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TODO BICHO É UM POEMA por Lalau e Laurabeatriz

 

 

 

Te vi cantar de alegria./Te vi dormir de mansinho./Vi, nesse mesmo dia, dentro de ti/a alma colorida de um passarinho.

Pela vida inteira,/tartaruga-de-couro/segue os rumos/de sua alma aventureira.

Suindara, sagrada coruja,/de dia, adormece./De noite, aparece.

Nadam altivas, vagarosamente…/ Surpreendentes e belas,/submersas aquarelas.

O silenciar da floresta/ constrói um vazio./De repente, preenchedor,/um assobio!

Lindo como jade,/brilhante como ouro,/a floresta esconde este tesouro./Não é anel,/colar ou broche./É um besouro.

Quer conhecer o Pantanal, meu amigo?/Então, venha comigo./…Eu mostro a você/os alagados e os capões,/o corpo de ouro do dourado,/o couro macio do pintado,/a garra afiada dos gaviões…

Cor-de-rosa está no rosário,/na begônia,/no boto solitário/da Amazônia.

Curió é cantor./Barítono,/contralto,/baixo e tenor.

Cada pena é um traço./Uma pincelada de Matisse,/um pouquinho de Picasso.

…aflora a cauda negra/da baleia-franca./Como quem agita/uma bandeira branca,

…no azul do céu /tem tanto azul,/que a ararinha-azul /só encontra azul,/azul, azul, azul.

E não existe/nenhuma diferença/entre uma criança/e uma estrela-do-mar.

 

 


Lalau é poeta, paulista e publicitário. Laurabeatriz é ilustradora, carioca e artista plástica. Desde 1994, trabalham juntos, criando livros para crianças: são mais de 40 títulos publicados, muitos deles dedicados à fauna, flora, biodiversidade, cidadania, cultura e folclore do Brasil.
www.lalauelaurabeatriz.com.br

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the ruins of Detroit (2)

O FIM DO MUNDO de João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade

 

O fim do mundo – João Cabral de Melo Neto

No fim de um mundo melancólico os homens lêem
jornais.
Homens indiferentes a comer laranjas que ardem como o sol.
Me deram uma maça para lembrar a morte.
Sei que cidades telegrafam pedindo querosene.
O véu que olhei voar caiu no deserto.O poema final ninguém
escreverá desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim
me preocupa o sonho final.

 

 

 

 

 

 

 

Poema da Necessidade – Carlos Drummond de Andrade

É preciso casar João,
é preciso suportar, Antônio,
é preciso odiar Melquíades
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o fim do mundo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

foto banner- The ruins of Detroit -Yves Marchand and Romain Meffre

 

 

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O ESPIRITO E A EPIDERME por Natália Barros

 

     o espírito                                                                                  

de escrever, as mãos

do  filho, o quadril

do desejo, o pulsar

da lua, o sexo

da palavra, a boca

do  tempo, a respiração

do hábito, os músculos

do mistério, o gozo

da estrela, o considerar

de dentro, o hálito

do trabalho, o labirinto

do que sou

feito                                                         

                                                                  

           a epiderme

da dúvida, o pensamento

da janela, o olhar

de abraçar, os braços

do peso, os ombros

da sombra, os sonhos

de deus, o sim

do pão, a fome

do mar, a imensidão

da nuvem, a memória

do sal, o sangue

do afeto, o outro

feito

do que sou

 

 imagem banner e desenho: Natalia de Barros

 

foto: Priscila Prade


Natalia Barros
é cantora, poeta e jardineira.Contemplada pelo Proac 2011 de literatura, acabou de editar seu primeiro livro, Caligrafias, pela Ofício das Palavras Editora, com seus poemas, mini contos e ilustrações.
Apresenta-se num show, que acompanha o livro, onde canta e fala seus textos.
Publica seus poemas no site de literatura Cronópios, onde também tem um programa de entrevistas: Tea for Two.

 

Programa Tea For Two: ttp://www.cronopios.com.br/t42/videos/ 

https://www.facebook.com/nataliabarroscaligrafias?ref=hl
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

wislawa 2

WISLAWA SZYMBORSKA – O numero Pi

Wisalwa Szymboroska ,  poeta, polonesa , premio nobel de literatura em 1996 é minha descoberta mais recente  e predileta em poesia.Escreve  simples  e nao por isso sem intensa profundidade.  Oferece transcendência,  sem o pecado da metafísica. Morreu este ano deixando um legado para se apreciado sem pressa.

 

PI
O admirável número pi:
três vírgula
um quatro um
.

Todos os dígitos seguintes são apenas o começo,
cinco
nove dois
porque ele nunca termina.

Não se pode capturá-lo seis cinco
três cinco
com um olhar,

oito nove com o cálculo,
sete
nove
ou com a imaginação,

nem mesmo três dois três oito
comparando-o de brincadeira
quatro seis com qualquer outra
coisa
dois seis quatro três deste mundo.
A cobra mais comprida do
planeta se estende por alguns metros e acaba.
Também são assim, embora mais
longas, as serpentes das fábulas.
O cortejo de algarismos do número
pi
alcança o final da página e não se detém.
Avança, percorre a mesa, o
ar, marcha
sobre o muro, uma folha, um ninho de pássaro, nuvens, e chega ao
céu,
até perder-se na insondável imensidão.
A cauda do cometa é minúscula
como a de um rato!
Como é frágil um raio de estrela, que se curva em qualquer
espaço!
E aqui dois três quinze trezentos dezenove
meu número de
telefone o número de tua camisa
o ano mil novecentos e setenta e três
sexto
andar

o número de habitantes sessenta e cinco centavos
a medida da cintura dois dedos uma charada um código,
no qual voa e canta
descuidado um sabiá!
Por favor, mantenham-se calmos, senhoras e
senhores,
céus e terra passarão
mas não o número pi, nunca, jamais.
Ele
continua com seu extraordinário cinco,
seu refinado
oito,
seu nunca derradeiro sete,
empurrando, arf, sempre
empurrando a preguiçosa
eternidade.

Tradução: Carlos Machado

ferreiragoulart

Ferreira Gullar lê seu poema”‘Acidente na sala”, que nasceu de um espanto

Acidente na sala

Ferreira Gullar

Movo a perna esquerda de mau jeito

E a cabeça do fêmur atrita com o osso da bacia

Sofro um tranco

E me ouço perguntar

Aconteceu comigo ou com o meu osso?

E outra pergunta

Eu sou o meu osso?

Ou sou somente a mente que a ele não se junta

E outra, se osso não pergunta, quem pergunta?

Alguém que não é osso, nem carne, que em mim habita

Alguém que nunca ouço

A não ser quando no meu corpo um osso com outro osso atrita ?