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A função do orgasmo por Cristiane Nistal

 

Ah,  o desejo…falar disso é falar de prazer, mas também de angústia, frustração, raiva e decepção, quando não conseguimos o que queremos.
O prazer é a morte e o fracasso do desejo,  escreveu Sartre; e também , desejo é falta.
 Há duas catástrofes na existência:a primeira é quando nossos desejos não são satisfeitos; a segunda é quando são, disse Bernard Shaw .
 E o que diria Reich ??? Talvez que esses caras não consigam ter um bom orgasmo… e Lowen? ah,  esses caras estão muito “na cabeça” e não sentem o próprio corpo.
Simplesmente porque para eles prazer e desejo não são  uma questão filosófica e sim, biológica.
Sem reducionismos óbvios e sem desconsiderar as conclusões de grandes pensadores, aqui pretendo apenas abrir uma janelinha pra gente espiar.
O  desejo pulsa em nossas veias,  é o fluxo da energia vital que circula pelo corpo, é o tesão de realizar aquilo que queremos: fazer amor ou concluir um projeto legal, uma aula, um  artigo…  ondas de excitação que nascem, crescem como uma carga de tensão até  chegar ao ápice e serem descarregadas numa sensação de prazer que é como um  orgasmo e leva a um alívio…

repouso – excitação – tensão – carga – clímax – descarga – relaxamento – prazer  – repouso.

magrite

Seria simples assim se fôssemos saudáveis, se não estivéssemos dissociados do corpo, da nossa natureza animal, se não tivéssemos passado pelo conflito edipiano, por uma educação  brochante, se não tivéssemos o soalho pélvico suspenso e contraído por causa do medo e o coração fechado de tristeza…  que nos inibe de uma entrega completa para o amor e o ato sexual e bloqueia nosso potencial criativo para o trabalho e a arte.

A contradição do nosso tempo é pensar que com poder suficiente conseguimos toda a liberdade que desejamos…que ilusão!
Sim, temos muito mais liberdade e mais mobilidade do que a que nossos antepassados jamais usufruiram, mas continuamos presos por nossas tensões musculares crônicas que limitam nossa respiração, deprimem nossa energia e inibem a livre manifestação de sensações e sentimentos, que acabam sendo suprimidos.
A supressão dos nossos sentimentos e sensações têm o efeito desastroso de nos desconectar do nosso próprio desejo: não sabemos mais o que queremos de verdade, do fundo do coração ou da barriga; e ficamos vulneráveis às armadilhas do consumo…e insatisfeitos crônicos.
Originalmente,  o desejo profundo de intimidade com uma figura amorosa e quente – a mãe – jamais se perde.
A proximidade do corpo da mãe é a fonte da primeira excitação da criança, sua primeira experiência de prazer. E o inevitável desmame – a  necessária separação – é vivida com dor e sentida como traição.
Seguimos pela vida com o coração partido, trancado dentro de um cofre forte que é a nossa caixa toráxica encouraçada.
Podemos até sentir amor e desejo, mas não conseguimos expressá-lo.
Respiramos pouco, sentimos pouco.
Algumas famílias são mais amorosas, outras não permitem quase nada de expressão do amor, mas em geral, somos ameaçados na nossa sexualidade das mais diferentes formas desde a mais tenra idade, com a sutileza de toques, olhares frios e tons de voz que nos
congelam e nos fazem sentir que somos inadequados quando, ingenuamente, apenas
buscamos proximidade e intimidade com nossos pais…
Mesmo a princesinha do papai que adorava ficar no seu colo,  perde essa regalia quando cresce e o seu corpo de mulher vem despertar o desejo daquele homem que não sabe o que fazer…e se distancia da filha querida…
Em algum grau, fomos perdendo a espontaneidade e nos distanciando dos nossos desejos  profundos: adotamos uma máscara e desempenhamos um papel que nos garanta a sobrevivência, ao menos.
Com esforço e determinação, vamos buscar sucesso, prestígio, grana…e obtemos fadiga crônica, irritabilidade, frustração, depressão.
Qual é o papel que represento na vida?
Importante saber, pois a quantidade de energia gasta para sustentar um papel é tal que pouco resta para o prazer e a sexualidade.
Reich definiu como economia sexual esse quantum de energia vital que é investida como fluxo de carga e descarga, que é observada na pulsação de cada célula do nosso corpo e vivida como sensação de expansão e contração.
E essa capacidade é definida como potência orgástica.
Será que ter sucesso ou qualquer outro objetivo que demande muito esforço é tão importante a ponto de comprometer toda a  nossa energia vital?
Pra ter a imagem de pessoa bem sucedida? Pra agradar a quem?
Lowen nos dá uma dica:
…”uma identificação com o corpo indica que a pessoa em seu viver leva o corpo em consideração”…”quando o ego se volta contra o corpo, usando a força de vontade contra as sensações corporais acontece uma cisão”…a saude emocional implica em auto aceitação, e auto expressão”…
Quando se trata de um ato fruto do desejo, a energia flui, a experiência é agradável a sensação é de expansão: as artérias de abrem, o sangue circula para as extremidades, a pele fica quente, vermelha, os olhos brilham, sem falar dos hormônios…
Já quando é um ato da vontade a energia é forçada, a experiência é dolorosa e a sensação é de contração: as artérias se fecham, o sangue se retira para o centro do corpo…
O bom da vida é pulsar!
Não dá pra viver em eterna expansão, nem em contração crônica!
Habitar o próprio corpo, estar com os pés no chão, enraizado, grounded.
Precisa ter a coragem de sentir …
Medo?  Ele sempre caminha junto com o desejo mesmo…
Cristiane Nistal é psicóloga clínica com especialização em Reich  pelo Sedes
Sapientae e em Análise Bioenergética pela SOBAB- Sociedade Brasileira de Análise
Bioenergética- onde atua como professora.
Há 20 anos vem atuando na area da psico-oncologia como coordenadora de grupos de apoio emocional
 a pacientes com  cancer no CORA- Centro Oncológico de Recuperação e Apoio.

The pillow book – o prazer da carne e da literatura

Como fazer uma edição sobre “Os sentidos” sem incluir o erotismo e a sexualidade, o sentido último do  prazer?

Celebro aqui  “O Livro de Cabeceira” o exercício sensual e erótico de PETER GREENWAY , um dos meus filmes preferidos.

Japão  anos 70, a jovem Nagiko comemora o seu aniversário com um estranho ritual. Seu pai escreve  uma oração em sua face enquanto  sua tia lê em voz alta o livro de cabeceira escrito Sei Shonagon,uma cortesã do seculo X.


 

Nagiko cresce e retoma este ritual a cada ano, inicialmente tornando o seu corpo um  deleite para seus amantes, calígrafos  que atendendo ao seu desejo,  desenham o seu corpo como uma página de um livro . Posteriormente ela se torna a escritora e descobre o prazer de escrever em outros corpos.

"O livro de cabeceira de Sei Shonagon aponta apenas duas coisas como dignas de confiança: “o
prazer da carne” e “o prazer da literatura”, a união dos dois prazeres significa alcançar o
êxtase, a plenitude. Nagiko conquista o prazer da carne e da literatura.

 

Nessa fusão temos: o olfato, o tátil, o visual e o auditivo, todos citados na lista das coisas esplendidas
o livro de Sei Shonagon. O olfato inclui o cheiro da pele, do aroma do papel; o tátil traz a maciez da
pele, da textura do papel; o visual ressalta o lindo azul escuro, a cor da tinta; e o
auditivo retoma o prazer da melodia de canções chinesas antigas. O recurso erótico é
um outro forte aliado na configuração do prazer da carne e da literatura. Nagiko faz
opção por escrever no corpo masculino: “a carne e a escrevinha, escrevendo sobre
amor”. 

 

O corpo é um alfabeto? Pele pode servir de papel? Há imortalidade no texto? A espinha do livro é a mesma vértebra do homem? Qual é o preço em palavra do amor carnal? O texto pode sentir ciúme? Podem os livros trepar com outros livros e produzir mais livros? Sangue é tinta? A pena é um pênis cujo propósito é fertilizar a página? Aquela que era o papel pode tornar-se a pena? E se foi o corpo que fez todos os signos e símbolos do mundo, passando do cérebro pensante para o braço que move e daí para o gesto da mão e daí para a pena rígida sobre o papel silencioso durante milhares de anos, e agora? — agora que todos nós escrevemos com teclados? Teremos rompido um elo essencial? Haverá agora uma necessária evolução futura para as letras e as palavras? E, se as palavras foram feitas pelo corpo, onde haveria um lugar melhor para depositar essas palavras do que de volta no corpo?  

Peter Greenway

 

fonte: http://www.insite.pro.br/2008/18.pdf

 

aqui o trailer do filme: