Arquivo da tag: os sentidos

pillow book mulher

The pillow book – o prazer da carne e da literatura

Como fazer uma edição sobre “Os sentidos” sem incluir o erotismo e a sexualidade, o sentido último do  prazer?

Celebro aqui  “O Livro de Cabeceira” o exercício sensual e erótico de PETER GREENWAY , um dos meus filmes preferidos.

Japão  anos 70, a jovem Nagiko comemora o seu aniversário com um estranho ritual. Seu pai escreve  uma oração em sua face enquanto  sua tia lê em voz alta o livro de cabeceira escrito Sei Shonagon,uma cortesã do seculo X.


 

Nagiko cresce e retoma este ritual a cada ano, inicialmente tornando o seu corpo um  deleite para seus amantes, calígrafos  que atendendo ao seu desejo,  desenham o seu corpo como uma página de um livro . Posteriormente ela se torna a escritora e descobre o prazer de escrever em outros corpos.

"O livro de cabeceira de Sei Shonagon aponta apenas duas coisas como dignas de confiança: “o
prazer da carne” e “o prazer da literatura”, a união dos dois prazeres significa alcançar o
êxtase, a plenitude. Nagiko conquista o prazer da carne e da literatura.

 

Nessa fusão temos: o olfato, o tátil, o visual e o auditivo, todos citados na lista das coisas esplendidas
o livro de Sei Shonagon. O olfato inclui o cheiro da pele, do aroma do papel; o tátil traz a maciez da
pele, da textura do papel; o visual ressalta o lindo azul escuro, a cor da tinta; e o
auditivo retoma o prazer da melodia de canções chinesas antigas. O recurso erótico é
um outro forte aliado na configuração do prazer da carne e da literatura. Nagiko faz
opção por escrever no corpo masculino: “a carne e a escrevinha, escrevendo sobre
amor”. 

 

O corpo é um alfabeto? Pele pode servir de papel? Há imortalidade no texto? A espinha do livro é a mesma vértebra do homem? Qual é o preço em palavra do amor carnal? O texto pode sentir ciúme? Podem os livros trepar com outros livros e produzir mais livros? Sangue é tinta? A pena é um pênis cujo propósito é fertilizar a página? Aquela que era o papel pode tornar-se a pena? E se foi o corpo que fez todos os signos e símbolos do mundo, passando do cérebro pensante para o braço que move e daí para o gesto da mão e daí para a pena rígida sobre o papel silencioso durante milhares de anos, e agora? — agora que todos nós escrevemos com teclados? Teremos rompido um elo essencial? Haverá agora uma necessária evolução futura para as letras e as palavras? E, se as palavras foram feitas pelo corpo, onde haveria um lugar melhor para depositar essas palavras do que de volta no corpo?  

Peter Greenway

 

fonte: http://www.insite.pro.br/2008/18.pdf

 

aqui o trailer do filme:

 

 


starway 2

O falso pacto do Led Zepellin com o demônio ou de como o cérebro trapaceia nossos sentidos

Simon Singh  é autor, jornalista e produtor de TV especializado em ciências e matemática. E acima de tudo um questionador.

Neste vídeo de uma forma pitoresca, ele nos mostra como o cérebro anseia por preencher lacunas e tornar um conteúdo bizarro em algo  compreensível, mesmo que  isto tenha que ser feito em cima de dados falsos e ideias pré concebidas.

Ele toca uma música muito conhecida do Led Zepellin, “Starway to heaven”, de trás para frente e questiona a pláteia sobre a possibilidade de ter reconhecido algumas palavras e frases. Quase ninguém reconhece o conteúdo, parece mais uma voz embolada.  Volta a apresentar a música, novamente de trás pra frente ,  agora com um texto em que se pode ler as frases que estão  sendo ouvidas. E incrivelmente vamos ouvindo o que certamente não está lá.

O video está em inglês, mas com esta pequena orientação todo mundo vai entender o significado do experimento.

Por conta disso, podemos deduzir a série de vieses e distorções produzidos  pelos cientistas  que ao fazer  uma pesquisa,  já supõe certos resultados e  portanto vão ver ou ouvir efeitos  que se encaixem no  perfil concebido  e atendam as expectativas previamente estabelecidas.

 

para quem, como eu, ficou com saudades da música

Waking_Life_3

Sonhos Lúcidos e o sentido da consciência

 

O laboratório de sono da UFRG,  sob a direção de Sidarta Ribeiro, desenvolve uma pesquisa em que  monitora  indivíduos capazes de manter a consciência em estados de sonho e de se comunicar durante estes estados,  através de movimentos dos olhos previamente combinados  com a equipe técnica. São chamados de sonhos lúcidos.

Os sonhos já trouxeram resoluções de problemas e revelações prontas que transformaram as ciências  e as artes: Elias Howe com a revolução na indústria têxtil, Mendeleev com a tabela periódica, Kekulé com a cadeia de benzeno, Mary Shelley com Frankenstein, Paul McCartney com Yesterday, apenas para citar algumas.

 

Podemos controlar os nossos sonhos?

Waking life (2001), do diretor Richard Linklater,  é a historia de um menino que não consegue acordar de um sonho. Neste estado onírico, ele discute assuntos  existencialistas,  filosóficos e espirituais e também  a diferença entre a vida desperta e o mundo dos sonhos.

A estética ‘trêmula‘  do filme enfatiza a atmosfera de  sonho. Foi primeiro filmada por uma câmera digital e depois cada “frame” foi redesenhado por um time de animadores. Este esforço minucioso despendeu 250 horas para cada minuto deste longa de animação super premiado.

Várias referências aparecem no filme: O diretor Steven Soderbegh (Traffic) é uma das personalidades que aparecem nos sonhos mostrados em Waking Life.

Durante a preleção feita por um macaco, um homem que desce desajeitadamente uma colina mostra, ao fundo, um clipe do filme Sonhos de Akira Kurosawa (1990).

 

trecho do filme waking life

aqui a tradução do trecho

A criação parece nascer da imperfeição, parece vir de algum esforço e de uma  frustração. Acho que é através daí que se origina a linguagem. Quer dizer, veio do nosso desejo de transcender nosso isolamento e ter algum tipo de conexão uns com os outros.

E ela tinha  que ser fácil por uma questão de sobrevivência. Por exemplo,” água”, inventamos um som para isso, ou, “tem um tigre atrás de você”.

Mas fica realmente interessante, eu acho, quando usamos esse mesmo sistema de símbolos para comunicar todas as coisas abstratas e intangíveis que vivemos.

O que é frustração, ou o que é raiva  ou amor?

Quando eu digo ‘amor‘, o som sai da minha boca e chega ao ouvido da outra pessoa, viaja através desse conduto bizantino no seu cérebro  através de suas memórias de amor ou de  ausência de amor. O outro registra o que eu falo e diz que entende, mas como eu sei que ele entendeu? Porque as palavras são inertes, são símbolos, elas estão mortas, entende?

Muitas das nossas experiências são intangíveis. Muito do que percebemos não pode ser expresso, é indizível.

No entanto, quando nos comunicamos uns com os outros e nos sentimos conectados e entendidos, acho que sentimos na realidade quase uma comunhão espiritual. Essa sensação pode ser meio surreal, mas acho que é por isso que vivemos.

tradução : Jessica Cooke

 

 

 

 

 

FIRENZE_VEDUTE_PICCOLE_4w

A Síndrome de Stendhal ou o belo insuportável

A SINDROME DE STENDHAL

 

A síndrome de Stendhal se caracteriza por um mal estar, um tipo de ataque nervoso seguido de palpitações, tontura e estado de confusão, quando a pessoa é exposta à beleza da arte. É como se os sentidos entrassem em colapso frente à incapacidade de absorver o esplendor que a arte pode apresentar.

A síndrome recebeu este nome porque estas sensações foram descritas pelo escritor Stendhal num livro, após uma viagem à Florença.

Florença, 22 de janeiro de 1817: Ao chegar a Florença, meu coração batia com força… em uma curva da estrada, meu olho mergulhou na planície e percebi, de longe, como uma massa escura, Santa Maria Del Fiori e sua famosa cúpula, obra-prima de Brunelleschi. Eu me dizia:

É aqui que viveram Dante, Michelangelo, Leonardo da Vinci! Eis esta nobre cidade, a rainha da Idade Média! É nesses muros que começou a civilização”… as lembranças se comprimiam em meu coração, sentia-me sem condição de raciocinar e entregava-me à minha loucura como junto de uma mulher a quem se ama… Eu já me encontrava em uma espécie de êxtase pela idéia de estar em Florença e pela vizinhança dos grandes homens dos quais eu acabava de ver os túmulos [Michelangelo, Alfieri, Machiavel, Galileu]…

Absorvido na contemplação da beleza sublime, que via de perto, eu a tocava, por assim dizer. Tinha chegado ao ponto da emoção onde se encontram as sensações celestes proporcionadas pelas belas-artes e os sentimentos passionais. Saindo de Santa Croce, meu coração batia forte, o que em Berlim chama-se “nervos”; a vida esgotara-se em mim, eu andava com medo de cair…”

O psicólogo Jung no  livro “Memórias, Sonhos e Reflexões”,  faz alusão ao mesmo fenômeno quando descreve sua incapacidade de viajar à Roma.

jung

”Viajei muito na minha vida e sempre tive um desejo enorme de ir a Roma: mas não me sentia preparado para a impressão que poderia me causar ….Em 1949, em idade avançada , querendo retomar esse projeto negligenciado, tive uma sincope na hora de comprar a passagem. E o plano de uma viagem a Roma foi cancelado para sempre”

Em 1989 a psiquiatra italiana Graziella Magherini após catalogar 106 casos de pacientes, todos eles viajantes que foram a Florença pela primeira vez, no serviço de saúde mental do Hospital de Santa Maria Nova (Florença) descreveu e nomeou esta Síndrome.

 

 

trecho lindo do filme A síndrome de Stendhal de Dario Argento

 

 

 

 

 

BannerT6-2

Meu labirinto e os sentidos do deslumbramento, por Elza Tamas

Meu ouvido esquerdo não escuta, mas leva sustos, prevê tempestades e reconhece ambientes excessivamente tensos.  E também assobia em alerta quando eu estou para além de cansada. Um episódio de etiologia desconhecida rompeu a ligação nervosa que comunica a cóclea com o cérebro.  Quer dizer, com este ouvido escuto, mas não sou mais capaz de transformar o que escuto em som. Tenho uma antena, outrora especializada, agora aberta para livres captações.

Ver com os ouvidos, degustar com sons, escutar com os olhos.

Sinestesia é o fenômeno no qual a experiência de um sentido pode estimular outra área sensorial e operar conjuntamente com ela.

Edgar Degas

Graças a esta possibilidade plástica dos sentidos, Edgar Degas quando não conseguiu mais enxergar o suficiente para pintar, usou as mãos para esculpir e Beethoven surdo, visualizou a musica.

As artes estão repletas de experiências sinestésicas que soam como verdadeiras metáforas. No tipo sinestésico som-cor, o condutor de uma orquestra, por exemplo, vê uma explosão de cores ao reger uma sinfonia. Os compositores Leonard Bernstein, Nikolai Rimsky-Korsakov, e Franz Liszt eram todos sinestésicos.

Edgar Degas

Sinestésicos espaciais têm experiências de caráter tridimensional. Quando pensam num ano, ele pode aparecer como algo localizado no espaço próximo do chão, por exemplo.  Os dias podem se apresentar como volumes e os meses como seres com características peculiares. Abril pode ser um bonachão alegre, por exemplo.Estas metáforas sensoriais nos são bem próximas: conhecemos o gosto pouco convidativo de uma segunda feira e o brilho especial da sexta feira,  o verdadeiro sun day.Este fenômeno foi primeiramente descrito na academia ao redor de 1880, por Francis Galton, antropólogo e cunhado de Charles Darwin, ele mesmo um sinestésico de um tipo muito curioso. Digamos que ele era capaz de fazer contas pelo olfato, usando pitadas aromáticas de menta e canfora como medidas para somar e subtrair. Encorajado pelos resultados, começou a condimentar a matemática com açúcar, sal, quinino e outros temperos. Confesso que tenho muita dificuldade em entender como cheiro e aritmética podem se associar, embora reconheça o universo da matemática como um conceito volátil, inapreensível e os números como experiências incorpóreas, abstratas como um perfume.Num tipo mais raro sinestésico, as palavras estimulam a resposta gustativa. Seria como se a cada vez que eu pronunciasse a palavra metamorfose, minha boca fosse inundada pelo gosto de chocolate.No tipo sinestésico mais comum, letras do alfabeto se apresentam coloridas.O escritor Nabokov, outro sinestésico famoso, descreveu gamas de cores verdes para certas letras: folhas envelhecidas para a letra f, maças ainda a ponto de madurar para a letra p, pistache para letra t. Entre as marrons, o g, era borrachento e fofo, enquanto a letra hera monótona como um laço de sapato.Importante ressaltar que não estamos falando apenas de figuras de linguagem, mas de experiências sensoriais percebidas em áreas distintas do cérebro que com os recursos tecnológicos atuais, podem ser registradas em laboratório.

A sinestesia parece estar relacionada com um número maior de sinapses e com aumento de massa branca no cérebro. É hereditária, embora se expresse de formas completamente distintas entre pais e filhos. Mais presente entre os artistas sempre suscita a reflexão em torno da genialidade: teria ela um substrato de fato fisiológico ou os desafios de ver o mundo de outra forma, determinariam outro funcionamento do cérebro? O ovo ou a galinha?

 

trailer do filme “minha amada imortal”. Trecho em que Beethoven executa  “Sonata ao luar”.

Veja a lista de famosos sinestésicos

http://www.psychologytoday.com/blog/finding-butterfly/201104/are-you-synesthete

Livro  – Vendo Vozes: uma viagem ao mundo dos surdos – Oliver Sachs

BannerT5

Eis o mundo de fora, por Adrienne Myrtes

Adrienne  Myrtes nos  apresenta em primeira mão, o mundo de fora.

 

O mundo visto de fora, a partir de dentro, sustenta-se no movimento, no carrossel da vida e morte que nos entorpece. Que nos turva os sentidos.

Os sentidos pertencem ao domínio da vida. Mas, que sentido tem a morte existindo no seu avesso?

 

CAPITÚLO 1

O diabo tocava flauta doce e me seduzia com olhos de bode. Era o grande Pan sorrindo sob os cílios. Pulei da varanda para cair em seus braços. Dez andares. A flauta se transformou numa cobra e armou o bote. Gritei. O diabo gritou. Era uma voz desenraizada dos nervos.

Coisa medonha.

Mas não era o diabo nem eu. Era Luis gritando na porta do quarto. Reconheci. Caí do sonho sobre a cama e pulei dela ainda sonolenta. Ele já entrava. A porta aberta, a luz colada a suas costas. Desviei o olhar para o braço direito dele que se dobrava, a mão comprimindo o antebraço esquerdo. Pulso.

Um tom de vermelho pintava um pano torcido que o ajudava a apertar o braço e aquilo era sangue. Sangue que empapava o pano, uma camiseta torcida com a qual ele tentava segurar a hemorragia.

Meu raciocínio demorava, as idéias se encostavam na parede da cabeça para ficarem de pé. Às cegas. Minhas mãos ao contrário raciocinavam independentes, iam cumprindo o necessário para prestar socorro. Meus pés obedeciam as mãos, seguiam sem questionamento.

Vi-me pegando a calça que estava jogada em cima de uma cadeira, puxando uma blusa do armário. Vestida, correndo para a cozinha e ligando para o ponto de táxi. O número, um ímã, na porta da geladeira. Voltando ao meu quarto, Luis ainda lá, agora sentado na cama. Chorando. Meus lençóis espalhando o corpo de uma mancha. Voltei a escutar seu lamento. Gemia.

A dor. Eu não consigo. Irene, me ajuda.

Coloquei a bolsa no ombro e peguei-o pela mão. Comprimi uma toalha limpa no corte. Ele retraiu o braço involuntariamente e me seguiu.

Irene, me diz que vai parar. Eu não agüento.

Saímos.

No táxi Luis chorava calado. A dor agora parecia maior. Situação absurda: Luis apertando o corte, tentando segurar a vida, prender seu fluxo do lado de dentro das veias. O sangue, quase bonito, fugindo dele.

O táxi rodando macio. Mudo. As ruas passavam sem nos cumprimentar, nem nos viam, abismadas em seus respiros. A respiração de Luis tropeçando em meu ouvido.

Silêncio.

O hospital com a boca aberta para nós. A mão enluvada das enfermeiras. Das auxiliares. Da luz branca que nos tocava no ombro, de leve. Um corredor parado, coagulado de queixas, pessoas, cortes, fraturas, dores expostas em veias e nervos, atropelados pela falta de espaço. Um homem, sentado, sustentava a bolsa de soro pelo fio do equipo igual a um balão num parque de diversões.

Se eu não estivesse anestesiada eu bateria em Luis.

Que merda foi essa?

Perguntei baixo. Só pra mim.

Luis não ouviu. Os olhos parados nas mãos da auxiliar de enfermagem que fazia o curativo no meio do corredor. Gestos rápidos, bruscos, eficientes como se deve ser quando se lida com genteem histeria. Pareciase perguntar se Luis não tinha coisa melhor a fazer àquela hora da madrugada, quando os seres humanos deveriam estar dormindo, trepando ou se embriagando. Mas essa pergunta era minha. Tonteira.

O branco do hospital me dando enjôo. Vertigem de alvura. As imagens inspiravam, expiravam, evaporavam no éter. Odor cegando o nariz. Afastei-me um pouco, os olhos procurando um bebedouro. Achei. Um braço engessado equilibrava uma criança e fazia malabarismos para brincar com o jorro da água salpicando o chão ao redor. Desisti de ir até lá e engoli a saliva tentando umedecer a garganta, mas era difícil parecer normal quando se está prestando assistência a alguém que desistiu de se suicidar.

Eu quis matar Luis.

O celular conduziu a informação das horas de dentro da bolsa até meus olhos, ainda tontos com tanta luz branca. Pisquei tentando guardar a informação. Seria bom dormir um pouco antes de ir trabalhar. E Luis teria que ficar bem. Os quatro pontos no pulso esquerdo iriam mantê-lo quieto por algum tempo, quatro espaçados e frouxos pontos. Aquilo ia cicatrizar de qualquer jeito. Fui até ele e fiz um carinho em seu cabelo. A auxiliar de enfermagem me olhou solidária, em seguida orientou como cuidar do corte nos próximos dias e o prazo para retirada do fio de sutura. Luis segurou em minha mão e eu o levei embora dali.

Outro táxi e estaríamos de volta para casa. Ele encostou-se em mim procurando colo. Abracei-o.

Você ainda me ama?

Eu estou me controlando pra não te bater.

Eu amo você muito.

Bicha louca.

( Eis o mundo de fora- Ateliê Editorial – capitulo I)

 

Lançamento: 20/11/2011 às 18 horas no b_arco  Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426 Pinheiros

http://baladaliteraria.zip.net

 

ADRIENNE MYRTES nasceu no Recife/Pernambuco e vive em São Paulodesde 2001. É também artista plástica. Publicou o livro de contos: A Mulher e o Cavalo e outros contos (Editora Alaúde, EraOdito Editora, 2006), a novela juvenil: A Linda História de Linda em Olinda (Editora Escala educacional, 2007) este último em parceria com o escritor Marcelino Freire e participou, das antologias Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (Ateliê Editorial, 2004) e 35 Segredos para Chegar a Lugar Nenhum – Literatura de Baixo-Ajuda (Bertrand Brasil, 2007) entre outras. Eis o Mundo de Fora é seu primeiro romance e foi contemplado com o Prêmio Petrobras edição 2008/2009.

Foto: Andrea Del Fuego

BannerT1

No Escuro, por Maria Lyra e Elis Feldman

Antes de entrar na sala escura, a perspectiva de encarar um breu disforme, nos causava nervosismo e ansiedade. Na escuridão cabem todas as nossas fantasias e medos mais secretos. Não era exatamente um consolo o fato de que quem nos guiaria no jantar também não enxergava, afinal  os garçons do restaurante eram todos  cegos.

Sentimos um prazer inesperado, a sensualidade de comer com as mãos, os  aromas e não mais a visão eram os mensageiros do que estava por vir à boca…

Como seria o salão de jantar? Podíamos imaginá-lo como quiséssemos. E as pessoas das quais apenas escutávamos a voz, sentíamos o cheiro ou roçávamos sem querer os dedos? Imagens sinestésicas se criaram na nossa mente.

Saímos andando pelas ruas escuras e vazias de Paris confabulando e vibrando com a experiência que permitiu descobrir tantas sensações novas dentro de nós. Tal como Alice, havíamos encontrado um lugar secreto que seguia outras leis! Estava germinado ali o grão do que logo se tornaria o nosso Ateliê No Escuro, um projeto que se propõem a disseminar esta experiência sensorial que tanto nos marcou!

Passamos a vendar pessoas e explorar este país das maravilhas. Vendadas, as pessoas curiosamente comem menos. Estão mais atentas a tudo que envolve o ato, antes automático, de comer. Com os sabores, texturas e aromas potencializados, é como se o alimento ganhasse uma outra dimensão. Esta desconstrução possibilita que comensais adorem, por exemplo, comer a abobrinha ou o chuchu que de olhos desvendados não gostavam nem um pouco. Alguns percebem seu corpo melhor, sentem se sua coluna está desalinhada e o quanto a cabeça de fato pesa quando não temos o olhar para estruturá-la verticalmente. Alguns ficam menos tímidos, outros mais, na falta do olhar do outro lhes balizando. Alguns sentem o impulso de dançar, outros preferem o silêncio, alguns falam sem parar.

Atravessando a fronteira do reinado do olhar, caminhamos rumo ao desconhecido.

O ato de excluir momentaneamente um sentido abre espaço para outros,  e, como  nossa cultura é muito pautada pela imagem,  tirar a visão desestabiliza o nosso modo usual de funcionar, muitas vezes mecânico e panóptico. Isso possibilita um trabalho com os sentidos  menos estimulados e, ao final, com o próprio olhar que pode ser ressignificado.

Ao desorganizar nosso esquema sensorial criamos novas sinapses, novas possibilidades. Sabe quando reparamos em uma árvore que na verdade sempre esteve ali, mas parece que só naquele momento começamos a enxergá-la? Assim são as potencialidades da nossa percepção, que estão ali, mas ainda não fazem parte da nossa paisagem cotidiana.

Acreditamos que estas experiências são capazes não só de ampliar um repertório sensorial, mas ressignificar cada um na sua relação consigo mesmo e com o ambiente ao seu redor.

“Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo” – Hermann Hesse

 

O Ateliê No Escuro nasceu em janeiro de 2008, a partir de uma visita ao Dans Le Noir em Paris. Foi fundado pelas psicólogas Elis Feldman e Maria Lyra, formadas pela PUC-SP no mesmo ano. Desde então elas realizam vivências sensoriais em restaurantes, espaços de eventos e na casa das pessoas, para o público aberto ou corporativo. Sua equipe é composta por psicólogos, uma terapeuta corporal e alguns músicos. Para mais informações acesse:  www.atelienoescuro.com.br.

 

BannerT3

Moondog e a música do vídeo, por Filipe Franco

 

Essa edição do Fora de Mim ficou carente do costumeiro vídeo de entrevista. Melhor momento pra tratar desse enigma cultural, o homem por trás da música tema do vídeo.

 

 

A música faz parte de um dos 18 álbuns (sem mencionar Eps e singles) do compositor, músico, poeta, cosmologista e inventor de instrumentos musicais Luis Thomas Hardin, conhecido, ou pouco conhecido, como Moondog.

O trabalho é extenso, mas as notas são poucas, meticulosamente encaixadas e cada uma com um propósito certeiro, matador. Grandes compositores modernos como Philip Glass e Steve Reich o apontaram como fundador do conceito de minimalismo, ao que Moondog responde modesto “Bach já fazia minimalismo em suas fugas, então o que há de novo?”

Cego desde os 17 anos, por conta de um acidente com dinamites, o até então jovem caipira que morava em uma rústica cabana de madeira entre tribos nativas de Wyoming, decide estudar música na escola para cegos de Iowa, onde passou a escrever lindas peças (em braile).

Perto dos 30 anos, Moondog se muda para as ruas de Nova Iorque. Se estaciona em uma esquina da 6ª avenida (mais tarde batizada pelos moradores de Moondog’s corner) e lá  dá início a um cotidiano urbano, tocando suas excêntricas invenções e recitando poesias.

Seu traje, feito por ele mesmo, acompanhava normalmente um capacete viking, uma lança, um manto e uma calça de couro animal. Tamanha excentricidade que faria Moondog perder contatos prestigiosos decisivos para sua popularidade mundial, apesar de fazer fortes amizades com grandes nomes do jazz como Charlie Parker.

O Viking da 6ª avenida intrigava os transeuntes.

Moondog via música em tudo, e não esconde suas origens e filosofias no disco Moondog 1956. Entre as músicas, podemos ouvir sua esposa cantando para sua filha de pouco mais de um mês chorando na faixa 2 (Lullaby), um quinteto de cordas e sapos na faixa 6 (Frog Bog), um solo de piano emblemático na faixa 7 (To a Sea Horse), e até uma conversa ao som do tráfego das ruas para terminar o disco. A maioria das músicas são acompanhadas por sua invenção, a Trimba, um instrumento percussivo triangular que assina grandes músicas com seu timbre muito particular até o fim de sua carreira.

A partir daí, surgiram trabalhos memoráveis de Moondog. O álbum Moondog 1969 + Moondog 2 consiste originalmente em dois discos separados. O primeiro em brilhantes composições orquestrais ( faixa 1 a 8 ) e o segundo em cânones letrados muito amigáveis, que são intuitivamente comparáveis às fugas de Bach. Esses cânones são formados a partir de um tema cantado por uma primeira voz, com sucessivas  vozes entrando  uma por vez, retomando esse tema enquanto a primeira continua. É uma espécie de corrida circular e infinita em que uma voz nunca alcança a outra (faixa 9 a 34). Para terminar, uma obra prima que sintetiza a sensibilidade da música de Moondog, uma peça composta para harpa Troubadour (uma espécie de harpa paraguaia sem pedais) na faixa 34 (Pastoral).

Moondog também tem disco de canções (H’art Songs), de viagens cósmicas (Elpmas), de saxofones (Sax Pax For a Sax), e uma coleção de versos. Seguia um Calendário Comum criado por ele, que tinha seu primeiro ano em 8000 AC com o surgimento da agricultura. Ou seja, a receita para unir todas as raças e credos em um único calendário seria só acrescentar oito mil anos ao calendário cristão e dar uma mexidinha. Como ele explica o calendário?  Com um cânone.

Moondog morreu em 8 de setembro de 9999.

 

Filipe Franco é videomaker e apaixonado por música. Procura viver em paz em São Paulo com sua esposa e uma colônia japonesa.

Filipe Franco | facebook | twitter

tel: +55 11 3037-5018

cel: +55 11 6525-2989

Skype: filipecardosofranco

 

BannerT4

O sentido do invisível

Evgen Bavcar, o fotógrafo cego

A fotografia não é exclusividade de quem pode enxergar. Meu trabalho é juntar o mundo visível com o invisível. A fotografia me permite corromper o método de percepção estabelecido entre as pessoas que vêem e as que não vêem”.

Evgen Bavcar, fotógrafo, filósofo e cineasta, nasceu na Eslovênia em 1946. Aos 12 anos de idade ficou cego em dois acidentes distintos. O primeiro, quando teve olho esquerdo perfurado por um galho de árvore. O segundo, que lesou o olho direito, com a explosão de um detonador de minas. Em oito meses havia perdido a visão completamente. Quatro anos mais tarde resolveu fotografar com a ajuda da irmã, uma jovem por quem estava apaixonado. “O prazer que experimentei na ocasião surgiu do fato de haver roubado e fixado num filme algo que não me pertencia. Foi o descobrimento secreto de poder possuir algo, que  eu não podia ver” .

Bavcar é doutor em História e em Filosofia e Estética pela Universidade de Sorbonne, na França. Fala sete idiomas, vive em Paris e viaja o mundo, mostrando às pessoas que a imagem não precisa ser explicitamente visual. “Nós também construímos imagens interiores.”

Ensina também à cegos de  nascença conceitos como  sombras e horizontes. “O seu horizonte é até onde você pode ver. Se você vê com as mãos, logo o seu horizonte é até onde você pode tocar.”

Entretanto a aula que seu próprio trabalho fotográfico nos ensina é que nosso horizonte simbólico não precisa se submeter aos limites impostos pelo corpo. Sua fotografias parecem mostrar que no quesito criatividade seus braços são muito, muito longos e que dentro e fora são fronteiras sutis e questionáveis.

 

Auto Retrato

 

Outras fotos:

 

Trecho do filme Janela da Alma, de João Jardim e Walter Carvalho em 2001, com a participação de Evgen Bavcar

Ver mais fotos

perfume_movie_ben_whishaw5b45d

Per femmun – Através da fumaça

“Eu me perfumo para intensificar o que sou”, escreveu Clarice  Lispector. “Por isso não posso usar perfumes que me contrariem. Perfumar-se é uma sabedoria instintiva. E, como toda arte, exige algum conhecimento de si própria. Uso um perfume cujo nome não digo: é meu, sou eu. Duas amigas já me perguntaram o nome, eu disse, elas compraram. E deram-me de volta: simplesmente não era delas. Não digo o nome também por segredo: é bom perfumar-se em segredo.”

Talvez o olfato seja o sentido mais próximo da memória; um perfume pode trazer de volta a atmosfera de um romance,uma lembrança infantil, uma vivencia prazeirosa .

Um perfumista, também chamado de nariz, tem uma memória olfativa extraordinária e  pode chegar a distinguir cerca de 3000 odores distintos. Um único perfume pode conter mais de 100 essencias diferentes e para se conseguir um kg de essência são necessários 600 kgs de flores. Tudo superlativo.

 

Paula Franco, atriz e fazedora de perfumes,  nos  conta:

Para mim a essência extraída de raizes, plantas, sementes e flores supera de longe os perfumes sintéticos, que agridem o meu olfato. O cheiro da pele de cada um somado a um aroma feito de essências naturais pode ser um verdadeiro deleite aos sentidos. Sigo algumas regrinhas básicas de sinergias, como notas baixas, altas, amadeirados, florais, etc, mas mais que isso, minha intuição olfativa me leva a viajar nos sentidos e assim criar algo novo, diferente, sedutor. É assim que eu faço minha alquimia.  http://alquimiaporpaulafranco.blogspot.com/

 

trailer – o perfume

 

trailer -Maria Bethania , musica e perfume

IMG_1669

A delicadeza de Eduardo Galeano

 

A função da arte / 1 

 

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul.

Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.

Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente dos seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor , que o menino ficou  mudo de beleza.

E quando finalmente conseguiu falar,tremendo, gaguejando, pediu ao pai:

– Me ajuda a olhar!


Melody+Gardot+Having+fun+performing[1]

Melody gardot e a musica como reparação da dor

Melody Gardot  é uma destas boas descobertas. Americana, cantora e compositora  foi influenciada pelo blues e jazz de Janis Joplin, Miles Davis, Duke Ellington e Gershwin,  além de Stan Getz e Caetano Veloso.

Aos 19 anos, foi atropelada por um automóvel enquanto andava de bicicleta, resultando em  múltiplas fraturas na região pélvica , cervical e cabeça. Por sugestão médica acabou recorrendo a musica como  terapia  e  ainda se recuperando na  cama,  começou a compor.

Hoje aos 23 anos continua lutando contra as seqüelas do acidente. Tem hipersensibilidade a luz, usa uma bengala e um dispositivo que estimula a produção de endorfina tornando o seu desconforto mais suportável. ” Estar no palco é ainda  um dos poucos momentos em que não sinto dor”.

Aqui o link do site, com ótimas musicas e mais sobre ela

http://www.melodygardot.com

 

 

 

 

 

 

superman_alex_ross2

Os super poderes

Pergunte aos pesquisadores da Escola Médica de Harvard quantos sentidos nós humanos temos e você vai receber uma gama de respostas distintas. Esta falta de consenso não se limita a Harvard. Neurologistas e outros profissionais que estudam a percepção, discordam há muito tempo sobre o número dos sentidos  que nos ajudam a navegar pela vida.

Ninguém duvida dos cinco grandes.  Visão, audição, olfato, paladar e tato tem sido listados desde os tempos de Aristóteles. Do aroma do fermento no pão recém assado, à sensação sedosa de uma gola de pele, ao por de sol em vibrante Technicolor, a maioria de nós continuamente experimenta o mundo através dos principais sentidos.

Atualmente, muitos neurologistas reconhecem outros sentidos humanos adicionais.

Sentido de equilibrio: Se você está descendo uma rua ladeira ingreme , este sentido- também conhecido como equilíbrio, lhe ajuda a se manter em pé. Embora a visão ocupe um papel importante no sentido do equilíbrio, o sistema vestibular do ouvido interno é o principal responsável.

Nocipercepção: Se você já tocou  uma chaleira quente ou deu uma topada no seu dedão do pé, então está familiarizado com a nocipercepção, o sentido da dor. Recentes pesquisas mostraram que o que antes era visto como uma experiência subjetiva ligada ao tato,é de fato um fenômeno distinto que corresponde a outra área específica do cérebro.

Propriocepção: Feche os seus olhos e toque seu nariz com o indicador. A menos que você sofra de um déficit deste sentido sinestésico, você saberá onde sua mão está, mesmo que você não possa vê-la. Este sentido, a consciência de saber onde as partes do seu corpo estão, soa meio bobo – até que você considere que sem êle, você teria que constantemente olhar os seus pés para se assegurar que eles estão firmes no chão.

Termocepção: Você sente um friozinho no ar, então veste um casaco para ir ao trabalho. Mais tarde você entra no seu escritório, quente, e tira o casaco. Isto é a termopecepção, o sentido que permite perceber calor e frio e se relaciona com os sensores em sua pele que protegem você de congelar ou de assar.

A percepção do tempo: Não há dúvida de que a percepção do tempo pode ser subjetiva: 3 horas gastas numa festa com amigos parece passar muito rápido, enquanto que 3 horas de reunião se arrastam. Nosso senso de tempo é embasado na biologia. Pesquisas mostram que a glândula basal e outras partes do cérebro são responsáveis por esta percepção.

Interopercepção: Quando levamos em conta a percepção interna, temos ainda muito mais sentidos. Isto se conecta com os receptores sensoriais encontrados nos órgãos internos, tais como os que estão no pulmão e controlam a taxa do nível respiratório.

Entretanto talvez os mais fascinantes sejam os sentidos que não temos.Todos nós não gostariamos de enxergar no escuro, ou detectar campos magnéticos ou elétricos? Para  os humanos estes são os sentidos de domínio dos super heróis. Eles ainda são uma vantagem natural em alguns animais. Cachorros tem um extraodinario senso olfativo. Bloodhounds, por exemplo, tem narizes mais do que 100 milhões de  vezes mais sensíveis do que os nossos.

Gatos podem ver com apenas 1/6 da luz que nós necessitamos, morcegos e algumas serpentes percebem em infravermelho, e abelhas e libélulas podem ver em ultravioleta.

Pássaros e abelhas navegam- e migram- baseados na sua percepção de campo magnético. E tubarões podem perceber mudanças nos campos elétricos assim como os ornitorrincos.

Estas e outras habilidades se mantém como uma fantasia para nós humanos.  Por ora temos que continuar a confiar nos nossos 5 sentidos padrões. Ou serão eles 10? Ou 16?

 

 

 

 

 

Texto adaptado a partir de informações  do site

http://harvardmedicine.hms.harvard.edu/fascinoma/fivesenses/beyond/extra.php