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GRÍZES TESZTA por Elza Tamas

 

 

Tenho quatro avós húngaros.
Por ocasião da 1ª guerra mundial, a Hungria perdeu grande parte do seu território, dois terços. Dois dos meus avós passaram de um dia ao outro, de húngaros a romenos; os outros, viraram sérvios. O tratado de Trianon previa que se em 100 anos, as comunidades agregadas aos novos países ainda mantivessem a língua materna, as terras anexadas seriam reintegradas aos países de origem. Em função disto, a primeira providencia tomada pelos governos foi impedir que o idioma de origem fosse falado. Na escola, minha avó era obrigada a falar romeno. Os vizinhos eram húngaros, a rua húngara, o padeiro, o açougueiro, mas na escola ela tinha que aprender a falar uma língua estranha: o romeno.
A Hungria perdeu o acesso ao mar, meus familiares perderam filhos e parentes, vitimas da guerra e das condições precárias em que viviam. Famílias fugiam para evitar que filhos fossem alistados e no porto, no minuto final, eles eram confiscados e obrigados a ficar. A viagem de navio era então um misto de esperança, com a promessa do novo mundo, os peixes voadores acompanhando a embarcação, crianças brincando inocentes pelo convés, e a dor de tudo que tinha sido deixado para trás. Sacas e sacas de dinheiro eram lançadas ao mar, papel sem valor algum, e eles desembarcaram ainda mais pobres na nova vida.

Quando os meus bisavós chegaram ao Brasil, ambos, os húngaros sérvios e os húngaros romenos, construíram casas sobre uma fundação alta, elevada, três degraus para alcançar a porta. Esperavam pela neve que nunca veio. Penduraram tapetes grossos nas paredes para enfrentar o frio rigoroso. Na lateral da casa, parreiras. No quintal, atrás, uma pequena horta. Fabricavam linguiças em casa, numa linha de produção em série que envolvia toda a família. Soprar e encher tripas com uma mistura de carnes de cheiro forte, desagradável, parte das minhas piores lembranças de infância, as linguiças, e também os velórios domésticos, com os mortos benzidos com ramos enormes de alecrim, os pés frios de um bisavô que eu devia segurar para perder o medo da morte, a procissão da sexta feira santa e Maria Madalena me apavorando com o seu canto mórbido, o cemitério e o tumulo da menininha enterrada com os brinquedos prediletos.
Naquele bairro, que era na verdade uma comunidade húngara, nascemos todos, eu e meus irmãos; em casa, que parto não é doença, dizia minha mãe; com a mesma parteira, e na casa da mesma avó. O primeiro banho era de bacia e a placenta era enterrada no jardim pelo meu avô. Lá também meus pais se conheceram na celebração de primeiro de maio, num piquenique. Vida e morte se cruzavam com mais naturalidade naquela vila de ruas de terra, de língua estrangeira e de velhas de cajado e lenços escuros amarrados sob o pescoço.

Recentemente, numa viagem que fiz a Hungria e Romênia, onde encontrei parentes amorosos que eu nem sabia que existiam e que me descobriram pela internet, me deparei com arquiteturas absolutamente familiares: a fundação alta, os degraus para o acesso a porta, os tapetes nas paredes, a parreira, a horta no fundo. Também páprica e papoula compradas a granel, massas folheadas e doces tão saborosos como os da minha mãe. Nem tudo pode ser roubado de um povo.

(Quando alguém adoecia, minha mãe fazia um macarrão, frito numa farinha de semolina, crocante, queimado no fundo da panela: Grízes Teszta. Macarrão à milanesa. De sobremesa, panquecas recheadas com açúcar e canela. Palacsinta. Minha mãe se foi, a tradição se mantém.)

 

foto banner: foto do passaporte do meu bisavô húngaro (romeno), na ocasião da entrada no Brasil

 

 

 

 

 

Elza Tamas é psicóloga clínica e escritora.
Idealizou e desenvolve o forademim.com.br

 

 

 

 



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O ELO ENTRE LINGUAGEM E MÚSICA por Magda Pucci

 

Parece existir uma ligação próxima entre o surgimento da música e da linguagem falada, situando assim o despertar do sentido musical em tempos remotos.

Inúmeras teorias tentam explicar a origem da música, do canto, dos primeiros sons produzidos pelo homem. Alguns dizem que nós aprendemos a cantar imitando os sons emitidos por pássaros e animais, enquanto, outros sugerem que a música se desenvolveu a partir da descoberta de que alguns sons mais simples quando emitidos a uma longa distância, tornam muito mais fácil a comunicação de um grupo. Diferentes intelectuais de diversas áreas tem suas teorias sobre o surgimento da música, do canto, da fala.

O economista Karl Bücher argumentou que o ritmo desenvolveu-se em função da necessidade de se coordenar grandes grupos de pessoas trabalhando juntas levantando, quebrando, puxando as coisas – requerendo desempenho máximo do grupo exercido no mesmo instante. Essa relação com o coletivo é bastante aceita ainda hoje.

Charles Darwin, naturalista, relacionou a origem da música com o sexo: ela teria se  desenvolvido a partir dos sons de acasalamento produzidos por  pássaros e animais. Essa é uma hipótese provável também, dado que muitos xamãs indígenas se transvestiam de pássaros ou outros bichos para conversar com os espíritos. Há vários relatos míticos, como por exemplo, os dos Paiter Suruí, onde mulheres mantinham relações sexuais com espíritos em forma de animais.

O psicólogo Karl Stumpf conjectura que cantar com tons definidos e bem alto tinha um poder muito maior do que o discurso ou grito.

Para Herbert Marcuse, filósofo, as pessoas tendem a exagerar as localizações expressivas na própria linguagem quando estão em estados emocionais agudos, originando lamentos ou gritos que quando estilizados, se transformam em música.

A música se desenvolveu como um modo de comunicação realçada com poderes sobrenaturais, ou seja, como forma de xamanismo, com poderes para a cura e de dialogo com os espíritos.Esta é a visão proposta pelo antropólogo Siegfried Nadel.

O etnomusicólogo John Blacking concebe a música como um espelho que reflete os mais profundos ritmos sociais e biológicos de uma cultura, uma externalização dos pulsares que permanecem escondidos no meio das ocupações da vida diária.

A filósofa Suzanne Langer especula que música, linguagem e dança foram originados juntamente aos mais antigos rituais, com imagens de pessoas se reunindo em círculos, dançando e cantando.

O musicólogo Jacques Stehman também aponta uma analogia entre a gênese da música e a da linguagem, ao afirmar que “os homens das eras mais recuadas, vivendo rodeados de mistérios inexplicáveis e de terrores diversos, sem recurso perante a hostilidade da natureza e os enigmas da criação, utilizam antes mesmo de saberem falar, uma linguagem que representa um meio de comunicação com os espíritos ou com as forças que os dominam, ou ainda com divindades que comandam essas forças”.

Para o arqueólogo Steven Mithen , autor do livro ‘Os Neandertais cantavam rap’, antes mesmo de desenvolver um padrão de linguagem, os hominídeos que viviam entre 50 mil e 100 mil anos atrás utilizavam a música como forma de comunicação e socialização. Para ilustrar, ele exemplifica com a imagem de homens de Neandertal em cavernas em Dordogne, na França, cantando, pulando, fazendo sons com os pés e com as mãos. Parecia haver uma espécie de “transe coletivo” semelhante ao visto nas atuais raves.

“As pessoas sempre pensam nos Neandertais como brutos e mal-humorados, mas eles tinham uma noção forte de ritmo e música”. O arqueólogo se apoia em outros estudos, de neurocientistas, antropólogos e paleontólogos, para reforçar a ideia da co-evolução de música e linguagem. Em oposição, outro arqueólogo Steven Mithen, pensa que o homem de Neandertal desenvolveu uma comunicação que ele chama de HMMMM, isto é, holística (não composta de elementos segmentados), manipulativa (influenciava emocionalmente a si próprio e aos outros), multimodal (utilizava sons e movimentos), musical (rítmica) e mimética (com gestos).

O linguista canadense Steven Pinker diverge da teoria de Mithen e acredita que a música seria uma derivação do sistema de linguagem, isto é, a música poderia existir no cérebro mesmo com a ausência da linguagem.

Tanto Mithen com Stehman, assim como a filósofa Langer, afirmam que a comunicação do homem – seja com os seus ou com as divindades – demandou uma linguagem, isto é, sons articulados geradores de uma oralidade, que independente do advento da escrita, se mantém como forma de comunicação entre muitos povos, seja em forma de música ou como narrativas.”

Na China Antiga, pensava os princípios da música seriam os mesmos do eterno sagrado, huang chung, expressão que se refere tanto ao som fundamental como à divindade. Na tradição indiana, Brahma ensinou o canto ao profeta Narada que por sua vez, o transmitiu ao resto dos homens. No Egito, Deus Thoth teria criado o mundo através dos sons e antes do ano 4000 a.C., a música já era presente nos rituais e cerimônias militares, festas profanas. Na Babilônia e na Grécia, os filósofos relacionavam o som com o cosmos através do estudo da acústica.

Por mais teorias que surjam, a origem da música se mantém como um mistério. Enquanto manifestação oral não é linguagem da razão, mas das grandes forças misteriosas que animam o homem.

 

foto banner: arte aborígine
fotos: pinturas rupestres Serra da Capivara

 

Um gostinho do grupo Mawaca

 

 

Magda Pucci é musicista e pesquisadora da música de vários povos. É formada em Regência pela ECA-USP, mestre em Antropologia pela PUC-SP e doutoranda em Creative Arts and Performance na Universidade de Leiden na Holanda. É diretora musical do grupo Mawaca há 20 anos, onde desenvolve extensa pesquisa de repertório multicultural aplicada à prática musical. O grupo tem 6 CDs e 4 DVDs lançados e se vem se apresentando em diversos países. Magda foi apresentadora e produtora do programa de rádio ‘Planeta Som’ por 13 anos transmitido pela Rádio USP e pela Multikulti na Alemanha e na Suécia. Ministra oficinas de educação musical para professores e é autora do livro paradidático “Outras terras, outros sons” em parceria com Berenice de Almeida (Ed. Callis) além de livros para criancãs baseados nas canções do Mawaca como “De todos os cantos do mundo” (Cia das Letrinhas) e “Contos Musicais” (Leya) em parceria com Heloisa Prieto. Com Berenice de Almeida, escreveu o livro “A Floresta canta: expedição sonora por terras indígenas do Brasil” (Peirópolis) e A Grande Pedra (Saraiva) para crianças. Também dá palestras e cursos sobre músicas do mundo e faz curadorias.

www.mawaca.com.br

http://www.youtube.com/user/mawaca

http://www.wix.com/magdapucci/mawaca-cantos-da-floresta2

http://www.facebook.com/grupomawaca

 

 

 

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A SINGULARIDADE HUMANA por Andrea Migliano

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desenho Darwin -árvore da vida

 

 

Discutir origens é sempre algo complicado. Com exceção da origem do Universo onde numa grande explosão, do nada surgiu o tudo, todas as outras etapas da nossa criação aconteceram baseadas em algo que existia antes, e modelado pelas forças da seleção natural e claro, do acaso.

Para falar da origem da humanidade temos que entender então, que o homem não aconteceu de um dia para o outro, e que características que consideramos ser exclusivamente humanas, evoluíram lentamente, durante um longo período de sucessão de diferentes espécies. Muitas destas características são portando compartilhadas com os nossos diversos ancestrais na linhagem evolutiva da vida.

Como definir o ser humano?

Do ponto de vista biológico, somos animais, da classe mamália, da ordem primata, da família hominídea, do gênero Homo e da espécie sapiens. Nós compartilhamos com nossos primos da ordem primata 90% do nosso código genético, e com a nossa família hominídea (Chimpanzés, Bonobos, Gorilas e Orangutangos) pelo menos 97 %.

Chimpanzés, Bonobos e o homen se separaram há 7 milhões de anos (um período extremamente curto do ponto de vista evolutivo), e compartilham 98.7 % do seus códigos genéticos. De fato, Chimpanzés e Bonobos, são mais parecidos com o homem, do que são com Gorilas!

O que compartilhamos com Chimpanzés além de genes?

Cada vez mais, comportamentos antes atribuídos exclusivamente aos humanos, são observados também em outro integrantes da família hominídea. Grupos de Chimpanzés têm diferentes culturas – ou seja usam instrumentos que diferem de uma população para outra. Além disso, testes de QI mostram que que Chimpanzés são tão bons quanto crianças humanas em entender o mundo físico e as relações de causa e consequência. E, para a surpresa de muitos, Chimpanzés tem uma memoria de curto prazo (um traço importante para o desenvolvimento do aprendizado) muito melhor que a humana. De fato, são tão bons, que desafio os leitores a memorizar uma sequencia numérica na mesma velocidade que chimpanzés o fazem:

https://youtu.be/qyJomdyjyvM

Você pode tentar fazer o mesmo teste aqui:

http://www.crazygames.com/game/ayumu-chimp

O que e único do homem e quando essas características surgiram?

O homem moderno (Homo sapiens), surgiu na África por volta de 200 mil anos atrás. Além de um cérebro três vezes maior do que o dos chimpanzés, o homem tem outras características únicas importantes: devido ao tamanho do nosso cérebro, temos os bebês mais caros e portanto os mais dependentes entre todos os primatas. Isso fez com que a cooperação entre diferentes membros da família, como por exemplo os avós, evoluísse para garantir a sobrevivência das crianças. Essa cooperação entre membros da família e do grupo, foi extremamente importante durante a evolução humana; com ela veio a nossa capacidade inata para a linguagem (para coordenar movimentos cooperativos), além da seleção para maior longevidade. Por exemplo, acredita-se que a menopausa (outra característica unicamente humana) tenha evoluído para que as avós pudessem parar de reproduzir e ajudar na criação dos netos. A combinação de todos essas adaptações, fazem do homem uma espécie única. Essas características únicas evoluíram lentamente durante os 7 milhões de anos que separam o homem dos Chimpanzés. Porém, onde e como, é difícil dizer. Por volta de 2.8 milhões de anos atrás, no leste da África o gênero Homo apareceu. Existem entre 8 e 12 espécies de Homo descritas, dentro e fora da África. Sendo Homo sapiens, a única, sobrevivente hoje em dia. Homo erectus há 1.8 milhões de anos atrás já apresentava uma estatura equivalente a nossa, um período de crescimento e tamanho do cérebro, bem mais próximos aos humanos.

Claro que o fato do ser humano ter evoluído uma capacidade de cooperação extrema, não significa que não tenha também evoluído capacidades extremas para competição e conflitos. Conflitos entre grupos são parte da nossa história evolutiva. Na verdade, alguns cientistas defendem que parte da nossa capacidade cooperativa tenha evoluído como uma forma de se organizar contra grupos inimigos. Por muitos milhares de anos, Homo sapiens dividiu o mundo com todas as outras espécies do gênero Homo. Os Neandertais (Homo neanderthalenses) por exemplo, habitavam a Europa até 40 mil anos atrás, quando os humanos chegaram. Os humanos trouxeram com eles, novas tecnologias, mais vantajosas na competição por recursos, levando assim, a extinção dos Neandertais. Porém, antes da extinção, houve miscigenação entre as duas espécies. Evidencias recentes vindas da comparação do genoma humano com o genoma de Neandertais, mostram que todas as pessoas fora da África têm entre 2 e 4% do seu genoma, vindo de Neandertais

Familia Agta (caçadores coletores das Filipinas) em casa, cozinhando juntos. Divisão de alimentos entre diferentes indivíduos é também uma característica única humana.

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A complexidade da historia evolutiva e das interações entre as espécies do gênero Homo durante o processo de colonização do planeta, mostra como é difícil apontar para a origem de uma singularidade humana. Uma maneira mais produtiva é olhar para a origem das diversas características singulares que compartilhamos com cada um de nossos ancestrais na linhagem evolutiva da vida.

 

 

 

Andrea Bamberg Migliano é  PhD pela Universidade de Cambridge em Antropologia Biológica. Desde 2010 é professora na UCL (University College London). Suas pesquisas são na área de evolução humana e evolução do comportamento humano, especialmente voltadas para o entendimento da evolução de tribos caçadoras-coletoras no Congo e nas Filipinas.
Para saber mais:
http://www.adapting.org.uk
http://www.ucl.ac.uk/anthropology/people/academic_staff/a_migliano

 

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O GLOSSÁRIO DOS NOMES PRÓPRIOS por Alex Cerveny

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O “glossário dos nomes próprios” que deu origem a esta pintura foi o que encontrei em uma edição de Os Lusíadas, de 1884. Retirei dali os primeiros nomes da lista: Abraham, Achilles, Acrísio, Acteon, Adamastor, Adão e assim por diante até o terrível Zopyro, o sátrapa persa. Escolhi apenas homens e os imaginei todos com suas feições semíticas, todos semelhantes e habitantes de um mundo anterior à existência das mulheres. E também vieram faraós, papas, profetas, psicanalistas e homens de todo tipo. Todos eles nascidos das costelas uns dos outros, desde Adão até Michael E. Dritschel, o inventor da margarina cremosa(mesmo gelada!) e assim por diante. Em cada pintura existe um mundo. Neste é assim. E nele a existência humana está prestes a se acabar porque toda a matéria combustível já ardeu para forjar o metal das correntes titânicas que prendem o céu à terra. As últimas brasas ainda queimam, mas não por muito tempo. O universo chega assim ao seu termo, que apesar do esgotamento, possui grande beleza. Um belo mundo construiram estes homens e assim, a linhagem do primeiro Adão está pronta para o seu fim.

 

 

 

 

 

Alex Cerveny – São Paulo, 1963.
Foi criado na zona oeste de São Paulo, filho de um arquiteto e de uma professora especializada no ensino de cegos. Seu trabalho é fundamentalmente narrativo, em pintura, desenho, gravura e escultura. Artista de formação livre, começou a expor no ano de 1983. Recebeu em 1986 o “Grande prêmio” na 7 a mostra de gravura Cidade de Curitiba. Em 1991 participou das exposições Viva Brasil Viva, no museu Liljevalchs em Estocolmo e da 21a Bienal internacional de São Paulo. Nos anos recentes, ganhou em 2012 o Prêmio FUNARTE-Marcantônio Vilaça pelas ilustrações do livro Pinóquio (Editora Cosac Naify, 2011) e com elas ainda participou em 2013 da 30a Bienal de artes gráficas de Ljubljana. Em 2014, recebe também o segundo lugar do Prêmio Jabuti de melhor ilustração pelo livro Decameron(Cosac Naify, 2013).

 

A exposição “Glossário dos nomes próprios” estará em cartaz de 1° de abril à 7 de junho de 2015 no Paço Imperial, Praça XV de Novembro, 48 – Centro – Rio de Janeiro. De terça a domingo, das 12 às 18h – ENTRADA FRANCA

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CONSTELAÇÕES SISTÊMICAS por Aude Kater

 

 

Todo individuo pertence a vários sistemas, constituídos de subsistemas, em interação constante uns com os outros. Cada sistema funciona como uma entidade com motivações, prioridades, papéis, necessidades, valores, histórias e até estados de alma que lhe são próprios. O primeiro e o mais importante é o grupo familiar.
Cada sistema tem o seu potencial próprio de energia e quando se enfraquece, acaba desenvolvendo  sintomas patológicos nos elementos que o compõem.

O trabalho com a abordagem sistêmica das Constelações Familiares coloca em evidência  forças muitas vezes inconscientes, que regem e mobilizam os grupos. A partir do momento em que pessoas se agrupam, um código de funcionamento se impõe. A transgressão deste código fere a consciência grupal, que sempre prevalecerá sobre a consciência pessoal, e provocará inevitavelmente algum tipo de problema.

Todos os sistemas obedecem a um mesmo conjunto de princípios. Existem três princípios superiores que influenciam todos os demais:

o principio de pertencimento significa que cada pessoa integrante de um sistema qualquer não pode sob nenhum pretexto ser excluída. A exclusão afetará não somente os membros atuais, mas também os descendentes.
o principio de precedência lembra que existe uma ordem de chegada e cada pessoa possui o seu lugar especifico, isto é, ninguém pode ocupar o lugar de outro.
o principio de equilíbrio entre dar e receber representa um norma de justiça e de equidade dentro do sistema.

Normalmente, pensamos que o que nos acontece é de nossa responsabilidade, ou que é consequência de um passado pessoal. Porém, quando fazemos algo que na realidade não desejamos nem tínhamos a intenção de fazer ou quando deixamos de realizar ou agir como gostaríamos, as constelações familiares e as representações nos mostram que isto em geral está ligado à influência de outros membros de nosso sistema familiar, em função do que eles fizeram ou deixaram de fazer. Às vezes, são antepassados que nem conhecemos. No âmbito das representações sistêmicas, chamamos esta ligação de emaranhamento.

É difícil observar estas influências de maneira direta no âmbito do quadro familiar. Porém elas podem ser a causa de doenças graves, distúrbios psicológicos, acidentes, fracassos ou dificuldades repetitivas na vida.
As constelações familiares representam um método que torna visíveis estas forças invisíveis, permitindo encontrar uma solução adequada aos problemas afetivos, psicológicos, profissionais ou de saúde.

Numa Constelação Familiar, o facilitador convida o cliente a expor brevemente seu problema, através de perguntas sobre fatos relacionados a situação ou a sua família. Depois, em função das respostas, o constelador lhe pedirá que escolha no grupo algumas pessoas para representar elementos do problema ou membros de seu sistema familiar. O cliente os disporá intuitivamente no espaço e depois retornará ao seu lugar, quando assistirá a algo surpreendente: os representantes perceberão sensações, emoções e mesmos pensamentos dos membros do sistema familiar que eles estão representando, sejam eles vivos ou mortos.
Estes registros vão guiar o facilitador para uma compreensão da causa do problema.

Quando refletimos sobre as dificuldades sistêmicas, podemos constatar que elas tem sua origem na relação da criança com a mãe, pai, ou com um de seus irmãos . Posteriormente estes transtornos projetam-se em todas as outras relações durante a sua vida. A vida pode se tornar então uma repetição do que foi vivido pela criança. Isso representa a raiz do sangue. Diz respeito a nossa família de origem e aquela que criamos.

Porém, muitas vezes o trabalho com este nível mostra-se insuficiente.. Compreendemos então que é necessário buscar para além da família de origem, na cadeia dos ancestrais.

Estes ancestrais viveram numa terra, pertenceram a uma raça, nação, povo. Pode existir um emaranhamento entre uma pessoa e seu ancestral e este emaranhamento é muitas vezes uma ligação negativa, que os leva a adotar comportamentos que parecem aos destes ancestrais, particularmente quando um desses ancestrais foi maltratado, rejeitado ou excluído, ou então quando roubaram algo que lhe pertencia como seu lugar no próprio sistema familiar, sua honra, ou a sua fortuna, por exemplo.

Um ancestral pode ter sido excluído de seu país, por exemplo. Ele torna-se, como quase todos os emigrados, alguém desenraizado, sem vinculo e que perdeu parte de suas referências de origem. Todo o equilíbrio do sistema responde a este impacto, gerando dificuldades aos descendentes.

As Constelações Familiares não interpretam, explicitam através das representações onde existem “emaranhamentos” e bloqueios do movimento energético. Depois de evidenciar a fonte do problema, procuram reintegrar o que era excluído ou o que estava fora de seu lugar até que o sistema reencontre o seu próprio equilíbrio.

Artigo escrito, com base em material pedagógico do curso de formação em Constelações Sistêmicas ,idealizado por Idris Lahore da Livre Universidade do Samadeva/França

foto banner: máscara/Aude Kater

 

Aude Kater
Terapeuta e Artista Plástica, francesa radicada no Brasil. Diplomada em Arteterapia e Mestre em Ciências da Educação pela Universidade de Paris V, possui formação também em Psicosintese, em Terapia Transpessoal pela DEP – Dinâmica Energética do Psiquismo – e em Constelações Familiares pela Universidade Livre do Samadeva/França e pela Faybel Consultoria/Brasil. Membro do Colégio internacional dos Terapeutas/Brasil assim como da Federação de Psicogenealogia e Constelações familiares e Sistêmicas/França e da AATESP. Desenvolve há mais de 30 anos, trabalhos terapêuticos com abordagem artística, utilizando a simbologia da máscara como recurso de expressão e autoconhecimento.

www.cuidardoser.com.br
[email protected]

 

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ATRÁS DE TODAS AS COISAS por Leda Cartum

Sou testemunha da infância dela que corre ao meu lado: estamos no mesmo banco de trás do carro, mas ela assiste a um desfile de mundos misteriosos pela janela (por que nunca pode fechar o cruzamento?) enquanto o meu olhar ultrapassa a rua e não fixa ponto nenhum. Daí me vejo comentando com os adultos do banco da frente: que essa avenida costuma estar mais congestionada. No que eu e ela nos entreolhamos e a percebo interrogativa, como se tentasse depreender um significado impossível a partir do que acabo de dizer: para ela essa frase é enigmática, pertence a um universo hermético a que ela esteve sempre ligada sem nunca poder conhecer. A frase que trata da frequência do congestionamento da avenida repercute dentro de sua cabeça, cheia de realidades secretas e imensas: talvez contenha a resposta para todos os problemas, a solução dos mistérios; mas ela não tem acesso a isso. Essa frase, como que contornada por uma faixa amarelo e preta, é de acesso restrito: e ela só pode vê-la de longe na tentativa de adivinhar o que é que eu quis dizer: o que é que os adultos sabem e que ela não pode saber; qual é o segredo que se esconde atrás de todas as coisas.

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Lembro de algo que aconteceu algum tempo atrás: sorrio, numa mistura de cumplicidade e compaixão, como se visse do alto aquela pessoa que fui há anos e que não sabia de nada do que viria a acontecer. É um sorriso parecido com aquele que costumamos dirigir às crianças, e que parece dizer: existe um futuro imenso que vocês ainda não conhecem. Há sempre uma névoa de ingenuidade que envolve as lembranças antigas e as crianças pequenas: quando é que, naquela época, ou nessa idade, poderíamos desconfiar de tudo o que surgiria e que nos levaria por esses rumos até chegar aqui e agora? Vem também uma certa vontade de voltar até aqueles momentos para envolver esses seres distantes que agora parecem fantasmas imersos no escuro, e consolá-los por sua ignorância.

Mas é só inverter o sentido desse olhar para que tudo de repente mude de figura: se tento dirigir o olhar para a massa amorfa e invisível de tudo o que está por vir; ou, antes: se tento me sentir olhada por aquela que serei eu em um lugar desconhecido e por enquanto inexistente que é chamado de futuro – daí as coisas em volta se tornam muito pequenas. Parece que elas se afastam e correm quilômetros ainda imóveis, e o meu próprio tempo deixa de ser certo e seguro. É uma sensação de vertigem que provoca uma espécie de queda dessa atualidade e nos joga para longe, como se não estivéssemos mais no lugar onde estamos. As coisas são reviravoltas no escuro.

 

imagem banner: Iluminura de livro do sec, XV  -Antoine Vérard, 1494 L’Art de bien vivre et de bien mourir.

 

 Leda Cartum tem 26 anos. Publicou o seu primeiro livro, As horas do dia – pequeno dicionário calendário (Editora 7Letras), em 2012. Formada em Letras pela Universidade de São Paulo, hoje no mestrado estuda o escritor Pascal Quignard – de quem está traduzindo o livro Le sexe et l’effroi. Trabalha com texto e produção escrita em diversas áreas, desde tradução e editoração até roteiros para cinema e TV. Seu próximo livro, O porto, sairá pela Editora Iluminuras em 2016.
foto: Sara de Santis.

 

 

 

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A ORIGEM DO FUTURO por Jesper Rhode

A tecnologia se inaugura no momento em que um macaco, ou outro animal, utilizou-se  de uma pedra para quebrar a casca de uma fruta. Por definição, tecnologia é a coleção de técnicas, metodologias ou processos usados para produzir um bem. Segundo muitos arqueólogos, há 50.000 anos a utilização de ferramentas e o aparecimento de comportamentos mais complexos deu origem a línguas mais elaboradas.

 

A tecnologia tem sido essencial na evolução humana, e em grandes momentos de disruptura na nossa historia. Podemos interpretar a frase “anões nos ombros de gigantes” de Bernard of Chartres, do século XII, como um reconhecimento da contribuição da tecnologia herdada de nossos ancestrais e  grande alavanca para o desenvolvimento contínuo. No seu livro Superinteligência, o professor da Universidade de Oxford, Nick Bostrom, calcula que quando eramos caçadores, a nossa economia dobrava a cada 224.000 anos. A tecnologia nos ajudou a construir uma civilização baseada na agricultura que, por sua vez, dobrou a economia a cada 900 anos. Mas eles certamente teriam dificuldade em  acreditar que no inicio de seculo XXI, países desenvolvidos e megacidades dobram a sua economia a cada 6,3 anos.

 

Para muitos tecnologia hoje é sinônimo de computação e digitalização. Provavelmente isso ocorre, devido às mudanças fundamentais que as tecnologias derivadas da Internet estão nos trazendo. Some-se isso ao fato  do computador ser visto como uma máquina com algum grau de inteligência.  Mas a ideia da existência de uma tecnologia de computação é anterior ao computador que  conhecemos hoje. Uma das primeiras evidências da existência de um computador é datada de 205 anos antes de Cristo. A máquina de Anticítera, nome do local onde foi encontrada na Grécia, é um artefato que se acredita se tratar de um antigo mecanismo para auxílio à navegação, e sua construção  foi atribuída a Arquimedes. Sua serventia vai além de guiar naus. Esse computador analógico é preciso em calcular a orbita lunar, solar, e as órbitas de mais cinco outros planetas ao redor da terra.

 

A ideia de atribuir inteligência ao computador também não é tão recente. Em 1770 surge o primeiro computador de xadrez: o Turco. Ganhou esse nome por ser composto de uma mesa montada junto com um boneco mecânico, vestido como um turco. O Turco movimentava as peças do jogo, e se mostrava como um jogador competente. Em 1820 o segredo foi desvendado, com a descoberta de que, na verdade, havia uma jogador de xadrez real dentro da mesa. O aparelho deu origem ao serviço da Amazon “Mechanical Turk“,  que hoje propõe terceirizar à pessoas ao redor do planeta, mediante pagamento, tarefas que são difíceis de serem executadas por computadores, pelo conceito de Crowd Sourcing ou trabalho colaborativo. Um novo tipo de colaboração que a tecnologia da Internet nos oferece.

 

A tecnologia e as revoluções tecnológicas têm sido muito significativas para a evolução da economia mundial e da civilização humana. Carlota Perez, professora de quatro universidades, entre elas London School of Economics e a Universidade de Cambridge descreve na sua tese grandes picos de desenvolvimento ligados a grandes revoluções tecnológicas. A primeira é a revolução industrial na Grã Bretanha em 1771, seguida pela era do vapor e pelas  ferrovias, começando em 1829. A terceira revolução é a idade do aço, eletricidade e engenharia pesada, onde os Estados Unidos e Alemanha ultrapassam a Grã Bretanha, a partir de 1875. A quarta revolução, a partir de 1908 descreve a idade do petróleo, do automóvel e da produção em massa. A quinta revolução tecnológica acontece em torno da informação, da informática e das telecomunicações a partir de 1971. Cada uma destas revoluções é caracterizada por duas fases: inicialmente uma fase com busca de aumento de eficiência, baseada na lógica da economia anterior à revolução tecnológica. Em seguida, uma outra fase que reformula a lógica fundamental da economia, e que portanto causa uma crise financeira. Desta maneira podemos atualmente observar em grandes países, comportamentos econômicos jamais previstos pelos livros de ensino econômico. Um exemplo é o uso de juros negativos e a emissão acelerada de dinheiro como solução para o crescimento, prática que vem sendo utilizada na Europa.
Atualmente estamos entrando na segunda fase da revolução tecnológica causada pela informática e da Internet. Parte desta segunda fase é a crise econômica profunda e o surgimento de novas logicas econômicas e novos modelos de negócio e valorização de empresas, como a aquisição da Whatsapp com seus 50 funcionários pela Facebook por 19 bilhões de dólares. Estamos caminhando para uma economia onde possuir bens será substituído por compartilhamento, e onde produtos estão se transformando em serviços. Uma destas tecnologias transformacionais é o carro autônomo, que dispensa o motorista e que promete pela primeira vez mudar fundamentalmente o conceito de transporte urbano, onde nos últimos 120 anos não tivemos progresso significativo.

 

Uma tendência atual e fundamental para a utilização das tecnologias é a chamada consumerização.  Termo dado inicialmente para o uso de dispositivos pessoais no ambiente de trabalho, tablets, netbooks, iPhones e Androids agora são usados também por funcionários que os levam para o ambiente da empresa, o que certamente aumenta sua produtividade. Hoje o termo também é utilizado para descrever o fato de que consumidores estão se apropriando de tecnologias antigamente totalmente inacessíveis a eles. No site genomecompiler.com qualquer pessoa pode baixar um programa e começar manipular qualquer parte do código genético de mais de 40 formas de vida armazenados na sua biblioteca. Ao terminar, o usuário pode enviar o novo código genético para Cambrian Genomics, que oferece imprimir em 3D este novo código genético, e após aprovação das autoridades norte-americanas, enviá-lo para o requisitante numa cápsula de proteína. Quinze anos atrás, uma manipulação deste tipo custaria bilhões de dólares e somente poderia ser executada por empresas muito sofisticadas. Um dos primeiros produtos anunciados, fruto deste processo, são plantas luminosas, derivadas do cruzamento de genes de bactérias aquáticas luminosas com genes de uma planta.

 

Sabemos que um email pode conter um vírus.  Mas, hoje este vírus pode ser biológico. A decodificação do DNA de um vírus real ou ainda a fórmula de uma vacina contra uma doença pode ser enviadada por email e pode ser reproduzida em qualquer lugar.

 

Da mesma maneira, modelagem em 3D, robótica e até viagens espaciais estão sendo trabalhadas e preparadas por empresas ou mesmo pessoas privadas.

O futurologista norte americano Ray Kurzweil introduziu o conceito de singularidade para descrever o processo de confluência das ciências resultando no crescimento exponencial da eficiência das tecnologias. Esta exponencialidade coincidiu com a aceleração do crescimento econômico mencionado inicialmente. Da mesma maneira que, a constatação do crescimento econômico atual pareceria irreal se apresentado para nossos agricultores ancestrais, hoje não somos capazes de compreender um crescimento dobrando o tamanho da nossa economia a cada 14 dias em 2040, que seria o resultado natural da continuação do crescimento exponencial que temos vivido historicamente até hoje. Parte desta previsão se baseia no surgimento da inteligência artificial em torno de 2030. A partir daí máquinas poderiam apresentar inteligência maior que seres humanos, e só podemos imaginar qual será o efeito a partir do momento que computadores e robôs consigam  se auto desenhar e se reproduzir segundo suas próprias ideias e percepções do mundo.

 

O cientista Stephen Hawking, Bill Gates da Microsoft, Elon Musk, inventor do carro elétrico Tesla e a empresa privada de transporte espacial Space-X, concordam que a inteligência artificial poderá ser o fim da raça humana, uma vez que, a partir dela podemos perder o controle sobre as ideias e visões a respeito  da evolução da vida neste planeta. Mas também é possível que uma inteligência maior conclua que o futuro do nosso planeta é precioso demais para continuar na mão de seres humanos, baseado na incompetência, que temos mostrado até agora.

 

 Jesper Rhode é diretor de Marketing para a Ericsson na América Latina.
Atua nos últimos 15 anos em varias posições como Vice Presidente de Multimídia, Inovação, Pesquisa e Desenvolvimento, Tecnologia, e Contas comercias da Ericsson do Brasil. Foi presidente do conselho da Mobile Marketing Association para América-Latina de 2010 a 2012.
Atualmente também ocupa cargos de:
– Conselheiro consultivo na Wenovate – Open Innovation Center.
– Vice Presidente na Câmera de Comercio Brasil-Dinamarca.
– Professor de MBA na Fundação Getúlio Vargas (FGV).
– Mentor para empresas de comunicação digital na aceleradora StartYouUp
É Engenheiro Eletrônico e de Computação pela Universidade Técnica de
Copenhague, Bacharel em Marketing & Vendas pela Universidade de Copenhague, e
formado em Gestão Global de Telecomunicações pela Escola Americana Thunderbird de Gestão Internacional. Recentemente, também se especializou em Administração de Empresas pela London Business School.

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UNIVERSOS por Rosa Doran

 

 


Como e quando surgiu o Universo que observamos? Haverá vida como a nossa em outros planetas? Haverá outros Universos onde a origem das espécies tem uma história completamente diferente? Como surgiu a nossa estrela, o Sol? E o planeta Terra? Qual será a constituição básica da matéria e qual será a forma do nosso Universo? Qual será a origem do tempo? Qual será a origem da nossa espécie? Porque nos interessamos pelas origens de tudo?

As questões que populam as nossas mentes serão certamente semelhantes às dos nossos antepassados, mas o nível do nosso conhecimento acerca do Universo que nos rodeia mudou muito. Não sabemos como tudo começou nem tampouco para onde se expandem as galáxias. Não sabemos qual o tamanho ou forma do nosso Universo, nem se ele é o único. Mas sabemos hoje que o nosso Universo, observável, surgiu à cerca de 13,7 mil milhões de anos (13 x 109 anos). Sabemos que nos instantes iniciais aquilo que hoje observamos era uma sopa de partículas elementares que pouco a pouco foram dando origem às estruturas que hoje observamos. Sabemos que no princípio só havia Hidrogénio, Hélio e um pouco de Lítio. Assim, as primeiras estrelas não tiveram planetas à sua volta, pelo menos não os rochosos, e não foram portanto testemunhas da possível origem da vida, em outras partes do Universo.

Sabemos que a vida na Terra terá surgido há cerca de 3,5 mil milhões de anos sob condições muito especiais, impossíveis de se repetir nos dias de hoje. Sabemos que os elementos da tabela periódica, para além destes, formam-se a partir do ciclo de vida das estrelas. Sabemos que as leis da física são as mesmas em todo o Universo e a origem do nosso saber vem da nossa fluência em dialogar com a natureza, a fluência matemática, a linguagem universal.

Mas há outras origens que também desafiam a inteligência humana. Qual será a origem da ignorância de uma espécie que se pergunta sobre as suas origens, mas pouco questiona sobre as origens do seu possível fim como espécie dominante no planeta? Qual será a origem da nossa despreocupação com o bem estar dos nossos semelhantes? Qual será a origem do consumismo desmensurado que degrada no nosso planeta ? São questões dificeis de responder embora os investigadores das ciências exatas e sociais ensaiem possíveis explicações.
O sonho de quem já percebeu a imensidão do nosso Universo e a infima fragilidade da pedra onde vivemos e a qual chamamos Terra, é pensar que muito em breve os seres humanos perceberão que somos todos iguais. Um sonho que constroi um mundo em que as diferenças ideológicas, religiosas, que nos unem e nos separam se tornam completamente irrelevantes.

Nosso planeta, cuja origem terá sido algures há milhares de milhões de anos, não tem as fronteiras entre países, visíveis a partir do espaço. Nosso planeta é um pedregulho no nosso Sistema Solar; 99% da massa está concentrada numa única estrela, o Sol, uma pequena estrela entre milhares de milhões de estrelas da nossa galáxia, a Via Láctea.
As galáxias são milhares de milhões num Universo onde a luz demora milhares de milhões de anos para transportar o conhecimento. Um Universo que sabemos não ser tudo, cuja origem desconhecemos e com um destino que nos intriga.

 

Rosa Doran 1961 brasileira/ portuguesa, residente em Portugal.
Física pela PUC/SP. Mestrado em Altas Energia em Gravitação pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Doutorando no Ensino das Ciências na Universidade de Coimbra( em curso).
Desde 1992 se dedica à investigação, divulgação científica e ensino nas áreas de Astronomia, Relatividade e Cosmologia. Membro fundadora do NUCLIO – Núcleo Interactivo de Astronomia (http://nuclio.org),
Membro da Comissão Instaladora do projecto Global Hands-on Universe (www.globalhou.net)
www.galileoteachers.org