Berenice de Almeida, escreveu o livro “A Floresta canta: expedição sonora por terras indígenas do Brasil” (Peirópolis) e A Grande Pedra (Saraiva) para crianças. Também dá palestras e cursos sobre músicas do mundo e faz curadorias.

www.mawaca.com.br

http://www.youtube.com/user/mawaca

http://www.wix.com/magdapucci/mawaca-cantos-da-floresta2

http://www.facebook.com/grupomawaca

 

 

 

viagem 2013 berlim paris marrocos  banner

A MUSICA SAGRADA EM FEZ- MARROCOS por Glaucia Rodrigues

.

“Some day music will be the means of expressing universal religion.”
Hazrat Inayat Khan

“Deus nos respeita quando trabalhamos, mas nos ama quando dançamos!”
proverbio Sufi

 

 

Os sufis amam a música e a expressão em árabe “ ghiza e ruh” significa música, o alimento da alma.
De acordo com eles a música é o início e o fim do universo.
Em sânscrito a música é chamada de “sangita“, significando, cantar, tocar e dançar e também está na base da criação e equilíbrio do mundo.
O som abstrato é chamado de “sawt-e -sarmad” pelos sufis, e todo espaço é preenchido por ele, o som primordial, de onde toda a matéria se faz. Nos Vedas o som abstrato é chamado de “anhahad”, o som ilimitado.

O Festival de Musica Sagrada, criado há 19 anos na cidade de Fez – Marrocos reune diversas sonoridades do planeta e sua infinidade de crenças, expressas através de uma riqueza de ritmos, vozes, e vibrações sonoras.


Durante uma semana juntos, cada um na sua lingua e cultura, cantam, dançam e tocam, como se fosse um chamado, um apelo, um grito à nossa origem comum , sensivel e fraterna. Nos lembram (Zikr) que todos podemos ser UM… OM AUM com o princípio Divino..

 

Incluo aqui uma pequena amostra da diversidade das apresentações no festival, que aconteceu em junho de 2013.

 

Noite de abertura com o tema “Love is my religion”. Cherifa Andre é uma cantora bérbere  marroquina

 

Coro ortodoxo e bizantino

 

Françoise Atlan

 

Dervixes sagrados

 

Paco de Lucia

 

 

Abeer Nehme cantando no Museu Batha

 

 

 

Aqui o video The soul of sound, que apresenta  uma visão geral sobre o festival e a cidade de Fez.

 

fotos: Elza Tamas

 


Glaucia Rodrigues
é graduada em Psicologia pela PUC/SP. Especializada em Abordagem Corporal, Psicologia Junguiana e Cinesiologia pelo Instituto Sedes Sapientiae (SP). Formada em Danças Circulares e Folk Dance Camp pela Universidade do Pacífico – Stockton, Califórnia (EUA). Coautora do livro “Danças Circulares, uma proposta de educação e cura”.Diretora do Centro de Estudos Universais-AUM, associação de caráter sociocultural que desde 1998 promoveu oito Encontros Internacionais de Músicas e Danças do Mundo- Dançando pela Paz e este ano (2013) organizou um grupo de brasileiros para participar do Festival de Fés (Marrocos) de Músicas Sagradas do Mundo.

www.ceuaum.org.br

 

 

 

 

 

 

 

 

Landola-Classica

BLUE, BLUES por Eliete Negreiros

 

 

Azul, cor do infinito, dos infinitos azuis que há e daqueles outros infinitos que não sabemos sequer imaginar, vibração da transcendência, do que é imenso e não pode ser contido numa palavra, num gesto, num traço.

Este azul do imenso faz nascer asas na imaginação, asas que nascem do olhar, convite a que nos desliguemos de tudo que é estreito, mesquinho e que redimensionemos nossos sonhos, convite à libertação, azul da cor do mar, da canção de Tim, doce leão marinho da nossa canção popular.

Link- Azul da cor do mar

Os olhos são as asas do espírito.

E há um azul triste, azul do pesar, trouble in mind, I’m blue, but I won’t be blue always, ‘cause that sun’s gonna shine in my back door some day, canta Janis Joplin

 

 

E o azul- blue do blues que Billie canta, a grande lady da tristeza, lady sings the blues, she’s got them bad, she feels so said,(…)the blues ain’t nothing but a a pain in your heart, good morning heartache.

Leveza e tristeza, transcendência e paixão, o azul carrega em seu âmago estes pares de opostos, sutileza e densidade. No céu da tristeza, as estrelas são lágrimas que escorrem para desaguar toda a mágoa do peito ferido; no céu da alegria, pontinhos de luz, vagalumes que iluminam a noite e fazem contraponto ao escuro do breu. Cintilâncias. Li em Maurice Blanchot, “O livro por vir”, que o moralista francês Joubert criou uma cosmologia em que os astros são buracos no céu e que Paul Valéry, falando do Lance de dados, disse que quando conseguiu penetrar na poesia de Mallarmé uma página elevou-se à “ potência de um céu estrelado’”. E fiquei pensando em como as palavras podem criar tanta luminosidade e se haveria azuis em Joubert e Mallarmé, ou se seria uma luz clara prata a inundar o pensamento.

Caminho do infinito: o pássaro da felicidade é azul, tão longe e perto. Sanhaço, azulão, felicidade brasileira, o azul de Manuel Bandeira, vai, vai azulão…

 

Os azuis dos pintores, o onírico de Chagall, o alegre de Matisse, o diáfano de Monet, o melancólico de Picasso, e aquele indizível azul de Yves Klein.

O azul do carrinho que o pai de Gil comprou, um volks, volkswagen blue, um carrinho todo azul. E é nele que eu vou, bye- bye baby blues, quero passear um pouco na beleza da leveza , flanar entre azuis num volks, volkswagen blue, me desfazer em som e luz, bye-bye baby blues e quem sabe esquecer a tristeza que inundou meus dias sem pedir licença, bye-bye baby blues.

 

 

 

 

foto banner: Landola- classical  Guitar String Blue light Water wave effect

 

 

Eliete Eça Negreiros é paulistana, cantora de música popular, doutora em Filosofia pela USP e ensaísta. Surgiu para o público com o LP Outros Sons(1982) dirigido por Arrigo Barnabé. Integrante do grupo da vanguarda paulista gravou também o LP “Ângulos-Tudo Está Dito”( 1986), e os cds “Canção Brasileira- A Nossa Bela Alma”(1992) e “Dezesseis Canções de tamanha Ingenuidade”(1996). Foi duas vezes premiada pela APCA: Cantora-revelação, com Outros Sons, em 1983 e Cantora de MPB, com Canção Brasileira, em 1993. Escreveu “Ensaiando a canção: Paulinho da Viola e outros escritos”, 2011 e agora prepara um outro livro sobre a obra de Paulinho da Viola. Escreve sobre música popular brasileira na Revista Caros Amigos. Assinou a coluna Questões Musicais, do blog da Revista Piauí.

 

http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-musicais/geral/chao-de-estrelas-arranha-ceu-orestes-barbosa

http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-musicais/geral/a-pergunta-sem-resposta

http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-musicais/geral/azulao

http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-musicais/geral/outros-sons

 

 

 

 

dali203 musica Gabi

O QUE QUEREMOS DA MÚSICA por Gabriela Pelosi

É de senso comum que  ela  transforma o nosso estado afetivo. Que tem o poder de nos deixar mais energizados, românticos, contemplativos, ou de expressar o indizível. Desde Platão até os dias de hoje, inúmeras são as explicações para a relação que temos com aqueles sons a que chamamos música.

Mas o que tem esta arte que nos atrai como os meninos e meninas hipnotizados do conto alemão “O Flautista de Hamelin”? Uma possível resposta, evidenciada recentemente por estudos na área da neurociência musical, é o fato de que a música  geralmente  atende às  nossas  expectativas- mesmo que de maneira inconsciente- e nós seres humanos adoramos isso.

Sabe aquela sensação de que quanto mais ouvimos uma música mais  gostamos dela e mais queremos ouvi-la? Uma das razões é o fato de possuirmos um  sistema neurológico que aprendeu a antecipar o que está para acontecer e que se  diverte fazendo isso o tempo todo; seja uma linha melódica interessante, a  entrada do trompete na parte B ou um final apoteótico. Embora este fenômeno  seja mais acentuado e perceptível nas músicas que conhecemos bem, acontece quase  o tempo todo, e isso se deve ao fato de que a esmagadora maioria das músicas  que nós ocidentais ouvimos fazem parte de um mesmo sistema, o chamado tonalismo  ou música tonal.

<iframe width=”560″ height=”315″ src=”http://www.youtube.com/embed/cJsyMmC76aM” frameborder=”0″ allowfullscreen></iframe>iframe>

Neste sistema, desenvolvido durante séculos, existe um princípio básico de tensão e relaxamento. Primeiro ouvimos um som estável, depois outro tenso, seguido de um suspensivo, voltamos ao relaxamento e assim por diante. Ou seja, a tensão existe na música, porém sabemos que será resolvida em seguida e por isso apreciamos estes momentos ainda mais. Nós também gostamos de ser surpreendidos de vez em quando- mas não muito- e o bom compositor é justamente aquele que consegue alcançar o equilíbrio, prendendo a atenção do ouvinte ao jogar artisticamente com as regras do sistema.

Mas será que ter sempre as expectativas atendidas é bom para nós? E o empobrecimento da música que ouvimos nos meios de comunicação, é causa ou efeito deste medo de sair da zona de conforto?
Por mais que seja gostoso sentir-se no controle da situação, é  saudável nos arriscarmos. À medida que nos acostumamos com as pequenas  frustrações que estilos e linguagens musicais diferentes dos quais estamos
acostumados nos proporcionam, tomamos gosto pelo desconhecido, pela aventura.
Tais experiências tornam ainda mais prazerosas as audições das músicas conhecidas  há tempos. É como voltar para casa depois de uma viagem surpreendente.

Quer experimentar? Ai vão duas sugestões: o compositor John Adams e as Vozes Búlgaras.

 

 

Gabriela Pelosi é paulistana, musicoterapeuta e musicista.
Acredita imensamente no potencial da música para o desenvolvimento humano e com certeza seguiria  o flautista de Hamelin.

 

 

 

gabrielapelosi.com.br
teamwks.com.br

foto mozart e a matematica

MOZART E A MATEMATICA por Reynaldo Bosquet

 

Como falar da relação da música com a matemática sem ser chato? Taí uma boa pergunta. Nunca fui bom com números e aquelas coisas de catetos e hipotenusa. Por outro lado, durante 15 anos da minha vida, fui um competente músico profissional – o que não deixa de ser contraditório.
Para realizar o sonho adolescente de ser um “Rock Star”, eu tive que aprender ciclo das quartas, ciclo das quintas, tríade aumentada, tríade diminuta, acorde maior com quarta, maior com quinta, maior com sexta, menor com sétima, menor com quinta aumentada, compasso binário, compasso ternário. E como se não bastasse tudo isso, enquanto os meus colegas andavam acompanhados das garotas, eu passava 8 horas por dia acompanhado do meu metrônomo – aquele aparelhinho que faz marcações de 40 a 240 BPM (batidas por minuto) com o intuito de aprimorar a velocidade e técnica do músico. E depois ainda dizem que vida de artista é fácil.

Outra coisa que as  pessoas costumam dizer é que Mozart foi um gênio da música. Mas  na minha opinião, ele foi um gênio da matemática. É comum encontrar  nas margens das suas partituras rabiscos de equações matemáticas, as quais ele  usava para o cálculo de probabilidades melódicas. Outra prova da sua paixão  pelos números é o uso da simetria em várias de suas sonatas para piano, violino  e violoncelo.

Trechos musicais ímpares são pouco intuitivos. Estrofes com quatro,  oito, doze ou dezesseis compassos sempre funcionam porque são simétricas. Na  hora de fazer um arranjo, é preciso saber usar a simetria na introdução para fazer  a magia acontecer. E Mozart sabia muito bem disso.

Mozart partitura original

 

Mesmo depois de mais de 10.000 horas de prática como músico, ainda continuo não sendo muito bom com os números. Tanto é verdade, que a minha conta bancária anda sempre no vermelho. O que me conforta é saber que Mozart, apesar de gênio, também não se  dava muito bem com a matemática das finanças pessoais. “ Bon Vivant”, Mr.  Wolfgang adorava esbanjar dinheiro com mulheres, vinhos, amigos. Morreu como um  plebeu e viveu como um rei. Sua maior riqueza foi descobrir que o objetivo da  vida é sempre alcançado neste exato momento. E aqui a matemática se divorcia da  música.

Como diria o brilhante filósofo inglês Alan Watts,
“quando  fazemos música não a fazemos para atingir um certo ponto, como o final de uma   composição.  Quando  tocamos música, o próprio ato de tocar é o objetivo”.

 

 

Reynaldo Bosquet  é músico, redator publicitário e idealizador do blog “ basstalks.com”.
Como músico, trabalhou com Tom Zé durante dois anos e fundou a primera escola de música do Brasil especializada em rock
e british pop.
Apaixonado por filosofia oriental, morou no San Francisco Zen Center como  estudante convidado e estudou com Gil Fronsdal no Insight Meditation Center, em  Redwood City.

 

roman dancing

Não somos culpados ! pelo cigano Sani Rifati – versão bilingue

 

Não somos culpados. 

“Vamos espremê-los e deixá-los  vazios e aí vamos enchê-los com o que é nosso”  George Orwell, 1984

 

Os Roma*( Ciganos*)  tem sido mal interpretados pela civilização ocidental há muito tempo. Tempo demais!

Apesar de tanta discriminação, rudeza e segregação constantes, os Roma ainda continuam existindo desde sua partida, há mais de mil anos, da terra-mãe India, na região de Punjab no noroeste do país.

Vim a Salvador, na Bahia, em janeiro de 2012, para ensinar as danças ciganas tradicionais Romanis.

Para minha surpresa, percebi que o termo usado no Brasil para designar o meu povo é sempre “cigano”.

Como sou da antiga Yugoslávia, da região  de Kosovo na Servia,  onde estamos acostumados a ser identificados sempre como Roma – romanis, nós nos recusamos a sermos chamados de Ciganos, Gitanos e congêneres.

Antes de lavar minha alma, vou lhes dizer algo e talvez possam avaliar por si mesmos se nós, os Roma somos culpados.

A civilização ocidental sempre viu nossa cultura como uma cultura pária. Consideram que não temos uma cultura verdadeira, sendo que alguns até nos vêem como sub-humanos. Não é nada fácil ser Romani; por conta de nossa diáspora, as nações e sociedades que nos hospedam, com freqüência negam nossa existência. Somos uns andarilhos, os viajantes existenciais.

Entretanto, somos também acusados de sem educação, sujos, ladrões mentirosos e por aí afora…De maneira que vamos aqui, passo a passo, desmitificando o mito, os estereótipos que ainda assombram nossa identidade romani.

Sempre somos empurrados para os limites das cidades, bem longe da sociedade convencional, enxotados para perto dos lixões ou para a periferia sem estrutura das cidades, onde o serviço público nem chega. Se não temos acesso a serviços públicos como à coleta de lixo, isto nos faz mais sujos ou culpados?

Muitos roma na moderna sociedade de hoje não conseguem nem uma certidão de nascimento no lugar onde seus filhos nasceram. O mundo moderno é obcecado por certificados, porém se as crianças ciganas não têm nem chance de conseguir tal certificado isto implica em que as mesmas não podem freqüentar uma escola, não conseguem um emprego, muito menos têm acesso a um bom plano de saúde e isto as torna culpadas por sua falta de instrução? O que lhes resta se não juntar seus trapos e seguir estrada afora e isto as torna culpadas de serem errantes? Uma vez na estrada, as autoridades policiais exigem que os pais exibam os documentos de seus filhos.   

Na cultura romani há sempre o cabeça do clan ou do grupo que representa todo o resto. Às vezes são chamados de reis ou “capo” e são responsáveis por estabelecer uma relação com a polícia e assim contar com a esperança de não serem enxotados para mais adiante, para um outro destino e isto faz com que os Ciganos tenham que mentir. Mas, isto faz de nós mentirosos e culpados?

Quando só o que estamos tentando é nos estabelecer e nutrir a esperança de ter um pedaço de terra ou uma propriedade. É pedir muito?

Não vejo a cultura romani como simples vítima; somos também sobreviventes.

Imagine não ter um país, nem um governo nem uma máquina política que defenda nossos direitos. Ainda assim os romanis existem espalhados pelo mundo todo. Imagine uma cultura que nunca foi à guerra, que não tem heróis nacionais, que não pode se   vangloriar de quanto de arte e outros ofícios  contribuiu, através da diáspora romani. A ironia maior é que sempre se referem à nossa musica como “A Rainha Cigana” ou o Rei dos Ciganos”( Gipsy King) ; na verdade, os roma nunca tiveram reis ou rainhas; este rótulo nos foi erroneamente dado pelo mundo ocidental civilizado.

Devo mencionar alguns poucos Roma, heróis verdadeiros nas artes: Charles Chaplin que  a muitos inspirou, assim como Yul Brinner,  Rita Hayworth.

O Flamenco foi inventado na Espanha por nós, como também as Czardas na Hungria. Ainda Django Reinhardt e muitos mais.

Agora, voltando ao Brasil, fui visitar com o fotógrafo Rogerio Ferrari, um homem adorável, uma mahala Roma, na Bahia.

rogerio ferrari -ciganos

Descobri que os Roma do Brasil são provavelmente o primeiro grupo que encontrei que não trouxe a música com eles. A maioria veio de Portugal ou Espanha, e  aqui chegaram com Cristovão Colombo em sua terceira viagem às Américas, por volta de 1.500.

Ainda para minha enorme surpresa, Brasil é o único país que tem o feriado dos Romanis, como já devem saber, no dia 24 de maio. Logo na minha primeira visita ao país, parecia que todos já me conheciam desde sempre, assim compartilhamos muitas histórias, música e confraternização. Senti também que há no Brasil um grande respeito e atenção à nossa cultura. Senti-me em uma grande Mahala, sem culpa!

Oven saste. Obrigado!

 

 

*Rom = ser humano, ou pessoa (sing) também significa marido na lingua Romani

Roma = pessoas (plural)

Romani= adjectivo, ex: lingua Romani, historia etc.

Gypsy – Cigano= A palavra vem do latim, “Gypsian” significa a person nascida no Egito. Em inglês refere-se a Roma como Gypsies – cigano ou existe  uma gíria  “I got gypped”  – em tradução livre – fui ciganeado – que significa que alguém o enganou, roubou.

Cigan= etimologia do grego Tsiganoi ou Atsiganoi que quer dizer “intocável”

Cigano também é um pejorativo em todos os países eslavos.

Tradução do texto feito originalmente em inglês: Helena Heloisa Wanderley 

 

 

Sani Rifati é um percussionista romani, cantor, dançarino e instrutor de danças. Tambem é presidente do Voice of Roma e Produtor de festivais e diretor artistico

 


 

 

 

 

 

 

 

 

Texto original em inglês

 

                                                                                                                                      “Not Guilty”

“We should squeeze you empty, and then we shall fill you with ourselves.”

George Orwell, 1984

 

For a long time, the Roma* (Cigan*) Gypsies*, have been misunderstood by western civilization. For a far too long time.  In spite of so much discrimination, harshness and still constant discrimination, Roma still exist since they left their motherland India over 1,000 years ago from the northwest region, Punjab.  I came to teach traditional Romani dances in Bahia, Salvador in January 2012.. To my surprise, the term “Cigan” was the term that is used always in Brazil. Coming from former Yugoslavia in the Serbia region of Kosovo, we strongly identify as Roma. We refuse to be called other names such as Gypsies, Zingari, Zigonier etc…

Before trying to cleanse my soul, let me tell you a few things and then maybe some of you will understand whether we, the Roma, are guilty.  Western civilization always saw our culture as the ‘pariah’ culture. They told us that we don’t have real culture. As a matter of fact some used to think we were subhuman. Being Roma, it’s not an easy thing, in our diaspora our host nations and societies often deny our existence. We are the wanderers, the existential travelers. Yet we are also uneducated, dirty, thieves liars etc…  So let’s go step by step and demystify the myth, the stereotypes that are still haunting our Roma identity.

We’ve been always kicked from the mainstream society to the margins of towns, near the garbage dumps or most undeveloped part of the town. Most of the roads are unpaved and the environment around has a lot of debris and garbage. The public services don’t even bother to come and clean the space. If we don’t have these services provided to us, does that still makes us dirty or guilty?

Many Roma today in modern civilized world can’t obtain their birth certificates in the place where the children are born. Modern world is obsessed with paper, but if Romani children have no chance for this paper, that means these children are not allowed to go to school, look for work or get adequate healthcare, does that makes these children guilty of being uneducated?  So what’s then left, but to pack your belongings and go on the road, does that makes us being guilty of being wanderers? Once when you’re on the road then the police authorities demand from the parents the proper documents.

In Romani culture there is always the head of the clan or group who represent the rest. Sometimes they are called kings or capo’s in order to establish some relation with the police and hope they would not be kicked in to the next destination, that’s why Roma must lie. Does that makes us liars and guilty?  When we’re just trying to settle in the hope of having land or property. Is that too much to ask. I am not seeing the Romani culture as only victims, we are also survivors.

Imagine having no country, no government, no lobbying machine to defend your rights. Yet we the Roma still exist all over the world. Imagine a culture who never went to war, don’t have national heroes, not to mentioned how much Roma diaspora contributed to the world in arts and other trades. Even another irony is they always refer to Roma music as “Gypsy Queens” or “Gypsy Kings” as a mater of fact Roma never had queens or kings, that label that was given to us by the western civilized world.
I would just mention few of real Roma heroes in arts, Charlie Chaplin inspired many people around the world as well as Yul Brenner, Rita Hayworth, Roma invented Flamenco in Spain, Czardasz in Hungary, Django Reinhardt and many more.

Now, back to Brazil, we went to visit with few Roma mahala (neighborhood) with lovely man named Rogerio Ferrari, a photographer.  To my surprise, I found out that more or less the Roma from Brazil are probably one of the first group of Roma that I encountered who didn’t bring the music with them. Most of them came from Spain and Portugal. Also some of them arrived on the third trip of Christopher Columbus around 1500. Also to my huge surprise, Brazil is the only country that has a national holiday for Roma, as you probably know May 24 .. In my first visit to Brazil it felt like people knew me forever, we shared a lot of stories, music, and togetherness. I felt a lot of respect and attention for my culture. It felt like a huge mahala so we have no reason to feel guilty.  Oven saste (obrigado)!

 

 

*Rom = human being, or person (sing) also means husband in Romani language

Roma = people (plural)

Romani= adjective, example Romani language, history etc.

Gypsy= The word is from Latin, “Gypsian” means a person from Egypt. In English that’s why they refer to Roma as the Gypsies or there is slang “I got gypped” that translates to somebody cheated you.

Cigan= etymology if from Greek Tsiganoi or Atsiganoi means “untouchable”

Also Cigan is a derogatory term throughout all Slavic countries, as well.

 

Sani Rifati is a Rom drummer (dumbek and trap drums), singer, dancer anddance instructor. Sani is also Voice of Roma’s President and Festival Producer and Artistic Director

 

 

 

easy-rider-big-pic-1024

As trilhas sonoras da minha memória afetiva

Quando o dia amanhecia  nublado dentro e fora,  a saída era  o long play na vitrola.

Born to be wild,  Steppenwolf  me assegurava. Os primeiros acordes  e pronto,  o  corpo respondia com alegria. Até hoje a música  me provoca um desejo incrível de dançar. E Peter Fonda, Dennis Hopper e Jack Nicholson  continuam  me lembrando  que ainda  tem muita estrada pela frente.

 

 

Minha contrapartida romântica é   a trilha do filme “Anônimo Veneziano”, um filme memória, a metáfora sobre o que foi e não é mais, começando com a decadente Veneza, a ex história de amor entre o casal Florinda Bolkan (no seu esplendor),  e um belíssimo  galã,  Tony Musante, que eu nunca mais vi em nenhum filme .

A música, incrível, mágica sempre me leva à Veneza e me devolve  minhas histórias de amor.

 

 

BannerT3

Moondog e a música do vídeo, por Filipe Franco

 

Essa edição do Fora de Mim ficou carente do costumeiro vídeo de entrevista. Melhor momento pra tratar desse enigma cultural, o homem por trás da música tema do vídeo.

 

 

A música faz parte de um dos 18 álbuns (sem mencionar Eps e singles) do compositor, músico, poeta, cosmologista e inventor de instrumentos musicais Luis Thomas Hardin, conhecido, ou pouco conhecido, como Moondog.

O trabalho é extenso, mas as notas são poucas, meticulosamente encaixadas e cada uma com um propósito certeiro, matador. Grandes compositores modernos como Philip Glass e Steve Reich o apontaram como fundador do conceito de minimalismo, ao que Moondog responde modesto “Bach já fazia minimalismo em suas fugas, então o que há de novo?”

Cego desde os 17 anos, por conta de um acidente com dinamites, o até então jovem caipira que morava em uma rústica cabana de madeira entre tribos nativas de Wyoming, decide estudar música na escola para cegos de Iowa, onde passou a escrever lindas peças (em braile).

Perto dos 30 anos, Moondog se muda para as ruas de Nova Iorque. Se estaciona em uma esquina da 6ª avenida (mais tarde batizada pelos moradores de Moondog’s corner) e lá  dá início a um cotidiano urbano, tocando suas excêntricas invenções e recitando poesias.

Seu traje, feito por ele mesmo, acompanhava normalmente um capacete viking, uma lança, um manto e uma calça de couro animal. Tamanha excentricidade que faria Moondog perder contatos prestigiosos decisivos para sua popularidade mundial, apesar de fazer fortes amizades com grandes nomes do jazz como Charlie Parker.

O Viking da 6ª avenida intrigava os transeuntes.

Moondog via música em tudo, e não esconde suas origens e filosofias no disco Moondog 1956. Entre as músicas, podemos ouvir sua esposa cantando para sua filha de pouco mais de um mês chorando na faixa 2 (Lullaby), um quinteto de cordas e sapos na faixa 6 (Frog Bog), um solo de piano emblemático na faixa 7 (To a Sea Horse), e até uma conversa ao som do tráfego das ruas para terminar o disco. A maioria das músicas são acompanhadas por sua invenção, a Trimba, um instrumento percussivo triangular que assina grandes músicas com seu timbre muito particular até o fim de sua carreira.

A partir daí, surgiram trabalhos memoráveis de Moondog. O álbum Moondog 1969 + Moondog 2 consiste originalmente em dois discos separados. O primeiro em brilhantes composições orquestrais ( faixa 1 a 8 ) e o segundo em cânones letrados muito amigáveis, que são intuitivamente comparáveis às fugas de Bach. Esses cânones são formados a partir de um tema cantado por uma primeira voz, com sucessivas  vozes entrando  uma por vez, retomando esse tema enquanto a primeira continua. É uma espécie de corrida circular e infinita em que uma voz nunca alcança a outra (faixa 9 a 34). Para terminar, uma obra prima que sintetiza a sensibilidade da música de Moondog, uma peça composta para harpa Troubadour (uma espécie de harpa paraguaia sem pedais) na faixa 34 (Pastoral).

Moondog também tem disco de canções (H’art Songs), de viagens cósmicas (Elpmas), de saxofones (Sax Pax For a Sax), e uma coleção de versos. Seguia um Calendário Comum criado por ele, que tinha seu primeiro ano em 8000 AC com o surgimento da agricultura. Ou seja, a receita para unir todas as raças e credos em um único calendário seria só acrescentar oito mil anos ao calendário cristão e dar uma mexidinha. Como ele explica o calendário?  Com um cânone.

Moondog morreu em 8 de setembro de 9999.

 

Filipe Franco é videomaker e apaixonado por música. Procura viver em paz em São Paulo com sua esposa e uma colônia japonesa.

Filipe Franco | facebook | twitter

tel: +55 11 3037-5018

cel: +55 11 6525-2989

Skype: filipecardosofranco

 

063_01

Som, ruído e silêncio por John Cage.

John Cage nasceu em 1912 e foi músico, compositor e poeta. Vanguardista bem humorado, elevou à categoria de música, o ruído e o silêncio. Nos anos 40, ele se submeteu a um experimento numa camara aneóica, uma estrutura totalmente a prova de som, dentro da universidade de Harvard. Buscando ouvir o silêncio absoluto, conta o que encontrou: “Ouvi dois sons, um alto e um baixo. Quando os descrevi ao engenheiro de som, ele me informou que o som alto era do meu sistemanervoso, e o baixo o meu sangue em circulação.”

Depois disto escreveu 4’33’’ , talvez sua peça mais conhecida, uma obra em 3 tempos em que o silêncio, a audiência e o ambiente , produzindo ruídos ao acaso, como tosses, movimentos nas cadeiras, aviões passando, escrevem a partitura desta obra, diferente a cada execução. Ela pode ser executada por qualquer instrumento e estreou ao vivo em 1952.

No link abaixo, considerado um dos 10 mais importantes vídeos de musica clássica pelo WeShow Awards US Edition, a execução do 4’33’’. Vale conferir o desconforto e a tensão da platéia, as páginas virando entre os movimentos e o derradeiro aplauso.

De fato uma experiência de desconstrução do nosso conceito de música.

John Cage fala sobre silêncio e ruído e música e risadas. Infelizmente a versão traduzida frequentemente apresenta erro. Segue em inglês.

macaparana

Som, por Macaparana.

O artista plástico Macaparana fala sobre música e a função que ela exerce em seu trabalho. Ele não vive sem música. Criou intimidade com ela, aprofundou a escuta e foi ela que lhe deu a abertura e a coragem para o salto no seu trabalho.

 

Músicas sugeridas pelo artista:

Jackson do Pandeiro canta Sebastiana:

 

Remédios curativos por Eduardo Paniagua – Instrumental

Clique aqui para ouvir

 

Macaparana é artista plástico, pernambucano. Começou sua carreira em Recife, onde realizou sua primeira exposição em 1970. Muda-se para São Paulo em 1973, onde vive e trabalha. Atualmente participa de várias feiras internacionais : sparte – sp / arco – madrid  / artebo – bogotá / fiac – paris / arteba – buenos aires / artbasel – basel / miami / pinta – new york / londres.