Arquivo da tag: Edição 11: O OUTRO

henryanais

Anais Nin – Henry, June and me

 

“Anais, eu apenas pensei que a amava, não era nada como esta certeza que está em mim agora. Tudo isso foi tão maravilhoso porque foi breve e roubado? Estávamos representando um para o outro, por causa do outro? Eu fui menos eu, ou mais eu, e você menos ou mais você? É loucura acreditar que isto poderia continuar? Quando e onde os momentos monótonos começariam? Analiso-a tanto para descobrir as possíveis falhas, os pontos fracos, as zonas perigosas. Não as encontro,  nenhuma. Isso significa que estou apaixonado, cego, cego, cego. Ficar cego para sempre.”

Henry e June  –  o livro

foto:  Maria de Medeiros como Anais Nin  e Fred Ward como Henry Miller no filme Henry & June

 

aqui o trailler oficial do filme

 

 

casal com rosto misturado

RUBEM ALVES e o jogo nas relações amorosas

Já li mil vezes, mas sempre descubro uma faceta  nova. É sempre assim nas questões que envolvem o outro  e em especial nos jogos amorosos.

 

 

O tênis e o frescobol

 

Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.
Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual  concordo inteiramente. Dizia ele: ‘Ao pensar sobre a possibilidade do casamento
cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?\’ Tudo o mais no
casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.’
Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem  fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra – é a  sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: ‘Eu te amo, eu te amo…’ Barthes advertia: ‘Passada a primeira confissão, ‘eu te amo’ não quer dizer mais nada.’ É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: ‘Erótica é a alma.’
O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.
O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha.
E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente
lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir… E o que errou pede desculpas; e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos…
A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá…
Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever.
Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis:‘ Cena: o  marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: ‘Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo\’. A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: ‘Tens razão, minha querida\’. A situação está salva e o ódio vai aumentando.’
Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão… O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.
Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem – cresce o amor… Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim…

Tabaimo (2)

PALESTINOS E ISRAELENSES SE APOIANDO MUTUAMENTE NA DOR por Roberta Wall- versão bilingue

 

Cinquenta mulheres e jovens se reuniram novamente para um final de semana de trabalhos no EcoME na região do mar Morto. Quero escrever sobre um momento deste final de semana que ainda está tão presente comigo, que  escrevo com meus olhos cheios de lágrimas.
Na minha cabeça este momento aconteceu quando estávamos todas sentadas em círculo e vimos e ouvimos os soluços de uma das participantes, uma mulher palestina.
Eu vejo este momento como o núcleo do treinamento em Comunicação Não Violenta que realizamos aqui. Como podemos de forma plena e incondicional ouvir e sentir a dor do outro sem abrir mão  de alguma coisa nossa? Estejamos nós com nossos esposos, filhos, colegas de trabalho ou pessoas de
grupos dos quais geralmente mantemos distancia, como podemos desbloquear nossos corações e ouvidos e nos conectar profundamente com
a experiência deles, sem  medo de estarmos abrindo mão de alguma coisa?
Seus soluços surgiram depois que ela compartilhou quão doloroso fora para ela ouvir o trecho do kiddush*, na manhã do Shabbat, que celebra o fato dos judeus serem os escolhidos de Deus. E quando ela ouviu isso, em um círculo do qual fazia parte, ela pensou sobre toda a discriminação, dor e sofrimento dos Palestinos dentro e fora de Israel.
Imediatamente, vi olhares de horror, tristeza e desalento nos rostos de várias religiosas judias que participaram do kiddush.
Vi que algumas das mulheres judias queriam confortar a mulher palestina e também queriam explicar a ela que não tinham intenção de machucá-la. Uma das mulheres começou a soluçar, outra se apresentou e compartilhou que a ultima coisa que ela queria fazer era machucá-la, e como se sentia mal com isso.
Este é momento de força da comunicação não violenta.  Como podemos acolher a dor, nossa e do outro, sem tentar explicá-la ou resolve-la, sem  nos tornar defensivos ou agir como se tratasse da nossa própria dor? Como fazemos isso?
Arnina, uma das facilitadoras do NVC, sustentou este espaço de empatia perguntando a à mulher palestina: você esta chorando por toda a dor que está aqui?
Seus soluços ficaram mais altos. Os soluços da mulher judia também aumentaram. Uma outra mulher judia foi até ela e disse como se sentia mal, muito mal. E os soluços aumentaram ainda mais.
Arnina perguntou, é assim tão doloroso para você imaginar que suas palavras podem causar dor? Sim,muito.
Eu ouvi os seus soluços e tive a sensação de que estava ouvindo o lamento de uma irmã, uma irmã palestina, acima
de toda a dor que havíamos causado uma à outra.
A manifestação da expressão do sofrimento do “outro lado”  pela qual todas ansiavamos aqui. Lágrimas  que estavam acima do sofrimento do “meu” lado e do “seu” lado.  Lágrimas que dizem: chega! não mais. Que dizem, eu não quero compactuar com isso. Não quero que  isso continue. Dizem “eu sinto o mais profundo e intenso pesar por tudo”. Eu percebi que todos ali ansiavam para qu tudo acabasse. O verdadeiro sofrimento por todo o mal que vem sendo feito em nossos nomes.
E eu estou sentada agora, em Ein Kerem, numa casa adorável, construída a partir de uma edificação árabe, agora o lar de uma mulher judia que veio aqui para agrupar pessoas através da musica, palestinos e israelenses, crianças e adultos, e eu me pergunto,- assim como  fiz no treinamento de  NVC* – como podemos esperar que as pessoas que estão aqui e que não são  judias, acreditem que quando dizemos “que somos os eleitos”na  nossa reza, não  estamos fazendo isso com a intenção de machucá-las, mas o fazemos apenas para celebrar a nossa tradição? E isso na verdade é de fato tão inocente? Não temos a responsabilidade de olhar no cerne da nossa tradição e ver os efeitos  dela no mundo atual?
Uma das minhas professoras do NVC, Miki Kastan (irmã de Arnina) diz que a empatia não flui com facilidade. Quando um lado detém o poder sobre o outro, é muito difícil a empatia flua daquele que a detém. Então eu me pergunto, não é demais pedir para as pessoas que vivem submetidas às regras militares do estado judaico acreditarem que não queremos fazer nenhum mal,  quando celebramos que somos o povo eleito por Deus? E sendo, assim como podemos sair disto?
Nós mudaríamos a observância do nosso ritual de forma que ele se alinhe com um outro preceito (mitzvah) –  aquele de não causarmos danos aos outros ? Ou somos cuidadosos o suficiente quando ensinamos nossas crianças o significado disso, como foi dito por uma mulher  no retiro, que os
judeus são os escolhidos para desempenhar o mitzvot– os preceitos – e que fazendo isso, estamos contribuindo para trazer uma  maior paz e luz para todo o mundo?  Não é uma questão de ser mais que os outros, é uma questão de estar à serviço.
Mesmo se escolhermos fazer as nossas observâncias privadamente ou não, qual é a nossa responsabilidade? Como podemos ter certeza que
os nossos rituais religiosos realmente estão a serviço dos mais altos ideais para todos?
E onde está a linha entre querer que as pessoas concordem umas com as outras, com as interpretações e histórias do outro – e apenas alcançar  o nível do cuidado, aceitação e valorização, um do outro, que seja suficiente para criar paz verdadeira e elevação de todos nós?

 

*kiddush- reza do vinho e do pão, realizada no shabbat .

 

foto banner: elza tamas,  sobre o trabalho de  TABAIMO- teleco-soup – bienal de Veneza
tradução:Elza Tamas  com revisão de Sylvia Beatrix Pereira

 

Roberta Wall é advogada, mediadora, trainer, mãe, ativista,  praticante de mindfulness e coach. Divide o seu tempo entre Israel e os Estados Unidos. Com seus parceiros em Israel e na Palestina, treinou centenas de pessoas de diferentes comunnidades no Oriente Médio. Seus workshops e retiros são inspirados em Comunicação Compassiva Não Violenta( NVC)  desenvolvida pelo Dr. Marshall Rosenberg , mestres budistas como  Thich Nhat Hanh e o Dalai Lama, e por professores e rabinos da sua tradição de raiz, judaica.

http://robertaindia.wordpress.com/

E:mail: [email protected]

 

 

 

Palestians and Israelis Holding Each Others’ Pain

 

Fifty women and girls gathered together again for a weekend at EcoME in the Dead Sea region.
I want to write about one part of the weekend that is still so present with me that I am writing with tears in my eyes.

In my mind is the moment when we all sat together in a circle and watched and listened to the sobs of one of the Palestinian women participants.

I see this moment as at the core of the Nonviolent Communication trainings here. How can we fully, unconditionally, hear and feel the pain of others–without giving up anything of our own. Whether we are with our spouses, children, co workers, or people from groups we usually stay away from, how can we unblock our hearts and ears and bring ourselves into full connection with their experience-without that fear that we give up something.

Her sobs came after she shared how painful it was for her to hear the Jewish kiddush on Shabbat morning- the part of the kiddush that celebrates that Jews are chosen by God. That when she heard this, in a circle that she was part of, that she thought of all the discrimination and pain and suffering of Palestinians inside and outside of Israel.

Immediately, I saw looks of horror, sadness and dismay on the faces of several of the religious Jewish women who had participated in the kiddush.

Immediately I saw that some of the Jewish women wanted to comfort the Palestinian woman and also wanted to explain to her that they meant no harm. One woman began sobbing, another reached out and shared how hurting her was the last thing she wanted to do, how horrified she felt.

This is the moment of the power of nonviolent communication. How can we stay with each others’ pain, without trying to explain it away or fix it or get defensive or make it about our own pain? How do we do that?

Arnina, one of the NVC facilitators, held this space of empathy by asking the Palestinian woman, are you crying for all the pain that is here.
Her sobs grew louder.

The sobs of the Jewish women grew louder too. One Jewish woman went to her and said how terrible, terrible she felt,

Her sobs grew louder.

Arnina asked, is it so painful for you to imagine that your words could cause pain?

Yes, more and more.

I listened to her sobs and I had the sense that I was hearing the grief of a sister, a Palestinian sister, over all the pain that we have caused each other. The outpouring of grief from “the other side” that everyone yearns for here – tears over the suffering on “my” side AND “your” side. Tears over the suffering. The tears that say, enough. No more. That say, I don’t want to be a part of this. I don’t want this to go on. That say, I feel the deepest intense grief over it all. All of it. I felt the deep yearning in everyone there for an end to it all. And the real grief over all the harm that is being done and that has been done in all of our names.

And I sit here now, in Ein Kerem, in a lovely house, built onto an old Arab house, now the home of a Jewish woman who has come here to bring people together through music, Palestinians and Israelis, children and grown ups, and I wonder, as I did at the NVC training – how can we expect people here who aren’t Jewish to trust that when we say chosen people in our kiddush we aren’t doing it to hurt anyone, that we are just doing it to celebrate our tradition? And is it true that it is so innocent? What is our responsibility, to look even at the heart of our tradition and see its effect in the current world?

One of my NVC teachers, Miki Kashtan (Arnina’s sister!) says that empathy doesn’t flow upwards very easily. When one side is holding power over the other, it is so hard for empathy to flow up to the holder of power. So I ask, isn’t it too much to ask of people who are living under military rule of the Jewish state to trust that we mean no harm when we celebrate that God has chosen us? And if it is, how do we move forward?

Do we change our ritual observance so that we are in alignment with another mitzvah – of doing no harm to others? Or do we take great care to teach our children that what we mean by this is, as some women said at the retreat, that Jews are chosen to perform the mitzvot- and that by so doing, we are contributing to bringing greater peace and enlightenment to all the world? It is not about being over others; it is about being in service.

And can we celebrate this in a way that inspires us to truly put ourselves in service of peace and justice?
What is our responsibility, whether we choose to only do our observance in private or not- how do we make sure that our religious observance really does serve the highest good for everyone?

And where is the line between wanting people to agree with each other, with each other’s interpretations and stories- and just coming to the level of care and acceptance and valuing of each other that is enough to create true peace and elevation of all of us?

This is our work. This is our life.

 

Roberta Wall, lawyer,  mediator, trainer, parent, activist, mindfulness practitioner and coach, shares her time between Israel and the United States. With her partners in Israel and Palestine she has created trainings for hundreds of people from diverse  communities in the Middle East.  Herworkshops and retreats are inspired by Nonviolent Compassionate Communication (NVC) as developed by Dr. Marshall Rosenberg,  Buddhist teachers Thich Nhat Hanh and the Dalai Lama, and by teachers and rabbis from her root Jewish tradition.
website: www.steps2peace.com. E:mail: [email protected]

 

Avalokiteshvara_Kwan_Yin

A compaixão sob a ótica budista

Avalokiteshvara ou Cherenzig  é a deidade  que representa a compaixão. Ela tem centenas de faces e milhares de braços e em cada uma das  mãos um olho,  o que permite que ela possa ver em todas as  direções e de muitos ângulos.
Quando somos capazes de ver uma situação a partir de todos  os lados nela envolvidos,  tendemos a compreendê-la.
Esta é a essencia da compaixão: a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, de  sentir como o outro,  e de ajudá-lo  sem  emitir julgalmentos.

O dicionário on line dá como antônimo da compaixão, a indiferença. Para mim faz todo  sentido.  A impotência faz com que às vezes tenhamos que desligar uma chavinha interna, como mecanismo de defesa para suportar a dor.

 

Daniel Goldman conhecido pelo seu livro Inteligencia Emocional, nesta palestra no TED, discute a compaixão e com humor questiona o fato de não sermos compassivos com mais frequência. Segundo ele, se desconectar do celular, laptop e dos proprios devaneios ajuda muito a ver o outro.

 

inhotim 078 (2)

Paulo Leminski e o seu Contranarciso

Contranarciso – Paulo Leminski

em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós

chaves

O FATOR LETAL por Elza Tamas

 

Toda noite o pássaro preto entra na minha sala, faz um voo rasante e some. Tudo  rápido, fugidio, um piscar de olhos. Só acredito porque se repete. Toda noite  ele volta e eu me assusto. Acho que ele me visita, porque a mãe dele morreu.

Toda manhã o barulho dos saltos impertinentes da vizinha do andar de cima. Eu não a conheço,  nunca a vi, mas admito o efeito que sua ação produz: me acorda,  me deixa de mau humor e cheia de discursos  internos chatos  sobre a incivilidade humana.
Agora gasto um tempo precioso, os primeiros momentos da manhã- antes dedicados a alongamentos e meditação- pensando em como posso me vingar.

Eu não tenho como conhecer o conteúdo da minha mensagem a não ser que ela me seja reenviada, nem que seja sob  a forma do silencio.
Nem se ouvem as asas, ele nunca mais me ligou.

Se o outro é  estranhamento, o estrangeiro, o que se distingue  por essência ou circunstância, ele também é o olhar  inclemente que sempre nos conta sobre nós. A vizinha, o pássaro, o silencio. Atravessamentos.  É no encontro e no desencontro com o outro que posso conhecer mais sobre o limite da minha pele, a extensão interna de mim mesma.  Outorgo ao outro uma chave atávica, minha , mas que vivo ilusoriamente como se fosse  dele.
A tragédia humana – necessito do outro para saber quem eu sou.

 

 

gui - o outro - banner

WELCOME HOME por Gui Mohallem

Welcome home é um retorno à casa. Em uma fazenda no interior dos EUA, um grupo se reúne para celebrar o Beltane, festividade entre o equinócio da primavera e o solstício de verão

Em tudo o festival remete aos silenciosos ciclos naturais, desde o momento obscuro das sementes até a nova floração. Este é o lugar em que se festeja; é daí que vêm essas imagens.

O fotógrafo se põe no meio da entrega sensual, da partilha da comida; se põe ali, com passos de libélula, contemplando a celebração (e portanto está fora) e participando da sua construção (e portanto está dentro), ao mesmo tempo

É a partir deste ponto intermediário que é possível responder ao medo da aproximação do outro (em direção a ele ou vindo dele); é só a partir desse ponto duplo que a imagem se elabora como pensamento ético e ao mesmo tempo desejoso.

não mimetiza a festa como alguém que se disfarça e se mistura ao exotismo alheio; olha-a de dentro como um dos que festeja, e o faz com a câmera; nada está externo, portanto, nada é invasivo…

texto: Gabriel Bogossian – curador

Gui Mohallem é mineiro de Itajubá, foi educador e colaborador pedagógico de projetos sociais de cinema e educação durante mais de 3 anos .
Em meados de 2007 passou a se dedicar exclusivamente à fotografia e no final de 2008 fez sua primeira exposição individual em Nova York com o Ensaio Para a Loucura.De volta a São Paulo, participou do Paraty em foco 2009 e 2011, e de exposições nas galerias Olido, Babel, Baró Cruz e Emma Thomas. Em 2011  teve duas exposições individuais em São Paulo, uma em Brasília e uma nos EUA. Em junho foi convidado a participar do programa Descubrimientos do Photoespaña e  ganhou o 2º lugar no prêmio Conrado Wessel, o maior do país.Além desenvolver seu trabalho pessoal, ministra workshops e fotografa para empresas e periódicos.
www.guimohallem.com

flavio cafieiro outra mensagem - ilustração 2

MENSAGEM por Flavio Cafiero

Ando ruminando, pensando fundo, tentando entender o que aconteceu,  mas não consigo. O primeiro detalhe em que reparei foi o jeito, semelhante ao  meu, de segurar o garfo: um jeito torto, com o punho quebrado para dentro.  Alguém segurava o garfo igualzinho a mim. Ou quase. Depois, o jeito de colocar  o cabelo para trás da orelha, diferente do meu, um jeito consciente demais,
como um golpe de luta marcial, um movimento único e preciso. Alguém colocava o  cabelo para trás da orelha diferente de mim. E outras descobertas vieram  depois, sempre à luz de mim mesmo, e me apaixonei. Eu me apaixonei por alguém.  Tudo bem rápido, um gole só. De repente, alguém. Quando dei por mim, acabou. O  quê? Acabou o quê? E por mais que rumine, pense fundo, tente entender o que acabou, e o porquê, não consigo. Então, dias passados, bem depois de algo  acabado, dei de ver alguém parado ali na esquina, logo ali, nos olhos  espremidos, na espera pelo sinal fechado, ensaiando o pedido de esmola debaixo  do sol. Muito estranho. No começo, quase subliminar. Dei de notar alguém na caixa do supermercado, no manejo úmido das notas,  no
estalo impaciente da  língua. E alguém cruzou comigo na saída do cinema, ontem, a cabeça acelerada na  frente dos passos, os olhos atentos ao contorno das pessoas e obstáculos,  naquele  cuidado cego para não trombar. Exatamente aquele. E por mais que rumine, pense  fundo, tente entender o que é exatamente, não sei. Dei de notar alguém lendo  revista sem ler, com o canto do olho jogado ainda mais para o canto, pescando  reações, colhendo as admirações, os nacos de atenção que as pessoas soltam sem  alguém olhando. Sabe como? Assim. Dei de reconhecer alguém nas    fotografias, exposição  itinerante, campanha publicitária, cartaz de procura-se, as assimetrias  eternizadas, o defeito do nariz de alguém, que agora virou defeito, como alguém  sempre insistiu que fosse, e os cachos mal cuidados que antes, para mim, eram  ecos de minha própria informalidade. E alguém, agora, me acompanha. Assim, sem  razão, mas com passos muito particulares, nem parecidos nem diferentes dos meus.  Assim, passos, como se antecipasse os meus, como se espionasse meu diário, descobrisse  onde vou, como se eu escrevesse um diário. Como uma cigana que lesse minha mão.  Sabe como? Como se eu acreditasse em cigana. Alguém caminha a meu lado, como se esperasse  tudo de mim, e me seguisse na rua. E sigo ruminando, pensando fundo, tentando  entender. Estou embaralhado no mundo, é esta a imagem. Não há referências  conhecidas, tudo se transformou em  alguém. E agora? No escritório, por exemplo: alguém deu de olhar na minha direção, diariamente, como se soubesse, como se me enxergasse  embaralhado no mundo, e é assustador. E agora que alguém foi embora, digo, aquele alguém físico, alguém de pegar na mão e de sentir o cheiro, alguém de palavras e acenos reais, dei de ver alguém em todos os cantos, alguém aqui, e ali, cada vez menos espelho, cada vez mais outra coisa, esse alguém. Estou ruminando, pensando fundo, tentando entender. Não consigo. E se por acaso, ou por esforço, alguém entender minha letra, entender minhas intenções, ou mesmo sem entender  nada e sentir um impulso, qualquer mínimo impulso de me procurar, que mande um sinal, que envie um recado, ou anuncie na tevê, no mural do estacionamento, ou grite da janela, ou chegue mesmo de surpresa lá em casa, ou me aborde em uma sala de espera qualquer. Quem sabe eu olhe alguém com certa curiosidade, procure o traço mais particular, o gesto peculiar, reconheça em alguém o tom de voz mais específico de todos, e quem sabe eu esqueça de mim, um pouco, um pouco só, e me deixe embaralhar de vez. Vá que isso aconteça e que alguém ganhe um nome, mereça um nome, não deixe que eu rumine, pense fundo, e vá que eu diga a alguém: fica, fica
mais um pouco, que eu não me aguento.

foto banner:  Fernando Azevedo

 


Flavio Cafi
ero é carioca de nascimento, paulista por quilometragem. Tem um diploma de publicitário guardado em algum canto. Um dia foi gerente, por um desses acasos. Hoje é desempregado por opção, mas nem tanto.
Ator por tentativa e erro, tem medo de subir no palco. Gosta de ser deixado quieto e, por isso, escreve mensagens. Pendura uma ou outra na internet.

www.flaviocafiero.blogspot.com.br

 

 

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QUALQUER DIA DESSES EU CAIO EM SI! por Sergio Zlotnic

1- Fico espantado com a loucura  das pessoas, destrambelhadas em seu mundo e tão convenientemente  adaptadas às suas próprias incongruências. A autoimagem sempre benevolente para nunca ferir a  vaidade. Eventos vergonhosos ganham versões condescendentes, quase distorcidas.
Não totalmente distorcidas somente para que o sujeito possa sustentá-las baseado  em ‘argumentos’.
Abandonos humilhantes se modificam convertendo-se em posições  éticas cheias de propósitos elevados; mesquinhez transforma-se em  dádiva; incompetência e falta de esforço se transmutam em ‘opção’ ou crítica  social; o pior defeito vira artigo de exibição e vantagem… Talvez ninguém
sobrevivesse se pudesse se enxergar como realmente é, livre de atenuantes.

Por muito tempo, achei que deveria avisar, sem desconto, da verdadeira versão da história,  da qual o  sujeito se protege, do verdadeiro rosto do amigo, de seu pior ângulo. Achei que  seria um bom serviço para a humanidade, doar a verdade aos outros, especialmente  àqueles  com quem me importo. Seria ‘terapêutico’. ‘Analítico’! Demorei a me dar conta que isso só fazia  aumentar a lista de ex-amigos, que ninguém quer saber da  versão comprometedora, sobre a qual generosa e gratuitamente me propunha a  alertar. As pessoas se sentem agredidas ao serem informadas  da nossa real  percepção. Querem palavras doces, enganadoras, complacentes, hipócritas,  mantenedoras da ordem.

Mas há exceções, poucas, pouquíssimas, há quem reconhece rápido qualquer deslize pessoal, e diz a frase  redentora, única saída digna: “que horrível que eu sou!”. Pessoas que suspeitam  de si são as melhoras. As que têm dúvidas e não certezas. Pois, na maioria das vezes, o cardápio é a teimosia de versões benignas relativas a fatos  estapafúrdios.
“Não me sinto orgulhoso disto”, é o máximo que se ouve de alguém, ao referir-se a alguma falta feiíssima de sua autoria! ‘Eufemismo’ é o nome, não?
Trata-se de suavizar, atenuar, acolchoar o peso das coisas; no dicionário, substituir uma palavra rude [ou desagradável ou grosseira] por outra, educada. Não raramente, entretanto, nessa operação, a verdade escoa pelo  ralo: o bebê vai embora junto com a água do banho… Vai o anel, e o dedo também.

Já comigo, creio que isso não se aplica, pois minha mãe sempre diz que sou bonito e bonzinho. Mesmo assim, confesso que o mundo não tem sido tão justo comigo.

2- O Outro é inatingível, embora a gente se esforce!
O Outro é impossível de metabolizar. Ele faz vinculação com o traumático, com o irredutível à mesmidade.
O Outro habita o território complicado da outridade. Por ser singular de maneira cabal, o heterogêneo esmagaria o sujeito que busca percebê-lo. De fato, a percepção precisa ser sempre secundária: na teoria da psicanálise, o recalque primário dá conta desta questão. Atravessada pela história do sujeito, e pelo seu desejo, a percepção é enviesada desde o princípio. Para os humanos, assim, os objetos do mundo são objetos ‘para-si’ e nunca ‘em-si’.

3- Kiwi! Em 1987 não havia kiwi. Pelo menos eu nunca tinha ouvido falar. Cheguei na casa de um amigo e vi em cima da mesa um croquete peludo. Isso é um kiwi, disse o amigo. Ao abri-lo, notei que parecia um pepino.  Ao experimentar, o gosto era de morango. ‘Você perdeu a chance de apreciar o kiwi em sua singularidade’, disse o amigo. ‘Ao recobri-lo com o já-sabido, não apreciou esta fruta na sua especificidade…’. Mas como fazer se eu tenho uma história da qual não escapo?? [hoje esse engraçadinho metido a filósofo da epistemologia é ex amigo].

4- Disse Freud: ‘todo aquele que não teve sua necessidade de amor inteiramente satisfeita, está fadado a dirigir-se a cada novo objeto com  ideias libidinais antecipadas’. Não seria esta uma boa definição do fenômeno da  transferência?
Precisamos recobrir o mundo com camadas de redundância para  torná-lo palatável! O Outro é aquele que não obedece ao script que escrevemos. É aquele que constantemente nos expulsa de um lugar de conforto. Desmancha-prazer. O mundo é habitado por um bando de desaforados!

5- A propósito, disseram os poetas:

If you had no name

If you had no history

If you had no books

If you had no family

If it were only you

Naked on the grass

Who would you be then?

This is what he asked

And I said I wasn’t really sure

But I would probably be

Cold

And now I´m freezing

Freezing.

From Philip Glass and Suzanne Vega.

 

foto banner: Elza Tamas

 

Sergio Zlotnic é psicanalista, doutor em psicanálise pela USP e colunista mensal do portal da SP Escola de Teatro. É professor do curso ‘diálogos psicanálise/teatro’ na mesma escola e pesquisador de temas que conectam o campo das artes e as contribuições freudianas.

 

http://www.spescoladeteatro.org.br/colunistas/06.php

marie ange no olhos de eunice

DESLOCAMENTOS por Marie Ange Bordas

“Deslocamentos” é um projeto participativo que aborda a experiência dos
refugiados  por meio de   oficinas artísticas e realização de
exposições dentro 
e fora de  suas comunidades  (África do Sul, Quênia, França, Inglaterra,   Sri Lanka e Brasil).
Ele nasceu da  percepção de o quanto minha privilegiada mobilidade
redefiniu 
  minha maneira de  ser e agir no mundo e do desejo de
aproximar minha experiência àquela de pessoas  que, diferente de mim, foram forçadas a abandonar seus lares.

Como o desterro  afeta nossa corporalidade, nossa relação com o espaço e com o outro?
Como  definem-se estas identidades in flux?

Aqueles que partiram e não retornaram as suas terras nem vivos nem mortos seguem errantes pelo mundo.

E nós, que voltamos, ou que nunca saímos, abrigados em nossos sofás, quem somos?

Testemunhas oculares ou espectadores distantes? Fraternos ou indiferentes?

Quem são estes  que vagam pelo mundo? Outros? O que é o outro senão o espelho de nós mesmos?

 

Marie Ange Bordas Artista multimedia e  educadora, mestra em Imagem e Som pela ECA/USP, com especialização no International Center of Photography / NY.
Nos últimos 10 anos tem se concentrado na criação de projetos artísticos colaborativos e dialógicos, sobretudo em comunidades deslocadas e/ou afetadas por conflitos em países africanos e em comunidades tradicionais no Brasil.
A maioria de seus projetos são desenvolvidos a partir da convivência prolongada nestas comunidades e a proposição de dinâmicas criativas individuais e coletivas que resultam na criação de ambientes instalativos, vídeos, paisagens sonoras e livros. Participou de residências artísticas internacionais e coordenou projetos no Brasil, na
Colômbia, Grã-Bretanha, Quênia, Áustria, África do Sul, Etiópia, República Checa
e Sri Lanka, além de ter exposto em diversos países.
Para  saber mais sobre seu trabalho:

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