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CATEDRAIS por Regina Datti

 

 

Da luz secular desaba uma paz desconhecida e lágrimas sem respostas. A existência perambula silêncios vertiginosos. Gratidão plena, Sagrada Família de um Gaudí obstinado e fervoroso.

 

Atravessa a ponte aquecendo a voz para o ensaio de Aida. Deixa um rastro idílico no calçamento medieval. Alheia aos turistas, mendigos e gaivotas quebra o eco azul. A sagração de um ritual, o canto como redenção.

Os vitrais de Sainte-Chapelle emudeceram a primeira apresentação. Sempre acreditou na possibilidade do avesso, herança de uma família de crença absoluta no poder dos sonhos e na sacralidade da alma humana. Múltiplos olhares e orações. Toda benção é bem-vinda, qualquer que seja.

O canto gregoriano espalha-se por colunas góticas, esculturas míticas, verdes aquarelados e ouros envelhecidos. Sua voz une-se ao coro e impõe-se aos flashes. Impossível o registro da reverência. Espirais onipresentes levam ao alto de cúpulas ornamentadas com anjos e demônios. Ela fica com os seus.

Batinas deslizam pelo mosaico de pedra seguidos do assombro por histórias perpetuadas em afrescos. Primeiro recital em Assis. Nenhum vestígio do terremoto de um ano atrás. No túmulo de São Francisco um homem reza deitado no chão. Mulheres e o pranto de velas brancas. O vento rodopia freiras em peregrinação. Labirinto de enigmas em caminhos ornados de flores púrpuras.

O campanário marcou a hora da partida, deixou Óbitos ainda menina. Na bagagem a poesia de Pessoa é o rito diário. Ele já se foi mas seus santos repousam na cômoda profana. Seu pai e suas liturgias acompanhadas da onipotência de Maria Callas.

No verão o coral florentino e a solista passaram o domingo embalando cálices de Água Benta e a Imagem da Virgem; sacerdotes abençoavam pães, vinhos e lagostins. Celebração da vida nem sempre eterna.

A oliveira aponta o local da explosão que ceifou o grupo de estudantes. No bronze, além de nomes, o repúdio da descrença. O canto é de ausências.

Contempla catedrais, quietude e vazios. Entre acordes e harmonias tece a própria prece. Da luz secular desaba uma paz desconhecida e lágrimas sem respostas.

 

 

foto banner: Sagrada Familia( internet)
foto 1: Sagrada Familia- Regina Datti
foto 2 e 3: Sainte Chapelle ( internet)
foto 4: Regina Datti

 


Regina Datti
é produtora cultural. Escreve, pinta e rabisca.
Participa com um conto no livro “336 horas”, lançado em junho de 2013.

foto: Mario Bock

 

 

 

 

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Adão e Eva, a Serpente e Nossa Senhora das Flores- o teatro do desejo por Regina Datti

Uma    
peça em 3 atos.

Primeiro Ato  

A montagem de Nossa Senhora das Flores, de Jean Genet, leva as
últimas consequências a paixão, o desejo, a poesia e sua redenção maldita. A
imagem do juiz desnudo com seu falo e seios nus, no palco de luzes sépias do
Teatro do Bexiga,  se cristalizou na minha memória. Estou chegando aos 50, assisti aos 20 e continuo extasiada com o lirismo e a força abissal de suas palavras . “Nossa Senhora das Flores, é considerada a obra-prima de Genet e  Sartre julgava, ao lado do Ulysses de Joyce e da obra de Jean Giradoux, uma das “três grandes obras medievais do século XX”.*    

Sob um sol negro, entre a solidão e sonhos,  desejos são sacralizados.

 

Segundo Ato

Diário Íntimo de Adão e Eva de Mark Twain. Uma  breve alegoria do encontro do primeiro homem com a primeira mulher. Deus criou
Adão, mas não era bom que ele vivesse sozinho e assim deu vida a  Eva. Iniciava-se então,  o drama e a comédia: amor, ciúme, ódio, líbido … Diálogos,  conflitos e  situações vividas no paraíso, pelo primeiro casal do  mundo, se revelam  neste texto. A fala final de Adão: “ Onde quer que ela estivesse, ali estava o Éden.”

 

Terceiro Ato

A Serpente é o último texto para teatro  escrito por Nelson Rodrigues. Duas irmãs que se casaram no mesmo dia, na mesma
hora e na mesma igreja. Uma, feliz no seu casamento, oferece o seu marido à  irmã infeliz, por uma noite. A partir desse ato, surge um conflito rodrigueano:  a tragédia decorrente da ruptura das regras morais da sociedade. O desejo mora  ao lado.

 

Final

 

Templo sagrado, abençoado por Dionisio e  infindáveis deuses, o teatro é um ofício de prazer por excelência.  No
palco não há lugar para censores. A vida se revela com todos seus  demônios, marginais, heróis, e o homem nos
seus anseios mais primordiais. Agonia e êxtase. Só os desejos são imortais.

 

* Carlos Eduardo Ortolan Miranda – O destino libert’ario de Jean Genet – Revista Cult -Edição 66

fotos em PB 2,3 e 4 – Teca Cunha Santos

Regina Datti é  produtora, escritora e arteira. Casada com Bob , mãe da Briza e
do Hares.