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O MAL ESTÁ NA CIVILIZAÇÃO por Sergio Wajman

 

Você não leu errado. O mal está na civilização é o título deste texto. É uma brincadeira, do tipo “sem brincar-brincando”, com o título de uma das maiores obras de Freud sobre o ser humano em sociedade: O Mal Estar na Civilização. Foi publicado pela primeira vez em 1930, ano em que a Europa ainda curava suas feridas – e que feridas! – da Grande Guerra que terminara (?) em 1918 e se respirava, pelo menos na Alemanha, os ares do período que de forma tão sagaz Ingmar Bergman chamou de O Ovo da Serpente, ao se referir ao nazismo – já feto – que passaria à condição de serpente-nascida dali a meros 3 anos, quando Hitler assumiu a condição de Chanceler da Alemanha.

Style: "Neutral"

 Freud trata de muitos temas neste livro. Mas um deles me chama a atenção de forma especial: a luta cotidiana do ser humano por ser humano. Aparentemente, um paradoxo. Se ele já é humano, por que precisa lutar para sê-lo? Porque, para Freud, o ser humano precisa da civilização para ser humano: a depender apenas de nosso desenvolvimento biológico, seríamos governados pela natureza e seus dogmas inexoráveis como a lei do mais forte ou a seleção natural. Por isso, Freud vê no empreendimento civilizatório uma condição sem a qual não nos distanciaríamos muito de todos os demais seres vivos: viver para sobreviver.

       Claro que, por outro lado, a obra civilizatória não só requer energias para se sustentar como também tem seu preço. Para que tenhamos, enquanto espécie, uma chance melhor de sobrevivência (tanto em nossa relação com a natureza como em nossa relação uns com outros) e, assim, possamos criar coisas com as quais nos deleitamos – a arte, o esporte, o saber – precisamos proceder a renúncias magistrais em nossos impulsos e desejos mais íntimos, temos que nos acomodar às leis que nós mesmos criamos para nosso próprio bem coletivo.

 E, assim, vamos nos tornando seres humanos: precisamos passar por pequenas amputações (desde que nascemos e começamos a respirar o ar da cultura) em nossa busca pelo prazer pleno e em nossa capacidade destrutiva. Vamos nos tornando seres civilizados, amputados. Moral da história: para que nossa espécie tenha chance de se manter viva no planeta, precisamos abdicar de nossos mais preciosos impulsos individuais. A civilização é um empreendimento que existe para o bem da coletividade, não do indivíduo. O mal está na civilização. Claro que, nesta perspectiva, não apenas o mal: o bem também, potencialmente temos construções civilizatórias ancestrais a nos alimentar, a nos embevecer, a nos humanizar. Além, é claro, de podermos contar uns com os outros numa rede gigantesca à qual podemos chamar de humanidade. Assim, o bem está na civilização – também.

Style: "Neutral"

Mas podemos pensar de outra forma, tal como Freud o faz em seu livro. O mal não está somente na civilização, o que – talvez no melhor estilo freudiano – nos coloca diante de um desafio hercúleo: como conseguir fazer com que a civilização e suas leis (que por um lado abolem nossa possibilidade de permanecer no Éden e nos atiram na Cultura) consigam nos proteger de nossos impulsos homicidas e destrutivos? Como lidar com o fato – testemunhado por Freud “no quintal de sua casa” – de que, poucos anos antes, todo o conhecimento e a ciência humanos tenham sido colocados a serviço da guerra e da destruição por meio da invenção de tanques, armas químicas e quetais? Como tentar lutar pelo aumento do prazer e satisfação que a civilização nos concede se a cada dia nos vemos diante da ameaça que nós mesmos representamos para nossa espécie? O que diria Freud dos horrores da 2ª Guerra Mundial e de todas as outras que a sucederam, assim como da destruição “no atacado e no varejo” a que nos subtemos dia após dia em inúmeras esferas, como, por exemplo, a que trata o filme Koyaanisqatsi, de 1982, da autoria de Godfrey Reggio?

 E é por conta disso que Freud, a despeito de todas as limitações (ou, quem sabe, justamente devido a elas), afirma em seu livro que a civilização é um empreendimento a serviço de Eros, da vida. É aquilo com que nossa espécie pode batalhar, ao longo dos tempos, em nossa eterna luta contra Thanatos, a morte.

Fechando: o mal está na civilização, o bem deve estar mais!

Style: "Neutral"

**todas as imagens são do fotografo MIsha Gordin e foram retiradas do site http://bsimple.com/home.htm

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Sergio Wajman é psicólogo formado pela PUCSP em 1977.
Atua profissionalmente como psicanalista e professor no Curso de Psicologia da PUCSP.
É mestre e doutorando em Psicologia da Educação pela PUCSP.

 

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DORES DE AMORES NA MPB por Silvia Moraes

 

O romantismo elevou o amor à essência da vida. Podemos observar a presença do amor romântico nas artes, na literatura e na música. O romântico constrói um mundo imaginário nostálgico e melancólico, trazendo um distanciamento da realidade social, experiência da perda e procura pelo que se perdeu. O humano depende de ser amado, necessita de reconhecimento, busca constantemente seus pares. As decepções e desencontros amorosos são freqüentes fontes de mal-estar e motivos de busca de um analista.

Assim, as canções como uma forma de expressão cultural, revelam os afetos predominantes de uma época, como o sofrimento do indivíduo perante o enamoramento, e apontam os recursos possíveis para o seu enfrentamento.

Canções da Era do Ouro, na década de 30, contemplavam, muitas vezes, a dor da mulher relacionada à sua inserção numa cultura patriarcal, onde é esperada certa submissão e doçura frente ao companheiro boêmio, malandro e mulherengo. Certa dose de masoquismo e mágoa são aí traços característicos freqüentes da figura feminina.

…gosto dele assim, passou a brincadeira e ele é pra mim


(Gal Costa – Camisa amarela)

…com perfeita paciência sigo a te buscar…

…cena de sangue num bar da avenida São João!


(Inezita Barroso canta Ronda)

…fiz seu doce predileto pra você parar em casa

…logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato e abro meus braços pra você!


(Nara Leão – Com açúcar, com afeto)

Essa postura feminina persiste no decorrer dos tempos. Canções, curiosamente compostas por homens para suas intérpretes femininas.

O amor dói, a paixão submete. O apaixonado é um ser humilhado que mendiga o amor do seu amado, que teme perdê-lo e, quando isto acontece,tem a sensação de ser atirado num abismo.

… se meu mundo caiu, eu que aprenda a levantar


(Meu mundo caiu com Maysa)

O componente trágico do amor o aproxima da morte. Amar fica equiparado com sofrer. Esse amor é construído, investido, e nem sempre recompensado.

… eu fico com essa dor, ou essa dor tem que morrer

.. pois quando estou amando é parecido com o sofrer


(Zezé Motta e Luiz Melodia em Dores de amores)

A dor da perda do objeto amado é contemplada na maioria das canções. De forma singular, e, ao mesmo tempo universal, estas expressam o amor não correspondido, o abandono, o descaso.

No âmbito universal, toda perda implica em tristeza, em desamparo. O humano depende sempre do olhar do outro amado.

… eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza


(Fagner – Canteiros)

O sentimento de saudade é algo bastante contemplado. Palavra tão peculiar da nossa língua evoca a presença do outro e o prazer da efemeridade do encontro.

.. a saudade é dor pungente


(Bethânia – A saudade mata a gente)

Já na década de 80 despontam temas que trazem à tona as diversas formas de amor.

.. qualquer maneira de amor vale a pena


(Paula e Bebeto)

O homem oscila entre a ilusão de completude e o sentimento efêmero do que denomina de “felicidade”, e a angústia e medo da falta de amor e do olhar do outro. Como se entregar sem se perder no outro? Qual é a medida certa da paixão?

… e não é a dor que me entristece, é não ter uma saída, nem medida na paixão


(Lenine – A medida da paixão)

Talvez tenhamos de nos convencer que não escolhemos, mas somos escolhidos. O amor simplesmente acontece…

… o amor quando acontece, a gente esquece que sofreu um dia


(João Bosco – Quando o amor acontece)

E, apesar de tanto sofrimento, humilhação, desilusão, seguimos procurando nosso par, na eterna ilusão de completude.

… sem amor eu nada seria


(Renato Russo – Monte Castelo)

 

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SILVIA MORAES é violonista, cantora, psicóloga e psicanalista. Faz shows e organiza saraus. É apaixonada por música, especialmente pela canção brasileira.

 

 

 

 

 

 

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AMOR É TRAMPO por Emir Tomazelli

Amor é trampo.

Amar é construção diária e desmancha fácil, fácil.

Vem o mar, vem o vento, vem a chuva e o fogo. Mesmo que firme o amor é frágil.

Amor é vínculo e vínculo é encrenca.

Amor envolve cálculo, porque pessoas têm ângulo.

Os amantes giram e circulam; a geometria e a álgebra são obrigatórias para o calculo acurado das curvaturas dos projetos.

Sem medidas o amor é desmedido.

Desmedido não é amor.

Comedido é de bom tamanho.

Amor é cozinha ou é receita de comida bem planejada

Por isso amor é tempo que transforma sexo em poesia

(para uma boa foda é necessário que saibamos fazer com competência o que estamos sendo convocados. Leva tempo, leva conhecer, leva ter que aprender e ter que contar com o outro. Sintonia, ritmo, pegada, precisão, jeito ).

Amor é to be one with, permanecendo vc mesmo.

Já o amor súplica é outro papo.

Amor de joelhos, amor de quatro, amor de submissão. É jogo cruel.

O amor que lambe o chão, que se arrasta, é o que crê na subserviência e no sub-ser-a-si-mesmos.

Amor que necessita outro nome não é amor, é ciúmes.

Amor é um verbo de conjugação simples, mas é complexo e inapreensível.

Como transformar um impulso em direção ao outro, em amor?

Como dar conta de ser amado?

Amor, a incógnita.

O vacilante…

O sobre o abismo…

O desconhecido necessário.

Atenção:

Só é amor se o vínculo for da ordem do necessário.

Se o meu amor não for necessário, não será (o meu) amor.

Amor é necessidade

Amor é o alimento da alma, é unguento de dores, é o phármakon perfeito

E além de ser trabalho, é remédio.

E fique atento, porque sendo remédio também é doença, é infecção, é vulnerabilidade.

Quem ama, está fora de combate. É do outro, pertence a ele. E isso não faz nenhum dano.

É um pertencer entrega. Quanto mais se entrega mais se ganha em troca, e é disso que a gente gosta.

É amor porque se refere a um só, nenhum outro pode te dar aquilo que o amado te dá.


Emir Tomazelli
é psicólogo, psicanalista e professor de psicanálise no Instituto Sedes Sapientiae.
Três livros:Corpo e conhecimento: uma visão psicanalítica;
Psicanálise: uma leitura trágica do conhecimento
Idealcoolismo: uma visão psicanalítica do alcoolismo

foto banner: Flavio de Carvalho

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MIRAGENS por Safira Lyra

 

Quando escutamos o choro de um bebê, entramos num estado de ansiedade e impotência. Imediatamente buscamos recursos que ajudem a cessar o quanto antes aquele estado de desconforto vivido pelo bebe. O choro é a comunicação entre o bebe e o mundo externo ; uma linguagem que aos poucos, as figuras parentais vão aprendendo decifrar. Segundo a Psicanálise, o bebê para suportar estados de privação ou de desamparo, fantasia; isto é, devaneia uma situação de satisfação e plenitude, e assim se acalma. O fantasiar se inicia precocemente na vida psíquica da criança, é um mecanismo temporário de proteção, uma ferramenta útil para diminuir a ansiedade e suportar o desconforto, mas insuficiente, logo o choro recomeça e o bebe retorna à vivência dolorosa de privação. Crescer é também se frustrar.

A vida adulta pressupõe privações. Também temos nossos choros, nossas gritarias, e não podemos mais esperar por uma mãe suficientemente boa para nos confortar, ou o acolhimento ideal do Outro. E assim fantasiamos: E se? E se pudéssemos trocar de parceiro, trocar de corpo, trocar de trabalho, trocar de vida?

Como as crianças, adultos também possuem mecanismos de escape frente a situações difíceis. Uma parte de nossa atividade mental se desconecta da realidade frustrante e se desloca para um plano, onde situações fantasiadas e idealizadas funcionam como fonte de um suposto prazer imediato, encobrindo o que nos limita. Vemos com frequência isso nas adições, nos vínculos virtuais e na busca compulsiva pelos estados de excitação.

O “E se” nos desloca para um espaço imaginário, ilusório, povoado de nostalgia ou de idealizações futuras. Um escape do tempo presente. A atitude que nos conecta com a vida, não é uma fantasia “E se”, mas sim uma aceitação, “Apesar de”.

O “Apesar de”- dos Outros, das privações, das frustrações- é o que nos possibilita sonhar. A fricção do encontro entre o que eu desejo e a realidade é que gera a faísca da Ação. Os limites não esvanecem a minha pessoa no mundo, não me enfraquecem, mas corporificam um nome próprio, apesar de…

 

foto banner: Tommy Ingberg

 

 

 

 

Safira Lyra é psicóloga e psicanalista, apesar de.

 

 

 

 

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O MONGE E A BORBOLETA por Denise Vieira Ieno

 

 





Era uma vez um monge chinês que sonhou que era uma borboleta. E no seu estranho sonho ele conheceu uma realidade insólita: havia uma leveza incrível! A brisa, os perfumes das flores e o movimento de suas asas compunham uma única experiência. E apesar de sua mente ainda pensar como a mente de um homem, seus movimentos eram precisos e de uma delicadeza impossível de se imaginar para um homem de vida monástica. Por um momento ele pensou que aquilo poderia ser um sonho e imediatamente sentiu medo de perder aquela leveza… Mas um perfume doce novamente invadiu seus sentidos e ele voltou a ser parte daquela paisagem, surfando na brisa fresca daquela manhã. Então, pode perceber que tudo aquilo estava vivendo, tudo mesmo; o ar, a terra, o vento, as flores, tudo pulsava em um único ritmo.  E a borboleta, assim como todo o resto, era parte disso.

Mas o habito de ser um homem era muito forte e sua mente começou a questionar a validade daquela experiência totalmente desprovida de lógica. Então, sentiu seu corpo ganhar peso e o medo começou a ecoar forte no seu peito como o badalar de um grande sino de bronze. Acordou. Aquele estranho sonho estava se tornado um pesadelo para mente tão disciplinada daquele monge! Mas para sua surpresa, ao acordar o peso daquele corpo humano não era familiar… A falta de leveza, igualmente estranha como fora a experiência anterior. Finalmente concluiu a borboleta, que poderia estar sonhando que era um monge chinês.

A canção de Raul Seixas que me inspirou nessa pequena estória é na verdade uma referência a uma parábola taoista de um importante discípulo do grande mestre Lao Tsé, chamado Chung Tzu (China, séc. IV ac ).


A filosofia taoista, por sua vez, foi muito influente no desenvolvimento do Zen Budismo no Japão. Os mestres Zen usam esse tipo de parábola para treinar seus alunos no sentido da quebra do sistema lógico de pensamento, como se quebra a casca de uma noz. Quebrada a casca do ego, eles acreditam que outra experiência mental pode ser alcançada. Mas ao lado desse treinamento “intelectual”, por assim dizer, há uma experiência mais sutil e também mais profunda, implícita nessa parábola.

O budismo nos propõe uma questão existencial realmente insólita: como no sonho da borboleta existe uma experiência de totalidade, de não separação entre o que somos e o que estamos vivendo; mas ao mesmo tempo, enquanto não somos capazes de perceber essa realidade mais ampla – que esta sempre presente na base da nossa experiência, seguimos vivendo como em um sonho. Isso significa que estamos atados a um forte habito de criar realidades a partir de projeções mentais.  Nossa mente comum, nosso ego, é como um carro desgovernado descendo uma ladeira; simplesmente não sabemos como refrear esse habito mental que se movimenta sem descanso. Seja na mente do homem ou na mente da borboleta, enquanto não for possível se desprender da experiência de dualidade – entre sonho e sonhador, entre sujeito e objeto; um pensamento segue a outro, um sonho segue a outro, uma vida segue à outra. A esse ciclo de experiências infindáveis é o que no budismo se chama de “Roda da Vida” ou simplesmente, “Sansara”.

Mas para que esta conversa não se encerre no âmbito da metafísica, o budismo sempre nos lembra da importância da experiência “pratica”. É preciso colocar essas ideias em pratica para que elas ganhem um verdadeiro sentido!

E podemos fazer isso todos os dias. Por exemplo, ao acordar pela manhã, podemo s nos perguntar:“Que sonho é esse que eu estou vivendo?” “O que realmente é importante para mim? “Estou sendo fiel aos meus propósitos?” “Estou sendo fiel a mim mesmo?” Depois podemos criamos um espaço livre dentro de nós, um momento de silêncio para que essas respostas surjam naturalmente. Essa simples experiência pode ser surpreendente se conseguirmos domar, por alguns instantes que seja , nossa mente tão inquieta.

Assim, todos os dias podem ser um recomeço. Todos os minutos podem ser um recomeço. A cada respiração posso me dar um espaço interno para me perguntar se estou realmente no caminho daquilo que é a minha verdade mais intima.  Simples assim:

Inspirar profundo,

expirar lentamente

e relaxar;

entre uma coisa e outra faço uma pausa ,

descanso ali por alguns segundos,

antes de recomeçar.

 

foto banner : reuters/ galleryV9- Magu

 


Denise Vieira Ieno
é psicoterapeuta. Formada em psicologia pela PUC/SP, fez especialização em psicanálise no Instituto Sedes Sapientiae; mestrado no Instituto de psicologia da USP; publicou o livro “Psicanálise e Budismo: a Construção de um Metarrealismo Psíquico”. É praticante do budismo tibetano Vajarayana desde 1995 e praticante da arte japonesa de harmonização de energia e cura Jin Shin Jyutsu desde 2008.

 

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A FITA BRANCA DE HANECKE por Marcia Tiburi

 

A Fita Branca do austríaco Michael Hanecke tem “o proibido” como sua  lógica de fundo. Quem o assistiu percebeu que os autores dos crimes em torno  dos quais se constrói o roteiro, eram o efeito de um tipo de educação que  implicava em sua performance, ou seja, no modo de atuar de seus agentes, uma  lógica conhecida de todos nós.  Aquela  lógica da hierarquia em que está em jogo a submissão de uns a outros e, às  vezes, alguma forma de revolta dos submissos no grande jogo de poder a que se  reduz a espécie humana.

Esta lógica implica, por exemplo, a desigualdade de classe. Mas também a de gênero.
No caso do filme, demonstram-se estes aspectos, mas surge um outro mais surpreendente e pouco trabalhado na sociedade em geral: aquele que se refere à desigualdade entre  gerações. Será, assim, a questão da “idade” o locus onde desaguará o sentimento de horror aos crimes cometidos.
Se a autoria dos crimes é do grupo de crianças, percebemos no desenho verossímil  feito pelo diretor do filme, que os adultos são a origem do mal. São a origem  do que, deste horror indizível, é o efeito de “mal estar” causado por eles  mesmos. A infância e a juventude nada mais são do que a revolta contra uma  lógica pela qual não podem ser responsabilizados justamente por que não são  origem do mal que cometem. Os adultos são os verdadeiros irresponsáveis, são de  certo modo, infantis, por que não querem aceitar o efeito daquilo que produzem.

O proibido, portanto, não é senão o efeito de uma lógica. Esta lógica se caracteriza por um  acordo. Este acordo é aquele que se dá entre o que, desde Freud, chamamos de repressão,  ou aquilo que não se pode ou não se deve fazer, sobre o qual a sociedade e o que  ele chamava de “super-eu” tem controle; e o recalque, aquilo ao que não se tem  acesso de modo algum, aquilo que não sabemos de nós mesmos.

O recalque diz respeito a uma interdição como que ancestral. Está perdido no tempo.
A  repressão precisa ser exercitada diariamente. Dizer que surge uma prazer da  repressão, ou concordar com o senso comum que inventa a “verdade” de que “tudo  o que é proibido é mais gostoso” é tão superficial quanto dizer que os  “limites” são educativos. Se fossemos discutir isso, o que não cabe no espaço  deste artigo, teríamos que começar por definir o que são “limites” e quem teria  o direito de construí-los. Falamos das crianças e dos jovens, mas sabemos muito  bem que o capitalismo trata o consumo como a inversão do proibido em prazer  perverso. Os adultos (pais e professores) de nossa sociedade são idênticos aos  adultos do filme: oprimem as crianças como se estas fossem pequenos animais  escravizados. Enquanto isso se permitem perversões que proíbem às crianças. Ao  mesmo tempo, educam pela frieza e pela repressão aqueles que, no futuro, serão  idênticos a eles. Maus e vis. A lógica do proibido é usada pelos adultos contra  as crianças, ao mesmo tempo vale os adultos não fazem nada de diferente do que  as próprias crianças. O proibido é justamente o permitido quando a liberdade  não é mais do que uma sombra da própria miséria espiritual. Neste sentido, a  vida adulta é a mera sombra da infância e vice-versa.

Dialética entre perversão e recalque 

Repressão e recalque são, assim, como espessuras diferentes no fio único do proibido.
A  corda em que se amarra a moral até o enforcamento da condição humana. O  recalcado é a parte mais fina, sedosa até, como a teia de aranha que se une gradativamente  a uma cardação mais grossa sem solução de continuidade. A delicadeza do  recalque nos faz sentir nojo e um profundo mal-estar, muitas vezes,  inexprimível. A brutalidade da repressão nos faz sentir uma raiva mais simples. Pela repressão somos capazes de nos vingar, como a menina do filme, a perversa e, no entanto, delicadíssima filha do pastor, que mata o passarinho do pai com uma tesoura.

Pelo  recalque somos capazes de cometer atos infinitamente mais loucos, justamente  porque incompreensíveis, como maltratar uma criança com problemas mentais. A  lógica do proibido implica a dialética entre a  compreensão e a incompreensibilidade das coisas.

É que, por incrível que possa parecer, a repressão tem linguagem.
Ela constrói o proibido  nos deixando saber o que ele é. No filme, por exemplo, a linguagem da repressão  aparece  no discurso do pai que proíbe o filho de masturbar-se amarrando suas  mãos à cama.  A  linguagem do recalque, porém, é muda. Dizer linguagem é apenas um  jeito de se referir à mudez. Ela está, por exemplo, no mal estar finamente  inoculado pelo pastor no próprio filho, quando, na mesma conversa, ele conta  uma história terrível sobre outro garoto masturbador que teria, em função de  sua prática, definhado à morte. A masturbação, sabemos desde Foucault, era uma  prática monstruosa naquela época e, para muitos, é até hoje. Mas o recalque não  é a simples repressão, é o envenenamento, é o miasma que o menino terá que  carregar para sempre sem poder dizer nada.

Outro exemplo, nos ajuda a entender melhor ainda. A repressão está na ordem dada pelo pai, em outra cena, de que todos irão para a cama sem comer. O recalque, no entanto,  como teia finíssima, surge na chantagem emocional do pai, especialista  sacerdote da moral, em promover sentimento de culpa. Afinal que, informa os  filhos, todos irão para a cama sentindo-se muito mal pelo que eles fizeram. E o  que fizeram? Ora, nada demais, apenas demoraram a chegar para jantar. As  crianças terão que passar a vida com aquela introjeção de que fizeram mal ao  pai porque não agiram como ele queria. Pais invasivos e  autovitimados são  sacerdotes da moral muito espertos.

A repressão é da ordem de uma lei falada. É aquilo que se pode entender de um grito, de uma violência declarada, mas não da parte fina da violência, do seu miasma indizível, da sombra que fica por trás da letra. O recalque é o resto,  o resquício do que, de um grito, de um soco, de um espancamento, de um  assassinato, não pode ser compreendido, não porque não se entenda a sua fonte,  mas porque seu efeito venenoso é contínuo no tempo. Não se trata, no entanto,  de um efeito simbólico, mas de um efeito antissimbólico, justamente aquele que  proíbe a constituição de relações.

No filme, o recalque é a lógica contínua da destruição e da autodestruição que une pessoas em família, justamente enquanto as desune. Não é à toa que o filme se passa no instante anterior à eclosão da primeira guerra mundial. Não é à toa que o  narrador ligará aos fatos estranhos ocorridos durante o século na Alemanha,  local onde a flor doentia do nazismo pode desabrochar em toda a sua exuberância  demencial.  Tudo começa na família, a mais criticada das instituições e que, no entanto, não conheceu até agora a autocrítica.

 

 


Marcia Tiburi é graduada em filosofia e artes e mestre e doutora em filosofia pela  UFRGS. Publicou diversos livros de filosofia, entre eles “As Mulheres e a  Filosofia” (Ed. Unisinos, 2002), “Mulheres, Filosofia ou Coisas do Gênero”  (EDUNISC, 2008), “Filosofia em Comum” (Ed. Record, 2008), “Filosofia Brincante”  (Record, 2010, indicado ao Jabuti em 2011), “Olho de Vidro” (Record 2011) e  “Filosofia Pop” (Ed. Bregantini, 2011). Publicou os romances Magnólia (2005,  indicado ao Jabuti em 2006), A Mulher de Costas (2006) e O Manto (2009) da  chamada Trilogia Íntima. Em 2012 lançou seu quarto romance “Era meu esse Rosto”  (Record). É professora do programa de pós-graduação em Educação, Arte e  História da Cultura da Universidade Mackenzie e colunista da revista Cult.

Site: www.marciatiburi.com.br

blog: http://filosofiacinza.wordpress.com/

 

 

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TRANSGRESSÕES NAS FENDAS CITADINAS por Belkis Trench e Laerte Coaracy

 

Caim, depois de esconder o corpo de seu irmão do Senhor, saiu pelo mundo a fundar cidades. Os prefeitos  e empreiteiros, seus sucessores, empenham-se a asfaltar e cimentar esse mundo todo.


Na geometria das ruas, na precisão dos jardins, nos planos das praças que captam  franca luz, materializa-se um ideal de razão, de escolha e de controle. 
Então, num tempo de outras  paciências, vai-se notando aqui e lá,  pelas fendas, rachas e desvãos da  pele da cidade, a eclosão reiterada de plantinhas em pé de muro, sarjeta  desbeiçada, parede escalavrada, brecha de calçada, parapeito obtuso de  viaduto. É entre as rugas que dá de tudo.

 

Toda fenda, furo ou rego é  oportunidade de instalação de uma sementinha  diminuta, que dá um brotinho milimétrico,  proliferando em seguida num jardinzinho polegar.

 

Essa flora modesta, destinada a passar despercebida, resiste aos múltiplos paradoxos  do urbano, que vão da integridade higiênica à violenta degradação. A cidade com seus ratos, pombos e homens, mas com tufos de capim rebeldes também. Só as  enxergamos, essas verdes trogloditas, ao sabor do acaso e da atenção  despreconcebida. As cidades são cruéis,  mas nesse salpicado apelo verde, afirmada  imagem do Eros, a natureza da vida se confirma.

 

 

 

 

 


Laerte Coaracy 
nasceu em São  Paulo em 1943 e passou a  infância entre a Urca e Paqueta. Professor concursado da Universidade do  Chile durante o governo da Unidade Popular. Depois do assassinato de Allende, acabou indo trabalhar na França onde é psicanalista há muitos anos.

 

Belkis Trench é doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo , pesquisadora do Instituto de  Saúde e trabalha com pesquisas  fotoetnográficas. É co-diretora do documentário Coisa dos Homens e organizadora dos livros,  Almanaque Zero e Nós e os Outros.

 

 

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QUALQUER DIA DESSES EU CAIO EM SI! por Sergio Zlotnic

1- Fico espantado com a loucura  das pessoas, destrambelhadas em seu mundo e tão convenientemente  adaptadas às suas próprias incongruências. A autoimagem sempre benevolente para nunca ferir a  vaidade. Eventos vergonhosos ganham versões condescendentes, quase distorcidas.
Não totalmente distorcidas somente para que o sujeito possa sustentá-las baseado  em ‘argumentos’.
Abandonos humilhantes se modificam convertendo-se em posições  éticas cheias de propósitos elevados; mesquinhez transforma-se em  dádiva; incompetência e falta de esforço se transmutam em ‘opção’ ou crítica  social; o pior defeito vira artigo de exibição e vantagem… Talvez ninguém
sobrevivesse se pudesse se enxergar como realmente é, livre de atenuantes.

Por muito tempo, achei que deveria avisar, sem desconto, da verdadeira versão da história,  da qual o  sujeito se protege, do verdadeiro rosto do amigo, de seu pior ângulo. Achei que  seria um bom serviço para a humanidade, doar a verdade aos outros, especialmente  àqueles  com quem me importo. Seria ‘terapêutico’. ‘Analítico’! Demorei a me dar conta que isso só fazia  aumentar a lista de ex-amigos, que ninguém quer saber da  versão comprometedora, sobre a qual generosa e gratuitamente me propunha a  alertar. As pessoas se sentem agredidas ao serem informadas  da nossa real  percepção. Querem palavras doces, enganadoras, complacentes, hipócritas,  mantenedoras da ordem.

Mas há exceções, poucas, pouquíssimas, há quem reconhece rápido qualquer deslize pessoal, e diz a frase  redentora, única saída digna: “que horrível que eu sou!”. Pessoas que suspeitam  de si são as melhoras. As que têm dúvidas e não certezas. Pois, na maioria das vezes, o cardápio é a teimosia de versões benignas relativas a fatos  estapafúrdios.
“Não me sinto orgulhoso disto”, é o máximo que se ouve de alguém, ao referir-se a alguma falta feiíssima de sua autoria! ‘Eufemismo’ é o nome, não?
Trata-se de suavizar, atenuar, acolchoar o peso das coisas; no dicionário, substituir uma palavra rude [ou desagradável ou grosseira] por outra, educada. Não raramente, entretanto, nessa operação, a verdade escoa pelo  ralo: o bebê vai embora junto com a água do banho… Vai o anel, e o dedo também.

Já comigo, creio que isso não se aplica, pois minha mãe sempre diz que sou bonito e bonzinho. Mesmo assim, confesso que o mundo não tem sido tão justo comigo.

2- O Outro é inatingível, embora a gente se esforce!
O Outro é impossível de metabolizar. Ele faz vinculação com o traumático, com o irredutível à mesmidade.
O Outro habita o território complicado da outridade. Por ser singular de maneira cabal, o heterogêneo esmagaria o sujeito que busca percebê-lo. De fato, a percepção precisa ser sempre secundária: na teoria da psicanálise, o recalque primário dá conta desta questão. Atravessada pela história do sujeito, e pelo seu desejo, a percepção é enviesada desde o princípio. Para os humanos, assim, os objetos do mundo são objetos ‘para-si’ e nunca ‘em-si’.

3- Kiwi! Em 1987 não havia kiwi. Pelo menos eu nunca tinha ouvido falar. Cheguei na casa de um amigo e vi em cima da mesa um croquete peludo. Isso é um kiwi, disse o amigo. Ao abri-lo, notei que parecia um pepino.  Ao experimentar, o gosto era de morango. ‘Você perdeu a chance de apreciar o kiwi em sua singularidade’, disse o amigo. ‘Ao recobri-lo com o já-sabido, não apreciou esta fruta na sua especificidade…’. Mas como fazer se eu tenho uma história da qual não escapo?? [hoje esse engraçadinho metido a filósofo da epistemologia é ex amigo].

4- Disse Freud: ‘todo aquele que não teve sua necessidade de amor inteiramente satisfeita, está fadado a dirigir-se a cada novo objeto com  ideias libidinais antecipadas’. Não seria esta uma boa definição do fenômeno da  transferência?
Precisamos recobrir o mundo com camadas de redundância para  torná-lo palatável! O Outro é aquele que não obedece ao script que escrevemos. É aquele que constantemente nos expulsa de um lugar de conforto. Desmancha-prazer. O mundo é habitado por um bando de desaforados!

5- A propósito, disseram os poetas:

If you had no name

If you had no history

If you had no books

If you had no family

If it were only you

Naked on the grass

Who would you be then?

This is what he asked

And I said I wasn’t really sure

But I would probably be

Cold

And now I´m freezing

Freezing.

From Philip Glass and Suzanne Vega.

 

foto banner: Elza Tamas

 

Sergio Zlotnic é psicanalista, doutor em psicanálise pela USP e colunista mensal do portal da SP Escola de Teatro. É professor do curso ‘diálogos psicanálise/teatro’ na mesma escola e pesquisador de temas que conectam o campo das artes e as contribuições freudianas.

 

http://www.spescoladeteatro.org.br/colunistas/06.php