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Metrô e os animais que nos habitam

Metrô – Trabalho de Alessandro Gallo no pavilhão italiano da Bienal de Veneza.

 

Três metros lineares  e vinte e um personagens enfileirados, capturados no dia a dia na northern line do metro de Londres.

Gestos, roupagens  e uma psicologia  sutil em cada um  deles.Como se o mais interno, o segredo pessoal que deveria ficar oculto, se revelasse  numa face animal que só é vista pelo outro.

Impossível não reconhecer o  vizinho, a amiga,  o marido, o chato  ou  a si próprio.

Divertido e tecnicamente muito bem resolvido.

 

 

Foto comprada em Feirinha

Múltiplos somos, por Eduardo Muylaert

Eu levo uma vida dupla. Que impulso me teria levado a comprar distraidamente, por dois euros, o bottom escolhido entre tantos outros numa cesta sobre o balcão de uma loja de bobagens em Paris?J’ai une double vie. Mentira. Advocacia e fotografia não são senão duas formas de atividade, entre tantas outras. Um é pouco, dois é bom, três é demais, diz a sabedoria popular. Falso de novo. Para Cartier-Bresson, a imagem é muito mais interessante quando pega três figuras ao mesmo tempo. Vejam, confiram.
Quantos botões com os mesmos dizeres haverá em circulação? Milhares. Mesmo que não fossem tantos, trata-se de um múltiplo. O múltiplo como clone, certo, que é a repetição mecânica do mesmo. Assim se cunhavam as moedas na Grécia antiga. Na arte contemporânea, o múltiplo é uma obra de arte editada em vários exemplares, permitindo preços mais razoáveis e pondo em questão o dogma da unicidade.
Um clichê de Daguerre era uma peça única, irreprodutível. Em 1839 custava 25 francos-ouro, qual uma joia. Uma monotipia de Mira Schendel é peça única, mesmo que integre uma série de mesmo motivo. Walter Benjamin foi o primeiro a examinar em profundidade a questão da obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica.

O que faz da Monalisa a Monalisa? Numa época o Louvre quis proibir os visitantes de fotografar o quadro, protegido atrás de vidro blindado, o que já torna a tarefa bem difícil. Uma jovem uniformizada gritava para a fila: No picturres, please. Não adiantava muito. Desistiram.

Todo mundo pode ter uma Monalisa em casa. Há milhares de reproduções da Gioconda, de cartões postais a sofisticadas telas. Mas a figura mágica, marcada pela suposta autenticidade, está no Museu. Será mesmo o quadro de da Vinci, ou uma cópia? Os adoradores nunca saberão, nem querem pensar nessa hipótese. Quando a pintura foi roubada, enormes filas se formavam para ver o espaço vazio onde antes se encontrava.

A lanterna mágica, inventada no século XVII, foi a precursora do projetor de slides. Após a invenção da fotografia, era usada na escola ou nas famílias inglesas para projetar quadrados de vidro de cerca de 10 centímetros. Assim era apresentado o mundo, a geografia, as colônias, os povos exóticos. A multiplicidade como diversidade, mas também como soberania. A visão de mundo cunhava o Império.

David Livingstone levava uma lanterna mágica na sua expedição à África (1858 – 1864), que servia para exibir a superioridade da tecnologia europeia. Também levava câmeras e montava um laboratório, a fim de registrar o continente negro. Mandava os outro fotógrafos captarem os melhores nativos, de preferência homens, mulheres e crianças reunidos.

De manhã me olho no espelho e vejo uma imagem que vai variando, dia após dia, ano após ano. É o múltiplo cronos, sou eu mesmo, mas sou um a cada década, a cada paixão, a cada momento, a cada perda, a cada mês, a cada lapso, a cada minuto, a cada impulso. Por melhor imagem que tenha de mim, sei que sou Dr. Jekill e Mr. Hide, bom e mau, anjo e monstro. Múltiplos somos.

 

Foto: Helô Mello, 2011

 

Eduardo Muylaert é advogado criminal e fotógrafo. Foi professor da PUC/SP, Procurador do Estado, Secretário da Justiça e da Segurança Pública no Governo Montoro, Presidente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. e Juiz do TRE/SP. Como fotógrafo publicou O Espírito dos Lugares (3º Nome, 2003), e Boa Noite, Paulicéia! (Pinacoteca, 2006). Principais individuais: Mulheres dos Outros (Fauna Galeria, SP, 2011); Boa Noite, Paulicéia! (Pinacoteca, 2006); O Espírito dos Lugares (Nara Roesler, 2003); Tiras compridas do Brasil (Millan, 99); Paris – Fragmentos (Luísa Strina/Bar des Arts, 95) e Transferências (Bar do MIS, 93).

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Maria Alice Vergueiro em entrevista ao Fora de Mim

Maria Alice Vergueiro em entrevista ao Fora de Mim, fala de como vive a sua multiplicidade interna e como ela é um recurso para os diferentes papeis que interpreta.

De “Katastrophé”, um grande desafio de interpretação, à popularidade alcançada com o vídeo “Tapa na pantera”, ao atual trabalho no teatro, “As Velhas” de Jodorowisky, ela nos conta como a arte e vida não se separam e de que tem medo mesmo é da morte.

 

Tapa na Pantera:

http://www.youtube.com/watch?v=6rMloiFmSbw

 

Maria Alice Vergueiro, atriz, estreou em teatro no ano de 1962, no espetáculo A Mandrágora, sob a direção de Augusto Boal. Passou pelo Teatro Oficina, onde atuou na histórica montagem de O Rei da Vela , de Oswald de Andrade, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa.

Foi fundadora, ao lado de Luiz Roberto Galízia e Cacá Rosset, do Teatro do Ornitorrinco, onde atuou em diversos espetáculos.

Conhecida  como a dama do underground ou velha dama indigna,  esteve presente como atriz em alguns dos mais importantes e instigantes espetáculos da cena paulistana nos últimos 40 anos. Entre eles, Mahagony Songspiel (Cacá Rosset), Electra Com Creta (Gerald Thomas), Katastrophé, Mãe coragem   e muitos outros.

Recentemente ganhou notoriedade com o Tapa na pantera, um dos videos mais vistos na internet.

Colecionadora de premios por suas atuações, atualmente está em cartaz com a peça  As tres velhas,  de Jodorowsky, que lhe rendeu uma homenagem no ultimo premio Shell de teatro.


Regina Muller - Somos múltiplos

Meu tico-tico no fubá, por Regina Muller

A antropóloga Regina Muller descreve a diversidade de papéis que ocupa num único dia e conta como integrou antropologia e arte.

Meu tico-tico no fubá

Antropóloga Regina Muller

De manhã,  o “suco verde”, ensinado pela filha adepta da “alimentação viva”, uma ação saudável para iniciar o dia de trabalho intenso.

O primeiro turno é dedicado a uma reunião no Napedra- Núcleo de Antropologia, Performance e Drama, da USP, do qual  é coordenadora.Tenta, de maneira mais
intensa do que foi em toda sua carreira na universidade, aliar pesquisa e ensino em Antropologia ao desejo de fazer arte, em performance. No mestrado, até tentou. Deixou a formação acadêmica entrou para os  Dzi Croquettes ( como uma Dzi Croquetta), mas voltou e defendeu mestrado sobre a pintura corporal dos índios Xavante. Sempre arte e antropologia .Com os Asuriní, também foi isso -arte, xamanismo e cosmologia. No Napedra, está organizando um encontro internacional de antropologia da performance e à noite desse dia, com um bom vinho e amigos, estará cuidando da sua própria participação.  À tarde, outro assunto:  reunião sobre  Belo Monte, a usina  no rio Xingu que afeta povos indigenas, dentre

eles, os Asuriní do Xingu, a quem vem dedicando grande parte de sua vida como antropóloga. Terminada a
reunião, segue  ao encontro  do seu “agente promotor”, como denominou o amigo Alberto Camarero, companheiro desde sempre das investidas na performance artística, e João Cláudio, o cineasta que compõe a equipe de seu atual trabalho:  filme e performance ao vivo, inspirada em Carmen Miranda, seu modelo, ícone e inspiração.

Hoje prepara sob a direção de Alberto, a performance que apresentará no Encontro Internacional. Ao lado de mesas com convidados nacionais e internacionais na área da Antropologia, há uma programação de performances e é nesta que se inseriu, culminando sua trajetória de ter saído da USP graduada em Ciências Sociais e chegado à mesma USP, como atriz pesquisadora performática.

Desistiu de se cobrar escolher um ou outro universo e segue se dividindo, multiplicando, somando, rizomando…

 

Regina Müller, doutora em Antropologia pela Universidade de São Paulo, com pós-doutoramento no departamento de Performance Studies/New York University e livre-docente em Antropologia da Dança pela Universidade Estadual de Campinas, onde é professora no Departamento de Artes
Corporais do Instituto de Artes. Coordenadora associada do Napedra-Núcleo de Antropologia, Performance e Drama/Universidade de São Paulo/Unicamp. Desde os anos 70, realiza performances inspiradas em mulheres artistas performáticas como Frida Kahlo, Gilda de Campinas e Carmen Miranda.

Autora do livro“Os Asuriní do Xingu: história e arte” , co-organizadora do livro
“Performance, arte e antropologia” e de vários capítulos de livro e
artigos sobre xamanismo, ritual indígena e performance artística.