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O PÓS-MORTE por Sukie Miller

 

 

O livro Depois da vida -Desvendando a jornada pós- morte é baseado numa  pesquisa extensa  realizada em diversos países e culturas distintas onde entrevistei sacerdotes , xamãs,  homens santos, líderes espirituais, sempre interessada em saber qual era a visão deles sobre o que nos acontece depois que morremos. Identifiquei quatro estágios universais na jornada pós-morte, e aqui incluo alguns trechos do livro que descrevem ou evocam estes estágios.

Estágio I : Da Espera

Descanso, conforto e uma oportunidade de abrandar o medo – são estes os tentadores benefícios que
nos aguardam no lugar de espera, logo após a morte. Só o fato de imaginar essas paragens (sejam elas de natureza física, sejam qualquer outra)  tem o poder de amenizar a  ansiedade tanto da pessoa que se encontra a beira da morte como daqueles que a entendem e presenciam sua passagem. Mas essa não é a única função desse lugar – e do ponto de vista do que viaja rumo ao pós-morte, não é sequer o mais importante.

Em todos os sistemas que apontam  a existência de LUGARES DE ESPERA , a transformação é a principal função que ali se opera. Nesse plano, a pessoa que morreu se desvencilha das roupagens da vida física – dentre as quais , naturalmente , se incluem aquelas relativas a seu corpo físico  – e começa a transformar em espírito .

Estágio II : Do Julgamento

 Não é preciso ser erudito em religião para entender que, a despeito do carater renovador e de boas-vindas de que se reveste o conceito de lugar de Espera, nem tudo no pó morte é doçura e luz. De fato até uma criança de quatro ou cinco anos, um indiano de idade semelhante, ou uma criança tibetana de três pode entender  que, uma vez findo o período de descanso na fronteira, um trabalho terá que ser efetuado.

Ao sair da crisálida do mundo físico, o viajante abandona o seu Lugar de Espera e passa para o estágio seguinte, no qual será estabelecido seu destino. qual rota ele tomará? Qual será o ponto que deverá alcançar? Quais as consequencias da vida que acaba de deixar- sofrimento ou prazer, punição ou recompensa?

O Julgamento dos Mortos, Cena do Papiro de Ani, XIX dinastia, c. 1250 a.C.

Estágio III – Das Possibilidades

A abertura em relação as possibilidades: eis a essência do Estágio III da jornada do pós morte.Essa abertura origina-se no instante do julgamento no Estágio II, e em qualquer método que for, a verdade da vida que o indivíduo levou determinará o destino do seu espírito. Em decorrência da sentença que lhe é lavrada, o espírito avançará pelas infindáveis paragens do pós-morte, seguindo o caminho que deverá perfazer em direção a sua meta.

A roda da vida tibetana e os 6 reinos da existência cíclica

Estágio IV – Do Retorno

O conceito relativo ao retorno é dotado de tanta força que mesmo o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, embora se recusem a aceitar o renascimento em bases individuais, apresentam-no sob a forma coletiva, ou ressureição de seus povos. Para os judeus, à chegada de seu Messias, os mortos renascerão. Entre os cristãos, a ressureíção de Cristo assinalará o começo de uma nova vida do filho de Deus. Para o islamismo ocorre uma “segunda morte”, quando corpo e alma se reúnem por um breve tempo, por ocasião do julgamento – nesse instante, a morte recua. No entanto, no ultimo dia, como entre os judeus, todos os corpos voltarão a vida.

É rara a cultura na qual a morte seja vista como fim derrradeiro e momento no qual o espírito humano se apaga, sem nenhuma promessa de retorno. O conceito de renascimento em grupo reflete uma certeza inabalável quanto à imortalidade da alma, e essa certeza representa uma esperança irreprimível, uma forma de se celebrar o universo que não permite a existência permanente de destruição: ao contrário, dá provas da existência da mudança, da tranformação. Admitir a possibilidade do renascimento e do retorno é dar um passo além do medo.

 

* foto banner – The Ascent into the Empyrean – Hieronymus Bosch

Dra. Sukie Miller, PhD, psicóloga, foi diretora do Instituto Esalen e membro do conselho do Instituto C.G. Jung de São Francisco. É autora de Quando uma criança morre  Depois da Vida (ambos publicados em português pela Summus Editorial). Trabalhou nas áreas de educação, comunicação e medicina. Atualmente reside em São Paulo e atende no seu consultório pacientes individuais, casais e grupos. Também  supervisiona o trabalho de outros profissionais.

 

 

 

“Foi o gato” por Elza Tamas

Koko, a gorila treinada na linguagem de sinais, durante um ataque de raiva arrancou e quebrou uma pia. Questionada pelos treinadores sobre a sua conduta, apontou para o seu animalzinho de estimação e sinalizou: “foi o gato”.

Nosso cérebro ancestral sempre utilizou a mentira como um recurso de sobrevivência. Usamos a mentira para nos qualificarmos, para seduzir, para não sermos punidos, para sermos educados e aceitos e muitas vezes nos mentimos tão eficientemente, que não somos capazes de perceber o nosso auto-engano. Judite mente muito. Mal me lembro do momento que ela resolveu escrever a carta, mas ela garante que eu estava presente.

Além de mentir, Judite tem métodos bastante heterodoxos quando quer explicitar uma verdade.

 Prezada Dona Martha,

Desculpe-me, mas vou ser direta. Seu marido Abílio, há cerca de quatro anos se relaciona com uma jovem de nome Paula. Não uma Paula qualquer, mas uma moça de 23 anos. Uma jovem que viaja com ele, com quem ele janta e se diverte sem medo de ser visto, como se fosse um homem livre. E com esta mesma jovem, dona Martha, ele pretende morar em breve.

Dona Martha, escrevo-lhe em nome da grande admiração que nutro pela senhora e sendo assim, me atrevo a lhe dar um conselho de amiga: se antecipe a ele, não se humilhe mais implorando por um amor que ele não merece. Não compartilhe desta farsa e em respeito à sua família considere a separação como a alternativa mais digna para uma alma como a sua. Só assim ele poderá valorizar o que perdeu. A senhora há de encontrar alento junto aos seus, ao decoro da sua conduta e a sua fé cristã.

Encaminhei esta mesma carta aos seus filhos para que eles saibam quem é na verdade o pai deles, evitando que a senhora fraqueje frente ao que deve ser feito.

Da amiga espiritual.

Sei que ela sorriu ao digitar a última frase, e que se sentiu tomada por um tipo de entusiasmo pueril.  Afinal não é todo dia que se pode mudar o destino de alguém.  “Da amiga espiritual”. As Donas Celestes de qualquer paróquia poderiam ter escrito esta carta.

Ninguém nunca saberia, e isto é o que importava. Éramos boas em guardar segredos, Judite mais do que eu. Em breve nos divertiríamos com as tentativas de Abílio em descobrir a boa samaritana que enfim, solucionava o seu dilema. Nenhuma transgressão ética, já que tudo foi feito em nome de um bem maior. Não ser descoberto numa mentira é o mesmo que dizer a verdade, dizia Judite que repetia Aristóteles. A ação eficaz e a motivação absolutamente correta trariam  bons resultados. Tive que concordar, cinco anos como analista de Abílio qualificavam Judite a atuar a seu favor. Ela chamava de “um ato de compaixão”, afinal Abílio tinha direito a viver sua história de amor; Dona Martha, a que nunca tinha dúvidas, que se encantasse com o divino.

Seu conflito era moral, (como deixar dona Martha?) e só poderia ter sido solucionado se uma terceira força atravessasse o caminho e desestabilizasse o prato da balança. Neste caso a terceira força foi Judite.

Todo mundo tem um gato. O meu se chama Judite.