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O MAL ESTÁ NA CIVILIZAÇÃO por Sergio Wajman

 

Você não leu errado. O mal está na civilização é o título deste texto. É uma brincadeira, do tipo “sem brincar-brincando”, com o título de uma das maiores obras de Freud sobre o ser humano em sociedade: O Mal Estar na Civilização. Foi publicado pela primeira vez em 1930, ano em que a Europa ainda curava suas feridas – e que feridas! – da Grande Guerra que terminara (?) em 1918 e se respirava, pelo menos na Alemanha, os ares do período que de forma tão sagaz Ingmar Bergman chamou de O Ovo da Serpente, ao se referir ao nazismo – já feto – que passaria à condição de serpente-nascida dali a meros 3 anos, quando Hitler assumiu a condição de Chanceler da Alemanha.

Style: "Neutral"

 Freud trata de muitos temas neste livro. Mas um deles me chama a atenção de forma especial: a luta cotidiana do ser humano por ser humano. Aparentemente, um paradoxo. Se ele já é humano, por que precisa lutar para sê-lo? Porque, para Freud, o ser humano precisa da civilização para ser humano: a depender apenas de nosso desenvolvimento biológico, seríamos governados pela natureza e seus dogmas inexoráveis como a lei do mais forte ou a seleção natural. Por isso, Freud vê no empreendimento civilizatório uma condição sem a qual não nos distanciaríamos muito de todos os demais seres vivos: viver para sobreviver.

       Claro que, por outro lado, a obra civilizatória não só requer energias para se sustentar como também tem seu preço. Para que tenhamos, enquanto espécie, uma chance melhor de sobrevivência (tanto em nossa relação com a natureza como em nossa relação uns com outros) e, assim, possamos criar coisas com as quais nos deleitamos – a arte, o esporte, o saber – precisamos proceder a renúncias magistrais em nossos impulsos e desejos mais íntimos, temos que nos acomodar às leis que nós mesmos criamos para nosso próprio bem coletivo.

 E, assim, vamos nos tornando seres humanos: precisamos passar por pequenas amputações (desde que nascemos e começamos a respirar o ar da cultura) em nossa busca pelo prazer pleno e em nossa capacidade destrutiva. Vamos nos tornando seres civilizados, amputados. Moral da história: para que nossa espécie tenha chance de se manter viva no planeta, precisamos abdicar de nossos mais preciosos impulsos individuais. A civilização é um empreendimento que existe para o bem da coletividade, não do indivíduo. O mal está na civilização. Claro que, nesta perspectiva, não apenas o mal: o bem também, potencialmente temos construções civilizatórias ancestrais a nos alimentar, a nos embevecer, a nos humanizar. Além, é claro, de podermos contar uns com os outros numa rede gigantesca à qual podemos chamar de humanidade. Assim, o bem está na civilização – também.

Style: "Neutral"

Mas podemos pensar de outra forma, tal como Freud o faz em seu livro. O mal não está somente na civilização, o que – talvez no melhor estilo freudiano – nos coloca diante de um desafio hercúleo: como conseguir fazer com que a civilização e suas leis (que por um lado abolem nossa possibilidade de permanecer no Éden e nos atiram na Cultura) consigam nos proteger de nossos impulsos homicidas e destrutivos? Como lidar com o fato – testemunhado por Freud “no quintal de sua casa” – de que, poucos anos antes, todo o conhecimento e a ciência humanos tenham sido colocados a serviço da guerra e da destruição por meio da invenção de tanques, armas químicas e quetais? Como tentar lutar pelo aumento do prazer e satisfação que a civilização nos concede se a cada dia nos vemos diante da ameaça que nós mesmos representamos para nossa espécie? O que diria Freud dos horrores da 2ª Guerra Mundial e de todas as outras que a sucederam, assim como da destruição “no atacado e no varejo” a que nos subtemos dia após dia em inúmeras esferas, como, por exemplo, a que trata o filme Koyaanisqatsi, de 1982, da autoria de Godfrey Reggio?

 E é por conta disso que Freud, a despeito de todas as limitações (ou, quem sabe, justamente devido a elas), afirma em seu livro que a civilização é um empreendimento a serviço de Eros, da vida. É aquilo com que nossa espécie pode batalhar, ao longo dos tempos, em nossa eterna luta contra Thanatos, a morte.

Fechando: o mal está na civilização, o bem deve estar mais!

Style: "Neutral"

**todas as imagens são do fotografo MIsha Gordin e foram retiradas do site http://bsimple.com/home.htm

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Sergio Wajman é psicólogo formado pela PUCSP em 1977.
Atua profissionalmente como psicanalista e professor no Curso de Psicologia da PUCSP.
É mestre e doutorando em Psicologia da Educação pela PUCSP.

 

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AMOR É TRAMPO por Emir Tomazelli

Amor é trampo.

Amar é construção diária e desmancha fácil, fácil.

Vem o mar, vem o vento, vem a chuva e o fogo. Mesmo que firme o amor é frágil.

Amor é vínculo e vínculo é encrenca.

Amor envolve cálculo, porque pessoas têm ângulo.

Os amantes giram e circulam; a geometria e a álgebra são obrigatórias para o calculo acurado das curvaturas dos projetos.

Sem medidas o amor é desmedido.

Desmedido não é amor.

Comedido é de bom tamanho.

Amor é cozinha ou é receita de comida bem planejada

Por isso amor é tempo que transforma sexo em poesia

(para uma boa foda é necessário que saibamos fazer com competência o que estamos sendo convocados. Leva tempo, leva conhecer, leva ter que aprender e ter que contar com o outro. Sintonia, ritmo, pegada, precisão, jeito ).

Amor é to be one with, permanecendo vc mesmo.

Já o amor súplica é outro papo.

Amor de joelhos, amor de quatro, amor de submissão. É jogo cruel.

O amor que lambe o chão, que se arrasta, é o que crê na subserviência e no sub-ser-a-si-mesmos.

Amor que necessita outro nome não é amor, é ciúmes.

Amor é um verbo de conjugação simples, mas é complexo e inapreensível.

Como transformar um impulso em direção ao outro, em amor?

Como dar conta de ser amado?

Amor, a incógnita.

O vacilante…

O sobre o abismo…

O desconhecido necessário.

Atenção:

Só é amor se o vínculo for da ordem do necessário.

Se o meu amor não for necessário, não será (o meu) amor.

Amor é necessidade

Amor é o alimento da alma, é unguento de dores, é o phármakon perfeito

E além de ser trabalho, é remédio.

E fique atento, porque sendo remédio também é doença, é infecção, é vulnerabilidade.

Quem ama, está fora de combate. É do outro, pertence a ele. E isso não faz nenhum dano.

É um pertencer entrega. Quanto mais se entrega mais se ganha em troca, e é disso que a gente gosta.

É amor porque se refere a um só, nenhum outro pode te dar aquilo que o amado te dá.


Emir Tomazelli
é psicólogo, psicanalista e professor de psicanálise no Instituto Sedes Sapientiae.
Três livros:Corpo e conhecimento: uma visão psicanalítica;
Psicanálise: uma leitura trágica do conhecimento
Idealcoolismo: uma visão psicanalítica do alcoolismo

foto banner: Flavio de Carvalho

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ONDE VIVEM OS FILHOS QUE EU NÃO TIVE? por Elza Tamas

Você pode acordar um dia em outra história- não mais no seu colchão de molas, ensacadas individualmente, que evitam que seu marido pule na cama enquanto você não para de se virar em noites de insônia, mas no chão de um corredor de um prédio todo perfurado por balas, no Líbano. O corredor é o lugar mais seguro, tem a parede externa do edifício somada à interna, a dos aposentos; as rajadas de balas tem que perfurar duas paredes e também funciona com as granadas, lembra? Não foi isso que aquele guia de olhos astutos lhe ensinou naquele café em Beirute, discorrendo sobre os fenícios, otomanos e persas, enquanto você não prestava a menor atenção e só via a boca dele se mexendo e pensava: e se eu largasse tudo para viver com este homem?

Para onde vão as opções que descartamos? os caminhos que quase trilhamos? Cada vez que fazemos uma escolha, mesmo que pequena, o que acontece com as outras alternativas? E se você não tivesse deixado aquela cidade? Onde vivem os filhos que você evitou? Para onde escorrem essas vidas-possibilidades? Existem as vidas “se”?

Você pode acordar um dia em outra história, sua outra história. Alice sabia como.

 

foto banner: Goran Boricic – on the other side of the window 

 

 

Elza Tamas é psicóloga clínica e escritora. Concebeu e desenvolve o forademim.com.br

 

foto: Mario Bock

 

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MIRAGENS por Safira Lyra

 

Quando escutamos o choro de um bebê, entramos num estado de ansiedade e impotência. Imediatamente buscamos recursos que ajudem a cessar o quanto antes aquele estado de desconforto vivido pelo bebe. O choro é a comunicação entre o bebe e o mundo externo ; uma linguagem que aos poucos, as figuras parentais vão aprendendo decifrar. Segundo a Psicanálise, o bebê para suportar estados de privação ou de desamparo, fantasia; isto é, devaneia uma situação de satisfação e plenitude, e assim se acalma. O fantasiar se inicia precocemente na vida psíquica da criança, é um mecanismo temporário de proteção, uma ferramenta útil para diminuir a ansiedade e suportar o desconforto, mas insuficiente, logo o choro recomeça e o bebe retorna à vivência dolorosa de privação. Crescer é também se frustrar.

A vida adulta pressupõe privações. Também temos nossos choros, nossas gritarias, e não podemos mais esperar por uma mãe suficientemente boa para nos confortar, ou o acolhimento ideal do Outro. E assim fantasiamos: E se? E se pudéssemos trocar de parceiro, trocar de corpo, trocar de trabalho, trocar de vida?

Como as crianças, adultos também possuem mecanismos de escape frente a situações difíceis. Uma parte de nossa atividade mental se desconecta da realidade frustrante e se desloca para um plano, onde situações fantasiadas e idealizadas funcionam como fonte de um suposto prazer imediato, encobrindo o que nos limita. Vemos com frequência isso nas adições, nos vínculos virtuais e na busca compulsiva pelos estados de excitação.

O “E se” nos desloca para um espaço imaginário, ilusório, povoado de nostalgia ou de idealizações futuras. Um escape do tempo presente. A atitude que nos conecta com a vida, não é uma fantasia “E se”, mas sim uma aceitação, “Apesar de”.

O “Apesar de”- dos Outros, das privações, das frustrações- é o que nos possibilita sonhar. A fricção do encontro entre o que eu desejo e a realidade é que gera a faísca da Ação. Os limites não esvanecem a minha pessoa no mundo, não me enfraquecem, mas corporificam um nome próprio, apesar de…

 

foto banner: Tommy Ingberg

 

 

 

 

Safira Lyra é psicóloga e psicanalista, apesar de.

 

 

 

 

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TRISTE por Alberto Pereira Lima Filho

 

 

 

O dourado se espalhava pela ladeira. Era final de tarde, outono. Havia um silêncio peculiar, indiscreta e belamente interrompido pelo scherzo dos pássaros. Não fosse a pipa amarela emaranhada nos fios de iluminação, dir-se-ia que ali não vivia ninguém. Eu, por assim dizer, testemunha do sol a se por, via, buscava e era, ali, ninguém.

Ao longe, a Ave Maria de Gounod se fazia ouvir tênue e rouca. Um chapéu de palha se arrastava pelo chão, rua abaixo – em parte, levado pelo vento; em parte, almejando descanso. Ah, a doce antevisão do quase nada! Talvez fosse a lembrança soprada pelo espírito de meu pai, que um dia, por muitos dias, sempre, o vestira. Já não abrigava meu pai o chapéu de palha levado ao descanso rua abaixo, não mais. Não mais. Renovava-se em mim, deste modo, a consciência da inexorável condição de impermanência. Uma bênção. Uma perplexidade. Que distância ainda há a percorrer?

Ouvir o senhor Ernesto, o que teria custado? “Reza, menino! Nada pode ser melhor do que rezar! Reza! Reza, menino, e deixa estar”! Ouvir o senhor Ernesto. Ah, eu teria, se pudesse. Se soubesse. Se soubesse rezar!

Uma badalada. Duas. Uma dor profunda no peito, um temor de não mais conseguir acordar. Um temor de novamente acordar, que sufoco! Acordar.

Três badaladas.

Aperto uma das mãos e, sobre ela, a outra. Sobre ambas, recosto minha testa. Olhos fechados. Procuro esvaziar a mente de todo e qualquer pensar, de imagens e sons e cores. Procuro em vão, pelo amor de Deus, para poder respirar, por instantes, não ser. Quem sabe aí eu possa ser – ainda que fugaz e irreversivelmente – em paz?

Quatro.

Experimento uma saudade infinita de algo que nunca fui, nem nunca vivi. Cinco. É isso o que me sustenta aqui, em que pese o dourado do sol que se põe ladeira abaixo, pássaros a voar e a tingir de canto o azul ininterrupto do céu. Seis. Certamente, não mais. Não as tolero mais, as badaladas. Saudade infinita de algo que ainda serei, se puder e souber rezar.

Abro lentamente os olhos e agora pouso o nariz sobre as mãos cerradas. Miro, ao longe, no rasgo do horizonte, um insuportável porvir. Dói, de chorar. E choro uma única lágrima de dor, que minha dor não revoa pelo azul, nem há vento que a possa soprar. Ah, o horizonte no fundo de mim! O que faço aqui, em mim?

Arrisco um passo, mãos soltas e trêmulas. (Prendo-as, novamente, atrás.) Coração trêmulo. Outro passo. E outro. E um após o outro, devagar. Levo-me rua abaixo na direção do chapéu, guiado pelo sopro de meu pai. Desço o dourado do sol de outono rumo ao horizonte portador de insuportável porvir. Temo por mim, tremo. Tremo por mim.

Sei que dormi, pois acordei.

Tomei um copo de leite frio, que me fez bem. Lavei duas cuecas e as pendurei para secar. Varri as folhas do quintal. Apanhei no pé meia dúzia de limões, sei lá para quê. Olhei a grama e achei que a deveria logo podar. Uma buzina ao longe fez parecer que o mundo era habitado.

Uma dor no peito fez parecer que eu era habitado.

(Pensei!)

Não sei rezar. Apenas deixei estar. Deixei estar.

Apenas, sem rezar, deixei estar. Eu, com forte dor no peito, habitado por mim.

 

foto banner: lifecandy.cn  

 

 

 

Psicoterapeuta. Professor Doutor em Psicologia Clinica. Diretor da Opus Psicologia Ltda

 

 

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É BICHO OU NÃO É? por Ricardo Amaral Rego

É bicho ou não é?

A linguagem cotidiana está cheia de mistérios e surpresas, mas por algum motivo descuidamos de nos encantar e refletir sobre isso.

Veja, por exemplo, o aviso que se encontra em muitos lugares e que diz PROIBIDA A ENTRADA DE ANIMAIS. É bem simples, todo mundo entende, ninguém se espanta, mas … se pensar bem ele é muito esquisito.

Em primeiro lugar, os seres humanos são animais. Portanto, deveriam estar incluídos nessa proibição. Mas, quando as pessoas falam dos animais, quase que automaticamente isso é associado à terceira pessoa do plural (ELES) e não, como deveria ser, à primeira (NÓS).

Mais de um século e meio depois de Darwin ter publicado seu famoso livro sobre a origem das espécies, nossa linguagem cotidiana parece ainda não ter assimilado que somos bichos: uns macacos meio estranhos, metidos e arrogantes, novos ricos na escala evolutiva que desprezam os parentes mais próximos que o envergonham por lembrar-lhe de sua origem humilde.

Claro que temos algumas diferenças: só nos torturamos, matamos sem necessidade, exploramos nossos semelhantes. Em outras palavras, só os humanos são desumanos. Mas isso não nos qualifica para essa atitude arrogante que renega nossa realidade animal.

 

Existe outro aspecto em que esse aviso é ridículo, e que diz respeito às moscas, baratas, escorpiões, pulgas, carrapatos, ratos, lagartixas e por aí vai. Se o aviso fosse sério, ele deveria impedir tais seres, que também são animais, de adentrar o recinto. Em primeiro lugar, eles não sabem ler. E, se soubessem, não ligariam a mínima, claro.

Outro aviso que todo mundo entende, mas que é bem estranho, diz: RUA SEM SAÍDA. Já pensou? Se essa rua fosse literalmente sem saída, quem entrasse nela ficaria preso aí para sempre. Seria como um buraco negro. É óbvio que a rua tem uma saída, que é pelo mesmo lugar que se entrou. Todo mundo sabe que poderá sair dessa rua depois de entrar nela, mas ninguém parece se incomodar quando lê esse absurdo de dizer que não há saída.

Você já teve compromissos quinzenais? Provavelmente sim, mas aposto que não reparou que essa denominação é equivocada. Na verdade são encontros marcados a cada duas semanas. Como cada semana possui sete dias, em duas delas temos catorze. Portanto, deveríamos chamar essa periodicidade de catorzenal.

Essa peculiaridade elusiva e ilusória da linguagem, que comunica algo sem que se saiba se o que o emissor quis dizer corresponde ao que o receptor captou, remete ao fantasma da possibilidade de que as narrativas que constituem o cerne de nossa identidade sejam pouco mais do que uma fugidia fumaça. Animais híbridos, constituídos tanto de sangue, carne e ossos quanto de histórias, mitos e ideologias, seres nos quais a sutileza do espírito se equilibra instavelmente sobre a pulsação da carne, vagamos em busca de certezas que aliviem a incoerência dos fragmentos dos quais nos vemos feitos.

 

 

foto banner: Alessandro Galo – escultura
fotos animais : Zoo Portraits por Yago Partal

 

Ricardo Amaral Rego

Sou uma pessoa que aprendeu muito nesses anos todos. Aprendi que sem certas coisas em ão a vida fica árida, besta e sem sentido (incluo aqui paixão, tesão, gratidão e perdão). Aprendi que aprender tem um valor relativo, porque tudo está sempre começando de novo. Aprendi que prender a pessoa amada é a coisa mais feia que existe, pois o amor tem asas e foi feito para voar. E também aprendi com os poetas que a vida vale a angústia de viver, que tudo vale a pena se a alma não é pequena, e que se limpássemos as portas da percepção a realidade nos apareceria tal como é: infinita.

Se quiser saber mais de mim veja no Facebook
https://www.facebook.com/messages/#!/ricardoamaralrego?fref=ts

 

ou no site  do Instituto Brasileiro de Psicologia Biodinâmica
www.ibpb.com.br INSTITUTO – DIRETORIA

 

animais e a psique - capa do livro

OS ANIMAIS E A PSIQUE por Roseli Ribeiro Sayegh e Maria Helena Monteiro Balthazar

 

No estudo da psique sob o enfoque da psicologia analítica de Jung percebe-se a frequente presença e importância dos animais na produção cultural de indivíduos de diferentes partes do mundo, assim como nos sonhos, desenhos, fantasias e outras expressões do inconsciente. Por essa razão é extremamente relevante pesquisar e analisar as diferentes maneiras que a psique humana se manifesta e se incorpora nas formas animais.

O animal é um dos símbolos mais poderosos para o ser humano, tanto na vivência interna quanto externa, estando presente não só na expressão individual, mas num sentido mais amplo, na expressão da cultura por meio dos mitos, dos contos, do folclore e da arte.

Na busca da compreensão de si mesmo é essencial entender os animais e seu significado simbólico, para que se possa elaborar os instintos e ampliar a consciência.

À medida que o desenvolvimento do indivíduo espelha o da espécie, constata-se no ser humano a recapitulação da vivência das fases evolutivas da vida animal. Simbolicamente, os animais são uma parte do homem, que contém em si todos eles.

Dentro de nós existe o lobo, o carneiro, a onça, a raposa, etc…, e assim podemos identificar no comportamento humano muitos aspectos que traduzem a energia e a força de diferentes animais, o que se verifica nas expressões populares tais como: “ter uma fome de lobo”, “manso como um carneiro”, “bravo como uma onça”, “esperto como uma raposa”.

A relação do homem com o mundo animal aponta para a relação entre sua consciência e seus instintos. A maneira como lidamos com essas energias, como as vivemos, como as equilibramos, vai determinar nossa liberdade ou nossa escravidão. A submissão “cega” aos instintos assim como o oposto, a repressão deles, conduz a uma estagnação da consciência. Assim, torna-se imprescindível o diálogo com nossa instintividade, na direção de um equilíbrio interno que nos libera, ampliando nossas possibilidades de ser.

Historicamente, a convivência entre homem e animal vem sofrendo transformações, atualmente revelando-se uma harmonização que se constata no movimento de preservação da vida animal. A atitude predatória correspondente a uma dinâmica de repressão dos instintos, de épocas anteriores, vem dando lugar a uma postura mais humilde de respeito e de reconhecimento do animal como essencial para a sobrevivência do planeta, analogamente sinalizando o despertar da importância da vivência instintiva consciente para o equilíbrio da vida psíquica.

Homem e animal se constituem numa unidade indissolúvel e fundamental para o equilíbrio ecológico.

 

foto banner : imgem parcial da capa do  livro  Os animais e a psique
foto criança e tigre: Adrian Sommeling 

 

                                                                  


Roseli Ribeiro Sayegh
, psicoterapeuta de orientação junguiana e técnicas corporais, professora e supervisora do curso de especialização Jung e Corpo do Instituto Sedes Sapientiae e coautora do livro Os Animais e a Psique – do simbolismo à consciência, volume I publicado em 2000 e volume II no prelo.

 

 

 

 

Maria Helena Monteiro Balthazar, psicoterapeuta de orientação junguiana e técnicas corporais, Mestre em Psicologia clínica pela PUC-SP, professora e supervisora do curso de especialização Jung e Corpo do Instituto Sedes Sapientiae e coautora do livro Os Animais e a Psique – do simbolismo à consciência, volume I publicado em 2000 e volume II no prelo.

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IBERÊ CAMARGO E O GOLPE NARCÍSICO por Brenda Gottlieb

 

Espelho, espelho meu- “Falta-me coragem para ver o outro que vive fora de mim”.

Iberê Camargo, pintor, gravador, desenhista, escritor e professor, nasceu em 1914, em Restinga Seca, RS. Morreu em Porto Alegre em 1994, depois de quatro anos de luta contra um câncer de pulmão.

paisagem -1941

 

serie carreteis anos 60

Não sou critica nem expert em arte, simplesmente me encanto com ela e vivo em busca da criatividade do ser “Analista”. Entendo que,  apenas os aspectos psíquicos do trabalho artístico podem ser contemplados pela psicologia. Não me proponho a  interpretar uma obra de arte; no entanto, o olhar atento e curioso sobre a arte e o artista pode nos revelar aspectos que transcendem o artístico: facetas  que envolvem  não somente a personalidade do artista, como também o mundo em que vive e o momento em que está produzindo e criando.
Considero uma obra de arte não como apenas um produto ou derivado, mas sim como uma reorganização criativa de conteúdos.
Devemos ser capazes de olhar o trabalho artístico como um espelho da alma e tratá-lo com delicadeza e respeito. Não se trata de abordar a arte como sendo engajada psicologicamente, mas sim como uma mescla de aspectos que podem agregar sensibilidade, introspecção e mudanças.

Iberê Camargo começou a escrever Gaveta dos Guardados (EDUSP 1998), no início de 1990. Cito esse título por dois motivos fundamentais à argumentação: o livro é maravilhoso e nele podemos ler o lamento e a dor que percebemos em suas pinturas pós 1980.

ciclista- 1989

Gaveta dos Guardados não explica a obra pictórica, mas nos ajuda a compreendê-la e a traçar correspondências e analogias. Iberê no texto “O Duplo”,  aponta para a sua grande ferida, tal qual um grande espelho nos revela a dualidade. -“–falta-me coragem para ver o outro que vive fora de mim”.
O Narcisismo – assunto exaustivamente explorado pela psicologia – pode ilustrar nosso tema. Tal qual Narciso, parece que Iberê não podia se conhecer, e ao não se reconhecer na totalidade, ficou sujeito aos caprichos do seu “outro”: violento, leviano, arrogante, e que, impulsivamente (por ter sido ameaçado ou não), mata outro ser humano.

auto retrato 1943

eu-1981

Os que se detiverem em leituras de sua biografia, mesmo que breves, perceberão arrogância e vaidade de Iberê, à Oscar Wilde. Por exemplo, desafiou  professores e artistas mais velhos e renomados e abandonou  a Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro – que cursava graças a uma bolsa concedida pelo governo do Rio Grande do Sul – por não concordar com a proposta acadêmica.

Cito estes episódios como ilustração para o que vem a seguir:
O editor do livro Gaveta dos Guardados, Augusto Massi, relata o episódio: ¨Na tarde de cinco de dezembro de 1980, por volta das três horas da tarde, Iberê Camargo, acompanhado de sua secretária, Sueli Santos da Silva, 27, deixa seu atelier na Rua das Palmeiras, pega a Rua Sorocaba, quase na esquina da Voluntários da Pátria, em Botafogo, à procura de cartões de natal. Pouco tempo depois surge o engenheiro projetista do setor de mineração e metalurgia da IESA, Sérgio Alexandre Esteves Areal, 32, que trajando apenas um short, interpela Iberê: “O que você está olhando?” Ao que este respondeu: “Não estou olhando nada”. Depois de empurrar Sueli, Sérgio avança contra Iberê e o derruba no chão. Este, recomposto, pega a arma na capanga e ameaça: “Não vem que eu atiro.” O engenheiro investe novamente contra o pintor que dispara duas vezes um Smith & Wesson Magnum, calibre 357. O pintor possuía porte de arma. Defendido pelos advogados Evandro e Técio Lins e Silva, foi absolvido liminarmente em sentença confirmada pelo Tribunal de Justiça, pois prevaleceu a tese de que agira em legítima defesa. (pag.19).”

Com perplexidade, nos perguntamos: Como um artista sensível, profundo, reconhecido e criativo, no auge do sucesso de sua carreira comete um ato tão violento e irresponsável?
Notamos nas biografias um ser onipotente, vaidoso e arrogante (traços narcisistas), que (dizem as más línguas), sentiu-se ameaçado pela beleza e juventude de Sérgio, que aparentemente havia cortejado sua assistente – uma versão bem diferente da apresentada pelo artista, que alegou legitima defesa por agressão. A partir desse episódio toda sua obra passa por uma mudança intensa, seu humor se revela depressivo e um câncer o acomete.

auto retrato 1984

Em Gaveta dos Guardados e em suas telas percebemos o “outro Iberê”, revelado pelo espelho, tal qual Dorian Gray por seu retrato. Doryan Gray, célebre personagem do romance de Oscar Wilde é retratado por Basil e a obra do pintor passa a ser responsável por envelhecer no lugar de Doryan . Ambos devem “guardar” a obra: Basil por ela conter muito de si mesmo e Doryan para preservar a juventude eterna, adquirida na sinistra negociação, em que oferece a sua alma em troca da juventude.

As Idiotas

Nem Doryan nem Iberê toleram confrontar-se consigo mesmos em suas totalidades. Narciso fora predestinado a perecer ao se conhecer, e ao não se reconhecer é capturado na armadilha de um amor próprio exaltado, que impede a integração de seus lados sombrios, facilitando atuações desastrosas. Iberê é assaltado por uma fúria estranha, que não reconhece como sua, sendo incapaz de conscientemente fazer um mea culpa, que sua obra fica encarregada de expressar.

tudo te é falso e inútil -1994

 

 

Brenda Gottlieb é psicóloga, Analista da S.B.P.A.( Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, vinculada a IAAP , International Association for Analytical Psychology). Formou-se em Terapia Ocupacional em 1969, na USP, tendo atuado por 11 anos na área, anteriores a sua formação como analista.
Atualmente atende em consultório particular, adultos, casais e famílias.
Interessada em arte, aprofundou seus estudos no tema, pesquisando o trabalho artístico feito por psicóticos.

 

[email protected]

 

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O INÍCIO DO INÍCIO por Elza Tamas

 

Era leite, a vida bateu, bateu, virei manteiga. Isso foi ontem; agora nem sei mais do que sou feita. Uma única laranja ácida pode me azedar. Parece que muda, mas é igual.

Uma vela que acende outra vela, que acende outra vela, que acende outra vela. Uma sequência de containers colados um no outro, uma coisa depois da outra, e mais outra, como os pensamentos que sempre se sucedem, sem trégua, sem um lago calmo no meio deles, sem pouso. Tudo se repete e repete, limitado a apenas meia dúzia de respostas; meia dúzia de sulcos cravados na planície gelada e branca das nossas possibilidades. Meia dúzia de condicionamentos prontos a nos capturar; driblamos aqui, escapamos ali e sem nos darmos conta, escorregamos para a vala comum do automatismo.

Recomeçar ou repetir?

Escalamos mediocridades, empurrando morro acima pedras enormes, pesadas, densas como são os nossos medos e nossas esperanças. E nos exaurimos porque o esperado  nunca se cumpre, e do vazio do esforço não recompensado, vem o impulso de tentar novamente. 
É digno e maduro experimentar, aprender com o erro, ir em frente, dar a volta por cima. Mas só suportando a ambiguidade do momento presente com delicadeza, na experiência do tom que ele pode nos oferecer, sem buscar responsáveis pelos nossos desconfortos, sem acreditar em seguranças utópicas, e finalmente desistindo, mas desistindo até nos sentirmos enfastiados de tanto querer desistir, só assim, e só aí, é possível recomeçar.

 

foto banner: Walking on egg shells / Clic Chic

 

 

 

Elza Tamas idealizou e desenvolve este site.

 

 

 

 

 

 

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O MONGE E A BORBOLETA por Denise Vieira Ieno

 

 





Era uma vez um monge chinês que sonhou que era uma borboleta. E no seu estranho sonho ele conheceu uma realidade insólita: havia uma leveza incrível! A brisa, os perfumes das flores e o movimento de suas asas compunham uma única experiência. E apesar de sua mente ainda pensar como a mente de um homem, seus movimentos eram precisos e de uma delicadeza impossível de se imaginar para um homem de vida monástica. Por um momento ele pensou que aquilo poderia ser um sonho e imediatamente sentiu medo de perder aquela leveza… Mas um perfume doce novamente invadiu seus sentidos e ele voltou a ser parte daquela paisagem, surfando na brisa fresca daquela manhã. Então, pode perceber que tudo aquilo estava vivendo, tudo mesmo; o ar, a terra, o vento, as flores, tudo pulsava em um único ritmo.  E a borboleta, assim como todo o resto, era parte disso.

Mas o habito de ser um homem era muito forte e sua mente começou a questionar a validade daquela experiência totalmente desprovida de lógica. Então, sentiu seu corpo ganhar peso e o medo começou a ecoar forte no seu peito como o badalar de um grande sino de bronze. Acordou. Aquele estranho sonho estava se tornado um pesadelo para mente tão disciplinada daquele monge! Mas para sua surpresa, ao acordar o peso daquele corpo humano não era familiar… A falta de leveza, igualmente estranha como fora a experiência anterior. Finalmente concluiu a borboleta, que poderia estar sonhando que era um monge chinês.

A canção de Raul Seixas que me inspirou nessa pequena estória é na verdade uma referência a uma parábola taoista de um importante discípulo do grande mestre Lao Tsé, chamado Chung Tzu (China, séc. IV ac ).


A filosofia taoista, por sua vez, foi muito influente no desenvolvimento do Zen Budismo no Japão. Os mestres Zen usam esse tipo de parábola para treinar seus alunos no sentido da quebra do sistema lógico de pensamento, como se quebra a casca de uma noz. Quebrada a casca do ego, eles acreditam que outra experiência mental pode ser alcançada. Mas ao lado desse treinamento “intelectual”, por assim dizer, há uma experiência mais sutil e também mais profunda, implícita nessa parábola.

O budismo nos propõe uma questão existencial realmente insólita: como no sonho da borboleta existe uma experiência de totalidade, de não separação entre o que somos e o que estamos vivendo; mas ao mesmo tempo, enquanto não somos capazes de perceber essa realidade mais ampla – que esta sempre presente na base da nossa experiência, seguimos vivendo como em um sonho. Isso significa que estamos atados a um forte habito de criar realidades a partir de projeções mentais.  Nossa mente comum, nosso ego, é como um carro desgovernado descendo uma ladeira; simplesmente não sabemos como refrear esse habito mental que se movimenta sem descanso. Seja na mente do homem ou na mente da borboleta, enquanto não for possível se desprender da experiência de dualidade – entre sonho e sonhador, entre sujeito e objeto; um pensamento segue a outro, um sonho segue a outro, uma vida segue à outra. A esse ciclo de experiências infindáveis é o que no budismo se chama de “Roda da Vida” ou simplesmente, “Sansara”.

Mas para que esta conversa não se encerre no âmbito da metafísica, o budismo sempre nos lembra da importância da experiência “pratica”. É preciso colocar essas ideias em pratica para que elas ganhem um verdadeiro sentido!

E podemos fazer isso todos os dias. Por exemplo, ao acordar pela manhã, podemo s nos perguntar:“Que sonho é esse que eu estou vivendo?” “O que realmente é importante para mim? “Estou sendo fiel aos meus propósitos?” “Estou sendo fiel a mim mesmo?” Depois podemos criamos um espaço livre dentro de nós, um momento de silêncio para que essas respostas surjam naturalmente. Essa simples experiência pode ser surpreendente se conseguirmos domar, por alguns instantes que seja , nossa mente tão inquieta.

Assim, todos os dias podem ser um recomeço. Todos os minutos podem ser um recomeço. A cada respiração posso me dar um espaço interno para me perguntar se estou realmente no caminho daquilo que é a minha verdade mais intima.  Simples assim:

Inspirar profundo,

expirar lentamente

e relaxar;

entre uma coisa e outra faço uma pausa ,

descanso ali por alguns segundos,

antes de recomeçar.

 

foto banner : reuters/ galleryV9- Magu

 


Denise Vieira Ieno
é psicoterapeuta. Formada em psicologia pela PUC/SP, fez especialização em psicanálise no Instituto Sedes Sapientiae; mestrado no Instituto de psicologia da USP; publicou o livro “Psicanálise e Budismo: a Construção de um Metarrealismo Psíquico”. É praticante do budismo tibetano Vajarayana desde 1995 e praticante da arte japonesa de harmonização de energia e cura Jin Shin Jyutsu desde 2008.

 

Apollo_ninfas (3)

CONVERSA MOLE? por Sylvia Mello Silva Baptista

 

Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando de aproveitar
Beijei na boca de quem não devia
Peguei na mão de quem não conhecia
Dancei um samba em traje de maiô
E o tal do mundo não se acabou

 

Nessa canção de Assis Valente, gravada por vários dos melhores cantores de
nosso país, o mundo não acabou e deu a maior confusão.
Quando se lê e se estuda mitologia grega, parece que tudo o que podemos
pensar ou viver,  que esteja no perímetro do humano, já está ali exposto.
É sempre uma emoção  encontrar descritas as nossas angústias, as nossas
iras, os modos mais  improváveis de dar cabo a dores, em histórias trágicas,
épicas, cômicas ou  prosaicas.
Foi nessa fonte que me deparei com uma passagem que fala também do fim
do mundo,  ou quase, e que passo a relatar aqui. Afinal, não é o mundo uma
grande roda de histórias  e estórias, para as quais afinamos os ouvidos,
suspendemos o tempo e assim, adiamos a morte?

Corônis era o nome da bela ninfa, filha de Flégias, rei dos lápitas. Apolo,
o grande deus luminoso e flecheiro, por ela se apaixonou, no que teve seu
amor correspondido.

apolo e coronis

No entanto, apesar de já levar a semente do deus em seu ventre, temia que
o imortal se desinteressasse por ela, quando a velhice a alcançasse (vejam
como a questão do  envelhecer e da morte vem de tempos imemoriais).
Entregou-se então a Ísquis,  um mortal, com quem poderia sofrer
acompanhada os efeitos do tempo. Apolo não era lá muito bem sucedido
nos amores e resolvia sua pendências de forma cabal. Pediu ajuda a sua
irmã Ártemis – deusa das florestas e da natureza  selvagem, também
exímia arqueira -, e executou sua vingança: com flechas morreram
Ísquis pelas mãos de Apolo, e Corônis pelas de Ártemis. (Quantos acertos
de contas aconteceram entre nós, mortais errantes, dessa forma apolínea,
terrível? O mito nos fala metaforicamente do tamanho da dor da exclusão).

Mas a criança que crescia no ventre da  ninfa foi dali retirada -talvez a
primeira cesariana jamais realizada -, e  nasceu Asclépio.

Como usava acontecer com todos os heróis, foi educado
pelo grande centauro Quíron. Tinha um talento nato no uso das ervas bem
como da  magia. Desenvolveu a arte da cura, e fez de Epidauro um centro
ao qual muitos  acorriam para dar fim a suas aflições.

Asclepio e Higia

Casou-se com Epíone
e teve com ela dois filhos, Podalírio e Macáon (presentes na Ilíada de Homero),
e quatro filhas  cujos nomes devemos atentar: Áceso (a que cuida), Iaso(a cura),
Panaceia (a que  socorre a todos) e Higia (a saúde). Tal filiação nos dá a
possibilidade de  entender que esse semi-deus se desdobra em aspectos que
provêm do próprio Apolo  –igualmente o deus da cura, além da  música e da
mântica – e que apontam para o cuidado.

De fato, Asclépio,  além de sabedor das artes curativas, era possuidor de um
poderoso pharmacón: o sangue da jugular direita  da cabeça degolada da Medusa.
Atena, a deusa que ajudou Perseu a cortar a cabeça da Górgona horripilante –
que transformava os que a olhassem nos olhos em estátua de pedra -, deu a
Asclépio um vidro com o sangue capaz de fazer ressuscitar  os mortos.
E assim ele fez. E fez com tanto gosto que o mundo dos mortos começou
a minguar.

Hades, o rei dos  Ínfernos passou a se preocupar ao ver que nenhuma alma
aparecia por ali desde que Asclépio exercia seu ofício. E foi reclamar com
Zeus, o grande maestro do Olimpo. Este não teve dúvida: num piscar de
olhos fulminou o curador com seus raios.

Hades

Não há quem não fique indignado ao ouvir essa parte do mito. Como pôde
Zeus, o grande regente, zelador de tudo o que há sobre a Terra, como ele
teria tido a coragem de matar quem estava em pleno exercício do dito
“bem”? Mas nada é casual na sabedoria grega. Quem se indigna é a nossa
consciência ocidental baseada na cultura judaico-cristã que propala a
existência de um bem e um mal dissociados. Continuemos nossa história
para entendermos o modo flexível do raciocínio aqui  presente.

Apolo ficou furioso em ver seu filho morto, e num troco indireto liquidou
os Ciclopes, seres gigantescos, filhos de Urano e Geia, aqueles que
presentearamZeus com o raio, o trovão e o relâmpago. Com isso talvez
tenha tentado dar a Zeus  o gosto amargo da perda de um afeto, como a
que padecia, a ele imposta pelo  senhor do Olimpo. Hades, rei dos
Ínfernos, gostou desse ato, e viu seus domínios  se povoarem novamente.

asclepio

O mundo não acabou para Hades, mas acabou para o mortal Asclépio,
que no entanto, depois de fulminado, foi divinizado.

Isso nos faz pensar na relatividade das situações. A Psicologia Analítica,
fundada por C. G. Jung, olha para o manancial de conhecimentos da Grécia
antiga e vê ali uma sapiência em nada dispensável. Nesse casamento de
olhares, vemos que a unilateralidade das coisas leva a um desequilíbrio
insuportável com conseqüências nefastas. Apesar do ato de Asclépio ser
revestido das melhores intenções, ele incorreu no grave erro da hybris,
a imperdoável soberba que os gregos não admitiam nem mesmo aos mais
bravos heróis. Asclépio arrojou-se no papel de um deus. Fez um uso abusivo
do instrumento que lhe foi dado, o sangue da cabeça da Medusa. Esse
impulso ao  qual seguiu, passou do ponto e sua morte o lembra (nos lembra)
de seus (nossos) limites e da necessidade de humildade na sua (nossa) ação.

perseu e medusa

O termo  “humildade” tem em sua raiz “húmus”, que significa matéria orgânica,
a mais rica em nutrientes; ela se forma sobre a superfície terra, e para dela nos
aproximarmos, devemos nos ajoelhar, nos dobrar. Não por coincidência, a meu
ver, a palavra “reflexão” também possui o sentido do fletir-se.  Ao se refletir,
volta-se a consciência em direção a si mesmo. Com isso quero apontar para a
necessidade de observação deste necessário movimento de reflexão humilde.
O fim do mundo, o fim da picada, é não nos dobrarmos a essas verdades seculares.

E vejam que interessante. Em Epidauro, a medicina praticada, idealizada por
Asclépio, era a chamada nooterapia, ou seja, a cura pela mente.
O lugar era um centro cultural e de lazer, composto por um Odéon
(teatro onde se ouvia música e poesia), um Estádio (onde se faziam
competições esportivas de quatro em quatro anos), um Ginásio
(para exercícios físicos), um Teatro e uma Biblioteca com obras de arte.

Teatro Epidauro

Convido o leitor  a refletir onde estão, na nossa forma contemporânea de viver,
essas práticas que apontam para uma inteireza do homem, unindo corpo
e mente, pensamento e sentimento, arte e beleza. A perda desse referencial
harmônico e a constatação de uma visão de mundo e do homem tão
fragmentada, isso não  é o fim do mundo?

__________________________

1] As informações sobre o mito de Asclépio aqui relatado foram por mim
colhidas no Dicionário Mítico-etimológico de Junito de Souza Brandão, Editora
Vozes.

 

 

 Sylvia  Mello Silva Baptista formou-se em Psicologia pela PUC-SP.
É analista junguiana, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia
Analítica, professora de cursos abertos e de formação da SBPA,
coordenadora do MiPA, Núcleo de Mitologia e Psicologia Analítica
da Clínica da SBPA.
Como escritora, publicou “Maternidade e Profissão: Oportunidades
de Desenvolvimento”,  “Arquétipo do Caminho – Guilgamesh e
Parsifal de mãos dadas”, “Mitologia Simbólica – Estruturas da
Psique e Regências Míticas” e “Ulisses, o herói da astúcia”,
todos  editados pela Editora Casa do Psicólogo.

Lançou seu primeiro romance – “Segunda Pedra” – em novembro de 2012 pelo selo Edith.

 

http://www.visiteedith.com/

[email protected]

 

 

02

LOVE ADDICTION por Marilene Damaso

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“Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia e na pele quero ter o mesmo ar que te bronzeia…” O que me afeta? É que ele não chegue agora. É não saber onde ele está. É pensar que ele possa dançar com outra ou mesmo apenas lançar um olhar para outra, mas principalmente que ele desvie o olhar de mim. O sofrimento no território do amor é uma constante. Não há dúvida de que onde está o amor está a dor, não só para rimar, mas para traduzir um enlaçamento paradoxal entre os dois sentimentos, nesta importante dimensão da vida humana.

Na paixão o objeto de amor tem que estar amalgamado ao peito do sujeito num sonho de unidade e completude. Assim ele fortalece a identidade e resignifica a vida. Mas quando alguma distância se impõe entre o eu e o amado, o eixo central do amante estremece, o sofrimento se instala, e a única saída para o apaixonado é correr atrás de seu par como uma droga. Similar a qualquer vício, a abstinência do “outro-droga” não é tolerada. Ainda que gere decepções inevitáveis, a paixão é acolhida por nós como melhor representante do amor romântico, respeitamos a paixão com todo pathos que lhe pertence e todo paradoxo que este estado carrega.

 

Na atualidade, observamos a presença recorrente de outras formas de amor nas quais habitam uma dimensão adicta, cuja manifestação é diferente da paixão. Será que podemos pensar em outras formas de love addiction além da paixão?   O fenômeno adicto diz respeito a  necessidade do individuo  de se apoiar em algum objeto para  existir, perdendo a autonomia e sem possibilidade de escolha. Seguem duas formas diferentes de relações amorosas, ambas ligadas ao campo das dependências:

Primeiro, o fenômeno atual do “ficar”, observado nos jovens, implica numa troca recorrente de parceiros, movida pela busca da sensação de prazer no plano afetivo e/ou sexual. Alguns desses jovens buscam um percurso amoroso baseado na intensidade das emoções que o encontro promove. Quando os fortes sentimentos não se repetem, há uma rápida troca de parceiro. No lugar do desenvolvimento da intimidade está a busca de excitação própria do estágio inicial das estórias de amor. O comportamento adicto tem como objeto de apoio a própria sensação intensa de estar amando e o vício parece dirigir-se para a excitabilidade que a relação amorosa pode gerar.

A dependência nesta perspectiva é do estado amoroso, são indivíduos viciados em amar com intensidade. Aquilo que me afeta é o tédio da minha vida, eu preciso das emoções inebriantes que os meus amores me dão.  Paradoxalmente há um sofrimento do sujeito, que vive uma incansável busca em manter esse amor excitante nas veias. A meta, então, é tolerar o inevitável sentimento da “falta” que produz dor psíquica. A internet e as redes sociais da atualidade servem de palco para o exercício deste tipo de ligação com o outro, que pode ser virtual para o fim que se destina.

Neste tipo de ligação, o amar “até que a morte nos separe” está completamente fora de moda, ocupa este lugar o amor imprevisível, as noites avulsas e intensas, as relações de amor que escoam fluidamente e não ganham contornos definidos. O ideal para este tipo de amor fugaz é que o ciúme seja abolido, mas nem sempre isto acontece.   Enfim, são relacionamentos próprios dos nossos tempos, marcados pela fragilidade dos laços humanos, pela rapidez e urgência que afastam as relações de longo prazo, construídas com solidez e compromisso.

Num segundo tipo de love addiction observamos um comportamento repetitivo e descontrolado de atenção e cuidados do amante dirigidos ao parceiro, junto à negligência relacionada aos cuidados e a atenção a si mesmo. Agrada o parceiro para receber amor e consideração, também para evitar sentimentos de desqualificação ou mais nitidamente de rejeição. Um tipo de relacionamento gerador de ansiedade, decepções, depressão, enfim de profunda dor psíquica.  Apesar do sofrimento que acompanha este tipo de amante, e as evidências de que o relacionamento está sendo prejudicial a sua vida, ele persiste em mantê-lo. Neste quadro a autonomia do amante cede lugar para um aprisionamento ao objeto de amor.

Amor, ou o desejo de controlar o parceiro para mantê-lo perto e imobilizado? Ou apenas uma dependência deste “outro-droga” que é apoio para minha existência? Não está em jogo aqui a intensidade do amor, mas a persistência em manter o relacionamento apesar do sofrimento que ele imprime, mas que  constitui uma âncora para o viver. Aqui, aquilo que me afeta é sentir que apesar de tudo que eu faço ele não me retribui. Sei que ele não me quer, mas não tenho pernas para seguir sozinha. A individualidade, típica dos tempos modernos, caracterizada pelo narcisismo, não encontra espaço neste tipo de relacionamento. A possibilidade de escolha, própria do sujeito, se apaga em nome do apego excessivo ao parceiro.

Os tipos de love addiction na contemporaneidade expressam nossa fragilidade e solidão. Em tempos de vazio e tédio as emoções intensas do amor podem se tornar um vício, um excitante para servir de apoio ao existir. Também o risco de perder o objeto de amor na atualidade é grande, a ética amorosa do amor romântico está sendo rompida cada vez mais, e os enlaçamentos amorosos são feitos com tecidos esgarçados. Frente a este cenário resta ao frágil ego se agarrar a um amor “para chamar de meu”, mesmo que aí morra o sujeito aprisionado. “Porque você não cola em mim? Tô me sentindo muito sozinho…”.

 

foto banner: Elza Tamas
foto 1: Akitoshi Sasakura
foto 3:  Gravura Laura Salgado

 

 

 Marilene Damaso de Oliveira é  psicóloga clínica e  psicoterapeuta junguiana. Estudiosa da psicanálise é mestre em Psicologia da Saúde. Especializada em transtornos da alimentação e dependências comportamentais ministra cursos nestas áreas e publicou artigos sobre estes temas em revistas especializadas.  Atualmente   pesquisa o tema do  amor adicto.

 

[email protected]

 

 

 

 

03

O SEGREDO por Elza Tamas

Se você canta os números da sorte no bingo da sua  cidade,
se você é judeu ou tem azia.  Se  tiver ganhado  o Nobel de
química ou se gosta de roda gigante e depois quer ir ao
carrossel e depois tomar milk-shake e depois ir na montanha russa;
se você mora em Berlim ou se você usa um  chapéu esquisito
e  cuida da segurança do  papa, se sua avó foi escrava;
se você prefere  sentar na janela no avião ou se você
está numa cama de hospital. Se você nunca seca os cabelos
quando lava,  ou se você seca; se o semáforo sempre fecha quando
você chega, e se o verde não  é sua cor. Se você viu demais,
ouviu demais e nunca esqueceu, se você é destro
ou anda de muletas; se doou ouro para o Brasil, se você
sente raiva, ou se você  gosta de ir à feira; se você quando
olha para o céu tem saudades,  se você pesca
peixes, ou prende passarinhos em gaiolas, ou tem
déficit de vitamina D. Se você  tem um plano de saúde que foi
vendido, ou acredita no espírito santo, ou os  dois. Ou nenhum.
Eu tenho uma notícia: você vai morrer. Quase tudo que você faz
é para adiar, disfarçar, fingir que o assunto não é com você. Mas é.
Você vai morrer.

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Elza Tamas idealizou e desenvolve este site

www.forademim.com.br

foto: Mario Bock

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foto banner: Elza Tamas

04

ARTHUR BISPO DO ROSÁRIO: ARTE REPARAÇÃO por Laura Villares de Freitas

 

Viver é muito bom, mas nem sempre é fácil. São necessários outros, pessoas que nos confirmem. Quando a história de vida não nos comporta satisfatoriamente, passamos a depender mais de recursos diferentes. Recolhemos, recortamos de nosso meio, nosso entorno, tudo o que possa nos trazer um sentido, nos nutrir de uma presença, nos confirmar como alguém nesse mundo. Dá-se também o sentido inverso: interferimos no que estiver ao nosso alcance, impingindo-lhe um nome, uma ordem, uma função, marcando nosso espaço. Somos frutos de nossa cultura e, simultaneamente seus agentes, coautores que colaboram com novos elementos e arranjos, mantendo-a dinâmica e viva.

Mesmo em casos  considerados extremos, quando a noção da realidade é tênue, em que se decide por afastar a pessoa do convívio usual e em que há fabulação e/ou alteração das percepções, a busca de um eu que tenha um sentido para sua vida permanece.

Essa foi uma das descobertas de Carl G. Jung (1875-1961), que começou sua carreira profissional num hospital psiquiátrico na Suiça, pouco mais de cem anos atrás. Ali buscava  contato humano genuíno com seus pacientes e percebeu que o sentido da vida é  algo buscado, construído, desconstruído e reconstruído, numa dinâmica incessante  ao longo da vida. É o processo de individuação, que se dá, em grande parte,  graças a uma disposição natural e inata em cada um de nós: a capacidade de
equilibração, busca constante e dinâmica da homeostase, auto-regulação, para a  qual concorrem tambem componentes pessoais e impessoais, relações afetivas, fatores do ambiente, da biografia, e elementos da cultura.

Nise da Silveira  (1905-1999), psiquiatra brasileira, montou ateliês de pintura, desenho, modelagem, marcenaria e costura no hospital psiquiátrico do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Oferecia aos pacientes recursos para uma expressão livre. Os  trabalhos ali realizados comoveram e transformaram vidas. Algumas de suas obras são hoje consideradas arte e alguns pacientes, artistas. Junto aos ateliês terapêuticos, inaugurou-se ali um museu, o Museu do Inconsciente.

Arthur Bispo do  Rosário (19011-1989), sergipano, filho de escravos, ex-lutador de box e ex-marinheiro, acabou se mudando para o Rio de Janeiro. Perto dos 30 anos, sofreu grande crise e acabou sendo internado, com diagnóstico de esquizofrenia. Teve algumas passagens pelo Engenho de Dentro, mas passou mais de 50 anos ali perto, internado na Colonia Juliano Moreira, em Jacarepaguá.

Na falta de um  ambiente favorável e de outros que compareçam significativamente, a capacidade auto-regulatória da psique, expressa no impulso para a individuação, encontra apoio em elementos da cultura.

bispo do rosário

A arte tem enorme capacidade para acolher e promover tal processo. Permite o fluxo criativo entre a impressão e a expressão, entre autor e interlocutor. Manipula materiais e emoções, disparando processos que os transformam. E o produto final é uma obra que pode ser reconhecida como de valor e confere um lugar de pertinência a seu criador. Arthur Bispo montou seu próprio “ateliê” na cela em que ficou confinado por 7 anos dentro do hospital psiquiátrico. Dizia cumprir ordens superiores e divinas, que se  manifestavam numa voz interior, e ter uma missão especial: a de construir o  mundo em miniatura.

Aproveitava sucatas do hospital, desfazia lençois e uniformes para ter fios com que tecer, recolhia objetos descartados. Criava a partir de elementos do cotidiano, organizando listas, catalogando objetos, nomeando e redimensionando aspectos do dia a dia.
Nomeava e enumerava as pessoas que lhe eram significativas.

Fez pinturas, desenhos, bordados, assemblages de objetos e de palavras, “vitrines”. Como um peculiar arquivista, organizava o caos. Desconstruia e construia objetos e classificações, adotava novas perspectivas de olhar e criava diferentes hierarquias. Com isso era simultaneamente criador e criatura.

Bordava frente e verso, sabendo que o ser humano é tridimensional, tem memória, inconsciente, consciência e persona.

Alguns de seus trabalhos são didáticos, informando sobre os esportes, a geografia do mundo, as festas religiosas do Brasil. A maioria deles parece buscar um interlocutor que desconhece as coisas deste mundo.

 Classifica e organiza o mundo humano para que ele se torne inteligível, inclusive pela divindade. Costurou seu “Manto da  Apresentação”, para usar no dia do Juízo Final. No avesso, bordou os nomes de todas as pessoas de sua vida; no lado direito, seus principais signos e   símbolos. Dizia que sua missão seria apresentar a existência da Terra ao plano divino, e para isso trabalhou a vida toda.

        

Buscava atingir a divindade, mas sabia da importância pessoal de seu trabalho. Recusava o título de artista. Em vida, permitiu apenas uma exposição, no MAM do Rio em 1982, mas a ela não compareceu. “Estão dizendo que isso que eu faço é arte. Quem fala não  sabe de nada. Isso é a minha salvação na terra.” (“De Lá para Cá”, tvBrasil, 2011)

Foi postumamente reconhecido como grande artista, tendo hoje a obra exposta no Brasil e no  exterior. Criou-se o Museu Arthur Bispo do Rosário.

Simultaneamente artista de uma época e homem que buscou seu sentido pessoal de vida na expressão artistica, Arthur Bispo nos mostra como a arte é recurso com enorme potencial para colaborar com a autoequilibração psíquica.

Laura Villares de Freitas é psicóloga clínica, analista junguiana; trabalha em consultório há mais  de 30 anos. É também professora no Instituto de Psicologia na USP, onde orienta
teses e outros trabalhos, além de dar aulas. Gosta muito de arte e da natureza.
Tambem coordena grupos vivenciais e faz palestras. Publicou artigos e capítulos
de livros sobre a psicologia junguiana, trabalhos em grupos, psicoterapia,
sonhos e mitos vistos de um ângulo psicológico.

Contato: [email protected] ou [email protected]