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O QUE NOS AFETA? por Pedro Abramovay

 

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O que nos afeta? Enfurnados em nossas vidas multiagitadas, algo nos afeta? Aplicativos para resolver quase todos os nossos problemas. A vida cabe em um iphone? Nada nos afeta. O facebook nos fecha as janelas para o mundo, esconde a pluralidade de vozes da internet e nos fecha em nosso próprio círculo de amigos. “Eu tenho um grupo heterogêneo de amigos”. O Facebook nos esconde. Ele só nos mostra os amigos cujos links já clicamos. Só clicamos nos links que já nos interessavam antes de clicarmos neles. A internet transformou a vida em uma janela, o Facebook redefiniu-a em um espelho. Nada nos afeta.
Mas a internet é mais do que o Facebook. As milhares de vozes distintas estão lá. Procurando alguém para afetar. E nos afetam.
O professor Yochai Benkler, especialista na riqueza das redes, usa sempre um exemplo muito ilustrativo. Imagine a famosa cena do jovem chinês enfrentando os tanques na praça da paz. Muitas fotos foram tiradas daquele momento. Mas tenho certeza que posso descrever com precisão a imagem que está em sua cabeça. O olhar se posiciona na diagonal superior. O rapaz está de costas. Os tanques de frente. Por que todos temos a exata mesma imagem na cabeça se eram tantos fotógrafos presentes naquele momento? Por que todos estavam no mesmo prédio destinado aos correspondentes estrangeiros em Pequim. O Estado Chinês conseguiu criar apenas um ângulo para esta imagem. Uma versão. Uma voz. Uma voz dissidente, mas uma voz.

Agora imagine as revoltas na praça Tahir no ano passado. Ou os indignados na Espanha. Não há uma só imagem possível. Há milhares, uma efervescência de imagens. Imagens para quem se apaixonou pelas revoluções, imagens para quem as acha perigosas. Imagens bem feitas, imagens trêmulas. Imagens banais, imagens inspiradoras. Há tantas vozes quanto bocas.
O que mudou? Hoje não se pode isolar os correspondentes estrangeiros em prédios. Todos somos correspondentes estrangeiros. Um celular. E a foto está no mundo.
Como isso nos afeta? Nós que escolhemos. O que nós queremos ver ou saber? Cabe a nós buscarmos.
E quando nos abrimos para o mundo, quando rompemos as barreiras que nos impõem os facebooks ou os Estados (na China, a censura sobre o google faz com que a busca sobre a praça da paz não traga qualquer imagem do rapaz ou dos tanques), tudo isso nos afeta. Nos afeta, em primeiro lugar, porque de alguma maneira furamos o bloqueio.
Mas nos afeta também porque é possível fazer nossa voz ser ouvida.
Uma adolescente no Paquistão escrevia um blog defendendo o direito das mulheres irem à escola. Ela é alvejada pelo Talebã, que não admite esta campanha. Vozes do mundo inteiro se unem em uma petição gigantesca que envolve grandes líderes mundiais. O presidente do Paquistão a assina. Talvez não haja mais como os governadores retrógrados fugirem de programas de inclusão das mulheres no ensino formal.

Uma tribo de guaranis ocupando sua terra tradicional sofre uma ordem de despejo. Escrevem uma carta emocionante, mas não mais do que tantas outras cartas já escritas. Mas essa afetou tanta gente, juntou tantas vozes, mais de 300.000 pessoas gritaram juntas. E a ordem de despejo foi revista. E o governo, que há tanto retardava soluções para os guaranis, promete acelerar a demarcação das terras.
Tudo nos afeta. Cabe a nós manter os olhos e os dedos abertos. Abertos para aquilo que pode nos indignar e abertos contra os movimentos que querem fechar nossos olhos. Que querem criar uma internet mais espelho e menos janela.
Tudo nos afeta também porque podemos afetar o mundo todo ao nos unirmos a outras tantas vozes afetadas, indignadas com o mundo que vêem pela janela.
O que nos afeta é o que escolhemos que nos afete. E escolhemos, também quem queremos afetar. Temos os sentimento do mundo. Dois olhos e duas mãos. E isso basta.

foto banner:  O Livro Vermelho – C. G. Jung 

 


Pedro Vieira Abramovay é formado em direito pela USP, tem mestrado em direito constitucional pela UnB, e é doutorando em ciência política pelo IESP-UERj Foi secretário de assuntos legislativos do ministério da justiça e secretário nacional de justiça. Atualmente é professor da Fgv Direito Rio e diretor de campanhas da Avaaz.

 

 

 

 

 

AS MICROREVOLUÇÕES ESTÃO POR TODA PARTE por André Gravatá

 

Acordamos todos os dias e nos arrastamos/corremos pelas ruas para alimentar vidas que deixam um impacto na realidade. Vivemos um movimento que é também construído por nós. Como diria Dostoiévski, “todos somos responsáveis de tudo, perante todos”.

Não estou aqui para falar sobre os problemas da realidade em que estamos imersos. Os contrastes são tão explícitos que, com um pouco de sensibilidade, qualquer um de nós sente as entranhas se movimentarem em desconforto. Venho falar sobre um segundo passo: aquele passo possível a partir do momento em que o desconforto se instaura dentro de nós, quando olhamos um velhinho pedindo esmola na rua e nossa pupila se dilata com a miséria áspera no asfalto, quando lemos nos jornais que tantas pessoas morrem asfixiadas com a miséria humana e nosso estômago se comprime como se estivesse sendo apertado por mãos constituídas apenas de ossos. Se você já se indignou com a realidade, o que pode fazer, o que dá para fazer?

(Diga aí, em silêncio, para você mesmo: gostaria de ouvir uma resposta que te indicasse exatamente o que você poderia fazer para aliviar sua carga de responsabilidades? Respostas prontas e cheias de fórmulas sempre são mais fáceis, felizmente não tenho nenhuma – além de anular a diversidade presente no mundo, elas são uma farsa na maioria das vezes, senão em todas.)

Quando nos indignamos com a realidade, nasce em nós uma faísca rara. “Eu desejo a todos, a cada um de vocês, que tenham seu motivo de indignação. Isto é precioso. Quando alguma coisa nos indigna, como fiquei indignado com o nazismo, nos transformamos em militantes; fortes e engajados, nos unimos à corrente da história, e a grande corrente da história prossegue graças a cada um de nós”, conta Stéphane Hessel em seu pequeno livro “Indignai-vos!”, um sobrevivente de campos de concentração que participou da redação da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. A indignação é um afeto que pode esfacelar nossa inércia.

Após a indignação, um passo possível é a ação, é começar com qualquer ato pequeno – esse segundo passo é, muitas vezes, apenas mais um passo, para que você olhe a situação com mais distanciamento e encontre um ponto por onde começar. Se você esperar para agir só quando encontrar uma situação propensa para sua ação, talvez não aja nunca. A melhor situação para mudar seu comportamento é agora: você nunca muda no futuro, você só muda no agora, nesse instante que cai como uma enxurrada de água nas nossas cabeças. Falo tudo isso para compartilhar um termo que tem me inspirado bastante: “microrrevolução”. Uma microrrevolução é uma ação simples, que começa com uma indignação administrada numa ação, que impacta pessoas num nível local. Desde que comecei a transformar meus sonhos em microrrevoluções, senti um movimento novo ao meu redor. Um movimento de aprendizagem intensiva, de mudança ininterrupta.

Não faltam exemplos de projetos microrrevolucionários no mundo: uma moeda social na periferia de SP; uma empresa que emprega mulheres de baixa renda; um poeta que aborda conflitos sociais nos seus livros; um grupo de jovens que transforma uma sala de aula vazia em uma sala de cinema; um coletivo de amigos que decide escrever um livro sobre educação inovadora (a propósito, faço parte desse coletivo); e outros, muitos outros. As microrrevoluções acontecem por toda a parte, hoje e sempre, nascem de seres humanos comprometidos com a vida.

Nossas vidas deixam um impacto na realidade, seja a marca de uma microrrevolução, seja uma pisada de indiferença. Qual é a sua contribuição para o mundo, ao menos para o seu mundo? Espero que essa pergunta ecoe na sua cabeça hoje e amanhã. No café, no almoço e no jantar. Inclusive de madrugada, quando você acordar de um sonho no qual uma pessoa te perguntará: qual é a sua contribuição para o mundo?

 

imagem banner: Bocah Boror – Help me

 

André Gravatá é jornalista e membro do coletivo Educ-ação. Atualmente, está mergulhado em entrevistas para transformá-las em capítulos do livro Volta ao Mundo em 12 Escolas. Colabora com revistas como Vida Simples e Superinteressante, além de desenvolver um projeto de engajamento jovem chamado Jogo de Cinema, realizado pela Via Gutenberg. Também é organizador do [email protected] e do TEDxSéED.