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ESCOLHAS ALIMENTARES – O PH ACIDO por Mariana Klopfer

 

E com o pé direito gostaria de dar boas vindas a 2013 e a capacidade que a vida nos dá de recomeçar. Uma das boas coisas da vida é a possibilidade de cair, levantar e recomeçar, mas recomeçar de forma diferente,  mais preparado para os tropeços que nos tiraram anteriormente do caminho que desejamos percorrer e conquistar.

No começo do ano fazemos promessas como parar de fumar, iniciar uma atividade física, mudar hábitos alimentares, mas  depois de algumas semanas ou meses, elas caem na banalidade ou no esquecimento. Muitas vezes achamos que é por falta disciplina ou de persistência, mas na verdade a nossa não continuidade pode estar associada a fatores metabólicos dos quais nem imaginamos, como a acidez metabólica.

Facilmente tendemos a separar a cabeça do corpo e não relacionamos nosso intelecto com nossas respostas metabólicas e vice versa.

Ao falarmos de saúde a primeira coisa a entender é que o corpo é um só e cada atitude que tomamos tem um desdobramento em efeito dominó, interferindo literalmente dos pés a cabeça, em situações que nem imaginamos que sejam resultantes de determinada escolha.

O estilo de vida desenhado por cada um de nós,  influencia diretamente em um aspecto bem pontual, que é o gatilho para um organismo mais ou menos saudável: o grau de acidez do nosso sangue, também conhecido como pH.

Para que ocorra um funcionamento adequado dos processos metabólicos, o nosso sangue deve ser mantido em um pH de 7,4, com pequenas variações entre 7,35 – 7,45, qualquer variação destes valores podem causar sérios danos a saúde, sendo que a situação de acidose (baixa no valores do pH), ocorre mais facilmente do que a situação de alcalose (elevação no valor do pH).

A acidose metabólica é caracterizada quando o pH vai para baixo de 7,35. E o estado de acidose desencadeia  vários processos inflamatórios e outras doenças, pois vírus, bactérias, fungos e parasitas precisam de meio mais ácido para sobreviverem.

Alguns sintomas que podemos apresentar quando o pH está desequilibrado são: cansaço excessivo, dor de cabeça/ enxaquecas, azia, flatulência, arrotos, insônia, retenção liquida- sensação de inchaço, intestino inconstante- prisão de ventre com diarreia, sensação de queimação na língua e na boca e halitose. Também  ganho de peso levando à obesidade, diabetes, pedra nos rins, ineficiência na neutralização de radicais livres – envelhecimento precoce, cabelos e unhas quebradiços. Ainda é um  estimulo para o desenvolvimento de processos de depressão e ansiedade, câncer e parece estar  associado a comportamentos e reações “ácidas”, como raiva , inveja, excesso de julgamento, crítica e ciúmes.

Mas como deixamos o nosso sangue ácido?

A acidose é muito comum em nossa sociedade, pois é um dos resultados do corpo se relacionando com meio em que vive (trabalho, relações interpessoais, alimentação, atividade física) . Nossa sociedade estimula o estresse, a falta de tempo, sedentarismo e hábitos alimentares que tem como objetivo matar a fome e não o fornecimento de nutrientes.

Através das escolhas alimentares podemos potencializar ou amenizar essa acidose. Uma alimentação que contenha de forma habitual excesso de ingestão de produtos de origem animal, carnes em geral, ovos e laticínios integrais, refrigerantes, águas minerais com pH abaixo de aproximadamente 6, café, açúcar refinado, farinha branca, álcool, embutidos, enlatados e frituras, além do adoçante, estimulam de forma considerável um pH sanguíneo mais ácido.

Para amenizar o problema um requisito essencial é ter uma alimentação que forneça alimentos que estimulem um pH mais alcalino, como frutas e verduras em geral , frutas secas , leguminosas ( grão de bico, lentilha, feijão), oleaginosas (nozes, amêndoa, avelã , castanha de caju, castanha do pará).

Vale chamar atenção para o limão, pois é um alimento que tem uma característica inicialmente ácida, mas logo que consumido tem um poder alcalinizante muito eficiente no sangue.

Acredito que,  munidos  destas informações, possamos fazer novas escolhas que nos ajudem a  sustentar nosso  foco desejado:  seja ele a luta com a perda de peso ou mesmo a manutenção dele, ou ainda  aspectos preventivos ligados a saúde e qualidade de vida. Nosso corpo recomeça todos os dias, por que não dar a ele uma nutrição mais adequada aos embates a que ele é submetido diariamente?

 

foto banner: What are you looking – Victoria Ivanova

 


Mariana Klopfer é  nutricionista formada pela Universidade de São Paulo, com
estágio no laboratório de estudos integrados de psicologia, nutrição e atividade
física da Universidade de Leeds, na Inglaterra. Membro do laboratório de
Nutrição e Metabolismo Aplicado a Atividade Motora EEFE-USP desde 1998.
Proprietária da empresa Nutricius desde 2003.

www.nutricius.com.br

[email protected]

 

 

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O INÍCIO DO INÍCIO por Elza Tamas

 

Era leite, a vida bateu, bateu, virei manteiga. Isso foi ontem; agora nem sei mais do que sou feita. Uma única laranja ácida pode me azedar. Parece que muda, mas é igual.

Uma vela que acende outra vela, que acende outra vela, que acende outra vela. Uma sequência de containers colados um no outro, uma coisa depois da outra, e mais outra, como os pensamentos que sempre se sucedem, sem trégua, sem um lago calmo no meio deles, sem pouso. Tudo se repete e repete, limitado a apenas meia dúzia de respostas; meia dúzia de sulcos cravados na planície gelada e branca das nossas possibilidades. Meia dúzia de condicionamentos prontos a nos capturar; driblamos aqui, escapamos ali e sem nos darmos conta, escorregamos para a vala comum do automatismo.

Recomeçar ou repetir?

Escalamos mediocridades, empurrando morro acima pedras enormes, pesadas, densas como são os nossos medos e nossas esperanças. E nos exaurimos porque o esperado  nunca se cumpre, e do vazio do esforço não recompensado, vem o impulso de tentar novamente. 
É digno e maduro experimentar, aprender com o erro, ir em frente, dar a volta por cima. Mas só suportando a ambiguidade do momento presente com delicadeza, na experiência do tom que ele pode nos oferecer, sem buscar responsáveis pelos nossos desconfortos, sem acreditar em seguranças utópicas, e finalmente desistindo, mas desistindo até nos sentirmos enfastiados de tanto querer desistir, só assim, e só aí, é possível recomeçar.

 

foto banner: Walking on egg shells / Clic Chic

 

 

 

Elza Tamas idealizou e desenvolve este site.

 

 

 

 

 

 

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PROJETO 365 por Cassia Aresta

Projeto 365

NO ROTEIRO INEXORÁVEL DE NOSSAS VIDAS, O COTIDIANO PASSA A SER O CAMINHO MAIS ARDUAMENTE FÁCIL DE VIVER.

Recomeçar todo dia uma obra, para persistir em um projeto de um ano, foi o que nós três como artistas, Cassia Aresta, Helenita Peruzzo e Rosa Grizzo, nos propusemos a fazer: uma obra por dia. Um calendário, um diário, um calendiário de pequenas obras. Cada uma tinha 10x10cm. Uma obra por dia, um fazer por dia, e somando os dias chegamos a um ano.


Persistir o fazer é algo que nos faz suar. Suar de medo, porque temos que refazer o que já foi eleito como feito; suar fisicamente porque dá trabalho em se recriar todos os dias. Então cada obra se tornou uma grande obra após um ano.

 

 Todas foram necessárias, mesmo os dias faltosos representaram este fazer, ou o não fazer.

Assim fomos realizando este projeto, que no dia a dia em nossas mãos, individualmente, parecia tão pequeno e que se agigantou colocado nas paredes dos espaços expositores. Mostrou o esforço comum como um todo. Mostrou três artistas que foram atrás de um projeto e concretizaram. Não desistir por mais perverso que seja o não fazer, que sempre nos acolhe em coisas supérfluas e fáceis de serem digeridas.

O não fazer que nos afasta de ideais, de metas, de sonhos, de realizações. Uma obra por dia, falando parece ser muito, e era o que espantava as pessoas quando olhavam a exposição. Se propor a fazer todos os dias algo por um longo tempo, nestes tempos tão efêmeros, para muitos é um grande sacrifício, para nós foi um conquista individual como artistas.

Mesmos os dias em que eu não executava a obra, ela era feita mentalmente. Parava por uns dias, seguia um ritmo que me era sugerido pelo meu fazer diário, e retomava depois. Não desistir, era o grande desafio. Até hoje mentalmente refaço algumas obras, quando olho algum dos temas a que me propus naquele ano.


Ficou uma vontade interna de repensar, de refazer, de se recriar, de se comprometer com um processo que às vezes embora penoso, como citei acima, tem um lado extremamente gratificante. O resultado de ter vencido marés contrárias ao nosso viver. E viver é remar mesmo contra a maré. Porque se deixar levar pela correnteza é perigoso. Vamos parar todos no mesmo lugar comum. E o que nos diferencia um dos outros é o que nós somos individualmente.

Recomeçar todo dia uma obra, recomeçar todo dia a viver de uma maneira criativa. Vale a pena refazer.

fotos banner 1 a 8 – Cassia Aresta/ projeto 365
foto 9 –   foto parcial exposição projeto 365 – 
de cima para baixo:Cassia Aresta, Helenita Peruzzo e Rosa Grizzo 

 

 

Cassia Aresta  é artista plástica e reside em Florianópolis. Estudou com Tuneu, Dudi Maia Rosa, Paulo Pasta entre outros. Participou de exposições coletivas e individuais no Brasil e no exterior,  entre elas:  
Exposição Planété Óuverte, Prefeitura de  Ganties, França./Planété Óuverte, Prefeitura Saint Gaudens, França; Exposição Palmo Quadrado, Palmo Quadrado, Museu of Latin American Art, Califórnia/ Conneccticut College, New London, Connecticut./ University Art Gallery, Sonoma State University, Rohnert Park, California; Projeto 365 MAC Paraná, Curitiba, PR./ Cidadela Cultural Antártica, MAJ, Joinville, SC./ 2º Bienal de Artes Plásticas Brasileira de Bruxelas./ MHSC Museu Histórico de Santa Catarina, Florianópolis, SC./ SESC Pinheiros, São Paulo, SP./ Centro Cultural da UFMG, Belo Horizonte, MG./ Contemporary Art Museum, CAM, Casoria, Itália./ Centro Cultural Sergio Porto, Rio de Janeiro, RJ.
6º MOTIVO Casa das Rosas, São Paulo, SP; Exposição Círculos, CCSP Sala Mario Pedrosa, São Paulo,SP./ Museu de Arte de Santa Catarina, Florianópolis, SC./ Cidadela Cultural Antártica, Joinville, SC. Exposição Correspondência Instituto Goethe, São Paulo,SP./ Bayer do Brasil,São Paulo, SP./ Mônica Filgueiras Galeria de Artes, São Paulo,SP,/ Goethe Institut, Frankfurt, Alemanha./ Goethe Institut, Bordeaux, França. Marcas Indeléveis, MUnA, Uberlândia, MG.

 

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A IMPERMANÊNCIA NO MUNDO CORPORATIVO por Cristina Aiach Weiss

 

O trabalho dá sentido à vida, enobrece o homem, sua alma e lapida seu caráter. É fonte do nosso sustento e daqueles que dependem de nós. Trabalhar é sentir-se útil,  alimentar o intelecto, progredir; é a oportunidade de contribuir, se relacionar e deixar um legado. E de preencher o vazio inerente à existência humana.
O excessivo apego ao trabalho pode colocá-lo muito além do seu papel principal. Para alguns, passa a ser a confirmação do próprio valor como ser humano, a afirmação do ego e veículo para o exercício do poder e influencia. A busca obcecada pelo reconhecimento da imagem e não necessariamente da essência.

A alta cobrança pela produtividade, o avanço contínuo das novas formas de conexão e interação com o mundo, o convívio de várias gerações no ambiente do trabalho, e responsabilidades sendo atribuídas aos emergentes e não necessariamente aos mais experientes, confirmou ao homem o fim da estabilidade do emprego e a chegada, sem partida prevista, da ameaçadora impermanência.
Cada vez mais, no ambiente corporativo, tornou-se alta a probabilidade de se encerrar o vinculo de trabalho, repentinamente.
Por mais que julgue estar contribuindo no seu melhor, comparecendo diligentemente à rotina imposta pelas funções administrativas, em algum momento, quando menos se espera, a soberania corporativa determina que sua contribuição não é mais necessária e relevante. Você é então convidado a se retirar e em algumas horas, estará fora. Em 48 horas, poucos se lembrarão de você e a rotina corporativa retornará ao seu normal, sem a sua contribuição.
O seu mundo imaginário desaba. Aquele universo seguro e constante, em um segundo, se torna inexistente. Embora a alma celebre em silencio, o ego insiste em contrariá-la, clamando por uma explicação além das ofertadas superficialmente.
A partir do próximo dia, ao acordar, você terá de decidir para onde ir. A escolha do que fazer com seu tempo retorna ao seu poder. Uma sensação de alívio percorre sua espinha dorsal, o peso de manter aquela imagem não mais te acompanha. Mas a dor da rejeição, da perda da estabilidade, do status e poder, não permite qualquer entusiasmo.
O sofrimento surge do ego contrariado, da perda de importância, de não se sentir-se mais necessário, e não da perda do trabalho em si.
Aí se inicia o trabalho de reconstrução. Da reforma da autoimagem, às inúmeras explicações aos curiosos de plantão.
Viver um período sem trabalho, pode ser viver o vazio da alma na busca de um sentido. Por isso a experiência pode ser muito mais positiva do que se imagina. É na busca incansável pelo sentido que encontramos os novos caminhos, é no vazio que criamos o novo e recriamos a nós mesmos. Não conseguimos plantar uma semente nova num vaso entupido de raízes e folhas. Limpar as folhas secas, eliminar as ervas daninhas, diminuir os ocupantes daquele espaço para poder replantar. O trabalho do jardineiro é minucioso e necessário.
O termo tibetano “bardo” significa “entre duas coisas”.  Indica o intervalo entre um ciclo que terminou, marcado por um início e um fim definidos, e outro que ainda não se inaugurou.
A saída brusca de uma atividade profissional, necessariamente implica na passagem pelo bardo; o intervalo entre o que foi e o que ainda será. Viver o vazio entre os dois mundos, requer um esforço extraordinário, mas as recompensas são inúmeras.
Por muito tempo, sofri com os processos de despedida no mundo corporativo. Até que vivi eu mesma, um processo de separação profissional. Descobri a beleza do recomeço, o orgulho de conseguir superar a minha própria dor e meus fantasmas. Surpreendi-me com os inúmeros caminhos que se abriram a minha frente. Celebrei as novas amizades que surgiram e a compreensão madura e evoluída que adquiri sobre a dor e as partidas. Concluí que o que importa é o superar-se internamente e não o que é dito, visto e demonstrado externamente. Esse e outros aprendizados me conduziram a novos voos com diferentes panoramas e recomeços.
A cegueira na leitura do próprio estado emocional pode reabrir um ciclo que já se encerrou. Quão necessária é a atenção e a lucidez no momento da dor e da dúvida, para que se compreenda o que precisa ser aprendido. É preciso coragem para olhar além do visível e encontrar o que está escondido por trás das facetas do ego.
Deveríamos estar em eterno estado de recriação de nós mesmos. Uma contrariedade, uma opinião que desafia a sua, um obstáculo para que você realize algo, uma crítica, uma partida ou ruptura são convites para repensar nossa verdadeira intenção e forma. Sempre há oportunidades de mudar o ângulo de um pensar rígido, de enxergar algo novo ao invés de somente ver, de dizer a mesma coisa, porém de uma outra forma, de ouvir mais para descobrir o que não é dito. Mesmo não tendo todas as respostas, é preciso reinventar-se, rever-se, desintoxicar-se continuamente para ofertar algo de novo para o mundo e para si mesmo. O desapego a padrões já solidificados é uma porta para a liberdade.
A cada momento, estamos afirmando hábitos que nos levam a calcificação de um caráter. Uma despedida é uma oportunidade para libertar-se. Um confronto é outra. O vazio é um convite à inovação. O silêncio é um impulso à profundidade. A separação externa pode ser o caminho para uma união interna.
E ainda no início de um novo ciclo pergunto a mim mesma: o que o ano novo irá nos trazer? E respondo em silêncio: 365 oportunidades.

 

 

 

foto banner: Dragan Lapcevic-  Concrete Island
foto 1- Tommy Ingberg – Balance
foto 2- Pahontu Daniel Gabriel- Spoked wheels
foto 3 – J. Ota – Face off
  

 

 

Cristina Aiach Weiss é formada em administração de empresa pela FEA/USP com especialização em gestão de pessoas pela Universidade de Michigan e FGV. Atualmente é Diretora de Recursos Humanos para a América Latina em um banco alemão. Formada em coaching executivo, intermediação de conflitos e técnicas interrogatórias, é casada e tem uma filha de 5 anos. É idealizadora do site
www.thenewlife.com.br

 

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MORROS E NASCENTES por Elidia Novaes

 

                                                                     Para Noemi

 

Calíope foi a musa da poesia épica, da ciência em geral e da eloquência. É a mais velha e sábia das musas, por vezes considerada sua rainha. 

 

Primeiro, pensei num homem que deixava as terras planas da Holanda e se mudava para Paraty, entre morros e nascentes. Até porque, na Holanda, as únicas montanhas são as russas. Morro? Só de tédio. E o homem resistia à revolta baixa de um país idem, e atendia quando alguém o chamava de Alemão.

Depois, me veio um mendigo que preferia caminhar pela faixa amarela das ruas, buscando evitar calçadas, semáforos e sarjetas. E para ter a sensação do sem-fim.

Surgiu a imagem de um supermercado lotado no horário de fechar. E uma mulher desesperada correndo por entre as gôndolas, que a iam cercando num labirinto, impedindo a passagem de seu carrinho. E ela desabalada em direção à fileira de caixas, com as compras nas mãos, debaixo dos braços e nos dentes. À sua volta, um coro cipriota, que não teve competência para ser grego.

Aí, apareceram dois cavalos: Relevante e Pertinente, cada qual mais garboso que o outro.

Ué, foi para isso que eu chamei a musa?

Toreador, en garde!

Ela disse que nunca mais. Deu-lhe as costas e saiu andando. Ele ficou parado por uns segundos e seguiu na direção oposta com ar incrédulo. Ela se virou a tempo de ver enquanto ele se afastava. Jogou fora o número de telefone e entrou cabisbaixa na estação de metrô. Nessa hora, ele olhou para trás novamente e já não a viu mais. Nunca mais.

Palavras começadas com J: juventude, janeiro, joia, janela, Juventus, já, jusqu-à.

Uma mulher é atropelada. Ouve o som de ossos quebrando. Atravessava a 23 de Maio e caiu entre a faixa 2 e a 3, quase chegando à Tutóia. O trânsito se congestionou e todos queriam ver sua cara, reduziam, paravam, tiravam foto, filmavam. Ali da faixa 4.

Um casal onde a esposa fosse a Rose e o marido tivesse o apelido de Feijão? A Rose e o Feijão?

Nessa hora, chamei Calíope de lado e lhe disse: “Pega leve, caramba! Ideias até vêm fácil; difícil é fazê-las ficarem paradinhas com tempo para a gente jogar o laço e se apossar!! Calma, meu”.

Não adiantou. Dois homens papeavam na padaria. Um deles disse que Fulana não está com ele pelo que ele é, mas pelo que pode oferecer a ela. Aí, contou que tinha pagado a moto em 36 meses.

Em minha mente, um lanço de tainhas. Primeiro, um espia fica no alto da pedra até ver um cardume. Centenas de tainhas prateadas, rebrilhando entre o sal e a maresia. Ele acena e indica o local. Duas canoas, cada qual com uma ponta da rede. Em cada uma, um camarada rema e o outro vai soltando a rede até as duas pontas chegarem à praia. Muita gente na areia. Todos puxando a rede, arrastando o cardume para o raso. Mas as tainhas são peixes tinhosos e pulam por cima da rede para o mar. Até que é uma briga justa.

A essa altura, já eram 6h30 e os ponteiros moviam-se acelerados, Junto com a minha respiração. Quase um quarto para as sete e nada de uma história consistente.

Um sujeito recebe um tiro no olho. A bala se aloja no cérebro e ele fica cego. A última imagem que guarda é a do atirador e o oco no cano da arma.

Do nada, um personagem chamado Elisabeth.

Calíope, você está de sacanagem comigo. Hablas francês? Slow down, cacete!

Um homem toma um bimotor com o caixão da mulher. O avião cai, ele morre e só restos do caixão são encontrados.

Mais dois personagens?! Robocóptero e Breikiven??

Palavras em pares talvez sejam mais fáceis de adestrar: erotismo sintético, travessa gulosa, locomotiva triangular. Não… suponho que não.

Italianos apaixonados por pudim de leite condensado.

A essa altura, minha mão escorregava de suor.  Espera um pouco! Eu anotava tudo em folhas de papel, no rótulo de uma caixa de fósforos, na palma da mão, guardanapos, na parede. Oh, caneta, isso é hora de falhar?!

Doeram. E lá ia ele de novo. Tinha abandonado as bolas de gude e o estilingue, e agora trazia uma torta que fazia sua mão parecer redonda e cremosa. Vinha erguida e apontando para ela, que achou melhor dar no pé, embora isso não estivesse coreografado. E ele atrás dela pelo picadeiro. Ela sentia um líquido quente escorrendo do supercílio. Até então, pensava que só boxeadores tinham supercílio, mas ainda podia ser suor… ou sangue. Melhor não ficar ali para descobrir, muito menos para conhecer o recheio da tal torta. Ela abanava os braços, pedindo socorro, enquanto subia a arquibancada. As crianças gritavam, mas não dava tempo de descobrir se de pavor ou riso. Seu figurino já se enganchava nas pernas e a maquiagem tinha se tornado um borrão, a peruca caía por cima de uma orelha e ela só tinha por defesa um girassol de lapela que espirrava água.

E pensei num homem que deixava as terras planas da Holanda.

                                   

 foto banner: David Hockney – Dwintertunnel

 

ELIDIA NOVAES

Escrevo, reviso, traduzo, às vezes ensino. Já geografei, já comuniquei, já pesquisei, já bailei, já florete-ei. Sou filha, tia, irmã e cunhada. E amiga, bem amiga. Adoro escrever, mas ainda não sou escritora. Talvez seja dramaturga, isso também está sub judice. Viajo menos do que mereço ou gostaria. Trabalho mais do que mereço, embora goste. E rio, sempre que possível; às vezes mesmo sem essa condição.
http://nocaminhoparaca.blogspot.com/
http://viagensdaelidia.blogspot.com/

 

 

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RECOMEÇOS por Lina de Albuquerque

Um acidente arrastou toda a minha família para a névoa

de uma tarde chuvosa do começo de 1996. No dia 2 de janeiro,

um caminhão se chocou na estrada contra o carro em que

estavam meu pai, minha mãe, meu único irmão e um amigo

da família. Morreram todos. Depois do trauma, continuei vivendo

com bem poucas e cada vez menos certezas, entre elas

a de que jamais encontraria explicação para a tragédia que

se abateu sobre o meu destino. Devo dizer que nunca cultivei

amargura nem deixei de celebrar a vida. Também não fiz estardalhaço

da dor. Procurei manter — senão oculto, pelo menos

em silêncio — um desespero contido que com o tempo

foi se diluindo em lembranças de uma família especial com a

qual convivi durante 31 anos.

Quando o editor Luís Colombini me convidou para discutir

com ele, numa mesa de restaurante, o projeto de um livro

contendo depoimentos de perdas, viradas e superações, eu já

levava uma resposta para ser servida depois do café. Estava

decidida a declinar do convite, naturalmente sem estragar

o jantar. Mas quis ouvir mais detalhes da proposta que ele

me mandara antes por e-mail. Talvez por tudo o que passei,

e também pelos nunca lidos manuais de autoajuda levianamente

otimistas que ganhei de gente bem-intencionada, não

me sentia a pessoa mais adequada para colher depoimentos

com conteúdo tão sensível. Teria preferido que ele me convidasse

a escrever um livro cômico. É paradoxal, mas sempre

gostei de fazer os outros rir. E acho que também gosto mais

dos tipos que me fazem rir.

“Você é a pessoa certa para fazer este livro”, sentenciou

um confiante Colombini, antes mesmo de chegar o couvert.

Eu não perguntei e ele também não revelou por quê. Não

precisava. Sem falar nada, foi então ficando claro para mim

que os motivos que me faziam desistir de um projeto como

aquele eram os mesmos que fizeram com que ele me convidasse

para a empreitada. O próprio Colombini era, naquela

noite, a personificação do entusiasmo. Ele havia recentemente

trocado uma longa e promissora carreira na grande

imprensa para assumir o risco de viver do que mais gostava

de fazer: editar e escrever livros. Meu futuro editor também

estava se reinventando. E, antes de pedir o cardápio, despejou

na mesa uma lista de sugestões de nomes que poderiam

entrar no livro que nasceu batizado de Recomeços, título

que a princípio me soou meio clichê, mas depois

me levou a rever um bobo preconceito pseudoliterário contra coisas

simples,diretas e claras, justamente a essência do bom jornalismo.

Eu me lembrei do caso de uma antiga cozinheira

da casa de meus pais que aprendeu a ler aos 51 anos.

O método adotado foi colar, numa cartilha improvisada com

papel de pão, os recortes dos dizeres das embalagens dos

produtos que usava para trabalhar. Maria França, o elegante

nome daquela ex-cortadora de cana, oito filhos e 18 netos,

acabou ficando de fora deste livro. A sua saga não seria

menos surpreendente do que a de um desses 26 depoentes,

como o pedreiro e coletor de livros que se alfabetizou aos 18

anos e ganhou apoio do BNDES para construir uma biblioteca

com projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer.

Que fique logo esclarecido: naquele jantar, antes da primeira

garfada, eu já tinha mudado de ideia. Mal topei o desafio,

corri atrás dos depoimentos iniciais. Tive o privilégio

de ouvir ao vivo histórias extraordinárias de superação, cuja

tônica pode ser expressa em uma frase de Georgette Vidor,

a técnica de ginástica artística mais premiada do país:

“Quanto maior o limite, maior o desafio”.

Georgette Vidor

Os limites podem ser físicos, como no caso de Georgette,

que perdeu o movimento das pernas num acidente de ônibus,

 ou sociais, como de Luislinda Santos, primeira juíza negra dos tribunais brasileiros.

Filha de uma família humilde, a juíza baiana foi humilhada

na infância por um professor que, diante de toda a

classe, disse-lhe que era melhor ela “parar de estudar e servir feijoada em casa de branco”.

Luislinda Santos

Sou grata a todas as pessoas que se dispuseram a abrir a

agenda e a alma para falar de momentos difíceis de suas vidas,

assim como a José Hamilton Ribeiro, um dos mais respeitados

jornalistas brasileiros, que gentilmente se ofereceu

para escrever seu depoimento de próprio punho.

Danuza Leão

Tive também recusas, como a de Danuza Leão, que afirmou

ter esgotado o assunto da morte do filho Samuca no seu

livro de memórias Quase tudo (Companhia das Letras, 2005)

para, lembro que falou com peso na voz, “nunca mais ter de

voltar a ele”. Marina Lima também considerava terminada

a sua “missão”, para usar uma palavra da sua assessora, de

contar ao público como controlou a depressão que quase reduziu

a pó o seu principal instrumento de trabalho: a voz

de cantora. O publicitário Washington Olivetto não se sentiu

confortável ao recapitular o sequestro que o manteve 53 dias

num cativeiro, mas fez questão de enviar sua contribuição:

a cópia da orelha que escreveu para um livro de autoria de

quatro médicos (Sergio Andreoli, Marcelo Feijó de Mello,

Jair Mari e Rodrigo Bressan) especializados em estresse pós

traumático. Olivetto foi considerado pelos especialistas um

“recuperado-símbolo”. Ele ameniza a sua responsabilidade:

“Sinceramente, como nunca me considerei completamente

são, nem antes, nem durante, nem depois do episódio, não

posso me considerar absolutamente curado agora. Por fim,

recomendo a leitura do livro que se parece, e muito, com a

vida: não é fácil, mas é fascinante”.

Washington Olivetto

Entendo e respeito a opção pelo silêncio. Eu mesma costumo

falar pouco sobre a drástica experiência por que passei.

Hoje já posso falar um pouco mais, falo o tanto quanto

me perguntam, o que ainda é pouco.

Não esgotei o tema nos divãs, onde aliás nem me deitei

com desejável assiduidade, nem no ombro de amigos fiéis.

 O que fiz foi ter praticado bastante exercício físico — sou

 viciada em endorfina — e aumentado os vínculos com a vida:

 amigos, amores, viagens, leituras, praias, cachoeiras.

Com o tempo, ainda me permitia o prazer do ócio: perdendo a

culpa de muitas vezes não fazer nada, reduzi a ansiedade e

 transformei tempo perdido em tempo recebido.

Jogar conversa fora é tão bom quanto jogar cartelas

de antidepressivos e ansiolíticos no lixo, quando

finalmente é chegado esse tempo.

Quando terminava de escrever este livro, tive a sorte de

conhecer a médica e terapeuta Vânia Aguiar. Na esperança de valorizar

o livro, convidei-a a conversar sobre depoimentos aqui contidos.

Ela aceitou e suas palavras em muito enriqueceram o

conteúdo dos textos. Em seus comentários, ela usou certos

termos que, devo confessar, continuam me causando alguma

implicância, como “processo de cura”, “autodesenvolvimento”,

“resgate da individualidade” e outros afins do misterioso

dicionário terapêutico. Mas agradeço a ela por ter me reconciliado

com outra palavrinha que antes julgava pernóstica e

agora se tornou quase minha amiga: “resiliência”. Para quem

não conhece o significado, que é derivado da Física, resiliência

é a capacidade dos corpos de recuperar sua forma original depois

de um forte impacto, uma deformação, um trauma. Este

livro está cheio disso.

Jerome Salinger

O escritor Jerome D. Salinger autor de O apanhador no campo de

centeio,uma metáfora da perda da inocência e um dos livros que

 marcaram minha adolescência, disse que as pessoas que mais valiam

 a pena conhecer já tinham perdido alguém importante.

Eu tenho amigos bem jovens, com quem

adoro conviver, que ainda não perderam nada de significativo

na vida. É claro que gostaria de ser como eles. Há um

atraente frescor em quem ainda não aprendeu — se é que se

aprende — a fazer despedidas, da mesma forma que existe

um fundamental sentimento de conquista para quem “conseguiu

seguir em frente de cabeça erguida”. Relendo essa

última expressão, o jargão me incomodou. Mas alguém conhece

uma postura mais confortável e profilática de tocar em

frente sem perder a cabeça?

 

 

Lina de Albuquerque completou o curso de Jornalismo na PUC-SP e deixou pela metade o de Filosofia e um mestrado na USP. Trabalhou nas revistas Veja, Claudia e nos jornais O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil. Foi subeditora de IstoÉ e editora da revista Marie Claire, onde ganhou o primeiro prêmio Ayrton Senna de Jornalismo, com a reportagem A Dança das Severinas.

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Sasa Cuka - recomeços (2)

18a. EDIÇÃO – RECOMEÇOS

 

Estamos de volta com  a 18a. edição, RECOMEÇOS.

Tempo de juntar forças, avaliar, se despedir do desnecessário, arregaçar as mangas e seguir em frente.
Lina de Albuquerque, Mariana Kopfler, Cristina Aiach, Elidia Novaes,
Denise Vieira Ieno, Gustavo Nassif e Cassia Aresta,

nossos convidados nesta edição,  trouxeram suas  perspectivas
sobre os desafios dos novos inícios.

Confiram e compartilhem, é muito bom reiniciarmos juntos.

As edições anteriores estão na barra vermelha, na parte inferior do site, onde estamos construindo nossa história

 

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