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AS MICROREVOLUÇÕES ESTÃO POR TODA PARTE por André Gravatá

 

Acordamos todos os dias e nos arrastamos/corremos pelas ruas para alimentar vidas que deixam um impacto na realidade. Vivemos um movimento que é também construído por nós. Como diria Dostoiévski, “todos somos responsáveis de tudo, perante todos”.

Não estou aqui para falar sobre os problemas da realidade em que estamos imersos. Os contrastes são tão explícitos que, com um pouco de sensibilidade, qualquer um de nós sente as entranhas se movimentarem em desconforto. Venho falar sobre um segundo passo: aquele passo possível a partir do momento em que o desconforto se instaura dentro de nós, quando olhamos um velhinho pedindo esmola na rua e nossa pupila se dilata com a miséria áspera no asfalto, quando lemos nos jornais que tantas pessoas morrem asfixiadas com a miséria humana e nosso estômago se comprime como se estivesse sendo apertado por mãos constituídas apenas de ossos. Se você já se indignou com a realidade, o que pode fazer, o que dá para fazer?

(Diga aí, em silêncio, para você mesmo: gostaria de ouvir uma resposta que te indicasse exatamente o que você poderia fazer para aliviar sua carga de responsabilidades? Respostas prontas e cheias de fórmulas sempre são mais fáceis, felizmente não tenho nenhuma – além de anular a diversidade presente no mundo, elas são uma farsa na maioria das vezes, senão em todas.)

Quando nos indignamos com a realidade, nasce em nós uma faísca rara. “Eu desejo a todos, a cada um de vocês, que tenham seu motivo de indignação. Isto é precioso. Quando alguma coisa nos indigna, como fiquei indignado com o nazismo, nos transformamos em militantes; fortes e engajados, nos unimos à corrente da história, e a grande corrente da história prossegue graças a cada um de nós”, conta Stéphane Hessel em seu pequeno livro “Indignai-vos!”, um sobrevivente de campos de concentração que participou da redação da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. A indignação é um afeto que pode esfacelar nossa inércia.

Após a indignação, um passo possível é a ação, é começar com qualquer ato pequeno – esse segundo passo é, muitas vezes, apenas mais um passo, para que você olhe a situação com mais distanciamento e encontre um ponto por onde começar. Se você esperar para agir só quando encontrar uma situação propensa para sua ação, talvez não aja nunca. A melhor situação para mudar seu comportamento é agora: você nunca muda no futuro, você só muda no agora, nesse instante que cai como uma enxurrada de água nas nossas cabeças. Falo tudo isso para compartilhar um termo que tem me inspirado bastante: “microrrevolução”. Uma microrrevolução é uma ação simples, que começa com uma indignação administrada numa ação, que impacta pessoas num nível local. Desde que comecei a transformar meus sonhos em microrrevoluções, senti um movimento novo ao meu redor. Um movimento de aprendizagem intensiva, de mudança ininterrupta.

Não faltam exemplos de projetos microrrevolucionários no mundo: uma moeda social na periferia de SP; uma empresa que emprega mulheres de baixa renda; um poeta que aborda conflitos sociais nos seus livros; um grupo de jovens que transforma uma sala de aula vazia em uma sala de cinema; um coletivo de amigos que decide escrever um livro sobre educação inovadora (a propósito, faço parte desse coletivo); e outros, muitos outros. As microrrevoluções acontecem por toda a parte, hoje e sempre, nascem de seres humanos comprometidos com a vida.

Nossas vidas deixam um impacto na realidade, seja a marca de uma microrrevolução, seja uma pisada de indiferença. Qual é a sua contribuição para o mundo, ao menos para o seu mundo? Espero que essa pergunta ecoe na sua cabeça hoje e amanhã. No café, no almoço e no jantar. Inclusive de madrugada, quando você acordar de um sonho no qual uma pessoa te perguntará: qual é a sua contribuição para o mundo?

 

imagem banner: Bocah Boror – Help me

 

André Gravatá é jornalista e membro do coletivo Educ-ação. Atualmente, está mergulhado em entrevistas para transformá-las em capítulos do livro Volta ao Mundo em 12 Escolas. Colabora com revistas como Vida Simples e Superinteressante, além de desenvolver um projeto de engajamento jovem chamado Jogo de Cinema, realizado pela Via Gutenberg. Também é organizador do [email protected] e do TEDxSéED.

 

As traças não comem mingau por André Gravatá

Contamos menos mentiras para os outros do que para nós. Mentimos por dentro para continuarmos na nossa zona de conforto, que nem sempre é aconchegante, mas produz uma sensação de segurança. A zona de conforto é nossa segunda mãe. Se pudesse, ela nos beijaria à noite e nos alimentaria com mingau.

Mentimos em prol da preservação da identidade que construímos, numa tentativa de nos agarrarmos aos fios de vida que pendem no ar. Inventamos um mundo em nós e daí seguimos uma trajetória curva com a fixação de reafirmá-lo. Mas sabemos, no mínimo desconfiamos, que grande parte das nossas certezas estão roídas por traças. Convivemos com traças dentro de nós, mais até do que órgãos. Enquanto as traças destroem as certezas, muitos continuam imponentes, inebriados pela caixa em que entraram.

Deixe as traças consumirem parte de você. Parte de você é mentira que você nem sabe que é.

Colabore com o trabalho das traças, catalise os processos de corrosão – dói menos do que parece.

As traças não comem mingau, preferem corroer artefatos de lã, seda, peles e certezas. Há algumas traças que carregam o casulo nas costas, como a maioria de nós. As traças com casulos nas costas gostam de ouvir música clássica e forró. Se elas estiverem corroendo suas certezas num ritmo vagaroso demais, adicione músicas energéticas no seu iPod, inclusive as que aguçam seus preconceitos – Michel Teló entra na playlist –, daí o trabalho das traças será mais rápido.

Contamos menos mentiras para os outros do que para nós. Mas não contamos mentiras para as traças que vivem em nós. Elas são surdas. Aliás, as traças nem têm ouvidos, apenas olhos verdes. Ou você não sabia que as traças têm olhos verdes? Elas roem tantas mentiras que acabaram criando uma proteção no olhar, um musgo carnívoro que carcome cada migalha de certeza, inclusive os caroços das migalhas. As bases da mentira afundam na floresta ocular das traças.

Conheci uma das traças que morava em mim. Ela não tinha nome, os pais não a batizaram. No mundo das traças há tanta burocracia que batizar os filhos se tornou uma via crúcis – inclusive a taxa de natalidade no mundo das traças tem diminuído, outro problema sério, que será tema de um texto futuro. Em questão de dias a traça se tornou minha amiga. Sempre que encontrava uma mentira minha, ela me cutucava por dentro, um sinal de advertimento que me deixava com azia.

Nas sextas-feiras, às vezes a convidava para beber cerveja comigo, então ela me contava detalhes de todas as falsidades que estava inventando para mim mesmo. Ficava impressionado. Não só com a quantidade de mentiras internas, mas também com o volume de cerveja que a traça bebia.

Tinha receio de que ela voltasse a ocupar meus interiores ainda bêbada – e então começasse a destruir minhas verdades. Certa ocasião, pensei alto demais e a traça captou meu receio com suas antenas. Colocou o copo na mesa do bar e disse: sua maior mentira é achar que você tem verdades. Bebi mais um copo, voltei para casa e dormi com a televisão ligada. Quando durmo, a traça começa a trabalhar. O ronco é o barulho que a traça faz dentro de nós – os médicos ainda teimam em dizer que se trata apenas de questões respiratórias. Deixe as traças consumirem parte de você. Parte de você é mentira que você nem sabe que é.

 

André Gravatá, 21 anos, é jornalista, colaborador de revistas como Vida Simples e Superinteressante. É especialista em traças e desdoutor pela Universidade do Espanto Diante da Vida. Idealizador do [email protected]

www.tedxjovemibira.com

 

 

 

 

 

Imagens: Thiago Martins (www.flickr.com/photos/thiagomartins, foto da home)

“O Terraço do Café na Place du Forum, Arles, à Noite”, 1888, Van Gogh (foto acima)