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NÃO DESTRUA A PRÓPRIA CASA por Elza Tamas

 

No  dia 21 de dezembro de 2012 o mundo vai acabar, e eu não quero
nem pensar se comi  lentilhas demais durante a minha vida, ou se devia
ter tomado muito mais  sorvetes. Nem por um instante.
Que os conselhos para tal efeméride não me venham de um falso Borges.
Mas, certamente não vou ficar perto do mar, isso me parece sensato.

Próximo do dia 21 de dezembro o sol estará furioso, regurgitando labaredas
imensas que afetarão a temperatura do nosso planeta. A Terra convulsionará
sacudida por tsunamis, terremotos e vulcões. O mar engolirá a costa brasileira,
reinos unidos e desunidos e avançará sem trégua, redefinindo sua supremacia
territorial e criando novas geografias. E isso será apenas o começo.
Nibiru, o planeta melancolia também está em rota de colisão.
Nibiru é rebelde e tem um movimento de translação original, diferente dos
outros  planetas – minha velha traga meu jantar sopa uva nozes e- sinto muito,
nos tiraram  o pão.
Traça seu próprio caminho numa rota elíptica perpendicular,
e nas suas  esporádicas visitas  a cada 3600 anos, causa um grande desastre.
As  consequências de Nibiru nas nossas cercanias galácticas podem ser tão
nefastas,  que a NASA inaugurou a censura ao céu. Um grande buraco
quadrado negro,  coberto  por uma tarja preta é o que se vê no GOOGLE SKY,
nas coordenadas que  corresponderiam ao local da sua presença: -6.01931   -91.5903.
Evitar o pânico. Outras inteligências que não a minha decidem o que posso
saber, o que posso ver, o que não posso temer.
Isso sem falar em alinhamentos com o centro da galaxia determinando
a mudança dos polos. Desnorteados e fadados a perdição.

Combinamos que morreremos todos juntos e de mãos dadas. Mãos pequenas,
grandes,  antigas, mãos com quatro dedos como as das minhas cachorras.
Quanto ao aquário,  não sei o que faremos com ele, acho que deveríamos
perguntar aos peixes. (Queria  ser capaz de crer que suas mãos de dedos
longos e unhas de rapina, sempre nos  defendendo  e novamente pintadas
de vermelho, estarão nos esperando do lado de lá.  Casinha montada,
flores, sem dor; bolo com raspinhas de limão e açúcar de confeiteiro
por cima, sorriso no rosto, nunca mais dor; isso sim seria uma recepção
celestial,  mas sofro de déficit de fé).

Cento e vinte tipos distintos de arroz e mais de 100 milhões de espécies de
sementes foram armazenados em um bunker, na região ártica da Noruega.
Uma arca  de Noé que preservará o patrimônio agro alimentar da
humanidade, enterrada nas  profundezas do gelo. Estima-se que a cevada
nestas condições sobreviverá por  2000 anos, o trigo por 1700 e o sorgo
por 20 milênios.
Que homo haverá de encontrá-las?

No dia 21 de dezembro os voos entre Salvador e São Paulo estarão operando
normalmente. Mas e se a Terra se pulverizar e os aviões não tiverem
onde pousar, ficaremos vagando perdidos eternamente pelo espaço?

No dia 21 de dezembro, o dia do fim do mundo, será o chá de bebê de Marcus
Vinicius  ou Ana Paula. Os pais vivem na roça no meio de espinafres, leite
de vaca e estrelas riscando o céu. Nunca ouviram falar em Mayas, Nibiru,
nem tem ideia de que o céu está censurado. Fizeram um único ultrassom
que não permitiu saber se vão ter um menino ou menina, e isto pouco importa.
Apenas preferem que os presentes sejam de cores mais neutras, nada de azul ou rosa.

O bebê nascerá no próximo mês de janeiro e será saudável.  Sabe-se hoje que
mais do que seis ultrassons  feitos durante a vida, aumentam
exponencialmente o risco de câncer. Que mamografias levaram ao avanço
expressivo do câncer de tireoide em mulheres. E que nossas tentativas de
controle sobre a vida serão sempre infrutíferas, porque somos filhos do acaso.
Os pais de Marcus Vinicius ou Ana Paula acordam muito cedo. Os afazeres
do campo se iniciam por volta das 5.30 da manhã.
Eles estavam próximos ao galinheiro, na parte mais alta do terreno, quando
viram a esquerda do sol nascente, uma bola igualmente luminosa e brilhante,
um filho menor do sol. Nenhum pensamento se colocou entre eles e aquela
presença magnífica, só maravilhamento.  E isso tem se repetido diariamente,
desde o ultimo mês de setembro.

foto banner – Tommy Ingberg

 


Elza Tamas idealizou e desenvolve este site

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma menina Terra por Elza Tamas

 

 

Ela queria conhecer o centro da Terra, mergulhar com os peixes de todos os mares e navegar por 80 dias num balão. Os pais duvidaram: não  prefere uma boneca? Meio cabeça dura, garantiu que tinha certeza do que queria.

No dia 25 de dezembro as amigas vizinhas desfilavam barbies loiras, morenas, susies noivas com grinaldas. Ela carregava a sua coleção de  livros já não mais tão convicta da sua escolha, e mesmo com todas as promessas  oferecidas por Julio Verne, não deu conta da decepção. Chorou escondido.

 

 

Ouspensky , no seu livro “Fragmentos de um ensinamento desconhecido”, ilustra muito bem  como opera a mecânica do desejo:  “o homem é dividido em uma multiplicidade de pequenos eus, e cada pequeno eu pode se denominar com o nome do inteiro, da unidade, pode agir em nome dela, aceitar ou recusar por ela, fazer promessas em seu nome… isto explica porque as pessoas tomam frequentemente decisões e raramente as realizam: um homem decide se levantar cedo a partir de  amanhã. Um eu ou um grupo de eus decide isto. Mas se levantar cedo, diz respeito a um outro eu que não está completamente de acordo com a decisão e que pode mesmo não  fazer nada a respeito. Claro ele vai  permanecer na cama pela manhã e na noite seguinte ele vai mais uma vez decidir se levantar cedo. Em alguns casos as consequências podem ser muito desagradáveis.
um pequeno eu pode acidentalmente  prometer alguma  coisa, não a ele mesmo, mas a outra pessoa num determinado momento, simplesmente por vaidade ou prazer…. a total combinação dos outros eus, que são completamente inocentes deste gesto, deverá pagar o preço, às vezes por toda a vida. Esta é a tragédia do ser humano: todos os pequenos eus tem direito a assinar cheques. A vida de certas pessoas se passa a pagar cheques assinados por eus acidentais ” 

   

 

Na  noite do Natal do  ano seguinte, 24 de dezembro de 1968, o mundo assistia extasiado, a nave Apolo 8 orbitando ao redor da  lua. As crateras passavam quase ao alcance das mãos, enquanto a Terra nascia,  inesperada, num quarto crescente azul.  O planeta de longe não mostrava a efervescência que vivia: movimentos estudantis, passeatas e manifestações; a guerra do Vietnã, os hippies, a morte de Martin Luther King. Delineada por  um novo horizonte a Terra  surgia  impávida e  calma, coberta de nuvens. Mudava o homem, a humanidade e a extensão de até onde era possivel desejar.

Ela também tinha mudado, ganhou do namorado o que queria:  o compacto simples dos Beatles,  Strawberry fields forever, com direito a  música Penny Lane no lado 2.  As amigas da rua não entenderam nada.