Arquivo da tag: Edição 14: O PROIBIDO

Glide church by Andrew Turner

SÓ A ALEGRIA ME SALVA por Elza Tamas

Domingo de manhã em São Francisco, cruzamento da Ellis com a Taylor St:  carros em fila dupla, homens com coletes fluorescentes tentando organizar o trânsito local  e gente pra todo lado.

Quando entramos restavam poucos lugares. E  aí descobrimos o que tornava aquela celebração matinal tão especial e concorrida. O reverendo  nos saudou com um caudaloso Good  Morning!, enquanto na tela branca sobre o palco, um power point  escorregava os  ditames locais:   você é  bem vindo, não nos  importa no que  você acredita, nem se você acredita, seja ecológico, cuide do seu ambiente, do outro, de si mesmo, cante, dance, celebre  a vida, vamos rir juntos; faça sexo de boa qualidade e se proteja.  Escute o outro, você tem valor, você não precisa mudar nada em si mesmo para estar aqui. Sua presença faz diferença para nós. Ai, meu Deus, como é bom me sentir aceita! Um coral Gospel com trinados jazzísticos fez meu coração se desmanchar em inglês e  minha alma  Aretha Franklin, sempre telúrica,  pulou, dançou, cantou. Só a alegria me salva.
Confesso que pensei em me converter, mas essa não é a ideia deles .  Ouvimos depoimentos humanos e não divinos, um judeu, um morador de rua, e ao final Eric, um gay muito engraçado desfilou pelo  palco anunciando as aulas de passarela, que começariam  na semana seguinte, dirigidas por ele, ali, naquele espaço cheio de sincretismo e esperança. Para terminar, no andar de baixo, um bolo de chocolate dos bons, com café americano (nem tudo é perfeito), compartilhado entre pessoas de todos os tipos de prateleiras. Por todos os lados, olhos macios viam de um jeito novo rostos antigos, e o outro se apresentava como uma curiosa fronteira a ser transposta. Promover uma grande abertura destas não é das coisas mais fáceis, mas sustentar é ainda mais difícil. Talvez por isso eles se encontrem uma vez por semana,  aos domingos.

Aqui dou  serviço todo para quem for. Vale a pena conhecer um espaço que ofereça tanto  prazer com tão pouca proibição.

http://www.glide.org/page.aspx?pid=406

foto banner: Andrew Turner

 

 

Elza Tamas é psicologa e escritora . Idealizou e desenvolve este site.

 

Elza-Texto

NÃO AMARÁS por Elza Tamas

 

As novas  gerações atravessaram a barreira da sexualidade, mas estabeleceram  outras fronteiras para o proibido.  O jovem pode ficar na balada com mais de uma  pessoa, beijar e ter intimidades físicas  de toda ordem.  As interdições agora são outras.
Meninas aprenderam a rejeitar antes de serem  rejeitadas. Preferem nem correr o risco de dar o telefone à cair na angústia  da espera do dia seguinte. Pra que? Eu sei que  ele não vai ligar mesmo… No caso dele, mesmo que esteja super afim de  ligar tem que esperar uns dois, três dias, senão parece que está desesperado ou pegando no pé.
O jogo da imagem tem prevalência sobre a expressão do afeto e  este pode acabar tão reprimido, que quando se quer  encontrá-lo,  anestesiado,  ele  já não responde.   Não se  consegue acessar mais o que se sente.
Homens e mulheres adultos  imaturos  também  têm dificuldades em demonstrar seu desejo pelo outro, porque “pega mal”; temem o compromisso e o envolvimento.  O desejo é muito mais investido na imagem,  em como se  é percebido, no status social que uma certa companhia oferece,  do que no prazer da própria experiência. A própria terminologia vigente já denuncia o que é valorizado: “pegou quantas?”.   A satisfação é de cunho  narcísico, dissociada do  contato com o próprio corpo.
A independência  afetiva  e a auto suficiência estão no topo da nova lista de necessidades, encobrindo  o medo contemporâneo de se sentir dispensável.  Contra a dor da rejeição aparece a equivocada tentativa de blindar o sentimento.

Nos pensamos livres, mas  estamos seduzidos pela velocidade do mundo e suas  ofertas.  Tudo rápido, superficial e descartável. Acreditamos que, se escolhermos e nos  comprometermos  aqui,  podemos perder uma possibilidade muito melhor ali adiante. E sofremos, porque nesta dinâmica em que o bom está lá na frente, não existe preenchimento e bem estar, só voracidade e ansiedade.
Talvez muito das patologias atuais  se expliquem por aí. Curiosamente a tentativa de saná-las opera dentro do mesmo desvio:  rápido!, um remédio que  me ajude a sair desta. Perde-se a diversidade  da experiência humana,  seus  tons e relevos e qualquer coisa que não seja do âmbito da expansão e da alegria passa a ser vivido como  intolerável; blues só na música e olhe lá.

Amar é perigoso, pode machucar. Requer audácia e demanda tempo: ver o outro, me reconhecer nele, me estranhar, estranhá-lo. É tão transgressor que está proibido.

 

foto banner: imagem do LIVRO VERMELHO de C.G. JUNG

 

 

 

Elza Tamas é psicologa e escritora. Idealizou e desenvolve este site.

 

 

 

foto : Mario Bock

eduardo muylaert banner_body_445

OLHAR É PROIBIDO? COPIAR É PROIBIDO? por Eduardo Muylaert

 

Mulheres dos outros. Olhar é proibido? Copiar é proibido?

A série Mulheres dos Outros questiona duas ordens de proibições. O título já contém dupla provocação, ao enfrentar a proibição bíblica de não desejar a mulher do próximo e, pior, numa era de pós-femininismo, dar a impressão de que situa a mulher como objeto.

A questão é mais simples, mas também desafiadora. É um trabalho de apropriação — e reconstrução, diga-se — de velhos slides comprados numa feirinha de antiguidades, sob a singela classificação de nus artísticos.

 

 

Originalmente, são fotos de pin-ups, símbolos sexuais bem americanos dos anos 50, que hoje parecem ingênuos. Pode-se imaginar, naquele tempo, homens respeitáveis reunidos com amigos — longe dos olhares da família — em torno de um projetor de slides, para apreciar as beldades.

Depois de escaneadas, tratadas e recortadas as fotografias, chega-se a nova interpretação, que retoma sob outra luz a questão da imagem do corpo feminino.


Nesse novo recorte, as figuras ganham vida e contemporaneidade, mas podem ser aproximadas também da visão idealizada da estatuária greco-romana.

Coloca, por outro lado, em questão a noção de autoria. Em que medida pode-se retomar trabalhos, mesmo comerciais, e torná-los objeto de apropriação e de reconstrução? A suposta proibição vem caindo e alguns dos mais importantes artistas contemporâneos, como Richard Prince, por exemplo, se consagraram através desse processo.

Todas as divagações são possíveis, pode-se gostar ou não, tanto das imagens como de seu possível sentido. O autor, ou artista, não se intimida com proibições. É esse seu papel, elaborar a seu modo o material que vai colhendo pelo mundo. A obra é aberta, o mundo pode se espelhar nela, mas só se quiser. E puder.

 

 

A série completa pode ser vista em www.mulheresdosoutros.com.br .

Eduardo Muylaert é advogado criminal e fotógrafo. Publicou O Espírito dos Lugares (3º Nome, 2003), e Boa Noite, Paulicéia! (Pinacoteca, 2006).
Principais individuais:
Mulheres dos Outros (Fauna Galeria, SP, e Galeria Zoom, de Paraty, 2011); Boa Noite, Paulicéia! (Pinacoteca, 2006); O Espírito dos Lugares (Nara Roesler, 2003); Tiras compridas do Brasil (Millan, 99); Paris – Fragmentos (Luísa Strina/Bar des Arts, 95) e Transferências (Bar do MIS, 93).

 

 

 

 

 

 

 

dor-e-seducao-nazareth

DOR E SEDUÇÃO por Nazareth Pacheco

 

São objetos sedutores que despertam o desejo ao mesmo tempo
que provocam ferimentos
.

 

 

 

 

 

Clique aqui para ler o artigo: Inventando corpos e/ou desvelando o erótico em inquietante devassidão:
o encantamento dolorido por Miriam Chnaiderman

 

lista das imagens :
 banner: 2007  Ponta Gotas. Fotografia sobre metacrilato 14 x 35 cm
 1 -2007 . Inclusão Acrilico e agulhas 91x46x42cm
 2- 2007 . Inclusão Acrilico e agulhas 91x46x42cm
 5-2007 ORH+, acrilico e vidro  16x10x10cm
 6-S/T 2003 cristal, miçanga, acrílico e lamina de barbear
 7-S/T 2003 aço, acrílico, cristal, miçanga e Gillete  240x350x420cm
 8-1998 miçanga, lâmina de barbear,acrilico e aço 140x80x55cm

 

 

 


Nazareth Pacheco e Silva é artista visual e  mestre pela ECA/USP. Em 1989, obtém o prêmio aquisição no 11° Salão Nacional de Artes Plásticas, no Rio de Janeiro. Participou de  diversas exposições coletivas no Brasil e no exterior entre as quais se destacam: O Panorama da Arte Brasileira de São Paulo em 1988, 1991 e 1997(Premio Embratel) e 1999 (sala especial) ,  e a 24a. Bienal Internacional de Arte de São Paulo em 1998; “Fio da Trama“( Buenos Aires e “Nova York ,2001)  e “Virgin Territory” ( Washington, 2001). Em 2003 teve um livro publicado sobre a sua obra pela editora D&Z , com texto de Miriam Chnaiderman. Vive e trabalha em São Paulo

os gemeos grafite

DA PROIBIÇÃO COMO ÉTICA CULTURAL por Marcelo Ariel

 

Da proibição como ética cultural   –     Um poema disfarçado de ensaio

 

1.  Controle do esquecimento

A segregação de conteúdos em nome de uma visão dicotômica é a configuração sutil de uma proibição promovida pelo esquecimento geral ou ostracismo,  ou pela simples falta de interesse na arte que escapa dos códigos de classificação do entretenimento?

O caso do filme Quattre nuits d’un reveur (Quatro noites de um sonhador) de Bresson é grave, porque envolve um cineasta que pensava o cinema como poética em detrimento do cinema como Mercado.  Envolve  também um  dos grandes músicos e atores brasileiros em atividade Marku Ribas, que atuou no filme.  O silêncio sobre este  filme com trilha composta por ele, ao meu ver  só se explica pelo fracasso dos cadernos culturais e  por uma amnésia  provocada pelo excesso de informação formatada nos padrões do pensamento publicitário, algo que não se converte em conhecimento. Excesso de informação das marcas dentro do espaço a ser ocupado pela autêntica produção artística e amnésia geral estão profundamente interligados inclusive  dentro da  rede mundial de computadores, cada vez mais reduzida a rede de negócios de câmbio entre informações privada redimensionadas  como informações agregadas a marcas publicitárias .
Não existe crise na publicidade, ela é um dos efeitos da crise da transmissão de conhecimento e um dos efeitos dessa crise é a segregação e nichos ocultos, etéreos e abstratos de  grandes trabalhos artisticos nas áreas da música, do cinema e da literatura.
Podemos chamar isso de  proibição de circulação de uma simbologia mitopoética que representa a vida do espírito, pensada não dentro de uma visão dicotômica, mas dentro de um enorme campo de acessibilidade, campo este quase que totalmente proibido.

Marku Ribas

Utilizei  para ilustrar isso, a aura de esquecimento que recobre o  filme de Bresson e a valorização do trabalho do cantor , compositor e ator  Marku Ribas, mas existem ‘n’ exemplos em todas as áreas do chamado campo de produção de bens artisticos e culturais.

 

2. Da  segmentação e do gênero como elementos da censura ou  fronteiras-fantasma são  muito difíceis de serem abolidas.
Segue  abaixo um poema meu inspirado na canção  Strange Fruit :

Billie Holiday, Strange Fruit
Ninguém imaginou
uma
sereia negra

no fundo
do Mississipi,

mergulhando
na dor

como
Sulamita

diante
dos guardas,

nem a
igualdade

começando
no alto,

e depois
como todo esse sangue

evaporada,

é
improvável que um poema

repare
tanto estrago,

nem Eva

imaginou

encontrar

em uma
árvore

feita de
asas

arrancadas,

um fruto
tão amargo…

Neste poema  tento de um modo sutil praticar o não reconhecimento das fronteiras entre  mito, canção popular e poesia. Nunca existiu uma dicotomia entre canção popular  e poesia, todos os sonetos de Shakespeare poderiam ter sido musicados por  Cartola ou Paulinho da Viola.
Reproduzo agora o verbete da Wikipédia  para a canção de Billie Holiday: “Strange Fruit foi composta como um poema,  escrito por Abel Meeropol, um professor judeu de colégio do Bronx, sobre o linchamento de dois homens negros. Meeropol escreveu “Strange Fruit” para expressar seu horror com os linchamentos, possivelmente após ter visto a fotografia de Lawrence Beitler do linchamento de Thomas  Shipp e Abram Smith em Marion, Indiana, ocorrido em 7 de agosto de 1930.

 Ele publicou o poema em 1936, em The New York Teacher, uma publicação  sindical e só após algum tempo ele musicou Strange Fruit. A canção teve algum  sucesso como canção de protesto na região de Nova Iorque. Meeropol, sua esposa  e a vocalista negra Laura Duncan apresentaram-na no Madison Square  Garden[4]. Barney  Josephson, o fundador do Cafe Society em Greenwich Village, a primeira casa noturna integrada da cidade,  ouviu a canção e a apresentou a Billie Holiday. Holiday cantou a  música pela primeira vez no Cafe Society em 1939. Ela disse que cantá-la  fazia-a ter medo de retaliações. Holiday mais tarde disse que as imagens de  “Strange Fruit” lembravam-na de seu pai, isto fez com que ela  continuasse a cantar a música. A canção tornou-se parte regular das  apresentações ao vivo de Holiday[5].
Holiday se aproximou de sua gravadora, a Columbia Records, para gravar a  canção. Mas a Columbia, temendo a repercussão das lojas de discos no sul, assim  como a possível reação negativa de rádios afiliadas à CBS,
recusou-se a gravar a canção
[6]. Mesmo o grande  produtor da Columbia, John Hammond, recusou-se também. Decepcionada, ela  procurou seu amigo Milt Gabler (tio do comediante Billy Crystal), cuja selo, a  Commodore Records, gravava músicas de jazz alternativo. Holiday cantou para ele  “Strange Fruit” a cappella e a canção comoveu Gabler ao ponto de fazê-lo chorar. Em 1939, Gabler fez um arranjo especial com a  Vocalion Records
para gravar e distribuir a canção
[7] e a Columbia permitiu a realização de uma sessão fora do contrato para poder gravar a música.  “Strange Fruit” foi altamente  considerada. Na época, tornou-se o maior sucesso de vendas de Billie Holiday.
Em sua autobiografia, Lady Sings the  Blues, Holiday sugeriu que ela, junto com
Lewis Allan, seu acompanhante Sonny White e o arranjador Danny  Mendelsohn, musicaram o poema. Quando  perguntada, Holiday – cuja autobiografia fora escrita pelo ghost-writer William Dufty – dizia, “Eu  nunca li aquele livro”. Barney  Josephson reconheceu o impacto da canção e insistiu para que Holiday encerrasse  suas apresentações com ela. Quando a canção estava para começar, os garçons  paravam de servir as mesas, todas as luzes se apagavam e um único foco de luz  iluminava Holiday no palco.  Durante a introdução musical,  Holiday ficava com seus olhos fechados, como se evocando uma oração. Numerosos  outros cantores também fizeram versões da canção. Em outubro de 1939, Samuel  Grafton do The New York Post assim descreveu  “Strange Fruit”: “Se a ira dos explorados já foi além do  suportável no Sul, agora há a sua Marseillaise.” Em dezembro de 1999, a revista Time deu a “Strange Fruit”   o título de canção do Século[9]. Em 2002, a Biblioteca do Congresso colocou a canção dentre as 50 que seriam  adicionadas ao National  Recording Registry.

 

Billie Holiday possuía uma poderosa intuição  e essa canção inaugurou  a fantasmagorização das fronteiras entre poesia e  canção no século XX.
Os motivos que levaram Billie Holiday a gravar Strange Fruit não foram  apenas sociais, tampouco literários. Ela percebeu uma conexão profunda  entre o poema e o fim do limite  entre vida interior e vida exterior, simbolizados  de um modo insuspeito pelas fronteiras entre canção popular e poema.

 

3. Da pixação e do Grafite como irmãos siameses ou o não reconhecimento  da caligrafia hieroglífica como parte da arte de reconfiguração dos espaços  urbanos.

Se existe,  e isso é mais do que verificável,  uma relação óbvia entre os  grafites  e o teto da Capela Sistina,  fato capaz de elevar o grafite a condição de arte por que  a existência de  uma relação entre as pixações e os poemas visuais do dadaísmo e de outras  correntes intervencionistas da arte não é suficiente para elevar a pixação à categoria de arte urbana?

 

 

4. Artaud: Um edital  público-privado para a publicação de um livro de poesia é algo absolutamente  antipoético.

Fernando Pessoa: Concursos  de poesia são algo equivalente, seriam úteis se todos os participantes fossem
publicados e se todos os não participantes também fossem publicados ou seja  seriam úteis se fossem absolutamente inúteis.

5. O R.A.P. é controlável e o Spoken word não.

A ligação entre o R.A.P. , o HIP HOP,  o Funk Pancadão e o crime  organizado pode ser medida de que modo?
A ligação entre os partidos politicos e o crime organizado pode ser  medida de que modo?

6. Guy Debord: Mendigos e presidiários colocam a democracia em xeque ?

 

 

 

foto banner: Os Gemeos – grafite

 


Marcelo  Ariel é escritor e poeta, autor de TRATADO DOS ANJOS AFOGADOS ( Letraselvagem,  2008), SAMBA COLTRANE ( Yi Yi Jambo,2009), CONVERSAS COM EMILY DICKINSON E  OUTROS POEMAS ( Multifoco, 2009) , COSMOGRAMAS ( Rubra Cartoneira, 2012)  entre outros.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Transgressoes-nas-fendasBelkis 9 (2)

TRANSGRESSÕES NAS FENDAS CITADINAS por Belkis Trench e Laerte Coaracy

 

Caim, depois de esconder o corpo de seu irmão do Senhor, saiu pelo mundo a fundar cidades. Os prefeitos  e empreiteiros, seus sucessores, empenham-se a asfaltar e cimentar esse mundo todo.


Na geometria das ruas, na precisão dos jardins, nos planos das praças que captam  franca luz, materializa-se um ideal de razão, de escolha e de controle. 
Então, num tempo de outras  paciências, vai-se notando aqui e lá,  pelas fendas, rachas e desvãos da  pele da cidade, a eclosão reiterada de plantinhas em pé de muro, sarjeta  desbeiçada, parede escalavrada, brecha de calçada, parapeito obtuso de  viaduto. É entre as rugas que dá de tudo.

 

Toda fenda, furo ou rego é  oportunidade de instalação de uma sementinha  diminuta, que dá um brotinho milimétrico,  proliferando em seguida num jardinzinho polegar.

 

Essa flora modesta, destinada a passar despercebida, resiste aos múltiplos paradoxos  do urbano, que vão da integridade higiênica à violenta degradação. A cidade com seus ratos, pombos e homens, mas com tufos de capim rebeldes também. Só as  enxergamos, essas verdes trogloditas, ao sabor do acaso e da atenção  despreconcebida. As cidades são cruéis,  mas nesse salpicado apelo verde, afirmada  imagem do Eros, a natureza da vida se confirma.

 

 

 

 

 


Laerte Coaracy 
nasceu em São  Paulo em 1943 e passou a  infância entre a Urca e Paqueta. Professor concursado da Universidade do  Chile durante o governo da Unidade Popular. Depois do assassinato de Allende, acabou indo trabalhar na França onde é psicanalista há muitos anos.

 

Belkis Trench é doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo , pesquisadora do Instituto de  Saúde e trabalha com pesquisas  fotoetnográficas. É co-diretora do documentário Coisa dos Homens e organizadora dos livros,  Almanaque Zero e Nós e os Outros.

 

 

chicken-2 paloma zaragoza

A BOCA por Paloma Zaragoza

 

 

Desde o dia em que comemos a maçã proibida do paraíso, nós mulheres, somos perseguidas pelo pecado. O fatal erro de comer algo que não nos era de direito mudou o curso do universo e para todo o sempre devemos ao destino um ‘não sei o que” eterno. De sub produto da costela à jornada tripla ( trabalho, casa e filhos), nos entregamos de cabeça baixa e humildemente completamos cada uma de nossa obrigações de peito aberto, afinal, lá trás prendemos o rabo na árvore da serpente. A sensação de que sempre falta algo para a perfeição pode se refletir de diversas formas: desde a força tarefa de juntar os pontos como mulher perfeita, mãe ideal e funcionária exemplar, como algo mais externo: o corpo perfeito das incansáveis e redundantes revistas da moda, a roupa do momento e a eterna juventude. Enquanto ficamos horas malhando o corpo e comprando tratamento estéticos parcelado em sites de compra coletiva, secretamente devoramos caixas de bis, choramos quietas no travesseiro e fumamos cigarros no banheiro escondidas dos filhos.
Nem sempre o proibido é mais gostoso. O feminismo político tirou as mulheres do lares e nos jogou num mundo onde  tivemos que abraçar e honrar todos aqueles sutiãs queimados> Hoje esse mesmo feminismo luta contra coisas mais efêmeras como dietas, anorexia, plásticas e consumismo. Porque tanta dieta e tanta salada,  se a noite em casa queremos mesmo um bom prato de macarrão? A sociedade controla até o tipo de arroz que colocamos no prato e se você não for o tipo que calcula calorias  vão te dizer então que é melhor tirar o glúten ou o ovo ou o molho da salada. No universo da gastronomia acontece a mesma coisa, enquanto o número de chefs ( mulheres) cresce, abrindo restaurantes, ditando moda nos pratos temos por outro lado mulheres famintas querendo encher suas cumbucas com as maiores delícias.
A moda da gastronomia, que inunda o instagram e facebooks da vida com fotos de comida e pessoas comendo  pratos maravilhosos,  nos deu a chance de mostrar que sim, olha só, além de tudo somos como você e mais: comemos com mais voracidade aquele prato de feijoada. Acompanhando de perto a glutonice social, mesmo de pessoas que mal conhecemos,  encorajamos mais pessoas a acreditarem que comer bem não é na realidade um pecado e sim uma celebração.

foto: Marcus Nilsson

Trabalhei 45 dias produzindo um evento em qual o tema era bacon, essa palavra proibida, um sacrilégio desde os tempos mais primórdios. Foram 45 dias pensando, trabalhando, pesquisando e eventualmente comendo tudo o que se relaciona com este produto e não, não engordei, não tive um ataque do coração e tampouco fiquei deprimida pela dieta que não pude fazer. No dia do evento que além de tudo harmonizava cervejas ,não havia lá uma orde de homens barbudos, mas sim mulheres dispostas a atacar cada pratinho que saísse fumegante da cozinha.Vi mulheres divertidas, sorridentes, com seus namorados ou namoradas ( hoje o mundo é assim!), comendo e bebendo e sendo felizes. Tenho certeza que no dia seguinte, domingo, ainda festejaram mais um pouco em algum restaurante da Vila Madalena e que hoje, segunda feira, estão sentadas em suas mesas de trabalho sorrindo por dentro e pensando em como tudo isso foi bom.

 

 


Paloma Zaragoza 
Comecei a cozinhar quando ainda morava em Goiânia, uma forma de tomar minhas tardes de fim de semana e reunir os amigos no melhor lugar de todos: minha casa. Formada em jornalismo resolvi seguir os estudos em gastronomia e me especializei na área. Hoje posso dizer que sou uma pessoa de barriga e alma feliz por ter encontrado na gastronomia um espaço para celebrar o amor que tenho, tanto pelas letras quanto pelas panelas.

www.comomelocomo.com.br

 

 

foto: Zeno Mainardi

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14a.edição – O PROIBIDO

Chegamos a 14a. edição, com colaboradores que ousaram  explorar esta tênue  linha entre o proibido e o permitido.

Limites, imposições e suas contrapartidas, liberdades e superações. O que é do âmbito do coletivo e o que é de absoluto foro pessoal e íntimo.

Exerça  o seu direito e vasculhe. Tem muita coisa liberada por aqui.

Nossa história vai sendo arquivada na barra  vermelha lá embaixo no site, onde se encontram as edições anteriores.

 

foto banner: Elza Tamas