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O MONUMENTAL FRACASSO DO AZUL por Carlos Neves

Eu tinha começado a rir, me desculpem.

Bem, não sei se foi com Van Gogh que comecei a gostar do azul, mas certamente foi com ele que percebi o quanto o azul era decisivo para mim. No início, sem saber dos nomes das coisas, o azul sempre fora a cor do infinito. Isso talvez até uns dez ou onze anos. Sim, o infinito é azul aos dez ou doze anos, qualquer infinito, matemático, químico, cósmico ou aquático. O infinito, veja que estranho, eu não sei dizer do que trata, a não ser o fato irrelevante de que não tem fim. Já o azul, a cor do infinito, é tudo, é o túnel que transporta o pensamento, a escuridão, a tristeza. O infinito é azul quando é pintado disso: de ideias, trevas e melancolia. Até os nove ou dez anos, talvez algo mais, foi assim, sempre azul, pintado de infinito: como nas noites em que minha mãe me abandonava na cama, apagava a luz e eu me perdia no sono. Eis o azul, o infinito, o capuz do tempo.

Quando andava de trem nos anos 70, às onze da noite, a Luz quase vazia dentro dos vagões, os trilhos cintilantes da Santos-Jundiaí escurecendo nos dormentes, meu padrinho e eu éramos esmagados pelo infinito subúrbio do Brás, Mooca, Cambuci, Vila Prudente, Ipiranga. Às onze da noite isso se chamava infinito. Depois tudo é azul em São Caetano, Santo André, Prefeito Saladino, Mauá, Ribeirão Pires, Paranapiacaba, Cubatão, Valongo. Pelo menos aos doze ou treze anos, às onze ou meia-noite é assim.

Um dia, no trem, tirei da mala de meu padrinho um catálogo de arte sobre pintores holandeses. Estava cheio de Vermeers, Rembrandts, e eu queria falar sobre eles, mas vou me conter e ficar só com Van Gogh, que me deixou paralisado naquele dia no trem, eu devia ter uns doze, talvez treze, talvez, naquele trem, tinha o infinito, o azul do tempo. Quando lembro disso eu rio. E tenho que parar de escrever porque não aguento.

Quando vi Van Gogh pela primeira vez não vi de fato Van Gogh, mas um de seus autorretratos, um de 1889, em que a parede espiralada no plano de fundo se contorce para se transformar no paletó de Vincent, no primeiro plano. Não sei se por problemas de impressão gráfica ou de iluminação naquele trem (as luzes brancas, veja só, às onze da noite, eram azuis), o fato é que achei o azul da parede da tela razoavelmente estranho. Mas o que mais me perturbou foram os olhos de Vincent (Vincent, repiso, que não é Van Goh, mas o seu autorretrato). Os olhos enérgicos (o da direita, talvez algo violeta — um violeta azulado, óbvio), como se me procurasse numa daquelas estações. Não sei se fiquei fascinado, perplexo, não sei. Tive medo, isso sim, mas não desgrudei mais, não me deixei abandonar por aquela tinta, sonhei noites inteiras com aquilo.

Estou rindo de novo porque acabei de me lembrar de Campo de Trigo com Corvos. E tenho que parar porque não aguento.

Talvez seja o último quadro dele, esse Campo de Trigo com Corvos. Antes de morrer. Esse quadro, ora, esse era o quadro que ele pintou a vida toda. Depois que foi ao cemitério pela primeira vez, por volta de 1860, e viu o seu próprio nome numa tumba. O corpo era do avô. E ao lado do avô estava o corpo do irmão primogênito, morto antes de Vincent nascer, cujo nome era justamente Vincent van Gogh. Ele olhava para o campo sepulcral (dizem que no fundo de sua casa) e via a lápide em que se inscrevia o seu nome. Depois disso, foi aí: ele começou a pintar Campo de Trigo com Corvos. De modo que Noite Estrelada, Casa Amarela, o Vinhedo Vermelho (e me abstenho de mencionar os nomes originais, me perdoem), e todos os autorretratos eram no fundo esboços para Campo de Trigo com Corvos. Azul, plenamente infinito azul.

E isso eu nunca esqueci, porque me lembro e rio. E tenho de parar.

 

foto banner: Campo de trigo com corvos- Van Gogh  

 


Carlos R. Neves é jornalista, fotógrafo e escritor. Participou da coletânia “As moscas” (Dulcinéia Catadora) e recebeu uma menção honrosa por sua participação no Prêmio “Off FLIP de Literatura”, em 2008. Tem um romance pronto, muitos contos feitos e outros em composição.  [email protected]

 

 

 

 

As traças não comem mingau por André Gravatá

Contamos menos mentiras para os outros do que para nós. Mentimos por dentro para continuarmos na nossa zona de conforto, que nem sempre é aconchegante, mas produz uma sensação de segurança. A zona de conforto é nossa segunda mãe. Se pudesse, ela nos beijaria à noite e nos alimentaria com mingau.

Mentimos em prol da preservação da identidade que construímos, numa tentativa de nos agarrarmos aos fios de vida que pendem no ar. Inventamos um mundo em nós e daí seguimos uma trajetória curva com a fixação de reafirmá-lo. Mas sabemos, no mínimo desconfiamos, que grande parte das nossas certezas estão roídas por traças. Convivemos com traças dentro de nós, mais até do que órgãos. Enquanto as traças destroem as certezas, muitos continuam imponentes, inebriados pela caixa em que entraram.

Deixe as traças consumirem parte de você. Parte de você é mentira que você nem sabe que é.

Colabore com o trabalho das traças, catalise os processos de corrosão – dói menos do que parece.

As traças não comem mingau, preferem corroer artefatos de lã, seda, peles e certezas. Há algumas traças que carregam o casulo nas costas, como a maioria de nós. As traças com casulos nas costas gostam de ouvir música clássica e forró. Se elas estiverem corroendo suas certezas num ritmo vagaroso demais, adicione músicas energéticas no seu iPod, inclusive as que aguçam seus preconceitos – Michel Teló entra na playlist –, daí o trabalho das traças será mais rápido.

Contamos menos mentiras para os outros do que para nós. Mas não contamos mentiras para as traças que vivem em nós. Elas são surdas. Aliás, as traças nem têm ouvidos, apenas olhos verdes. Ou você não sabia que as traças têm olhos verdes? Elas roem tantas mentiras que acabaram criando uma proteção no olhar, um musgo carnívoro que carcome cada migalha de certeza, inclusive os caroços das migalhas. As bases da mentira afundam na floresta ocular das traças.

Conheci uma das traças que morava em mim. Ela não tinha nome, os pais não a batizaram. No mundo das traças há tanta burocracia que batizar os filhos se tornou uma via crúcis – inclusive a taxa de natalidade no mundo das traças tem diminuído, outro problema sério, que será tema de um texto futuro. Em questão de dias a traça se tornou minha amiga. Sempre que encontrava uma mentira minha, ela me cutucava por dentro, um sinal de advertimento que me deixava com azia.

Nas sextas-feiras, às vezes a convidava para beber cerveja comigo, então ela me contava detalhes de todas as falsidades que estava inventando para mim mesmo. Ficava impressionado. Não só com a quantidade de mentiras internas, mas também com o volume de cerveja que a traça bebia.

Tinha receio de que ela voltasse a ocupar meus interiores ainda bêbada – e então começasse a destruir minhas verdades. Certa ocasião, pensei alto demais e a traça captou meu receio com suas antenas. Colocou o copo na mesa do bar e disse: sua maior mentira é achar que você tem verdades. Bebi mais um copo, voltei para casa e dormi com a televisão ligada. Quando durmo, a traça começa a trabalhar. O ronco é o barulho que a traça faz dentro de nós – os médicos ainda teimam em dizer que se trata apenas de questões respiratórias. Deixe as traças consumirem parte de você. Parte de você é mentira que você nem sabe que é.

 

André Gravatá, 21 anos, é jornalista, colaborador de revistas como Vida Simples e Superinteressante. É especialista em traças e desdoutor pela Universidade do Espanto Diante da Vida. Idealizador do [email protected]

www.tedxjovemibira.com

 

 

 

 

 

Imagens: Thiago Martins (www.flickr.com/photos/thiagomartins, foto da home)

“O Terraço do Café na Place du Forum, Arles, à Noite”, 1888, Van Gogh (foto acima)